quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Manicómio

Por
Eduardo Galeano

Tempos de medo. O mundo vive em estado de terror, e o terror disfarça-se: diz ser obra de Saddam Hussein, um actor já cansado de tanto fazer de inimigo, ou de Osama bin Laden, assustador profissional. Mas o verdadeiro autor do pânico planetário chama-se Mercado. Este senhor não tem nada a ver com o afável lugar do bairro aonde se vai buscar fruta e verduras. É um terrorista todo-poderoso sem rosto, que está em toda a parte, como Deus, e julga ser, como Deus, eterno. Os seus numerosos intérpretes anunciam: "O Mercado está nervoso", e advertem: "Não se deve irritar o Mercado". A sua exuberante ficha criminal torna-o temível. Tem passado a vida a roubar comida, a assassinar empregos, a sequestrar países e a fabricar guerras. Para vender as suas guerras, o Mercado semeia o medo. E o medo cria clima. A televisão ocupa-se de fazer que as torres de Nova Iorque voltem a desmoronar-se todos os dias. O que restou do pânico do antrax? Não só uma investigação oficial, que pouco ou nada averiguou sobre as cartas mortais: também restou um espectacular aumento do orçamento militar dos Estados Unidos. E os milhões que este país destina à indústria da morte não são nenhuma ninharia. Apenas um mês e meio desses gastos bastaria para acabar com a miséria no mundo, se não mentem os numerozinhos das Nações Unidas. Por cada vez que o Mercado dá ordem, a luz vermelha de alarme faz pisca-pisca no perigosímetro, a máquina que converte toda a suspeita em evidência. As guerras preventivas matam pelas dúvidas, não pelas provas. Agora calha a vez ao Iraque. Mais uma vez este castigado país foi condenado. Os mortos saberão compreender: O Iraque contém a segunda reserva mundial de petróleo, que é exactamente o que falta ao Mercado para garantir combustível ao esbanjamento da sociedade de consumo. Espelho, espelhinho meu: quem é mais temido do que eu? As potências imperiais monopolizam, por direito natural, as armas de destruição em massa. Nos tempos da conquista da América, enquanto nascia o que agora denominam Mercado global, a varíola e a gripe mataram muitos mais indígenas que a espada e o arcabuz. A bem sucedida invasão europeia teve muito a agradecer às bactérias e aos vírus. Séculos depois, estes aliados providenciais transformaram-se em armas de guerra, nas mãos das grandes potências. Um punhado de países monopoliza os arsenais biológicos. Há uns dois decénios, os Estados Unidos permitiram que Saddam Hussein lançasse bombas de epidemias contra os curdos, quando ele era um menino bonito do Ocidente e os curdos tinham má fama, mas essas armas bacteriológicas haviam sido feitas com matérias-primas compradas a uma empresa de Rockville, em Maryland. Em matéria militar, como em todo o resto, o Mercado prega a liberdade, mas a concorrência não lhe agrada nem um bocadinho. A oferta concentra-se nas mãos de poucos, em nome da segurança universal. Saddam Hussein mete muito medo. Treme o mundo. Tremenda ameaça: O Iraque poderia voltar a usar armas bacteriológicas e, muito mais grave ainda, poderia alguma vez chegar a ter armas nucleares. A humanidade não pode permitir esse perigo, proclama o perigoso presidente do único país que já usou armas nucleares para assassinar populações civis. Terá sido o Iraque quem exterminou os velhos, mulheres e crianças de Hiroshima e Nagasaki? Paisagem do novo milénio: Gente que não sabe se amanhã encontrará que comer, ou se ficará sem tecto, ou como poderá sobreviver se adoecer ou sofrer um acidente; gente que não sabe se amanhã perderá o emprego, ou se será obrigada a trabalhar o dobro em troca da metade, ou se a sua reforma será devorada pelos lobos da Bolsa ou pelos ratos da inflação; cidadãos que não sabem se amanhã serão assaltados ao virar da esquina, ou se lhes esvaziarão a casa, ou se algum desesperado lhes enfiará uma navalha na barriga; camponeses que não sabem se amanhã terão terra que trabalhar e pescadores que não sabem se encontrarão rios ou mares ainda não envenenados; pessoas e países que não sabem como poderão amanhã pagar as suas dívidas multiplicadas pela usura. Serão obras da Al Qaeda estes terrores quotidianos? A economia comete atentados que não saem nos jornais: cada minuto mata de fome 12 crianças. Na organização terrorista do mundo, que é guardada pelo poder militar, há mil milhões de famintos crónicos e 600 milhões de obesos. Moeda forte, vida frágil: o Equador e El Salvador adoptaram o dólar como moeda nacional, mas a população foge. Nunca esses países haviam produzido tanta pobreza e tantos emigrantes. A venda de carne humana ao estrangeiro gera desenraizamento, tristeza e divisas. Os equatorianos obrigados a procurar trabalho noutros lados enviaram para o seu país, em 2001, uma quantidade de dinheiro que supera a soma das exportações de bananas, camarão, atum, café e cacau. Também o Uruguai e a Argentina expulsam os seus filhos jovens. Os emigrantes, netos de imigrantes, deixam atrás de si famílias destroçadas e memórias de dor. "Doutor, despedaçaram-me a alma": em que hospital se trata? Na Argentina, um concurso de televisão oferece todos os dias o prémio mais cobiçado: um emprego. As bichas são enormes. O programa escolhe os candidatos, e o público vota. Consegue trabalho o que mais lágrimas derrama e mais lágrimas arranca. A Sony Pictures está a vender a bem sucedida fórmula em todo o mundo. Que emprego? O que calhar. Por quanto? Pelo que for e como for. O desespero dos que procuram trabalho, e a angústia dos que temem perdê-lo, obrigam a aceitar o inaceitável. Em todo o mundo se impõe "o modelo Wal-Mart". A empresa número um dos Estados Unidos proíbe os sindicatos e estica os horários sem pagar horas extras. O Mercado exporta o seu lucrativo exemplo. Quanto maior o sofrimento estão os países, mais fácil se torna transformar o direito laboral em papel molhado. E mais fácil se torna também sacrificar outros direitos. Os progenitores do caos vendem a ordem. A pobreza e o desemprego multiplicam a delinquência, que difunde o pânico, e neste caldo de cultivo floresce o pior. Os militares argentinos, que muito sabem de crimes, estão a ser convidados para combater o crime: que venham salvar-nos da delinquência, clama aos gritos Carlos Menem, um funcionário do Mercado que de delinquência sabe muito porque a exerceu como ninguém quando foi presidente. Custos baixíssimos, lucros mil, controlos zero: um barco petroleiro parte-se ao meio e a mortífera maré negra ataca as costas de Galiza e para além dela. O negócio mais rentável do mundo gera fortunas e desastres "naturais". Os gases venenosos que o petróleo lança para o ar são a causa principal do buraco do ozono, que já tem o tamanho de Estados Unidos, e da loucura do clima. Na Etiópia e noutros países africanos a seca está a condenar milhões de pessoas à pior crise de fome dos últimos 20 anos, enquanto a Alemanha e outros países europeus acabam de sofrer inundações que foram a pior catástrofe do último meio século. Além disso, o petróleo gera guerras. Pobre Iraque.

[*] O original deste artigo foi publicado pelo semanário Brecha , do Uruguai.

Tradução de José Collaço Barreiros.

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