segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O mundo de coisas perdidas de uma garota

Você pode fazer muitas coisas divertidas quando o amor se aproxima e a melhor delas envolve tiro na têmpora. Nessas horas lamento por ter feito discursos sobre o desarmamento. Agora sou eu me assistindo sofrer com uma coisa que deveria me fazer sorrir (e faz, estou sorrindo).
         Você se esconde em um apartamento barato sem mobílias e tão decadente quanto seu espírito. Mas uma garota pode bater na sua porta e trazer uma punhalada de presente. Sempre tem dessas espertinhas na espreita. Cravam os dentes nos seus lábios e injetam um veneno destruidor. A faca, a mordida e o veneno, ela fez com que me encontrassem.
         Você pode sobreviver se tiver uma garrafa de vinho para o inverno e um engradado de cervejas para o verão. Pode desbravar os cantos mais escuros da sua solidão enquanto acende um cigarro atrás de outro. E as coisas funcionam desse jeito. Sem nenhum tipo de jogo, sem nenhum mistério, sem nenhum propósito além de esperar o dia terminar. Ninguém lhe perguntará os motivos de levar uma vida assim – e isso evitará que você minta.
         O problema é conhecer alguém capaz de te arrancar da solidão, capaz de fazê-lo confessar em gestos e palavras, tudo que sente. De repente você descobre que se importa, de repetente começa achar que não pode viver sem uma determinada pessoa. Seu esconderijo desmorona e seu coração perdido passa a bater fora do corpo. E a campanha do desarmamento passa a te fazer mudar de ideia.
         Você consegue, se quiser, ir até o mundo das coisas perdidas de uma garota e retornar. Depois que sua máscara cair e seus velhos truques forem milimetricamente calculados, há sempre a possibilidade de você não conseguir voltar desse mundo das coisas perdidas. Foi o pior lugar que eu conheci nessa vida – e olha que já estive em bailes sertanejos.
         Você pode fazer muitas coisas divertidas quando o amor se aproxima. E se não tiver uma pistola, às vezes é melhor encarar o amor nos olhos. Ele jamais será gentil, te arrastará no chão e baterá na sua cara com todas as baboseiras que você disse. Se você cresceu ouvindo Nirvana e subitamente uma canção do Guns n’Roses passar a fazer sentido para você... entenda que se fodeu.
         Ontem, depois de pedir para uma pessoa não voltar mais para minha vida, perdi as forças nas pernas e sentei na beirada de uma avenida para chorar. Você não acredita que perto dos trinta anos ainda é capaz de chorar desesperadamente por alguém – até que aconteça. E no mundo das coisas perdidas de uma garota, com palhetas de violão, amores antigos, um pai morto, você começa a considerar que ter ido para o inferno poderia ser muito melhor que isso.  
_Moço... você está bem? – me pergunta uma senhora com suas sacolas de compras. _Moço, por que está chorando desse jeito? Foi assaltado?
Começo a rir. Tiro os óculos e enxugo os olhos na manga da camisa. Na camisa está escrito que o Amor nos apartará.
_Fui assaltado. E me levaram tudo nessa madrugada. – Respondo com um sorriso no canto dos lábios.
_Moço, vamos chamar a polícia. – Diz a senhora, dando tapinhas no meu ombro.
“Não existe polícia para esse tipo de crime”. Rosno como um cão. Levanto e ando com passos rápidos na direção do meu esconderijo desmoronado. Sentindo vergonha de mim.
Peço desculpas. Mas desculpas não são suficientes – se existe uma coisa ridícula nessa vida é pedir desculpas, pode anotar. Não quero ficar nesse mundo de coisas perdidas! Mas é o território que conquistei por ser idiota demais, por ter existido como achei que era apropriado para mim. Me deparei com um velho adolescente que vendeu a alma para salvar a intensidade. E foi justamente a intensidade que se transformou em desculpas e proporcionou a matéria prima para construir minha casinha nesse mundo das coisas perdidas.
Você pode fazer valer a pena o amor que se aproxima, ser homem pelo menos uma vez, assumir -sem titubear- seus sentimentos. Se entregar, se der. E amigos e família de alguém, quem sabe, sejam simpáticos com sua existência de palhaçadas. Otimismo? Porque o que importa é não recuar quando as coisas valem a pena. Agora eu posso dizer isso, a gente só dá conselhos que não funcionaram, porque era tarde demais.
Você pode ser alguma coisa parecida comigo, e se for, deve ter se metido em cada encrenca sem sentido que não há mais nada que se possa fazer. Quando o amor se aproximar, se esse for seu caso, fará alguma coisa para estragá-lo antes do sol nascer. E se arrependerá, cara. Se arrependerá pela simples razão de que você poderia ter sido feliz e bem resolvido. Exceto por ter sido autêntico sem fé na autenticidade.
Francamente (e fracamente), eu não quero estar onde estou e sentindo o que sinto – me responsabilizando pelas coisas que estraguei pra valer. Só que agora é tudo que me restou e eu escrevo sobre isso.
Você pode fazer muitas coisas divertidas quando o amor se aproximar, ao menos que você seja eu.

r.A.


         

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