quarta-feira, 9 de abril de 2014

Coisas que você pode "desaprender" com CIORAN



“A loucura de pregar está tão enraizada em nós que emerge de profundidades desconhecidas ao instinto de conservação. Cada um espera seu momento para propor algo: não importa o quê. Tem uma voz: isto basta. Pagamos caro não ser surdos nem mudos...” (Emil M. Cioran – Breviário de decomposição. Trecho de O antiprofeta).

......Certas coisas que condeno em outros escritores pratico muito bem! (risos). Quero dizer, não suporto o “endeusamento” de um autor – não suporto em mim e nos outros. É esta contradição estranha que me obrigo a explorar neste ensaio. Vou explicar melhor. Exceto por alguns artigos que defendi em algumas universidades, nunca me achei “bom” o suficiente para escrever sobre três filósofos: Schopenhauer, Nietzsche e Cioran. Mas escrevi! (risos). E esta barreira chegou a tal ponto que, imediatamente após ter defendido os citados artigos na academia, me desfiz deles (dos artigos)! Observe o nível da “frescura”. Não consegui suportar uma associação do meu nome com o nome dos tais filósofos. O simples fato de citá-los, já me provoca reprovação. Alguns caras são sérios demais para você tocar nos seus nomes sem sentir o peso da responsabilidade.
......Dia 8 de abril deste ano, comemorou-se o aniversário de nascimento de Emil Michel Cioran (1911-1995). Nascido na Romênia e (er)radicado na França. A primeira vez que tive contato com sua obra deve-se a um feliz acaso. Procurando, na biblioteca da universidade, por um livro de história, me chamou atenção o título de uma obra: História e Utopia. Um livro pequeno, mas poderoso. Uma obra sem rodeios, ia direto ao ponto. O simples fato do autor tratar a história como uma ilusão – o que concordo plenamente! – onde o ser humano deposita sua ficção de megalomania, seu desesperado apego as Utopias, seu exagero na fixação no passado – nostalgia -, fez com que eu suspirasse entusiasmado:_ rapaz! É esse livro que busquei por muito tempo! Vasculhei a biblioteca inteira atrás de outra obra do sujeito... incrível! Numa biblioteca com milhares de livros, só havia disponível este exemplar.
......De cinco livros em romeno e dez em francês, apenas cinco livros haviam sido traduzidos para o português. Todos esgotados há décadas! Diferente de Friederich Nietzsche – que eu pesquisava na época (e continuo pesquisando!). Pesquisei tudo que pude, e Cioran reabasteceu toda minha necessidade por filosofia ácida! ( Embora o próprio autor se denominava Anti-filosófico: isso não me apavorou! Descartes foi anti-filosófico no seu contexto, Schopenhauer, Nietzsche! Basta uma leitura mais crítica da tradição filosófica para você perceber que a filosofia é feita de marginais insólitos!). Nunca fui convencido da justificativa da filosofia como crítica cultural – ideológica, nem a papagaiada marxista que reduzia a filosofia a mera “interpretação do mundo” – banana para Marx! Filosofia sempre me foi uma tradição marginal – na margem do pensamento geral - , não só uma criação de conceitos e interpretações, mas transformadora e inventiva, REVOLUCIONÁRIA E REVOLTADA até o limite de estalar e arrancar faíscas do pensamento, literária e de leitores ativos: nada de respostas fáceis e autoajuda consoladora. Pois bem, Cioran parecia de acordo comigo, e eu, mais ainda de acordo com Cioran. Estava maduro para tal encontro com Cioran! Dois anos antes eu teria recolocado História e Utopia na prateleira! Teria ido para casa com um Hobsbawn ou Le Goff – que vexame!!!
......Cioran cooperou com meu “desaprendizado” em ler a história! Dialética crítica é o caralho! A história é feita de uma projeção utópica (portanto, no futuro) de uma nostalgia passada (portanto, do passado). Nostalgia e Utopia são perspectivas ideológicas que tornam nossa existência factual um verdadeiro tormento! Deste duplo delírio (Nostalgia e Utopia) nascem as “boas novas”, os reformadores de todo sofrimento. As ideologias que movimentam as massas. O blábláblá que se resume na promessa sintetizada em: “um futuro melhor”, caiu aos pedaços diante de mim, assim que travei conhecimento com a citada obra. Depois deste “desaprendizado”, de toda a ladainha que se dizia pós-metafísica e portanto “materialista”, nunca mais fui capaz de suportar qualquer ideólogo! Bastava um cara pegar num microfone/megafone e dizer “NÓS” para mim saber que se tratava de um patife, de um desgraçado que incapaz de duvidar de suas crenças tentava impor sua “verdade”. De “quebra”, o que era desconfiança em relação a todas as manobras democráticas – a propaganda entusiasmada dos partidarismos políticos, sindicatos financiados, manifestos recheados de promessas de um mundo melhor, religiões do pós-vida, movimentos sociais com ampla margem de negociação para com representantes do governo -, o que era desconfiança em mim se tornou ceticismo.  
......Se com Nietzsche, já notava que toda promessa de redenção futura negava a existência presente, com Cioran tive provas de que nenhum “ativismo” era gratuito. Afirmado, o ativismo – a maioria deles -, até as últimas consequências, resultava em poças de sangue – inclusive justificadas por promessas redentoras que desaguavam num futuro utópico.
......Toda utopia humana, que transbordam os bueiros e alagam as ruas, arrastam multidões, passou a ser meu presságio de apocalipse.  Se a sociedade humana incendiar esse planetinha do sistema solar, não tenha dúvidas que será em nome de uma “boa causa”. Difícil de acreditar para quem está crente no progresso e numa dialética recheada de boas intenções, não é mesmo? Os fanáticos injetaram na veia suas convicções. Agora o fanatismo desfila sem medo do ridículo com o peito estufado, diante de nós.
......Veja só, caro leitor, das coisas que pode se desaprender com Cioran, a confiança veio pra ficar. Uma filosofia que coloca em xeque-mate qualquer que seja a verdade, ideologia, perspectiva histórica – social – psicossocial. O ser humano é “idólatra por instinto” – parafraseando Cioran -, isto é, apenas pelo tesão de participar de algo tudo se justifica. A banalidade do mal que a filósofa Hannah Arendt testemunhou no nazismo, já estava presente antes e está presente agora. Basta você “desaprender” um pouco e desconfiar bastante, para perceber isso! Não há uma certeza que não auxilie qualquer ser humano a puxar um gatilho – Inclusive no suicídio.
......Nossa “saudade do paraíso”, nossa tentativa em ato de realizar a utopia na História (esse “desfile de absolutos” – acrescento: ficções abobadas), nossa justificativa racional de nossos delírios e tormentos, nosso engajamento ideológico (defendido como “não-alienação”) manchou essa terra de sangue incontáveis vezes. Meu “desaprendizado” realizado, partindo de Cioran, demonstrou que “quem luta por algo, morre por algo, mata por algo!”.  E este “algo”, sempre foi uma certeza. Qualquer sujeito que se atravesse no caminho daqueles que estão convictos de uma ideologia (nem precisa ser um totalitarismo) é definido como um inimigo. INIMIGO foi o termo sempre usado em guerras para legitimar o massacre! O engraçado é que nações em guerra são conduzidas a guerras por ALGUÉM, alguém com grande poder de convencimento, alguém com RESPOSTAS.  Não te soa familiar?: O INIMIGO da nossa causa, O INIMIGO da nossa sociedade, O INIMIGO da nossa nação, O INIMIGO DA DEMOCRACIA, O INIMIGO do nosso governo, O INIMIGO da nossa religião, O INIMIGO, O INIMIGO, O INIMIGO... todo CONVICTO tem um inimigo! – O inimigo é o bode expiatório de qualquer reforma. O diabo, O forasteiro, O de direita, O de esquerda, O bandido.
......Quando você for formular sua perspectiva de INIMIGO, experimente espiar qual é a TARA que você está justificando por baixo dos panos! Será mesmo que você é tarado apenas pela democracia? (risos)...
,,,,,,Este Cioran, não só foi de uma consciência monstruosa em relação ao que ficcionamos “humanidade”, como foi de um comportamento desconcertante, típico de um filósofo. Renunciando prêmios literários e “mimos” da cultura francesa (e dos defensores da cultura em geral – por Deus... hoje há tantos defensores...) deixou a ferida aberta nessa nossa mania de sucesso! Não cedeu, nem por um milésimo de segundo, a tradição literária de AGRADAR a todo custo. Depois de levar a sério o intento de “caluniar o universo” foi capaz de abandonar a escrita. Devolveu a filosofia a arrogância de não ceder à tentação de “justificar-se”. É por aí que o admiro profundamente – embora saiba que minha admiração e a de toda a humanidade, para ele, fosse indiferente. Se outro de seus “colegas” de contexto – Jean-Paul Sartre – renunciou ao Nobel para salvaguardar o fato de que não estava “acabado”, Cioran rejeitou tudo numa demonstração empírica de que a humanidade não fez dele uma vítima, no final das contas. A cultura – esse engajamento que ninguém, nos nossos dias, ousa declarar escárnio – não passou para Cioran de um mal estar. Uma inconveniência para os filósofos – do seu “tipo”. Ai de um filósofo, hoje, confessar que esse amor declarado pela cultura não passa de um subterfúgio para um “empresário das ideias”! O “povo” condenará no ato tal arrogância! A sociedade não perdoa intentos intelectuais que não visem a cultura do povo. Mas Cioran soube cedo que esta era uma das grandes mentiras da filosofia! Desmascaramento da filosofia: ela não é serviçal da cultura! (Não me desculpem autoproclamados “agitadores culturais”, vocês não são filósofos, sinto muito, contenham as lágrimas!). O filósofo legítimo e o “homem do povo”, nasceram apartados.  Esta foi a última de minhas “desaprendizagens” que tive com Cioran. Deus me livre de Deus e de justificar a filosofia dizendo que tudo é cultural! (risos).

r.A.

“Dom Quixote representa a juventude de uma civilização: ele se inventava acontecimentos; nós não sabemos como escapar aos que nos perseguem” (Emil M. Cioran – Silogismos da amargura).

“Que tristeza ver grandes nações mendigarem um suplemento de futuro!” (Emil M. Cioran – Silogismos da amargura).


domingo, 6 de abril de 2014

A angústia adolescente pagou muito bem, agora estou entendiado e velho (Kurt Cobain- Server the servants)


......Agora que muito se fala dos vinte anos da morte de Kurt Donald Cobain (1967 – 1994), vocalista, letrista e guitarrista do Nirvana, eu não poderia deixa de pensar em como passei a admirá-lo profundamente. A primeira vez que ouvi falar dele foi pouco antes de sua morte. Eu era criança demais para entender o que aconteceu. A única coisa que me lembro é que o disco Nevermind circulava em minha casa graças a minha irmã. E deste disco, mesmo eu não tendo 10 anos de idade completos e mesmo não entendendo direito o que dizia a letra, eu botava para tocar Territorial Pissing repetidas vezes.
......Só fui voltar a pensar nesse sujeito com 13/14 anos. Tinha ido visitar um amigo (Gustavo Fiorentin) e como ele morava longe de minha casa, havia ficado tarde demais para eu retornar. Fiquei hospedado no quarto de um de seus irmãos mais velhos. Sem sono, comecei a folhear algumas revistas de rock e me deparei com uma revista especial sobre Nirvana. Comecei a ler as entrevistas e achei o sujeito complexo e inteligente demais para ser “verdade”. Até ali, rock para mim era um excesso de pose e um barulho mais suportável – do que o que havia para se ouvir. Mas, diferente da maioria dos adolescentes, não tinha se tornado uma febre na minha vida.
......Pela manhã comecei a torrar o saco desse meu amigo para encontrarmos pelo menos uma música da banda daquele sujeito. Vasculhamos vários CD’s, e não encontramos nada. Mas ele sabia do que se tratava, já eu, não consegui associar o disco Nervermind de minha irmã ao nome da banda. Discutimos por um tempo as entrevistas, as críticas que o tal Kurt fazia ao “negócio” que era o rock. Pedi se ele podia me emprestar àquela revista. Receoso com os seus irmãos mais velhos, ele disse que não poderia me emprestar antes de consultá-los. O ‘estranho’é que essa revista estava na minha mochila quando voltei para casa... (risos).
......Foi uma das poucas coisas que me interessaram na época. Não tinha apreço por ler e tão pouco pensar sobre o mundo – quem diria!!!. Consegui reunir mais material sobre a banda e em pouco tempo sabia muitos detalhes sobre Kurt Cobain, lia várias de suas letras como se fossem poemas (aprendizado fundamental quando comecei a compor!), mas não havia ouvido o som. Esse mesmo amigo conseguiu para mim um daqueles discos/seleções de clássicos do rock e foi aí que pude ouvir “Come as you are” e “Smell like a teen spirit”. Como até ali não era um fã de rock, não sabia onde procurar discos de rock. Lesado o suficiente para não entrar numa loja de discos! –DÃh! Um dia, entrando numa lojinha que vendia discos piratas, consegui o Unplugged in New York do Nirvana. Foi o meu disco favorito, mesmo mais tarde, tendo conseguido todos os discos e mais materiais ao vivo.
......Apenas para constar, tive uma iniciação ao Nirvana e ao legado de Kurt Cobain, mais pelas entrevistas, pelas letras e pelas biografias, do que pelos discos. E por isso, fui capaz de pensá-lo, não partindo de uma crítica musical, mas por sua poética caótica, desconsolada e desesperada. Fui levado a um estudo minucioso sobre a tradição musical que foi e é o rock. Graças a esse feliz acaso, sempre tive uma avaliação partindo do conteúdo – de qualquer artista – e não apenas pelo entusiasmo. Coisa semelhante aconteceu comigo com bandas como Joy Division, Sex Pistols e Two Gallants.
......Gastei mais tempo da minha vida discutindo e refletindo sobre isso do que estudando no ensino médio – Gustavo Britto, Ivandro Pagani, e, garrafões e mais garrafões de vinho barato, confusões e mais confusões a níveis inimagináveis para qualquer adolescente! Mal acredito que sobrevivemos (risos).
......Mais tarde, (16/17 anos), quando comecei a estudar música – guitarra, bateria, baixo, vocal, composição, etc. – pude observar que Kurt Cobain era tão competente como poeta quanto como músico. Seu potencial criativo era muito maior do que o que foi capaz de expressar. Vou repetir isso: Seu potencial criativo era muito maior do que foi capaz de expressar. Se tivesse sido um artista plástico – lado que também ‘enveredou’ e cogitou -, um escritor ou um poeta, dificilmente não teria obtido um lugar de destaque. Era impossível – embora o sucesso tenha o ajudado significativamente – seu gênio ter passado despercebido.
......De minha perspectiva, não é, de forma alguma, um exagero colocá-lo, em seu determinado contexto e em sua poética, ao lado de sujeitos (em seus contextos, suas poéticas e suas linguagens de expressão...) como Jim Morrison, Leonard Cohen, Nick Drake, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Bukowski ou filósofos do nível de Schopenhauer e Cioran. Apontá-lo meramente como “apenas mais um ícone do rock” é reduzir demais seu significado artístico. Há outros desse ‘feitio’ no rock? – óbvio que há! Mas acredito serem poucos (poucos do ponto de vista da quantidade de ‘ícones do rock’). Não foram poucos que conheci que me disseram:_ Não gosto da música do Nirvana, mas entendo a importância de Kurt Cobain para a música. Gente que está para além do “gosto/ não gosto” é raro hoje em dia!
......Hoje, quando vejo milhares de artigos de revistas e sites referindo-se a Cobain como meramente um cara problemático ou “porta voz da geração 90, ou geração Grunge rock”, não deixo de imaginá-lo resmungando “fuck you” em algum lugar. Provavelmente – como o próprio citou várias vezes -, ele diria que não tem nada a ver com uma porção de milhares de pessoas que andam por aí com sua cara estampada em uma camiseta. Cito-o: “Se você for machista, racista ou homofóbico, pode deixar de comprar nossos discos e vir aos nossos shows!”.
......Deixe-me falar do título que usei para este rápido ensaio. Não muito tempo atrás – coisa de três anos – estava sentado em uma mesa de bar com alguns músicos de bandas de rock, apenas falando sobre a importância social que temos como artistas. O nome de Kurt surgiu na conversa, ao que, alguém resmungou:_ ah, a geração 90 se resume a lamentar que os pais e a sociedade não os compreendiam! Isso foi dito num tom de menosprezo. Com um certo cansaço para debater certos assuntos, com a desculpa de fumar um cigarro, me retirei da mesa. Obviamente não voltei mais – nunca mais! (risos). Primeiro, não suporto roqueiros incapazes de autocrítica, aliás, não suporto nenhum tipo de pretenso artista que não esteja provido de uma autocrítica ácida sobre si mesmo. Kurt – recorde-se do título deste ensaio – era cruel em sua autocrítica como artista e inclusive era capaz de uma leitura poderosa sobre seu próprio contexto. E mais! Foi capaz de entender, sem rodeios, direto ao ponto, o que a massa – induzida pelos (maioria dos) jornalistas- pensava sobre seu “sucesso”. Foi capaz, no seu último disco (In utero), de disparar uma ironia que incluía não apenas a si mesmo, mas todo o contexto-psico-social. Te pergunto: Visionário? Hoje a angústia adolescente não vem pagando muito bem? E depois, cansado, foi capaz de amadurecer e ser sincero falando que isso tudo o entediava. Se os roqueiros tivessem se dado ao trabalho de pensar um pouco ao invés de se masturbar no palco, acho que o rock teria (a maior parte do rock, me refiro) tido um rumo mais interessante além de falar de bebedeira e diversão. (Sem falar na rebeldia de se entocar num sítio fora da cidade para usar drogas e boquejar sobre o capitalismo... mui rebelde! [risos]). E em segundo lugar, vejo que Kurt foi capaz de ‘educar’ boa parte dos roqueiros (inclusive não-roqueiros!) quanto às angústias “subjetivas – singulares” que podem destroçar uma pessoa! Por que toco nesse assunto? Ora, o rock (a maior parte, é sempre a isso que estou me referindo e no contexto atual, esse texto tem uma data, ok?), quando não sofre de um excesso de intelectualismo barato, sofre de uma banalização festiva. Isto é, poucos não caem de um lado ou do outro do cavalo! – aposto na sua inteligência para entender a metáfora!
......Por fim, desejaria profundamente, que esta recordação da morte de Kurt Cobain, embarcasse no seu significado contraditório! Já que o próprio Kurt foi testemunha fiel do drama da contradição ‘pós-moderna’, ou seja, da crise de identidade dramática do nosso contexto. “Roqueiro autodestrutivo depressivo” nunca foi sua sugestão! Foi seu lamento – se pudesse ter escolhido, ele não teria optado por isso. Vítima de uma sociedade ridícula? Também, mas vítima de uma genialidade que estava longe de ser ‘morna’, de uma sensibilidade abissal. Louvá-lo pela morte é no mínimo mórbido e estúpido.  Enquanto os intelectualóides de plantão estão denunciando paradoxos, penso que é justamente o paradoxo que deve ser exposto a sério – e (quase) como conquista sensível! Somos paradoxais! Mas nem por isso devemos sentir “vergonha” de nossa contradição. Nossos problemas não devem ser um obstáculo para nossa pretensa felicidade, mas um constitutivo que nos compõem. Kurt foi um embate MORAL entre o que se tem por “certo” – ser “alguém na vida”, não ter vícios, seguir a moda e a opinião geral vigente! – e o que se tem por “errado” – assumir suas fraquezas, sua ignorância, suas opiniões singulares. Se você acha que já estamos fazendo isso, basta você olhar para a música hoje, que dita a regra da ostentação a todo custo! A ditadura da boa vida e da boa saúde – Isso não é só o capitalismo, poupe-se dessas críticas ingênuas!
......Kurt Cobain foi homem o suficiente para nos expor dramaticamente que a humanidade não é Ordem e Coerência, mas Caos e Paixão! Não é uma questão de fazer a apologia do Caos e da Paixão, como muitos fazem se autoflagelando só para manter o “fashion shits, fashion style”. Antes de morrer ele ainda tinha uma máxima: PAZ (um pressuposto ÉTICO/MORAL), AMOR (Um pressuposto SUBJETIVO) e EMPATIA (Um desafio PSICOSOCIAL, alteridade). Até onde me consta, bastando-me observar nossa realidade social, estamos muito longe disso. Pois então, que o significado contraditório de sua vida se faça valer. Longe de torná-lo um mártir, mas entendê-lo como um gênio provocador.
......Sem Kurt Cobain, com toda certeza, eu não teria desenvolvido gosto pela música, pela arte, pela literatura, por causas políticas e sociais (inclusive anti-políticas e a anti-sociedade!). Não posso imaginar o que teria sido de mim sem conhecer sua profunda e atormentada obra, mas posso entender a influência que esse cara exerceu sobre mim.

r.A.





PS.Este ensaio é dedicado a duas criaturas do absurdo. Tem um cara que é autoridade na vagabundagem e no tiro de pistola– André Romanoski é como foi registrado, numa fria tarde de dezembro – e me ajudou a concretizar o sonho de ter uma banda de rock chamada Sodoma H. E outro cara que é autoridade na cerveja e na guitarra – que atende pelo nome de Antônio Marcos –, que nunca me deixou desistir da música. Essas duas criaturas do pântano, que seduzem mocinhas desavisadas, me mantiveram no mau caminho. Tentei aconselhar os meliantes a ir para a luz, mas eles se corromperam e me levaram junto para as sombras. Não poderia terminar esse ensaio sem citar as criaturas. Se eu fosse um sujeito religioso, rezaria a Kurt para que seus copos nunca secassem. Embora saiba que se rezasse para que seus copos secassem, nem toda fé do mundo seria suficiente. Causas perdidas... Se o rock e a safadeza não existissem, eles teriam inventado.

sexta-feira, 21 de março de 2014

A catequese dos que se dizem politizados e outras febres atuais



(ensaio proibidão para comedores de hóstia)


......Sapere Aude! – Ouse saber! – era o lema que para Kant sintetizava as pretensões do Aufklarung (Resposta a pergunta: O que é o ‘Esclarecimento’?). Muitos Filósofos, Historiadores, Sociólogos e Psicólogos, gostam de fazer certo mistério e ladainha em torno deste termo. Tem gente que é capaz de falar dez anos sobre esse tema e não concluir nada. Tudo bem, não é o meu caso. Kant escreve: “A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado desta menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem”. O tal Kant, relacionava essa “menoridade” – que do alemão pode ser traduzida como “incapacidade de usar da própria voz” – com a Preguiça e Covardia. Ou seja, é mais fácil você deixar que outros pensem por você (quando você é um preguiçoso) e menos responsável fazer uso do saber de outros (quando você é covarde demais para assumir as responsabilidades por seus próprios conhecimentos). Kant esta contextualizado no pré-revolução francesa. Não vou me estender aqui em contextualizações porque sou da perspectiva de que se você foi capaz de ler até aqui, pode muito bem fazer uma pequena pesquisa sobre o autor por conta própria, ok? – Quem sou eu para lhe tirar o prazer de pesquisar por conta própria?
......Kant, com certeza, não é meu autor favorito – na Filosofia -, mas para o que pretendo apontar aqui, esse pensamento sobre a ousadia de saber, me serve. Até aqui, o que me parece, é que embora muitos gostem de gritar quando alguém pisa-lhes os calos do que denominam “opinião própria”, no que tange a “ideia própria”, ninguém considera ‘pecado’ agregar-se ao “consenso dos sábios” (partidos, religiões, sindicatos, ideologias de revistas e jornais, etc.). Como dizem por aí: tudo bem cantar em uníssono a IDEIA de um GRUPO, só não GENERALIZE minha OPINIÃO. É incrível que alguém que ‘pense’ não consiga identificar quando suas opiniões estão sujeitadas a uma ideia de outrem!
......É óbvio que para mim, Consenso e Sábios, é uma contradição. Tenho cá comigo que o Pensamento, longe de ser uma “abstração flutuante” – como muitos tentaram nos fazer imaginar – é a expressão máxima da singularidade de um sujeito. [Você percebeu que escrevi SUJEITO e não INDIVÍDUO? – É que as duas palavras não possuem o mesmo sentido!]. Resumindo: se um sábio expressa singularmente seu pensamento, não ocorrerá de expressar o mesmo pensamento de outro sábio! A singularidade – quando é singularidade – não cria consenso. Quanto mais profundo é um pensamento, maiores são as divergências em relação a outro pensamento. Este, para mim, é o desafio de uma sociedade organizada em uma democracia política: fazer valer a diferença! Respeitar a diferença na expressão dos pensamentos! RESPEITAR não é CONCORDAR. Respeitar tem a ver com fazer um esforço subjetivo e intelectual de ENTENDER. – Tudo que acabo de escrever é uma banalidade, mas as coisas não vão bem quando você precisa escrever um imenso parágrafo sobre o “banal” antes de expressar uma ideia mais profunda.
......Se escrevi que IDEIA e OPINIÃO não são as mesmas coisas, é evidente que tenho, para evitar uma confusão maior, que delimitar o que entendo por essas duas palavras. Veja que a IDEIA de algo, seja de uma compreensão científica, seja de uma questão política, seja de uma reflexão moral e cultural, pretende uma elaboração mais complexa e profunda, inclusive mais GERAL. Já a OPINIÃO, coisa bem mais fácil de expressar – nem por isso menos séria-, é de uma perspectiva mais PARTICULAR e centrada no “recorte subjetivo” da vivência de um sujeito em uma determinada configuração social e pertencente a um determinado contexto histórico. Hoje, basta você ligar a t.v., ler um blog – como este -, ler um jornal, para perceber que raramente se manifesta uma IDEIA, mas é recorrente que se manifestem OPINIÕES. Pense em você, agora. Você deve ter OPINIÕES sobre muitas coisas, mas IDEIAS sobre poucas coisas. Talvez você resmungue aí, agora:_ ah! Então a Ideia é mais “certa” que a Opinião? Se essa for sua compreensão, “se ligue”, não estou em nenhum momento hierarquizando o grau de importância de ambas! Precisamos de ambas e por isso o grau de importância é de mesmo nível. E sobre o mais “certo”, evite o indevido uso deste senso de valor! As maiores barbaridades da história humana tentam ser legitimadas pelo “mais certo”. Pensar assim é pequeno.
......Como penso que Filosofia se faz com IDEIAS e não apenas com OPINIÕES, com DIVERGÊNCIAS e não com CONSENSOS, deixe-me contar a ideia que tenho de nosso atual contexto político brasileiro. Asseguro-te que essa ideia não está nem próxima do que tenho visto por aí publicado! É uma ideia que me assusta – e por isso tomei todo esse cuidado antes de expressá-la. Veja só.
......Nem ousamos pensar nossos próprios pensamentos, nem somos mais capazes de arriscar errar. A moda da vez é seguir o rebanho que nos parece mais interessante e se houver equívocos, a culpa é do “pastor” do rebanho. A melhor desculpa é que “não concordamos com isso plenamente, mas, na falta do que fazer, seguimos o bando”. Isso eu entendo por Preguiça e Covardia!
......Um velho empreendimento tem soado como novo: As agências que financiam UTOPIAS CONSOLADORAS. O principal no projeto é não questionar! Hoje não se duvida de nada. Se compra a “verdade” e se consome ali mesmo – com embalagem e tudo. É que o truque consiste em te fazer professar FÉ que a embalagem foi feita especialmente para você!
......Depois de tentar acompanhar nos jornais e blogs por aí as posições políticas que vem sendo propagadas – não encontrando nenhuma fonte que não fosse financiada por um partido político -, comecei a acompanhar os Manifestos dos próprios partidos (evitando a péssima escrita dos jornalistas) em suas fontes. Foi aí que comecei a entender tanto os militantes quanto os representantes. E achei a coisa toda muito parecida com o que se faz em muitas das seitas religiosas.
......Aos iniciados é ensinada uma “cosmovisão” e uma “dicotomia”, ou seja, uma visão de mundo e uma divisão entre o Bem e o Mal. As opiniões até divergem, mas estão limitadas (militadas?) Moralmente . E os iniciados, depois de algum tempo, passam a defender fervorosamente a religião, uma vez que o que lhes é oferecido em troca da “fidelidade para com o ritual” é uma utopia consoladora (o tal “final feliz” o “felizes para sempre”). Se na religião cristã falam em Luta contra o Mal, a conversa é a mesma entre os iniciados. A base do “joguete” todo vem com o consolo de pertencer a algo – a um grupo. Essa coisa toda dá SENTIDO EXISTENCIAL para aqueles que são incapazes de desenvolver um sentido existencial “sozinhos”. [coloquei “sozinhos” entre aspas porque bem sabemos que desenvolvemos nossa ‘consciência de si’ em comunidade...]. O bônus é óbvio!: afasta a solidão. E você, que está lendo isso, sabe o preço da solidão? Como é, “Ideias Solitárias” não tem a força das “Opiniões do Coletivo”? Então experimente anular a Ideia de Força Gravitacional em Grupo e ver se você e seu grupo sairão Flutuando por aí (risos).
......Para os praticantes da cosmovisão A, a cosmovisão B é o Mal. Para os praticantes da cosmovisão B, é a cosmovisão A que é o Mal. Como trata-se de uma cosmovisão e como o que está em jogo é o sentido existencial no seio de um coletivo, quem não é A só pode ser B. Quem não é B, só pode ser A. Quem tá indeciso só pode ser “alienado”. O termo alienado é engraçado, porque quem acusa o outro se sente na posição de juiz e executor.
......Agora eu aposto com você que alguém está cuspindo na tela do computador e dizendo:_ r.A. é um completo imbecil que está generalizando tudo! E confesso, estou generalizando mesmo (e eu ser um imbecil está no olho de quem vê)! Mas preste atenção nisso – chega mais perto que vou sussurrar agora – é justamente para pertencer a uma generalização que os fulanos e as beltranas entram na seita A ou B. Isso quer dizer que a indignação dessa gente me faz rir. Não é um riso de deboche, entenda, é um riso “piedoso” – eu sou sensível à burrice alheia. No fundo eu quase acredito que todo mundo é a favor de melhores qualidades de vida – principalmente para si mesmo -, mais educação – para os amigos e chegados – e saúde com qualidade – é aí que entra a salvação; ninguém quer morrer hoje em dia (risos). Todo mundo! (tá vendo eu generalizar novamente?). Cá entre nós, só aqui entre eu e você, você conhece algum partido que não prometa Saúde, Educação, etc.? – Se prometem é porque não tem investido o suficiente e se não tem investido o suficiente é porque no passado não investiram, mas no futuro todos vão cumprir suas promessas – tenha fé (risos).
......Se você tá pensando em ingressar na carreira política ou religiosa siga esse meu conselho: Sempre prometa o melhor! Não seja modesto. Não prometa que as coisas vão ficar “mais ou menos”, prometa O MELHOR! Grite:_ PROMETO O MELHOR PARA TODO MUNDO! Isso escorre feito mel no ouvido de quem ouve. Aqueles que defenderem a sua candidatura dirão:_ Defendo o “Ciclano” do partido A. Porque ele nos conduzirá ao MELHOR! – e vai bater no peito com um sorriso de satisfação e convicção. Assim como, na bíblia cristã, Moisés bateu com o cajado na rocha e fez verter água, você baterá nos iniciados e verá jorrar a grana e o delírio! – sempre por uma causa ética, evidentemente. Se você seguir esse conselho obterá SUCESSO, mas vai ser o mais patético entre os patetas!
......Talvez você ou um amigo seu devem estar pensando que trato a política – assunto seríssimo – sem contextualização histórica e social. Se o caso for esse, tenho que te confidenciar que os historiadores e sociólogos também produziram o que produziram “sobre nós” engajados em perspectivas ideológicas. E você acha que eu acredito em gente engajada? Penso, logo desconfio!
......O Estado é o trono vago após a morte de Deus. E para merecê-lo os partidinhos (governos?) encarnaram o estereótipo de seita. Como toda seita, precisam de um espetáculo e seus milagres!
......Kant achava que nós, seres humanos, começaríamos a pensar até atingir a “maioridade” – esse termo, em alemão, tem a conotação de “falar com a própria boca”, sabe? Eu DUVIDO que gente que pede permissão dos partidos políticos para falar seja capaz de falar com a própria boca! Duvido mesmo! Suas vozes não chegam nem a “maioria de UM”. DUVIDO que gente financiada por partido político consiga escrever alguma coisa que não seja CONFETE na cabeça do partido. Esse carnaval de seitas! E por isso escrevo no lugar dos “mudos”. Escrevo esse ensaio para que os poucos que pensam percebam que não é todo mundo que perdeu os ‘colhões’. Não é todo mundo que tá recebendo a hóstia das mãos dos dirigentes de partidinhos e dizendo amém. O simples fato de poucos estarem se expressando sobre o que vem acontecendo me faz temer pelo pior. Sigmud Freud postulou que se entre duas pessoas a ideia expressa é a mesma, só podemos concluir que Um pensou pelos Dois. E quando eu percebo um país inteiro falando em termos de A e B, só posso pensar que o SABER está sendo sufocado por um tipo tosco de CONSENSO. Tai a contradição: se é consenso, não é saber! É seita!

r.A.
“Sapere Aude”.

P.S.:
Observe a maneira como os representantes e militantes de A e B tratam os ‘adversários’, os termos pejorativos que usam, e note o nível de fanatismo, rancor e ódio que proliferam. Arrastam suas palavras na merda achando que isso lhes agrega ‘valor’ de argumento.
Quando “A” fala de “B” eu aprendo mais sobre a personalidade de “A” do que de “B”. É um sábio ditado popular. Use-o (é minha sugestão) para perceber o fanatismo que tomou conta dos partidos.


Sobre a imagem do Texto/Ensaio:


Então Santo Antonio, em voz alta, ordenou à mula: “Em nome do Criador, que trago vivo, verdadeiro, real e substancial nas minhas mãos, embora indignamente, ordeno-te, ó mula, que venhas já ajoelhar-te d’Ele, a fim de que estes hereges reconheçam que toda a criação é submissa e obediente ao Cordeiro que Se imola sobre os nossos altares”.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O pessoal vai dar uma festa aqui em casa, mas eu não posso comparecer!

Nota: Este texto não tem nada a ver com a COPA, tá?


......Tenho uma casa. Trabalho duro para mantê-la em pé. O pessoal vai dar uma festa aqui em casa, mas eu não posso comparecer! Quer dizer, eu até poderia, se pagasse para entrar na minha casa. Como assim? Vou explicar.
......Essa festa que o pessoal vai dar aqui em casa, 50% dos gastos eu estou pagando! Ocorre que o pessoal que vai dar esta festança aqui, vai construir uma mesa de sinuca na minha sala. Dizem por aí que fiz um bom negócio, já que quando a festa terminar, o pessoal vai levar as bolas e os tacos, mas vai deixar a mesa. A mesa que vai ficar, graças ao meu grande empreendimento, poderei usar para jogar sinuca – basta comprar as bolas e os tacos depois, e fazer os reparos necessários na bendita mesa. O detalhe é que eu não jogo sinuca! Mas tudo bem.
......Nesta festa que vão dar aqui em casa e que eu estou bancando metade da festa e que se eu quiser entrar tenho que pagar, dizem que vai rolar uma grana preta. E que essa grana preta que vai rolar, TALVEZ, será investida no que eu quiser – mas primeiro terá que passar por toda uma burocracia e tudo mais: pois eu não sou muito bom em administrar minhas coisas; preciso de gente de bom coração para mexer com o meu dinheiro e decifrar os meus desejos... ou seria cifrar os meus desejos?
......Agora a diária para mim conseguir frequentar a festa que vai ser na minha casa é de 300 mangos! E meu salário (que sempre sofre reajuste) não dará para pagar por todos os dias de festa! Se eu quiser frequentar a festa na minha própria casa – que já estou pagando 50% para que as pessoas que ‘vem de fora’ se divirtam a vontade – terei que fazer um empréstimo e parcelar o pagamento ao longo do ano. Como pagarei o empréstimo? Trabalhando para o pessoal que vai dar a festa na minha casa, ora! Não é demais? O engraçado é que eu não queria a tal festa e não conheço essas pessoas todas – E todas elas juram que estão fazendo isso para o meu bem!
......Como tudo tem seu lado bom, veja só que bacana, se eu reclamar da festa... se a festa passar dos limites, quero dizer, prometeram que vão me dar uma surra! Quem sabe não me matem? Vai saber... E quem vai me surrar são os seguranças que eu contratei para garantir que a festa transcorra tranquilamente.
......Eu já fiz bons negócios – como por exemplo pagar para trabalhar, pagar para estudar, pagar para que tratem a água que não pedi que sujassem e definitivamente não sujei, etc. Mas negócio bom como esse, uma festança dessas, eu nunca tinha feito!
ME SINTO MUITO ORGULHOSO  DE BATER NO PEITO E DIZER PARA TODO MUNDO QUE A FESTA VAI SER AQUI EM CASA – mesmo que eu não participe e mesmo que eu pague metade da festa! Todas as pessoas que eu conheço, ou seja, todos os meus amigos (alguns deles de infância), minha família, todos estes, não vão ir à festa. Mas alguém me prometeu que vão transmitir a festa ao vivo – pela televisão. Só que eu não assisto televisão...
......Eu sou muito inteligente, você não acha? Você não se sentiria INTELIGENTE no meu lugar? Sei que sim.



r.A.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Pague este e ganhe 25% no outro!




...... "A única coisa que eu odeio mais do que gente é bicho que parece gente" - refleti com um sorriso. E na minha frente gingava um babuíno albino que mostrava os dentes ameaçadores. O primeiro soco que o sujeito me deu na barriga foi suficiente para eu sacudir a mão no ar e pedir penico. Se estivesse sóbrio, daria uma lição no filho da puta – mas não era o caso. Assim que ele veio na minha direção percebi que estava disposto a me chutar o rabo daqui até o cemitério – até o hospital se eu tivesse sorte. Achei que ele não ia topar a ideia, achei que ia se acadelar... e fui eu quem se acadelou! Metade da multidão aglomerada em torno de nós riu. A outra metade me vaiou. Isso podia significar que as apostas estavam meio a meio. A cena era aquela: um sujeito magro e barbudo em pose de boxe e outro sujeito alto, negro e gorducho, com os dedos de uma mão sacudindo e a outra mão na pança. “Adriano, pague o cara!” – disse o dono do bar. As vaias seguiam. Meti a mão no bolso traseiro da calça jeans e catei meus últimos cem reais e entreguei ao barbudo. “Agora caia fora” – gritou o dono do bar apontando para a rua. E foi o que fiz. Na derrota todos os teus amigos se tornam desertores da tropa que é a amizade.
......Roberval falou alguma coisa que não gostei. Foi aí que apostei uma grana que poderia partir o seu focinho de porco. Granschi aceitou ser o juiz – o dono do bar. E como eu era mais alto e mais pesado, metade do mundo apostou em mim. Até Gilberto, que me detestava, apostou em mim. Tirou a grana do bolsinho da frente de sua camisa de botão encardida e jogou sobre o balcão. Sorriu com sua cara de sapo pálido e resmungou:_ vê se não vacila seu veado! O dono do bar tomou uma sábia providência me enxotando. Se tentasse voltar para o bar seria esquartejado pelos outros bêbados. Até uma velha que limpava o bar de vez em quando, estava com um canivete de pressão brandindo na minha direção quando parti. O raio que os parta!, pensei.
......Na geladeira ainda tinha seis cervejas e meia garrafa de vodca. Fiz uma prece para que fosse o suficiente. Fiz o sinal da cruz e abri a primeira lata. Vi o sol nascer vermelho no horizonte e fui deitar.

...

......O telefone me acordou. Era Agatha. “Tá na merda ainda, Adriano?” – Perguntou com sua voz rouca. “Um pouco pior. Tomei uma surra na madrugada... seis contra um é uma covardia!”.
_Deve ser mentira – respondeu -, assim como as merdas que você escreve. Mas não é disso que quero falar com você... passei seu número para uma agência de pesquisa. É para dar sua opinião sobre um comercial. Felizmente para você, é um dos poucos babacas que conheço que sabe fingir que é inteligente. Vão te fazer umas perguntas e você finge que é um sujeito normal. Depois vão te passar um endereço para você ir numa entrevista, assistir um comercial e dar sua opinião. No final te pagam cento e cinquenta reais. Ok?
_Ok. – resmunguei.
......Agatha era uma morena de estatura média. Não tão bonita, com belos olhos castanhos e lábios carnudos que viviam pintados de vermelho. Trabalhava numa agência que indicava pessoas para outras agências. Às vezes me passava essas marmeladas para ganhar uma grana. Óbvio que ela ganhava em cima das indicações. Graças a ela eu ganhava uma grana escrevendo resenhas sobre livros que nunca li e nem leria, sinopses para filmes que nunca vi e nem perderia meu tempo vendo.
......Assim que cheguei no banheiro para conferir minha cara de morto-vivo, o telefone voltou a tocar.
_Senhor Adriano Maranello Jr., certo? – disse uma voz macia e jovial, toda cheia de carisma, aquele tipo de voz de mulher que engana a gente.
_Certo... – respondi.
_Gostaríamos que o senhor participasse de uma pesquisa sobre um produto que estaremos lançando. Apenas preciso que confirme alguns dados que nos passaram. Ok?
_ok...
_O senhor é um escritor bem sucedido? – perguntou, ainda entusiasmada.
......Que diabo de gente está entusiasmado às três da tarde de uma sexta-feira? E que diabos significa ser bem sucedido? Quem é que vai me suceder nessa vida de merda? Achei melhor responder tudo com um “sim”.
_Sim.
_O senhor é comunicativo e expressa suas ideias com facilidade?- continuou a mulher a perguntar.
_sim.
_O senhor gosta de trabalhar em grupo? “SIM”. O senhor tem carro e assiste televisão com frequência? “SIM”. O senhor lê jornais? “SIM”. O senhor tem animais de estimação? “SIM”. De que tipo? “SIM”. O senhor tem um cachorro? Isso? “SIM”. O senhor tem gato também? “SIM”. E pássaros? “SIM”. O senhor gosta de música? “SIM”. Novela? “SIM”. Pratica atividades físicas? “SIM”. Regularmente? “SIM”.
......Deixei o telefone fora do gancho e fui até a geladeira pegar a última cerveja. Cheguei perto do telefone com a boca e disse “SIM”. Abri a cerveja e tomei uma boa golada. Olhei pela janela e tinham dois garotinhos brigando na rua. Voltei. Peguei o telefone e disse “SIM – SIM- SIM- SIM- SIM”.
_Então está tudo certo. Amanhã o senhor estará presente no endereço que vou lhe passar.
_SIM.
_...traga um documento de identificação...
_SIM.
_Com foto...
_SIM.
......Ela passou o endereço toda entusiasmada, como se fosse um tipo de festa e quisessem minha presença lá. Anotei num papel que estava em cima da mesa.
_Alguma dúvida?
_SIM.
_Qual seria?
_Qual seria o quê?
_A dúvida...
_Ah, não. Não há dúvidas.
_Então, desculpe incomodá-lo e tenha uma ótima tarde...
_SIM.
......Terminei a cerveja. Tirei a roupa e fui tomar banho. Meu primeiro pensamento foi: Mais essa agora!... Meu segundo pensamento foi: Por que a cerveja acaba?

...

......Como comigo sempre foi o seguinte: ou chego muito cedo ou chego muito tarde em um compromisso; saí duas horas antes do horário combinado para ir até a bem dita agência. Não tenho meio termo na minha vida. Ou estou ferrado ou estou salvo. Uma em dez vezes, estou salvo. Saí com o endereço na mão sem fazer ideia alguma de onde estava indo. Peguei três metros antes de me perder mais um pouco. Quando alguém me disse onde era o lugar, ainda tive que caminhar mais um quilômetro. Sorte que haviam bares nas redondezas. Em uma hora fiz um revezamento de três bares. Logo cheguei a uma larga avenida de oito pistas e avistei o lugar combinado. Um prédio feio e marrom com dois seguranças feios na portaria. Como eu também sou feio, ficou tudo parelho! Como quase todo mundo e todos os lugares são feios, a beleza é sempre apreciada. É fácil para mim identificar a beleza. Belo é tudo aquilo que não posso fazer ou possuir ou tocar ou pensar.
......Joguei meu cigarro fora e subi um pequeno lance de escadas até a portaria do prédio marrom. Um segurança negro e com óculos escuros deu um passo e bloqueou a porta de entrada.
_Quê você quer? – Falou numa voz fofa, meio abalofada, como se estivesse com a boca cheia de criancinhas.
_...vim para uma entrevista... uma consultoria... – retruquei olhando para cima... e olha que eu tenho um metro e oitenta!
_Você? – devolveu ele.
......Olhei ao redor. Levantei o pé direito e olhei na sola do meu tênis. Levantei o pé esquerdo e olhei na sola do tênis novamente. O outro segurança, um gordo branquelo segurou o riso.
_Sim. Eu. – respondi.
......O segurança negro mexeu a cabeça para o lado e estralou o pescoço. Para mostrar que eu também era um sujeito durão meti o dedo no nariz e tirei um tatu. Joguei no chão e pisei em cima. Pensei em estralar o tatu, mas lembrei que meleca de nariz não estrala. Nunca entendi porque negro trata outro negro tão mal... Deve ser para fazer o contra ponto aos branquelos que se tratam feito fadinhas bailarinas.
_vá até a recepção e retire seu crachá. – resmungou sem me olhar.
_na sua bunda...- resmunguei de volta.
_COMO É?
_...ai atrás de você, quero dizer...- apontei para a recepção que ficava atrás do segurança.
......Ele resmungou feito um cachorro e saiu da minha frente. Ainda bem, porque já estava começando a pensar que ou a gente saia no soco ou assumia de vez um relacionamento.  Retirei a porcaria do crachá, mostrei minha carteira de identidade para um diabo num balcão e este me fez subir pelo elevador até o terceiro andar.
......Quando a porta do elevador abriu, notei que estava diante de outro balcão com uma secretária semi-morta. Nos filmes eu via que secretárias de escritórios de publicidade eram jovens gostosas, geralmente sorridentes e se masturbando por baixo da mesa - essa última parte eu inventei. Mas nesse caso era uma senhora de cabelos brancos e seu buço parecia um bigode de adolescente rapper. Os filmes mentem! Saí do elevador e caminhei até a secretária. Parei por um segundo na sua frente. Tentei ouvir se ela ainda respirava. Parecia que não. Pensei: agora sim. Vou ser a única testemunha da morte dessa coisa aí! Alguém vai chamar a polícia e ninguém vai acreditar que não fui eu quem matou ela. "JOVEM ESCRITOR É SUSPEITO DE ASSASSINAR SECRETÁRIA BIGOGUDA EM AGÊNCIA DE PUBLICIDADE" - Matéria de capa na Folha de São Paulo. "Já tava morta quando eu cheguei nessa porra!", alegou o suspeito.
_Pois não? - Resmungou ela e abriu os olhos.
_Eu vim para... - comecei a falar.
_Eu sei. Assine aqui nessa folha. Posso conferir seu R.G.?
......Alcancei meu R.G. Assinei a folha. Sou o único cara que conheço que está rindo para a foto do R.G. Nem li o que assinei. Não podia ser um contrato que passava meus bens para o nome dela, eu não tinha bens. Tinha uma garrafa de vodca - da boa! - e umas cervejas na geladeira de um apartamento com o aluguel atrasado. Só. E se ela fosse o Diabo e eu tivesse assinado a entrega da minha alma? Era bem possível, imaginei. O Diabo estaria no prejuízo, certamente!
_Você pode se sentar ali em uma daquelas poltronas e esperar. Logo vão te chamar, QUERIDO. - Resmungou a velha secretária e apontou para uma segunda parte da sala em que eu já me encontrava. E lá estavam umas poltronas de couro. Uma mesa de centro, toda de vidro. Algumas revistas idiotas para você folhear.
......Querido? Isso deve ser uma enganação das brabas, pensei. Só putas e vigaristas chamam a gente de querido. Deve ser parte do treinamento. Deve ser procedimento padrão. Deve ser um texto decorado. Deve ser... por que estou pensando nisso? - que merda!
......Andei até as poltronas. Olhei em volta. Havia aquela frescura de teto de gesso e umas luzes que apontavam para o teto e deixavam a sala num tom amarelado. Também havia rente à parede um retrato moldurado num vidro. Uma luz atrás do retrato - que deixava o tal retrato meio fantasmagórico. Fitei o retrato. Deve ser o dono dessa bosta toda, concluí. Os publicitários adoram essas porcarias. Se você entrar numa igreja vai ver um altar, se entrar numa agência... deixa pra lá. Só sei que adoraria dar uma pedrada naquilo e ouvir o vidro se partir!
......Olhei para uma poltrona que estava mais no canto da sala. Como um cachorro, senti que aquele ali era um canto bom para ficar parado. Quando fui me afundar na poltrona ela fez um ruído chato. A sala estava tão silenciosa que o ruído acordou da morte a secretária. Ela olhou na minha direção com olhos que lembravam um bicho preguiça. Continuou assim, me olhando. Quanto a mim, fui afundando vagarosamente na poltrona e cada vez que soltava um pouco do meu peso, a poltrona voltava a ranger. Como era impossível evitar o ruído lancei todo o restante do peso e a poltrona fez um som parecido com um peido. Um peido molhado. A secretária resmungou alguma coisa - pela leitura dos lábios dela, entendi "esses gordos". Busquei pelo chão alguma coisa que pudesse atirar nela, mas não havia nada. Imaginei que logo logo seria o seu velório e isso me satisfez. Sorri para ela e a secretária virou o rosto em direção ao elevador que voltava a se abrir.
......Uma loira enorme entrou na sala. Tinha um corpo realmente grande, seios enormes. Usava um vestido curto, preto e botas com salto, tudo preto. Os seios chegaram uns 30 segundos na frente do resto do corpo. Todo o procedimento que ocorreu comigo, ocorreu com a tal loira. De longe parecia atraente, mas quando foi se aproximando percebi que ela era meio idiota. Quero dizer, ela sorria com uns olhos meio enlouquecidos, falava com a boca demasiadamente aberta e sacudia os cabelos de um lado para o outro numa tentativa de ser graciosa, mas parecia mais é maluca mesmo. Sentou numa poltrona do outro lado da sala - onde eu estava - e sua poltrona não rangeu! Virou o pescoço lançando os cabelos para o lado e contemplou o retrato no vidro.
_Isso é magnífico! - Resmungou na minha direção. Sua voz era tão chata que quando falou comigo foi como se ela tossisse em mim!
_É... - falei, já que parecia que deveria fazer um comentário.
_Quem será que é esse? - Continuou ela. Suas feições eram de uma garotinha de nove anos.
_Esse aí é o retrato do Capeta! - Respondi.
_UAU! Que dark meu! - Disse ela.
_É... - resmunguei. Notei que meu "É", pareceu um coaxar de sapo boi. Achei estranho aquilo. Meditei um pouco em silêncio sobre o meu "é".
......A loira continuou olhando para o retrato no vidro e a porta do elevador voltou a se abrir. Desta vez entraram duas garotas e um cara. A primeira garota que saiu do elevador estava com uma camiseta verde e uma calça preta, bem justa. Devia se sentir ótima com aquele corpão todo. Seus cabelos eram negros e cortados um pouco acima dos ombros. A segunda garota que andava no seu encalço estava toda encolhida, bastante tímida. Era bem magra e tinha os cabelos cacheados. Estava num vestido branco e usava óculos. Agora o cara que saltou do elevador, deixe-me te contar sobre ele! Estava de toca de lã, preta - e fazia um calor do inferno! Era bem magro e andava um pouco arqueado para trás, como se fosse cair a qualquer momento. Usava uma camiseta preta muito folgada e com uma estampa de algum grupo de rappers. As calças pareciam estar prestes a cair e os fundos quase alcançavam os calcanhares. Quando ele se movia aparecia a sua cueca - vermelha. E tinha um bigodinho que lembrava o buço da secretária. Caminhava no gingado de uma mola maluca. Não consegui desviar os olhos dele. Pensava: esse cara, mais cedo ou mais tarde, vai cair e rastejar feito uma minhoca! Para minha surpresa o cara não caia.
......Apresentaram-se para a secretária. Tânia, a primeira; Isabel, a segunda; Eduardo, o mola maluca - mas podiam chamá-lo de Dudu hip-hop'S, anunciou. Depois riu.
......As duas garotas que acabaram de entrar se conheciam. Segundo o que conversavam, faziam arquitetura na mesma universidade - mas não na mesma turma. Sentaram uma ao lado da outra, nas poltronas - e nada rangeu. Já o Dudu hip- hop'S, sentou em outra poltrona no mesmo lado que o meu, na sala, mas deixou uma poltrona de distância. Continuava rindo. Parecia que o Diabo estava dando-lhe conselhos numa conversa particular. Ele concordava com a cabeça e ria. Agora a velha secretária olhava só para ele. Pelo menos não está olhando para mim, pensei. Pelo menos se a secretária morresse, eu teria em quem por a culpa - concluí. Olhei para ele e ri, ele concordou com a cabeça e riu mais ainda.

...

......Finalmente estávamos em outra sala. O coordenador da consultoria publicitária havia chegado um pouco atrasado. Tratava-se de um sujeito magro e com uns pelinhos brancos na cara - mas os cabelos loiros e desgrenhados. Estava vestido com uma camisa flanela laranja e as mangas dobradas até os cotovelos. Falava com um sotaque gaúcho de Porto Alegre. E era de Porto Alegre! Calçava tênis converse. Gesticulava bastante antes de falar. Não deixei de notar que estava com olheiras marrons embaixo dos olhos azuis. E parecia quase tão bêbado e desleixado quanto eu. Mas eu nunca usaria camisa flanela - ao menos que estivesse morto e não pudesse resistir!
......Apresentou-nos a sua equipe. Gabriela, uma loira que estava sentada com um notebook no colo. Gabriela era magra e muito alta, parecia uma modelo. Usava também uma camisa flanela, óculos grandes - parecia que tinha roubado da sua vovó -, e calça legging preta. Gabriela parecia uma gata no cio se lambendo. Sorria maldosamente para todos os homens na sala. Tinha muito tesão em viver, pelo visto. Ou tinha tomado ácido, sei lá. Um de seus pés estavam sobre a cadeira - o que aumentava o seu charme, ou sua safadeza. Bruna, uma mulher um pouco mais velha - lá pelos trinta e cinco, acho -, mas vestida como se tivesse 13. Estava com o notebook sobre uma grande mesa, onde nós, os consultores estávamos todos colocados no lado oposto. E havia um sujeitinho muito estranho que se chamava Tiago. Muito magro, com cabelos encaixados e desgrenhados, também com uma camisa flanela dobrada até os cotovelos e aparentava 14 anos exceto por um bigode de velho de 74 anos. Esse tal Tiago estalou os olhos quando me viu entrar naquela sala! Tentei desviar o olhar dele, mas seu olhar pesava sobre mim. Era como se dissesse:_ Deus, por que o Diabo em pessoa acabou de entrar nessa sala?  Graças a esse olhar conferi a mim mesmo num reflexo numa janela. Estava todo de preto - como de costume - mas nada de camisetas de banda de rock - como de costume. Tinha a barba de 15 dias por fazer e olhos um pouco vermelhos. Parecia mesmo um desgraçado saído do inferno! Pisquei para Tiago, já que ele não parava de olhar para mim com a boca aberta. Isso pareceu piorar as coisas para o pobre garoto. Esse negão vai me estuprar! - Imaginei que ele pensou.
_A propósito, me chamo Carlos! - Disse, gesticulando, o líder da porra toda.
_hahahahahahaha - riu o hip-hop'S.
......Um projetor foi armado para que assistíssemos um comercial numa parede branca. Segundo o que nos falou Carlos, deveríamos assistir o comercial e falar nossa opinião. O que disséssemos seria anotado pela equipe com os notebooks. E ao final, se contribuíssemos certinho, receberíamos uma grana dentro de envelopes. O tema era CRIATIVIDADE e o comercial era sobre uma linha de canetinhas, lápis de cor e tintas. A ideia dos publicitários era unir uma coisa a outra, embalada por uma música. E, segundo foi revelado pelo tal Carlos, fomos selecionados por causa de nossas diferentes perspectivas de criação - e nossa capacidade de interagir em grupo. Lembrei que eu estava bêbado... ia ser difícil para mim falar muita coisa, pensei... pensei no dinheiro - claro!
......O tal comercial começou. Obviamente tinha criancinhas - todo publicitário dá um jeito de meter uma criancinha num comercial! Não entendo o por quê fazem isso, mas fazem. Tinham criancinhas que podiam ser identificadas por pertencerem a diferentes etnias. Outra coisa que todo publicitário faz. Que droga! As criancinhas estavam felizes - nenhum publicitário coloca uma criancinha triste num comercial, já reparou? Uma criancinha ouvindo Joy Division e lendo Schopenhauer. E as criancinhas estavam felizes porque tinham um monte de lápis para rabiscar nuns papéis - que apesar de estarem numa calçada próxima a um bosque, estavam todos os papéis de um branco impecável e sem nenhum amassado! O que as criancinhas rabiscavam no papel se tornava a paisagem - e por isso a paisagem que era bonita, se tornou um monte de rabiscos sem sentido algum. A paisagem passou a ser de um colorido artificial e lembrava uma obra de Picasso com traços de Van Gogh - descaradamente plagiado! Aí as criancinhas desatavam a correr - como um estouro de boiada. Corriam rindo com a boca aberta, como se correr com os lápis na mão fosse a melhor coisa a ser feita na ocasião. Ninguém caiu e enfiou um lápis pontiagudo no olho! Nenhuma criança sentou o braço no coleguinha para roubar o lápis mágico para si. E no fundo tocava uma música insuportável que não fazia nenhum sentido com as crianças, nem com Picasso - que preferia fumar um charuto, bem bêbado num bar sujo -, nem fazia sentido com Van Gogh - que preferia um punhado de putas e uns tragos num minúsculo quarto de manicômio. No final as crianças, que haviam desatado a correr enlouquecidas com lápis na mão, paravam e cantavam um trecho da música com uma letra complexa - que obviamente não entendiam. Nesse momento as criancinhas paravam - como se sua correria tivesse sido meio idiota e sem sentido algum - e lançavam beijos para a câmera (no caso para nós) e uma delas, bem no centro, dizia o nome da marca dos lápis, difícil de mais para uma criança de 3 anos soletrar. Enquanto a tela escurecia ouvia-se um sussurro:_ Compre!
......Assim que a coisa toda terminou o grupo do qual eu fazia parte aplaudiu emocionado. Até eu aplaudi, encorajado pelos colegas. Dudu hip-hop'S batia palma e ria enlouquecidamente. Dizia:_ que viajeeee caraaaaa!
......Carlos e sua equipe estavam satisfeitos. Todos estavam emocionados e eu pensando como é que iria tirar aquela merda da minha cabeça. Existem certas coisas que entram na sua cabeça e ficam ricocheteando ali dentro. É um jogo entre a loucura e o pesadelo. Depois daquilo eu não tinha mais forças para ser eu mesmo. Aquilo havia me infectado, era uma doença louca, um tipo de refrão da morte, um ácido que corroía seu cérebro. Fechava os olhos e vinham imagens do comercial. Pensei em abrir a janela daquela sala e me atirar do terceiro andar de cabeça na avenida lá fora.
_Essa ainda não é a versão final, galera! - Disse sorrindo, Carlos. Ainda estamos abertos para leves alterações.
......Olhei para o restante da equipe de publicitários. Gabriela estava esfregando a bunda na cadeira. Pelo jeito que ela me olhava, aquela cadeira estava ótima!  Bruna sorria com satisfação, a sensação de um trabalho bem feito e Tiago olhava para a tela do seu notebook - petrificado. Parecia o único a refletir: "que merda que eu fiz na minha vida para estar aqui?". Senti vontade de pedir para repetir o comercial e agarrá-lo pelos cabelos e obrigá-lo a ver aquela merda até o fim.
_É bem criativo! - disse a tal loirona.
_Dá uma paz e uma tranquilidade... - Resmungou uma das arquitetas. A outra repetiu.
_Muito louco, cara, altas viagem! - Resmungou o tal Dudu.
......Todos os olhos se voltaram para mim. Não falei nada. Tremia.
_Posso ir tomar água? - Perguntei, ainda um pouco tonto.
_Pegue um copo de água para ele - disse Carlos e apontou para Tiago. Este se levantou, como se hipnotizado e saiu correndo pelo corredor. Carlos virou-se para mim:_ e o que acha? É importante que tenhamos uma unanimidade aqui, cara! - Disse.
_Isso vai para a t.v.? - Perguntei, coçando a cabeça.
_Vai! - Respondeu Carlos sorrindo. - não é ótimo?
_Acho que esse comercial me deixou louco... - resmunguei.
_É isso aí, cara! - Comentou Carlos fechando os punhos numa expressão de "YES!".
......A água veio. Tiago tremia com o copo na mão. Arranquei-lhe o copo e bebi de uma só vez. Ele ficou parado, me olhando. Descobri de onde vem à merda do mundo, refleti. As pessoas assistem esse lixo o tempo todo. Isso é provavelmente o fim da humanidade. É pior que a bomba atômica. Daí saem os psicopatas, os esquizofrênicos, os psicóticos. Depois que vi isso senti vontade de matar todo mundo nessa sala - e morder a bunda de Gabriela que tentava, agora, lamber o cotovelo.
......Os envelopes foram colocados diante de nós. A grana, enfim. Cada um pegou o envelope com o seu nome. Depois por ordem de entrada, cada um apertou a mão do Carlos e saiu. Eu era o último, claro. Antes de sair, passei por Tiago e fui até Gabriela.
_O que é que tem nessa cadeira? - Perguntei apontando para a cadeira e olhando no fundo dos olhos dela.
_Aqui está o número do meu telefone cara. Jesus, eu estou morrendo aqui... Nossa! - Disse ela mordendo os lábios e me entregou um papelzinho.
......Carlos pigarreou na porta aberta e olhou bravo para mim. Passei por ele e não apertei sua mão. O corredor era longo e apertado, andei atrás do tal Dudu hip-hop'S. O cara parecia que tinha um espeto atravessado do rabo até as tripas. Pensei em empurrá-lo com o pé nas costas para que ele saísse da minha frente. Acabei desistindo. Você sabe como é, o que importa na humanidade é o ponto de vista de onde se observa uma aberração! Por exemplo, pensei na Mãe dessa mola maluca, que desfilava na minha frente com o fundo das calças arrastando no chão: ou ela dizia “meu filho é uma gracinha” ou já teria se enforcado de desgosto. Não pude deixar de rir, sabe? Nessas horas você entende as coisas mais absurdas do mundo. Por que um país entra em guerra com outro, por exemplo. Para se livrar da juventude idiota – parece um bom motivo. “Vamos deixar esses diabos liquidar uns aos outros” – resmungou algum presidente. Vai saber... A paz arruinou o mundo e agora estávamos condenados a assistir comerciais na frente da t.v. até o cérebro derreter e escorrer pelo nariz.

...
......Eu poderia estar correndo na praia ou levantando pesos numa academia de ginástica. Mas onde moro não tem praia, não gosto de correr – prefiro parar o pé e encarar! - e acho academias de ginástica um parque de diversões para retardados. Nesse caso me restava sentar na sala do apartamento e bebericar uma cerveja. Eu sei que as pessoas pensam: Esse cara só fala em beber, odiar a humanidade e se meter em encrencas! Mas querem que eu fale do quê? Da economia global, aventuras nas montanhas e romances bem sucedidos? – Mais respeito pelo escritor gente... Eu também sofro, ha ha ha. Já imaginou se eu tivesse escrito O senhor dos anéis? “A história de um monte de seres esquisitos que bebiam muito e encontravam um anel e lá pelas tantas iam num bar e tentavam trocar um anel de poder por seis garrafas de vodca boa”. E se eu tivesse escrito a série Harry Potter? “A história de um menino bruxo que tem problemas com o alcoolismo e perde a mina mais gostosa do colégio para seu colega que é militante no partido dos trabalhadores – para se vingar ele funda um partido de extrema direita e tenta reestruturar o nazismo”. Nem pense o que seria se eu tivesse escrito a bíblia: “A narrativa de um Deus psicopata que era chegado numas cervejas mexicanas e em uma certa tarde de domingo decidia inventar a humanidade para fazê-la se foder em tempo integral e depois queimar no inferno cantando em coro ALELUIA”. Paramos por aí.
......Abri o envelope e lá estava a grana. Não dava para pagar o aluguel, não dava para levar uma garota para jantar, não dava para comprar um tênis novo e nem para comprar uma calça de marca. Dava para comprar um brinquedo para meu filho – mas não tinha filho -, dava para comprar um presente simples para uma namorada simples, porém “as mulheres ainda cospem quando eu passo”. Era apenas a restituição do dinheiro que deixei para trás após escapar de uma surra. Dois maços de cigarro. Meia pizza. Uma caixa de cerveja. Dois pacotes de folhas A4 para encher de contos que ninguém publicaria ao menos que não regulasse bem da cachola. “Poderia usar as folhas para preencher currículos e encontrar um emprego descente” – uma voz interior falou. A consciência? Nunca. Só podia ser um espírito maligno e como espíritos malignos não existem, sacudi a cabeça e me livrei dessa voz perversa e corruptora. Fiz o sinal da cruz.
O telefone tocou. Esperei o terceiro toque antes de atender.
_Adriano? – dessa vez foi uma voz de homem sério, grave.
_Talvez... – tentei imitar a voz de um gângster.
_O escritor? – Prosseguiu a voz séria.
_Talvez... – Segui.
_Para com essa veadagem! É você sim. Tenho uma proposta para você... um trabalho...
_Você se enganou, cara. Sinto muito. Não tem ninguém com esse nome aqui... Boa noite e boa sorte! – falei cordialmente.
_Li algumas coisas que você escreve... gostaria que escrevesse um conto longo para nossa editora, mandaremos um dinheiro como adiantamento.
_Ok. Adriano acabou de chegar, deixa eu passar o telefone para ele... – falei.
_Vou entrar em contato logo. Mas só mais uma coisa. Por favor. Você é razoável no que faz... então vê se cria um personagem, pare de falar de você mesmo. Vamos gostar de publicar o seu material. Boa noite.
......Estava preparado para rebater a crítica. Havia embasado muito bem minha poética literária e meus conceitos. Tinha várias frases interessantes para falar. Muitas delas envolvendo “cala a boca seu merda” e “o que que você sabe, seu filho da puta!”; mas o sujeito deligou.
......Fiquei ali, ardendo em ódio no silêncio. Mas como os donos de apartamentos nunca esquecem o maldito dia 5 de cada mês – os desgraçados devem viver para isso! – e as cervejas continuam acabando mais rápido do que a minha existência pode suportar, decidi que esta era, de qualquer jeito, uma chance. Peguei uma folha e uma caneta e imediatamente me pus a trabalhar enquanto ainda havia tempo.
Rabisquei a ideia geral de um conto. As palavras brotaram como se fossem mágicas.
“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo com putas dançando e uma geladeira cheia de cerveja. Corro o lápis em torno da mão e me dou uma garrafa de vodca. E se faço chover, com dois riscos me dou um guarda-chuva. Se um pingo de vinho caí no azul do papel, num instante imagino uma linda gaivota cagando no céu”.

Isso aí há de me trazer fama e fortuna, pensei. Aí está o caminho da imortalidade, concluí e acendi um cigarro.






r.A.