quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Ladrões de fogo

(Édipo e a esfinge - Gustave Moreau)




“Se você navega em direção ao sol,
Cuidado com os olhos de cor verde.
E se toda sala lhe diz que você é o único,
Eu desafio você a não acreditar neles, meu filho.”
Babyshambles – The man who came to stay

         Existe essa garota e ela não pensava que alguém pudesse ter interesse em ler o que escreve e saber o que sente. Você acha que devemos contar que cada vez que somos expostos nos tornamos mais esquisitos para nós mesmos?
 As palavras são a porta dos fundos de um depósito arrombado no meio da madrugada. Depois do roubo os objetos jamais encontrarão o caminho do dono.
         A alquimia funciona sem trocas equivalentes. Os sofrimentos não abrirão caminho para uma felicidade no final da linha, assim como um beijo nunca é dado por merecimento: quando é desse jeito o tesão não vem.
 É trabalhoso – não dá para negar – fazer esculturas com entulhos. F. Pessoa e seus coleguinhas de crânio não sorriam como o povo imagina. Só que a gente não chora para não estragar a maquiagem, garota. Pois é.
Jamais poderei dizer meus motivos, porém, lembro de cada mentira que invento para justificar o jogo jogado. É quando verdade e mentira fazem um bebezinho. E nesses anos todos tenho ganho as ruas dentro de meu uniforme com um olhar bastante perverso. Se eu aconselho as crianças fazerem isso em casa? Adivinhe!
A alma é que parece virar lâmina e a sensibilidade que se torna pedra de afiar. Você pode cortar cada vez mais fundo se puder suportar o contragolpe. Rimbaud foi quem me sussurrou no ouvido, aos dezessete, que o poeta é um ladrão de fogo. É na sutileza desse crime que poderá mudar a forma do que lhe cerca, garota.
Nem tapinhas (em forma de facas) nas costas lhe parabenizando e nem mãos estendidas na sua direção para te arrancar do ninho de formigas podem seduzir o horizonte.
 É impossível saber quem se importa com o que escreve e o que sente antes de ter sacudido sua pata demonstrando o comprimento de suas garras de esfinge.
Bem. Existe essa garota e ela não pensava que alguém pudesse ter interesse em ler o que escreve e saber o que sente. Agora me sinto mais esquisito do que antes.

Mudando de assunto – o café acabou.




r.A.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Medo da sorte



“Old man look my life/ twenty four and there’s so much more/
Live alone in a paradise/ that makes me think of two.”
_Neil Young. Old Man.


         Enquanto conversava no lado de fora de um bar com um amigo apareceu esse sujeito e pediu um cigarro. Bastante humilde, roupas sujas, sorridente. Em troca do cigarro mostrou uma cicatriz de cirurgia – rim, bebida. Disparou essa frase: não tenho medo da morte, tenho medo é da sorte. A frase lhe foi deixada por um finado, abandonado para morrer em um hospital público. Apontava frequentemente para sua camiseta preta. Ali estava estampado: Sabotagem, o rap é compromisso.
_Se pá, fica esquisito! – ria o sujeito.
         Passamos algumas horas pensando sobre a frase deixada pelo finado. Últimas palavras de um velho. Isso nos encontrou em uma esquina, na frente de uma igreja caça níqueis. Você nunca pode imaginar de que inferno pode surgir uma frase e quem pode ser o porta-voz.  Eu, em silêncio, refletindo se é mesmo da sorte que tenho medo. Deveria.  
         Cervejas, cigarros, mais conversa. Observamos os resultados do jogo do bicho fixados na parede do bar, no corredor para o banheiro. Um cara alto com a cabeça no formato de um tijolo – expressão de quem chupou treze limões no café da manhã – dentro do uniforme da lei. Cinza era a cor. Combinava com seu humor. O cara come uma coxinha e lambuza o bigode com gordura. Sai sem dizer palavra.
_Vai vendo papai, se pá, fica esquisito!
         Eu penso na minha sorte. A frase do defunto que me encontrou em uma esquina. Tenho tantos problemas para resolver que nem sei por onde começar. Enquanto não começo outros problemas vão entrando na fila. Acredita que consegui acrescentar outra situação na minha longa lista? Nos meus arquivos, na letra P, logo abaixo de Paulinha e penicilina, entrou piscina e padrasto. Explico? Não aqui.
         Ainda outra noite meu amigo me provocou: Você morreria agora?  - Já estou morrendo agora, pensei comigo. Não foi fácil ser acertado por uma paulada dessas. Tudo que se aproxima ou se afasta de mim tem acelerado o processo. Nessas horas você pede a “saideira”. É a saída que não é fácil de encontrar. Senhor Menezes talvez concorde.
***
         Se alguma coisa do mundo se reduziu ao tempo e “tempo é dinheiro”, concluo que a fila do banco é o grande matadouro do resto de alma dos humanos (os manos, demasiado os manos!). O grandão mexendo no celular no canto – sou eu. E observo aquele imenso mural de olhares abatidos. Portinari?
         Entre Bruna e beijos desmerecidos está Banco do Brasil, nos meus arquivos da letra B. B de (grandes) bosta. Duvida que minha vida é mais miserável do que as coisas que escrevo? Se sonhar com tigre aposte no macaco. O oposto disso não vale como dica.
         O apocalipse começará dentro de um banco. Irá soar as trombetas do juízo final no exato momento da mudança de senha no atendimento. Invés de ouvir urros de desespero você ouvirá: “próximo?”. Um cálculo desanimador: já contabilizou a existência perdida em horas de espera? Possivelmente o grande mistério seja termos nascido devendo e morrido enquanto os juros perduram. “O importante é se sentir bem consigo mesmo” – ouvi de uma moça que fazia unhas no salão de beleza perto da minha casa. Dessa aí eu me afastei sem remorsos. Desculpa Sindy, jamais daríamos certo.
_Qual é o seu problema? – sorri o gerente, traços orientais, unhas bem feitas, terno não tão bem feito assim.
_Puxa. Tenho tantos... – resmungo com um sorriso no canto dos lábios.
_Quero dizer, no que posso ajudá-lo? – ele refaz a pergunta, dessa vez com muita polidez. Classe, sabe?
_Sou escritor. Estou sofrendo com os predicados. De qualquer forma me destaco nas metáforas e metonímias. Não tenho dificuldade com as mulheres e nem com a quantidade de álcool que consumo. Mas sinto que a inspiração me abandona.
_Não posso lhe ajudar com isso, rapaz. Como vê, não devo ter uma vida tão excitante quanto a sua. No que posso ajudá-lo em relação ao banco? – agora ele perguntou direito!
_Meu problema é simples. Quando me perguntam “débito ou crédito”, sempre respondo “dé-bi-to”. Mas aparentemente as pessoas entendem “cré-di-to”. Ou é dicção, confesso que já fui fanho, ou querem me foder mesmo. Tem uma piscina aí no meio da história, mas disso acho que você não entende. – Começo a rir.
         O fulano metido no terninho pesquisa meu cartão e me diz o que já sabia. “Realmente passaram contas suas no crédito embora seu cartão não esteja liberado para tal opção”.
_O que o senhor sugere nessa situação? – rosno feito um cão raivoso.
_Fique longe de piscinas. Beba menos e escreva mais.
Esse é o gerente que demorou para cruzar meu caminho.  
_Ok. – devolvo. Recolho minhas coisas e vou saindo.
 Lá fora chove.
***
         Varro meu quarto e passo pano. Percebo que mesmo as coisas que acumulei em tantos anos são dispensáveis – você já procurou algum sentido na poeira que lhe persegue? Com duas calças e três camisas eu poderia dar as costas para qualquer lugar. Por algum motivo que me escapa  - não completamente – resolvi ficar e lutar por um tempo. Uma solidão tranquila me devorando.
           Encho três sacos de lixo com coisas que não recordo dos motivos de guardar. Passo pelo zelador do prédio, moreno, magro, não mais que trinta e cinco anos. Ele parece curioso com minha carga.
_Mudanças são boas, garoto. – Diz de uma maneira arrastada e preguiçosa.
         Garoto?, penso. Pareço mais velho do que você, cara. Reflito alguns segundos sobre sua frase. O zelador aguarda enquanto nos encaramos.
_Dado que tudo muda constantemente mesmo que não percebemos os detalhes, se mudanças fossem realmente boas, tudo seria muito bom. Não acha? – jogo meu lixo no grande cesto de metal que fica no pátio.
_Que pensamento esquisito para uma segunda-feira, rapaz! – resmunga depois de um momento de silêncio com a mão no queixo e olhando para baixo.
         Ando até a caixa do correio e recolho outra conta – ainda estou esperando uma carta de amor, rá rá rá. Cresci ouvindo que trabalhar e pagar esses pedaços de papel te deixa mais responsável, bonito, inquestionável. Você não se emociona com esses momentos? Rei no seu castelo de códigos de barra.
_Seja a mudança que você quer ver no mundo! – Diz o zelador. – Li isso na internet hoje.
_Se tivermos sorte, meu amigo. – digo sorrindo.
_É. O importante é a sorte. – Ele devolve o sorriso.
         Afasta-se assoviando e olhando para o céu, sacudindo um molho de chaves no bolso da calça. As nuvens estão ficando escuras. Penso no predicativo do sujeito. Ouço o tombo do zelador e desvio meu caminho para conferir se ele está bem. Se eu gostasse dele teria cuidado melhor? Deixemos os mais inteligentes avaliar minhas ações.


r.A.


Faixa Bônus:
        
         Parado cidadão! – ouço nas minhas costas quando me aproximava do metrô. Giro e observo dois policiais. Mãos nas armas dentro dos coldres. Acho que estão certos, sou mesmo um cara muito perigoso. Parado cidadão! – o mais magro repete a frase do mais alto. Sei que se formou um sorriso nos meus lábios. “Estão precisando de um novo roteirista nas abordagens” – sussurro.
_De onde está vindo? – continua o mais magro.
_Da casa de uma amiga.
         Olho na direção do metrô. Faltam apenas alguns minutos para fechar. Não sei se tenho dinheiro suficiente para pegar um táxi e atravessar a cidade.
_Não estava no carnaval? – o mais alto, cospe com o canto da boca.
Agora o roteiro está melhorando, reflito. Mantenho a conversa com toda calma possível.
_Não gosto de carnaval. Estava apenas visitando uma amiga. – aponto para a estação, eles acompanham meu gesto com suas cabeças uniformizadas. – vai fechar se eu não me apressar.
_Está com medo de alguma coisa – sorri maliciosamente o mais alto  - ein cidadão?
_Sempre. Tenho medo de ser um cidadão. O senhor me entende?
_Acho que não. – resmunga pensativo. – cuidado com essas amigas, cara. Tudo começa assim.
         Os dois riem e se afastam. Apresso o passo até o metrô e chego em tempo de ver o funcionário sacudir negativamente a cabeça para mim: portão fechado.  
         Sento nas escadas da estação e acendo um cigarro. Me pergunto se essa noite significou alguma coisa para alguém, se não estou ficando ridículo - inevitável. Será que não é assim que tudo termina? Sinto o prelúdio de algumas lágrimas. Levanto rápido e aceno para um táxi.
_Pegou muita mulher no carnaval? – Diz o senhor careca atrás do volante, interferindo no meu silêncio.
_Não. Não gosto de carnaval. – Rosno.
_Deveria. As mulheres estão com fogo aí fora. – Ri. Aponta para algumas garotas na calçada.
_O senhor aceita cartão? – vasculho nos bolsos.
_Crédito ou débito? – Pergunta ainda de olho nas garotas.
_Débito, débito, débito, dé-bi-to, dé-bi-to, DÉBITO!
_JÁ ENTENDI!
_Débito.