sábado, 21 de fevereiro de 2015

Rir de tudo é desespero ou a "comédia" dos medíocres


Aviso: Se você é fã de stand up comedy e acha isso maaaaaravilhoso, te dou duas opções antes de ler esse texto. 1- não leia, você não vai entender. 2- considere mais uma vez a primeira opção.

         Aquela música chamada “Amor pra recomeçar” do Frejat – muito bonita, por sinal. De saída, ela. “Que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero”. Sim, só essa frase é suficiente, mesmo que eu descontextualize a composição.
 Tai algo que só pode ser uma espécie de paroxismo da sociedade: respiração profunda de um coletivo agonizante! No auge da hiper-industrialização [como denominou o filósofo Stiegler], onde a metralhadora de estímulos não dá trégua para os sujeitos “sincronizados”, onde a exploração se dá justamente na libido dos seres humanos, o sucesso daqueles empresários do riso de desespero é certo.
Não tenho termo mais adequado em mãos: empresários do riso de desespero. Leu muito mal aquele que repetiu a citação: o riso é libertador (libertar-se para que e de quê?). Entendeu pior aquele que ouviu: o humor não tem limites. Nem vale a pena comentar o anônimo que gritou na multidão, entusiasmado por alguns segundos de atenção, que a gente só quer se divertir.
Em uma sociedade onde a ditadura da felicidade superficial é a onda de todos os momentos, provocar o riso a qualquer custo se tornou um negócio rentável. Por que não? Cá entre nós, não é de hoje que o lazer também já é mercadoria que corresponde às disciplinas do entretenimento. Lá vem o empresário que também leciona no seu descompromissado negócio:_ Eu vou te ensinar a rir de tudo, até onde você puder pagar.
O verdadeiro custo desta embriaguez travestida de sucesso (obviamente econômico) é a ilusão de que rindo qualquer coisa se resolve, ou melhor, se paga. A última válvula de escape aos medíocres de todo tamanho. Um manual de comédia ruim aberto até a página 2 – é que na página três havia a palavra “paroxismo”, e usar o dicionário dá trabalho! Um cinismo (no pejorativo) sem conteúdo de uma geração que perdeu todos os critérios de “gosto”. Um deboche gratuito que não é direcionado a nada, exceto a afirmação de ser ridículo – paradoxalmente como fuga de se sentir ridículo e vazio.
Feliz foi Platão que tinha Aristófanes para lhe torrar o saco. O nível intelectual dos empresários do riso de desespero é tão baixo que o máximo de uma resposta que podem formular a uma crítica não passa de:_ Você está com inveja da minha carreira bem sucedida! (Também é o mais próximo de uma frase com algum motivo para se rir com gosto).
Que seus principais nomes sejam imbecis declaradamente, só vem a somar ao reconhecimento de seu “tipo” de público. A admiração pela idiotice aguda e atenuada é o registro evidente da ausência de uma gota de consciência crítica. A incapacidade de ser algo próximo ao que se entende por comediante só é compatível ao asco que provocam em qualquer um que conseguiu desligar a t.v. no inicio de um programa de auditório. O desempenho nítido de um contrato constrangedor: Vou rir porque paguei, vou fazer rir porque recebi. (Pelo menos nos programas de auditório o público ri por piedade, porque recebeu lanche e condução).
Não há quem não tenha ouvido falar de atores miseráveis que se entusiasmaram com o “poder” do negócio todo. É quase uma equação matemática: Fracassa no teatro, cresce o olho nos empresários do riso de desespero. Agências de todas as cores – e com todas as promessas – pagam suas contas com o dinheiro dos que suspiravam mais sonhos de aplausos do que qualquer outra coisa na vida. Na miséria – principalmente intelectual – o anúncio de um atalho escorre feito mel no ouvido.
Lá vem o empresário com a boa nova: Humor politicamente incorreto. O termo diz tudo embora pouco se tenha prestado atenção – faltou aula de interpretação, quem sabe. É incorreto porque nem chega perto de ser humor e nem tem qualquer coisa de político. A terceirização dos roteiros nem chegam a garantir uma qualidade literária mínima. Ali se opera o bem conhecido gozo infantilizado de “falar mal” de uma “autoridade política” que no fundo agradece pela militância dedicada e indireta. Marketing negativo em favor da própria banalização da política – já banalizada por conta própria. Desserviço ético-social em nome de um riso desesperado e amargo. Masoquismo disseminado e bem encapado. Mas há quem encha a boca e estufe o peito para dizer:_ Tai um sujeito muuuuuuuuuito inteligente. Você acredita nisso? Esse latido de cachorro morto vende bem!
Contexto social hiper-industrializado que consome o próprio desejo de consumir até o esgotamento. Hiper-indústria que injeta o riso imediato com a premissa de que Todo mundo é banal, todo mundo é risível, todo mundo é patético, todo mundo é lamentável. Pague e ria na coleira. No esteio deste riso uma inexpressável vontade de chorar.
Agora você quer me perguntar, finalmente, o que isso tem de arte, o que isso tem de teatro? – ou apropriação de elementos teatrais?


r.A.

“Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno”.
_Antonin Artaud.

“...Acho que não!”

_eu.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Um dia eles vão te reconhecer (e você vai se arrepender!)

[ao som de Seven Shades – Babyshambles]


“Era uma vez...”
Na frente da universidade.
_Porra cara, você está com uma aparência horrível! Tá acabado ein?
_Não tão acabado quanto estarei em breve... – sorri.
         Quem falou comigo foi Renato. Um sujeito alto, barbudo, com cabelos encaracolados e longos braços finos contrastando com uma barrigona de cerveja.
         Na feiura estávamos num páreo difícil. Preferia pensar que não estava ganhando. Mas a verdade é que realmente estava acabado. Olheiras, a barba por fazer, havia perdido bastante peso – só músculos, nada de gordura – e meu tênis acabara de descolar perto do dedão. Quem me via de longe já pensava: tai um cara esperando a morte.
_Parou de escrever, não é? Nunca mais tive notícias de seus textos circulando por aí. – disse batendo com o punho no meu braço.
_Pois é, eu tô acabado! – resmunguei.
_Tá fudido mesmo. – devolveu ele.
_Fudido não, cara. Só acabado. – acendi um cigarro.
_É a mesma coisa! – ele riu.
_Não é não. Estou acabado demais para estar fudido...- fiz questão de soltar a fumaça na direção dele, mas o vento desviou.
_Estou indo para o bar aqui do outro lado da rua. Não tá afim? – disse coçando o saco.
_Não, vou deixar passar essa. Beba umas por mim. – resmunguei me afastando.
_Cê tá acabado Adriano! – atravessou a rua rindo.
         Desci a rua da universidade evitando olhar para meu reflexo nas vitrines das lojas. Para um cara como aquele dizer que eu estou acabado, minha situação não deve ser das melhores.

***
No mercadinho da esquina de casa.
A mesma atendente de sempre. Sua voz infantilizada, seu sorriso fingido, seu olhar vazio, o buço por fazer – ninguém gentil o suficiente para lhe avisar.
_Uma vodca, um energético e um saquinho de amendoim. Vai escrever então?
         Demorei um pouco para reagir à pergunta. Estava olhando uma tatuagem no ombro de uma moça. Desconfiei que o objetivo era simbolizar uma borboleta, mas estava parecendo mais é um chiclete pisoteado na calçada. Nunca vou entender porque as pessoas fazem certas coisas consigo mesmas.
_Como é? – disse depois de um minuto.
_Você. Pelo visto vai escrever. O pessoal daqui comenta que você é escritor. Acho que eu vi um texto seu uma vez, no jornal... – sorria, como ela sorria!
_Nunca. Eu não sou tão miserável assim para escrever em jornal. – devolvi, tentando não ofender.
_Ele é escritor? – resmungou uma loira atrás de mim na fila. – ah! Que livro você publicou? Eu adoro escritores!
_Já ouviu falar de um livro sobre um garotinho que descobriu que era bruxo e ajudou todo mundo a vencer um cara malvado... – falei.
_Claro que sim! Minha filha adora esse livro. Meu deus, você escreveu aquilo? Nossa! Você é famoso mesmo ein. Quem diria...
         Paguei minhas coisas e caí fora. Eu devo estar acabado mesmo, pensei. Até minhas piadas estão ficando patéticas.

***
Na sala, olhando para a parede.
Quando eu tinha 17, sem saber como resolver uma briga com uma namoradinha, propus-lhe casamento. Ela encheu os olhos de lágrimas. “Você não devia brincar com os sentimentos das pessoas dessa forma”. Fiquei me segurando para não cair na gargalhada. Pelo menos a raiva dela passou. Foi em Schopenhauer que li sobre o mundo ser dividido entre diabos atormentadores e demônios atormentados. Alguma coisa assim. Parece que não há muito mais para fazer a não ser atormentar ou ser atormentado por alguém. Quanto a mim, parece que enquanto as pessoas estavam aprendendo coisas úteis para a vida, estava sempre decorando alguns truques sujos.
_Ainda bem...
***
Grazzi, no facebook.
_Foi você que saiu deliberadamente da minha vida!
_ “Deliberadamente”? Tai uma coisa interessante. Não sabia que você usava palavras deste tipo.
_Esse é seu problema. Você se acha inteligentíssimo demais, vive debochando das pessoas. Você é um escritorzinho metido que vive para o próprio ego.
_E bom de cama.
_Nem tanto assim. Conheci caras melhores!
_Não disse que sou o melhor, apenas que sou bom. (risos).
_Tá vendo? Não consegue falar sério com ninguém. Sempre aparecem esses deboches desgastantes.
_Acontece que sou um cara sensível que disfarça sua sensibilidade com ironias. E faço isso porque toda vez que me aproximo das pessoas, elas são insensíveis demais para notar meus detalhes...
_... poxa vida, você esta falando sério mesmo? Desculpa...
_Não. Na verdade essa é mais uma daquelas piadinhas.
_Filho da puta. Vou te bloquear! Até nunca mais.
_Até lá!

***
Depois do bloqueio.
Conselhos de superação. Animaizinhos engraçadinhos. Briga política. Matéria jornalística sensacionalista. Detalhes da vida pessoal de alguém que dá sono só de pensar sobre. Frases de autoajuda.  Correntes de fé. Indiretas. Convite para jogo online. Trechos de músicas cafonas. Citações de poetas mimimi. Fotos de animais de estimação. Convite para participar de grupos. Gente que tira foto do que está comendo. Gente que confirma presença em alguma coisa pensando que todo mundo vai resmungar: óóóóh! Como ele é cult! “Quem acredita em Deus compartilha, quem está nas garras do capeta só olha” – eu só olho, claro! Foto no espelho da academia para mostrar o rabo torneado. Mais um conselho de superação. Meu organismo se manifesta em sinal de protesto: diarreia seguida de vômito. Ou fui eu que bebi demais?

***
Bar perto da universidade.
Eu sou brigão pra caralho. Me aproveito dos esquentadinhos para aliviar a sede de porrada que minhas mãos manifestam o tempo inteiro. “Se você estivesse escrevendo, essa raiva toda teria sido direcionada para alguma coisa útil” – reflito enquanto cruzo a porta do bar, cambaleando e com ar de indiferença.
_Não há mais o que discutir com você! Vamos lá para fora! – Gritou para mim um cara.
         Loiro, alto, devia gastar o tempo vago dele puxando ferro na academia para depois compartilhar as fotos. Pobre homem... não sabe do que um vagabundo, como eu, é capaz.
_Vamos lá grandalhão, levanta essa guarda! – resmunga. Anda em círculos em torno de mim.
_ALGUÉM CHAMA A POLÍCIA! – a namoradinha do cara. Bonita, mas meio idiota.
         Ele me acerta primeiro. Muito amador, tem medo de acertar o rosto, bate no peito. Começo a rir. Lá vem outro murro. Deixo que me acerte na barriga. Me curvo, que nem nos filmes do Van Damme. É uma comédia, não consigo parar de rir.
_Renato, aposta aí cara! Joga cem em mim, rápido.
_Para com isso aí cara. Você tá acabado! Eu não tenho esse dinheiro para apostar, porra! – Devolve ele. Está com medo.
_Aposta mesmo assim, seu imbecil!
         Encaro Renato. Estou prestes a abandonar a briga com o loirão da academia e descer o braço no Renato. Ambos percebem. Renato finalmente aposta.
          Acendo um cigarro. O povo em volta começa a rir. “Olha só esse cara, não tem noção do perigo. Tá achando que tá num filme”. Do sorriso passo para a gargalhada. O loirão vem pra cima com vontade. A namoradinha dele grita novamente. Os garçons curtem, o dono do bar urra: Parem com isso seus merdas!
         O loirão erra por um centímetro. É forte, mas não sabe onde bater. É na orelha que tira o equilíbrio, no nariz que deixa cego e no queixo que derruba. Ele passa do meu lado em câmera lenta. Acerto em cima da orelha com a esquerda e na nuca com a direita. Começo a ficar preocupado porque ele não cai e eu estou bêbado.
_Você se acha Adriano! – diz ele, se recuperando. – você é um lixo! (o povo aplaude).
_Pare de falar. – respondo. – se eu quisesse conversar ia no programa da Fátima Bernardes.
         A piada foi boa. Ganhei o público.
         Dessa vez ele avançou no rosto. Me acertou na bochecha. Ouvi o som do meu maxilar estralando. O cigarro caiu da boca. Não gostei nem um pouco do gosto de sangue.
         Ameacei na orelha de novo e ele fechou a guarda. Mas não fechou muito bem. Mirei no meio do nariz, mas ele recuou e por isso acertei na boca. Calculei mal à distância. Não era para acabar ali, minha intensão era divertir o povo mais um pouco. O loirão caiu e saiu rolando.
         Algum amigo dele tentou interferir. Errou o soco também e levou uma bofetada em cima do olho esquerdo. Se encolheu no chão e me deu pena. Juntei meu cigarro do chão e fiquei olhando para o pessoal. Era como se eu fosse um mágico numa festa de crianças. Estavam esperando eu arrancar um coelho da cartola.
         Renato me puxou pela camisa e saiu me arrastando. “Pega a grana Renato” – gritei. “Que grana seu filho da puta, você vai ser preso!” – Devolveu ele.
         Não consegui chegar na esquina e a polícia me pegou.
_Você se acha durão? – Perguntou o policial.
_São seus olhos, bo-ne-ca! – Retruquei.
POW. Meu ouvido zunindo uma melodia do Bach. Quando me acertou o outro ouvido eu pensei estar ouvindo Richard Wagner ou Nirvana.
...E eu que era um cara tão legal. (essa frase aí eu roubei)

***
         Réu primário. Não que eu não tivesse aprontado antes. Mas nunca tinha sido pego, pelo menos. O pai do Renato é advogado e ele também – apesar da maconha e da cocaína que vive carregando nos bolsos.
         Quando eu acertei aquele soco nas fuças daquele cara, não foi ele quem eu acertei. Acertei a minha vida, no meio da cara. É isso que acontece com sujeitos que enlouquecem por um momento. Nunca são os outros, é o diabo atormentador que resolveu pegar para cristo o demônio atormentado. Sem vítimas, pegou a si mesmo. É assim que você progride de um degrau ao outro. De acabado para fudido.
         Para uma pessoa comum – e comum quer dizer domesticada-, isso é incompreensível.
_Ainda bem...

***
Na estação esperando o metrô.
A multidão que olha para você e da perspectiva de cada um, você é que é a multidão. Suas dores e suas alegrias não significam nada além de um ponto falho perdido no meio de uma malha agitada. Seus sonhos e suas metas, apenas uma pequena fagulha em um fogaréu. Uma mistura de suportável com insuportável, uma compreensão íntima da gratuidade de sua existência. Não ser apenas “mais um” é a denúncia da importância a qual você se apega desesperadamente, a importância que agrega a si mesmo. Que no fundo poderia ser “qualquer um”.
         O metrô aciona seus freios e o som do metal chorando salta para dentro de sua consciência. É a melodia incrível de sua condição de célula em um organismo que despreza seu desejo de individualidade.
         No íntimo, todos nós estamos “acabados”. Não há mais o que nos salve na estação esperando o metrô. No íntimo, todos nós, sabemos disso. Mas nossa vida segue fingindo que não. Fingir é a nossa condição.
         Você pode aprender essas coisas lendo Cioran ou refletindo sobre a obra Guernica de Pablo Picasso. Ou no metrô.

***
         Um dia eles vão te reconhecer (e você vai se arrepender!). E essa manhã eu acordei me sentindo muito melhor. Sabe quando o sol joga seu calor pela porta da sacada do apartamento e ao mesmo tempo uma brisa fresca transpassa seu corpo? Isso eu odeio também, mas ainda vai escurecer. Se não me engano ainda tem um resto de vodca na geladeira.
 “Viveram felizes para sempre”.


r.A.


p.s. Caso você seja alguém que já viveu uma relação intensa comigo, não me bloqueie no facebook só porque eu estraguei tudo. Isso me faz perder a fé no amor e prejudica minha escrita. Obrigado.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

5 minutos assistindo televisão



        Por acaso ou por acidente trágico? – Não sei especificar. Eis o fato, assisti – depois de muitos anos – 5 minutos de televisão. Isso mesmo, “televisão aberta”, como dizem. Acho que fiquei dez anos mais burro!
     É óbvio que pretendo nunca mais em minha vida passar por uma experiência dessas. Foi tão angustiante que tremo até agora, enquanto escrevo.
 Primeira coisa que percebi é que a programação é tão apelativa que é difícil você não olhar para a tela. Todo mundo grita, luzes piscam, bundas aparecem*. Bem, para alguém que fazia muito tempo que não via – de maneira que praticamente ignorava a existência dessa coisa – foi uma espécie de susto.
Depois do susto, simplesmente congelei diante da tela. Nos primeiros segundos eu vi tanta coisa idiota ao mesmo tempo que quase uma baba escorreu pelo canto de minha boca paralisada. Lembrei que uma vez eu acreditava em algum tipo de autonomia cognitiva do sujeito diante dos aparelhos – que nada, pego assim, de surpresa, seu cérebro traumatiza instantaneamente.
Depois dos minutos vendo gente sorrindo para mim – mais felizes do que alguém que acabara de transar direitinho -, imagens, sons e informações quase “psicodélicas” (tai o “caos” que vocês queriam) -, como dizia, depois dos minutos e um intervalo comercial, consegui beliscar meu braço e escapar da paralisia mental.
Desliguei a desgraça. Interessante que eu ainda lembrava que havia um botão para desligar a coisa – se não fosse isso eu a teria atirado longe.  
         Fiquei pensando: É isso aí que o povo (em geral) assiste por horas? É daí que retiram seu vocabulário, suas noções de vida, suas “cosmovisões” (risos), seus padrões ideais para todas as coisas – beleza, sucesso, justiça, amor -, é daí? E eu que criticava os jornais e as revistas – a internet, principalmente...-, rapaz, tem coisa pior no mundo e eu não lembrava!
         “Cultura e entretenimento para toda família”. Pensar que eu me assustava quando lia o livro Apocalipse – na bíblia. Televisão é muito pior! Pelo menos na bíblia, por mais tosca que seja – sim, eu acho a bíblia um livro escrito com muito pouca criatividade -, o inferno é sério. Tem fogo, tem dor, tem punição, coisas interessantes – mais interessante do que músicas de heavy metal, com certeza – mas...mas... “cultura e entretenimento?”. Gente, “temo fudido!”
         Talvez você seja uma das pessoas que ao lerem até aqui concordem comigo e sussurrem: _Prefiro livros! Sinto desapontá-los. Eu não prefiro livros – a maioria dos livros são um pé no saco! Prefiro três anos de silêncio e cerveja gelada.
         O que leva alguém a assistir televisão invés de ir pentear um macaco? Ir ao bar? Trair o namorado (a)? Arrumar uma briga com o porteiro do condomínio? Programa de família... Prefiro a zona! Pegue sífilis, mas não assista televisão!
         “Eu não assisto televisão, eu frequento o Sesc para assistir a programação cultural” – RARARA!, puta merda, é melhor pular esse parágrafo.
         “Entretenimento, mas com cultura”, me dizem uns por aí. A galera curte, cara. Estão salvando alguma coisa. “O importante é fazer a sua parte”. São essas coisas que me fazem rir.
_Então r.A., já que não reconhece a contribuição das mídias para a formação da sociedade democrática, apresente alguma sugestão!
         E eu sou lá sujeito que dá sugestões? Eu nem se quer vendo sugestões! – que eruditos e estilistas e jornalistas façam fortuna com isso. Ex. Luiz Felipe Pondé, Juremir Machado – dois dos maiores mercenários das sugestões!
_Então você é dos que fazem a crítica pela crítica? – Dessa vez deve ter sido um intelectulóide que perguntou.
         Que crítica? Vai criticar o que num monte de merda? Moscas que voam em círculos? Nem é o caso de falar de alienação – essa palavrinha que todo metido a politizado de bodegão gosta de cuspir nos coleguinhas -, ninguém é ingênuo aqui por essas bandas. Ou você acha que sua mãe nunca fez um boquete?
[“r.A., você está falando muito palavrão hoje!” – “tá bom mãe, mais dois e eu juro que paro!”]
         Eu não sei se você notou – eu notei – que nas últimas eleições todos os jingles de campanha respeitaram a métrica televisiva. (Eu me dei conta disso em 5 minutos). A métrica, a trilha sonora e toda apelação “estética”. Isso, para mim, revela o que todos os pretendentes ao governo do país pensam do “povo”. Eu sei que essas coisas custam alguns milhões. Pagaram milhões para dizer para o povo que acham eles/você/eu um bando de imbecis – em cadeia nacional. E depois esse mesmo povo, tratado como retardado, foi feliz exercer sua autonomia (obrigatória)**. E se sentiu cidadão, com orgulho, - um orgulho de idiota, mas convenhamos, ainda era um orgulho.
_Pelo menos eu elegi o menos pior!
         O menos pior? Então faça uma bandeira aí com meu texto e saia desfilando pelas avenidas do mundo*** – quem sabe meu texto não seja o menos pior, ein? Aposto com você que eu meti bem menos no teu rabo e te chamei bem menos de imbecil do que a galera no horário eleitoral. Detalhes que aprendi com 5 minutos de televisão, não me leve a mal. – ai está meu padrão de excelência!
         Mas cá entre nós, eu não contaria o que eu penso disso para qualquer um, mas para você eu vou contar. Eu desconfio que essa existência é dolorosa e difícil demais para ser pensada, assim, encarada de frente, olho no olho. E a cultura – se cultura for um certo acúmulo de experiências e conhecimentos ao longo da história humana – não é sempre doce; aliás, penso que seja bastante amarga. A cultura é doce para o poeta que se goza lendo Leminski!
 Dado isso da existência e da cultura, eu entendo porque a televisão faz a cabeça do pessoal. É preciso um nível exacerbado de idiotice para viver em paz e ser feliz – na maior parte do tempo. Daí que a televisão é tipo nosso novo Deus. Desconfio que alguém que não ligue a televisão todo dia não saberá muito bem o que fazer, o que pensar, como se vestir, o que comer, como falar. E não é?
_Se apareceu na televisão deve ser Verdade!
         Andy Warhol (aquele bunda mole da Pop Art) dizia que no futuro todos terão seus 15 minutos de fama. É o tipo de ironia debochada que se torna uma utopia religiosa – o sonho ridículo de quem ainda não se sentiu estúpido, mas quase. Se você deixou seus 15 minutos passar não corte os pulsos. Uma vez que os historiadores estão em falta do que pesquisar nas universidades, logo logo você verá que no passado também é possível ter 15 minutos de fama. Nunca é tarde quando é tarde demais.
         Se você lembra ainda do primeiro parágrafo do texto, já sei especificar. Foi um acidente trágico. E se você sabe da peça Édipo Rei escrita por Sófocles, sabe também que se não for capaz de decifrar o enigma de uma esfinge será devorado. Dessa eu escapei ou...
                               

r.A.

______________
* “Bundas aparecem”. Não que eu seja contra as bundas, de forma alguma. Se houvesse uma marcha na Av. Paulista para que as bundas aparecessem eu estaria lá com meu cartaz de protesto – comprado junto com a camisa do Che, no shopping Center III; sim, foi promoção. Nesse tipo de coisa eu sou fervorosamente engajado – um militante convicto! Desde os 8 anos (quando vi a capa de um Lp da Xuxa) eu luto pela legalização das bundas, mas que existam lugares apropriados para seu consumo e contemplação. Eu tenho consciência do vício.

** “Autonomia obrigatória”. Você não é livre nem nos seus sonhos colega! Seus candidatos – representantes – não foram escolhidos por você e você não decidiu nem de longe sobre o plano de governo que estão socando na sua goela. Você só foi na urna e “botonou”. Se eu fosse você, pensaria duas vezes antes de achar que ser um “cidadão” é uma coisa boa.


*** “Faça uma bandeira com meu texto”. Não. Não faça. Eu estava brincando. Do jeito que as massas estão entusiasmadas com o “menos pior”, temo que o simples fato de ter feito essa ironia possa trazer graves consequências. Tá afim de fazer uma bandeira e sair pelas avenidas do mundo? Considere a possibilidade de que uma bandeira custa o mesmo preço de seis cervejas. Beba e pare de ser histérico (a). 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

As fantásticas aventuras de um cara sem propósito


(Ao som de Men At Work - Down Under. Porque sim)



_Adriano, você é um imbecil!
         Foi assim que nos conhecemos melhor. Se não fosse o nojo recíproco naquele momento, poderia ter sido amor à primeira vista. Era uma tarde horrível como essa e cruzei minha enorme carcaça negra e mal humorada com Janete e seus amigos no estacionamento da universidade. “Maconheiros de merda” – sussurrei para o grupo. Foi aí que Janete me chamou pelo nome. Fiquei tão ofendido que quase escorreu uma lágrima no canto de meu olho esquerdo – vai nessa, ra ra ra!
_Puta cara conservador esse aí, né Janete? – alguém falou nas minhas costas. Alguém com uma barbinha suja.

***
         Queria mesmo conservar alguma coisa além do hábito de beber toda noite. Passava dias sem comer, mas continuava barrigudo e inchado. Qualquer coisa de destino – foi assim que Deus quis!
         Entrei na sala para assistir uma aula de psicologia clínica. Sentei nos fundos para ter uma visão estratégica. Turma cheia. Havia apenas mais dois caras. Todos fazendo pose – e se encarando com o canto do olho. Nada mais óbvio do que nossos motivos.
         No intervalo três garotas se aproximaram. Clarice, Janaina e não entendi o nome da outra. Sorriam.
_Começou hoje? – falou Janaina, mexendo nos cabelos loiros.
_Apenas ouvinte. – resmunguei.
_A gente veio te convidar para uma festa do centro acadêmico... – disse a que eu não lembro o nome. Tinha os cabelos curtos, magra e alta.
_Olha, é possível que eu vá. Mas não prometo.
_Ah, deixa disso. É bom para você conhecer o pessoal. – Janaina novamente, ainda mexendo nos cabelos.
_Não prometo. – devolvi.
         Me passou o endereço. Era na casa de alguém. Entrei na sala, peguei minhas coisas e caí fora. A professora parece que não gostou muito. Particularmente eu gostei de tudo, isso é que importa.

***
         Cheguei na festa. Um enorme casarão de dois andares. No portão de entrada, dois caras meio sofrendo de anemia aguda. Um de óculos, barba suja – as gatas se amarram; dizem por aí. E outro com uma camiseta branca com uma estampa do Bob Marley. “Dei um tiro no xerife”. Achei engraçado.
_E aí, beleza? – o do Bob Marley apertou minha mão. O da barbinha suja virou a cara.
_Tem que pagar?
_Sim cara. Estamos arrecadando fundos para um jornalzinho subversivo que escrevemos.
_Abaixo o capitalismo, menos opressão, essas coisas... – resmunguei.
_É esse o espírito brother!- deu um tapinha no meu ombro.
         Paguei os 20 e entrei no casarão. Quase cinquenta metros do portão até a casa. Uma piscina embaixo de uma sacada. Só faltou um mordomo para me receber na porta. E eu com uma calça jeans rasgada nos joelhos. Olhei para o desfile de moda do pessoal correndo pela casa e me senti um cara que veio dos anos 90. Vai ver eu fiquei velho, pensei.

***
         Encontrei Janaina – dentro de um vestidinho preto e em cima de uns saltos. Não estava mais tão simpática, provavelmente eram minhas calças. Não combinavam com o visual da festa revolucionária. Contei uma piada sem vergonha e ela finalmente riu.
_O que ele está fazendo aqui? – alguém gritou.
_Colaborando com a causa! – respondi antes de me virar.
         Dei de cara com Janete. Também de vestido e de salto. Mudar de roupa fez bem para ela. Até o brinco no nariz ficou mais charmoso (brinco no nariz, para quem veio dos anos 90, se chama piercing). Janaina sorriu e arrumou uma desculpa para se afastar.
_A casa é minha! – falou Janete, raivosa.
_Parabéns, é uma bela casa. – devolvi.
_Fica mais bonita se você estiver do lado de fora! – fechou os punhos para mim.
_É, olhando de fora parece mais bonita. – sorri.
_Eu não gosto de você Adriano! Suas piadinhas me irritam!
_Isso é uma pena. Porque eu estava passando aqui na frente da sua casa e pensei em entrar e pedir sua mão em casamento para seus pais.
Nem ela conseguiu se segurar e riu. E ficou com raiva porque riu.
_Se começar com seu showzinho de debochar das pessoas, vou te arrebentar essa cara de peixe-boi. – ameaçou tentando conter o riso.
_É por isso que você está com trinta anos e solteira! Ameaçar seus pretendentes não apimenta a relação.
_Não tenho trinta anos e não temos nenhum tipo de relação! – apontou o dedo para mim.
_O futuro é imprevisível! – falei perto do seu ouvido.
_Você é muito descarado. – deu ênfase no “muito”.
_É uma questão de saber interpretar. – comentei olhando nos seus olhos.
_Cala a boca! – disse sacudindo a cabeça e me deu as costas. Saiu pisando forte no chão.

***
         Procurei Janaina. Não que tenha procurado muito, mas achei. Outro cara achou primeiro – infelizmente para mim. Estavam se beijando perto da escada que dava para o segundo andar da casa. Reconheci o cara pela camiseta. Esse negócio de andar por aí fazendo apologia a atirar nos xerifes funciona com as mulheres. “Isso aí deve ser muito rebelde” – desconfio que elas comentam umas com as outras. Sei lá.
         É a idade. Mais cinco anos e todo mundo vai me chamar de tio. Por hora olham para mim e pensam: Tá quase um tio, ein? Se sua mãe tem uma irmã – cuidado comigo!
         Tomei mais dez cervejas para garantir a consumação da grana que dei para os “camaradas”. Alguém do bendito jornalzinho me reconheceu e pediu se eu não poderia colaborar com um texto.
_Posso falar mal do Bob Marley?
Uma baixinha, morena, com os seios saltando de um decote sorriu para mim e resmungou.
_É claro que não pode! Manda um daqueles seus contos das fantásticas aventuras de um cara sem propósito. A galera adora ler essas coisas. Todo mundo acha engraçado.
_Então não vou enviar bosta nenhuma! – disse seco. Esse tipo de resposta é possível comigo quando a bebida já começou a agir.
_Tanto faz, você não é um escritor famoso mesmo!- comentou a baixinha. 
_Isso que você disse é coisa de gente ressentida! – acusei.
_Você que é ressentido. – devolveu, bufou e deu no pé.
         Quase escorreu a lágrima novamente. Mas não foi dessa vez. A única reação foi uma coceira na ponta do pé. O pé doidinho para acertar o meio da bunda da baixinha peituda. Se ela estiver lendo isso, espero que saiba que já rezei para que Deus murchasse pelo menos uma de suas tetas. Se a fé move montanhas, não deve ser difícil murchar qualquer coisa. Amém.
        
***
         Acordei com dor de cabeça. Não lembrava como e quando cheguei no meu apartamento. Podia ser pior – porque já foi pior. Mais sozinho que um sapo seco na beira do asfalto. E menos vivo.
         Mais uma coisa. Outro dia encontrei Janete no refeitório da universidade. Deu uma de humana e pediu desculpas pela discussão na sua casa. Para falar a verdade eu nem recordava.
_Nem sei como acabou aquilo tudo. – confessei.
_Tá falando sério? – disse indignada, gesticulando com as mãos.
_Sim.- respondi convicto.- Às vezes eu falo a verdade também.
_Bem, você pegou um cara pelo fundo das calças e atirou ele da sacada dentro da piscina da minha casa e resmungou “ninguém atira no xerife nessa festa”. Eu sabia que você daria um jeito de estragar tudo desde que te vi. – pelo menos ela sorria enquanto falava. – aí eu pedi para você ir embora se não eu iria chamar a polícia.
_Muito justo – murmurei um pouco envergonhado – e depois?
_Você não lembra mesmo? – disse ela, tocando meu braço.
_Não. – respondi olhando nos seus olhos. – Não lembro! – repeti.
_A gente se beijou, seu idiota!
_Isso é impossível. – sorri.
_Também achei. Sorte sua não lembrar. – bufou.
_Outro dia a gente tenta de novo. – falei enquanto ela se afastava.
_JAMAIS! – urrou sem se virar.
Fiquei rindo. Não podia acreditar. E nem vou.




r.A.

ps. Acho que é importante eu avisar que esse conto é uma ficção. Ou quase.

sábado, 4 de outubro de 2014

HOSANA NA SARJETA - Marcelo Mirisola


"Você jamais vai amar alguém na vida!" - M.M.


         Geralmente escrevo sobre escritores mortos. Não sei muito bem o motivo, mas me parece que os mortos decepcionam menos. Portanto em uma madrugada perguntei: E dos vivos? Tem alguém que se salva? – E me veio o nome de Marcelo Mirisola com sua obra: O Azul do Filho Morto (2002). Não que esse cara vá se salvar, mas a obra dele vai!
         Mirisola está lançando Hosana na Sarjeta (2014) pela editora 34. A obra chegou a minhas mãos ontem. Minha impressão: Se Mirisola fosse um boxeador e seus socos tivessem a precisão e peso de sua prosa, Mike Tyson –no seu auge-, (se comparado com Mirisola), poderia lembrar uma boneca Barbie.
         Se você gosta de “frescuras & floreios” quando se trata de literatura, eu não me espantaria nem um pouco de você não conhecer a escrita de Mirisola. Agora se você se diz conhecedor dos “velhos cães que brigavam tão bem” e não conhece esse nome, muito provavelmente na questão literatura brasileira atual, está te faltando Hosana na Sarjeta entre seus livros.
         Marcelo é o tipo de escritor que pisa no próprio pescoço já na saída. Não é dos que ficam rebolando no alto jogando purpurinas pra baixo. E no chão sua escrita fica mais perigosa. Com um pé no próprio pescoço, a outra perna livre lhe aplica rasteiras para que você – leitor – aprecie a existência por outro ângulo. Ele não te convida para novas perspectivas – ele te derruba!
         Em um cenário de literatura nacional onde escritores (as) fazem coraçõezinhos e apodrecem seus dentes com tanto açúcar, a obra Hosana na Sarjeta é como um dos amados touros de Hemingway correndo em direção contrária. Até o espírito da dona Zíbia G. se vê com um chifre atravessado na bunda. Daí que poucos tocam no seu nome – quem quer um touro desmascarando a festinha de gente que só publica, mas não se dá ao luxo de escrever?

***
         Hosana na Sarjeta, como o termo pede, já começa professando uma ‘crença’ no seu prólogo: “Houve uma época, antes da internet, que eu acreditava 50% em encontros e 100% em desencontros. Acreditava, inclusive, que encontros somente teriam possibilidade de acontecer em função de desencontros. A vida era óbvia, o universo não levava porcentagens em consideração e conspirava por qualquer coisa [...]”. É nessa grande decomposição que Mirisola em sua autoficção quebra às vertebras do encontro e espia o desencontro. Se você está acostumado com os cafonas encontros de amor da literatura comum (com-um), já é atirado no chão pela obviedade desiludida do desencontro.
         Invés de ficar adiantando a obra com citações e comentários, deixe-me apresentar mais dois pontos que na minha compreensão superam muito bem a necessidade de um enredo, mas asseguram qualquer coisa de coerência. Mas essa “coerência” logo logo se decompõe na narrativa desse escritor que não tem nada de óbvio.
         Quem seria capaz de olhar para um céu tão feio como o céu de São Paulo? Essa obra, em seus cenários bem pontuados, bloqueia esse dirigir os olhos para o céu com esperança (se ele não aprendeu isso com Cioran, deve ter inventado). Essa feiura faz Hosana despencar do céu para a Sarjeta. E aí tem uma mulher, “sem mulher, não há movimento” – escreve Mirisola. Se o céu de São Paulo é um limite poluído, no chão a gente improvisa beijos: “O beijo nos explicava. O beijo apagava o entorno. Essa era a única certeza que tínhamos, nosso beijo. Depois Ariela subia no táxi e ia embora”. Alguma certeza no desencontro. Mas nas forças que Mirisola desvela, até a menor certeza, se estraga.   
         Um dia, imagino, alguém vai tentar apreender a força transbordante que Mirisola exerce na sua escrita – lembra que eu disse que ele seria bom de boxe? -, e nesse dia acho que entenderão que a questão não é a técnica de não usar um roteiro, mas a técnica do roteiro não suportar suas ininterruptas bofetadas! – o cara bate com as duas mãos enquanto escreve, como se suas mãos fossem patas de cavalo.
          A autoficção de Mirisola é arrastada de um lado para outro por duas mulheres. O pior é que elas não o puxam – cada uma em uma ponta -, é o personagem M.M. que se arrebenta pulando de um lado para outro. (Sobre isso, leia o livro, não cabe a mim explicar esse parágrafo).
         E o terceiro ponto que prometi acima passa perto de um encontro. Tão perto que arranca uma faísca nessa fricção! (Eu chamaria essa obra, Hosana na Sarjeta, de “fricção”, não de ficção!). Uma metáfora num pesque e pague ao som de Chitãozinho & Chororó: “Homens e peixes cumpriam seus destinos & enroscos: mais cedo ou mais tarde seriam engolidos uns pelos outros. A vida fisgada pela morte. Resumidamente, esse é o enredo das histórias de amor”.
Agora eu estou no epílogo desta obra. E ali salta aos olhos um termo que deve ter sido demasiadamente caro ao escritor. “Enrosco”. Se o desencontro, nessas questões de Amor, revela que o universo “conspira qualquer coisa” e a “graça” de Hosana despenca na Sarjeta, nada –na vida e na morte- nos poupa do Enrosco. O Amor é o Enrosco violento e avassalador da nossa vidinha de Desencontros? Eis uma pergunta que você só será capaz de sentir o peso se deixar Marcelo Mirisola te dar uma rasteira diante do seu livro. Confesso que Hosana na Sarjeta me nocauteou com sua história – Desde Bukowski, isso não me ocorria!
_Quem diria! Finalmente encontrei um escritor vivo!

***
         Marcelo Mirisola – eu nunca escrevi tantas vezes o nome de um cara em um único texto – tem 47 anos e é um paulista radicado na ponte-rodoviária Bexiga- Rio de Janeiro há dez anos. Escreve e dá patadas no blog Yahoo! (Se você duvida, vá lá conferir).
Já escreveu mais de uma dúzia de livros e apesar das patadas nunca relinchou para se comunicar com seus semelhantes. Como já disse no início desse texto, não acredito que ele vá se salvar, mas a obra dele vai.
 Aparentemente não gosta de piadas que envolvam Machado de Assis – eu tentei uma e ele quase me chamou para fora de um bar para trocar uns socos!
 Já viveu em Santa Catarina e esse é seu único ponto fraco – o meu também. Não fuma e bebe vinho chileno moderadamente no gargalo.
         Dizem por aí que ele já fez coisas bem piores, mas essa história vai ficar para outro texto.
_Ça suffit!


r.A.
        
Livros já publicados:

1998 – Fátima fez os pés para mostrar na choperia
2000- O herói devolvido
2002 – O azul do filho morto
2003- Bangalô
2003- O banquete
2005- Joana a contragosto
2005 – Notas da arrebentação
2007- O homem da quitinete de marfim
2008 – Proibidão
2008 – Animais em extinção
2009 – Memórias da sauna Finlandesa
2011 – Charque
2012 – O cristo empalado
2014 – Hosana na Sarjeta