sexta-feira, 26 de junho de 2015

É sempre tarde

(O Desenho para esse conto foi especialmente produzido pelo Artista Emerson Ferreira da Silva) *


“Tudo está nas mãos de um homem e ele o deixa escapar por covardia”.
Dostoiévski – Crime e Castigo.

Em trinta anos só fui abandonado para morrer duas vezes. Uma vez foi num hospital; esqueceram meu corpo adoecido numa maca em um porão escuro e frio. A outra foi na praia onde alguns colegas pensaram que eu estava fingindo que me afogava. Nas duas vezes dei um jeito de escapar. O que quero dizer é que com essa vez contabilizo três vezes que fui deixado pra sorte. Agora tem a ver com uma mulher e cá entre nós, prefiro as duas vezes anteriores.
         Alana me mandou ir ver se ela estava na esquina e eu fui, já que aprendi a nadar no mar e meu plano de saúde não estava atrasado. Quando voltei pra casa só tinha um bilhete em cima da mesa da sala. Me mandava ir para o inferno – e não é que estou nele?
Pelo menos no inferno tem vodca.

***
         Antes de abraçar o satanás a gente sempre pensa que tudo vai bem. E eu atravessei meu corpo gordo por uma porta e entrei em uma sala com outras trinta pessoas em silêncio. Escrevi meu nome na lousa com giz, abri minha pasta de couro sob a mesa e retirei dois livros e umas anotações. Ninguém disse nada. Ainda bem, porque minha cara coçava por ter feito a barba pela manhã e ter perdido o ônibus para o curso de produção literária que tinha de ministrar me deixou mais irritado do que vespa.
_Alguém tem algo a dizer? – perguntei tirando os óculos escuros. A claridade da sala fez minha cabeça latejar. Ressaca.
_Sim. O senhor está atrasado! – rosnou uma jovem no meio da sala.
         Algumas pessoas seguraram o riso e eu segurei um “foda-se” que pedia passagem na minha garganta. Fitei os peitões dela e isso irritou um pouco mais, ai eu sorri diabolicamente.
_Alguma outra observação óbvia? – disparei pra turma.  
_Você só passa esses exercícios malucos para a gente e não fala de produzir literatura... – os peitões ainda rosnando feito um motor de opala.
_As coisas não são simples assim, moça. – bocejei. Ela bufou e virou os olhos, eram olhos verdes. Eu continuei – mas hoje a gente vai escrever um pouco... – ela bufou novamente e eu continuei falando, fingindo não lhe prestar atenção – vamos produzir literatura ou alguma coisa que lembre vagamente isso. Que Deus nos ajude.
         Tinha que enrolar aqueles chatos por três horas. O pior é que teria que corrigir trinta narrativas curtas. Ninguém levava jeito nem se quer para uma redação publicitária ou um artigo jornalístico – o que é gravíssimo para quem sonha em ser escritor. Mas o sonho deles era necessário para pagar meu aluguel e a conta no bar. Refletindo sobre isso dei um jeito de mudar meu humor e meu ceticismo.
_Deem o melhor de si, pessoal. Acredito em vocês, serão bons escritores! – menti com convicção. Até dei um tapinha na mesa. E o peitão rosnou pela terceira vez.
         Escrevi na lousa algumas coordenadas para a frescura toda. Vai que alguém da direção entra na sala e comprova que não estou fazendo o que não estou fazendo, de fato. Seguro morreu de velho. Ninguém passou do mediano em exercícios básicos e isso não me surpreendeu.
         Se mataram escrevendo e eu saí duas vezes para fumar. A terceira vez que saí foi para pegar um café na secretaria. Foi uma torração de saco que só vendo. “Posso ser pornográfico, professor?” – manda ver, cara. “Posso falar da minha mãe?” – Deve, garota. Deve! “E se eu usar o estilo do Bukowski?” – Melhor não, rapaz. Deixe os deuses em paz. Com religião não se brinca. “Pode ler esse parágrafo que escrevi, professor?” – Escreve aí que eu leio depois. Acredite em si mesmo! – achei engraçado o que eu disse e disfarcei uma risada com um acesso de tosse.
         Depois de se passarem duas horas e meia, recolhi os textos. Dois não haviam terminado – galera do fundão; simpatizo.
_Um conto é uma narrativa estruturada e tem inicio meio e fim. Mas não precisa ser necessariamente nessa ordem. O começo pode ser o final, mas o grosso da coisa, o miolo, não pode ser o final e nem o inicio. Fica chato se fizerem assim.
_Por que não falou isso antes? – reclamou um carequinha.
_Porque ninguém perguntou, ora – devolvi.
         Foram entregando seus contos enquanto eu falava alguma bosta sobre escrever em primeira e terceira pessoa. De qualquer forma todo mundo entregou e eu guardei suas coisas na minha pasta. Todo um cuidado teatral com suas folhas suadas. O bar, cara, você sabe, estou devendo lá. Com essas coisas sérias não dá para vacilar.
         Foi aí que dei a aula por encerrada e lá se foram os jovens promissores – e duas senhoras que devem ter cansado de fazer tricô. Joguei os livros e as anotações na pasta. Mas a xarope mestre, com seus olhos verdes e tudo mais, se aproximou. Agora pude notar os detalhes da sua voz grave e seus 1, 72 m., com seus cabelos verdes cortados na altura das orelhas.
_Eu li suas coisas, Adriano. – jeito desdenhoso.
_Pois é. – resmunguei.
_E eu vou escrever muito melhor do que você! – sentenciou.
_Não é difícil – sorri.
_Você só deve ser um fracassado para estar ministrando cursos por aí – acusou.
_Concordo com você. Mas agora tenho mais o que fazer, se é que você se importa. – falei e lhe apertei a mão.
         Saiu fungando e pateando o chão. Que que esses diabos querem de mim?

***
Há tempo para mudar o que se é, mas esse tempo já passou para mim. Estava tentando pagar uma multa por atraso de livro na biblioteca e enquanto aguardava na fila cheguei a essa conclusão óbvia. Esse cara negro e com os olhos vermelhos – três dias sem fechar os olhos -, sou eu. A questão é que estava retirando mais livros porque não tinha dinheiro para comprar e acabou que recebi tantas multas que poderia ter dado inicio numa biblioteca. Quando a gente se fode é que começa a procurar respostas enquanto se amaldiçoa a própria vida. Foi em Nietzsche que aprendi que amaldiçoar qualquer coisa é uma espécie de anestésico para o sofrimento.
_O senhor deve... – começou a velha de óculos atrás do computador.
_Eu sei o quanto devo. Tai o dinheiro. – alcancei o dinheiro junto com os livros.
         Ela respirou fundo, como se eu tivesse sido muito grosseiro e tivesse ofendido sua honra e merecesse levar um tiro de espingarda bem no meio da carona de búfalo. A velha digitou umas coisas no computador, contou o dinheiro com atenção, imprimiu um comprovante e resmungou “próximo”.
         Peguei meu comprovante e saí me odiando pelos corredores, por uma rampinha, até chegar na porta. Minha mãe falava “você não esquece a cabeça nos lugares porque está grudada no seu pescoço”. Verdade mesmo você só encontra nas mães, nos livros não.
         Desci a escadaria da biblioteca e havia um bar bem na frente. Adivinhe o que foi que eu fiz.

***
         Juarez é magro e baixinho, cabelos pretos e olhos de cachorro na espreita de algo. Cursa letras na mesma universidade que eu e outra de suas características é que não fuma maconha – come com farinha. Sempre que o encontro por aí espero dois minutos antes de começar uma conversa.
_Odeio quando você fica me analisando em silêncio – urra gesticulando com as mãos.
_Há males que vem para o bem, cara. – dou um sorriso.
_Você é um bêbado desgraçado e eu não te julgo, Adriano. – Devolve ele.
_Julgue, Juarez. Se isso fizer bem para sua vingança vale a pena ser feito. – acendo um cigarro.
_Não estou chapado! – diz alto.
         O dono do bar, gordinho e de cabelos brancos, que passava perto da nossa mesa na calçada, começa a rir. “O de sempre?” – sussurra.
_Sim, ele tá chapado. – comento.
_O de sempre para você, quero dizer. – ri o dono do bar.
_Claro! Não vê? O Adriano é um pé de cana que se acha no direito de julgar a vida dos outros. – fala Juarez, raivoso, e dá um tapa na mesa.
_Sim. Mas apenas um copo, o senhor sabe que maconheiro passa mal quando mistura com cerveja a sua bosta de cavalo. – aviso o dono do bar. Ele da uma gargalhada e coça a barriga.
_Dois copos! – resmunga Juarez. – não estou chapado, já disse.
_Ok, dois copos. Se ele desmaiar eu o arrasto pelas pernas até o latão de entulhos da esquina. Fica tranquilo. – digo.
_Cara, eu me arrependo todos os dias de ser seu amigo – diz Juarez enquanto o dono do bar vai buscar a cerveja.
_Melhor você pegar uma senha e entrar na fila, Juarez. Sempre foi assim comigo – começo a rir.
_Não duvido! – diz ele.

***
         Acordo numa casa estranha. Estrelinhas fluorescentes no teto. Tem uma loira de costas para mim numa cama. Levanto as cobertas e estamos nus. Ela resmunga, mas não acorda. Faço um esforço tremendo para sair da cama em silêncio. Cato minhas roupas que estão espalhadas por todo o quarto. Afasto seus cabelos do seu rosto para dar uma olhada na sua face. É feia, mas eu já chamei coisa bem pior de meu amor. Duvido que ela não pensou o mesmo.
         Abro a porta do quarto e encontro um banheiro no fim do corredor. Jogo água no rosto e escovo os dentes com pasta e o dedo indicador. Tem quatro camisinhas no lixeiro – alguém se divertiu e não lembra da diversão.
         Tranco a porta da frente da casa e jogo a chave por baixo. Pulo uma cerca de um metro e meio, saio na rua deserta. Que raios de lugar é esse?, sussurro. Sigo andando.
Peço, numa barraquinha de pastel, se existe um metrô por perto. Um cara aponta com o dedo para uma direção. Não entendo o que ele diz, mas sigo a direção. Encontro o metrô e analiso o mapa fixado na estação. Estou do outro lado da cidade! Puxa vida, numa madrugada dessas vou acordar sem um rim, reflito.
 
***
         Vejamos o que é um bom jogo: bom é um jogo que lhe dá tempo e bons jogos são aqueles que não falamos sobre. Tirei a semana de folga sem comunicar ninguém – um dinheiro de um concurso, nada mais. É importante um bocado de desleixo para com os compromissos na vida de um homem. Tenho pena de quem leva isso tudo muito a sério. Melhor, não tenho tanta pena assim porque nem ocupo minha mente com gente séria. Fiquei em casa e bebi e fumei e escrevi. E estamos lhe enviando esse e-mail, prezado Professor, porque não atendeu mais o telefone e o substituímos por outro. E passe na instituição para pegar o seu pagamento. “Estava doente?” – perguntou a secretária. O dono da tal instituição não queria nem ver minha cara. Empatamos, não queria ver a cara dele nem na privada enquanto mijava.
_Sim, estava doentíssimo! – Respondi, rindo.
         Eu estou doente faz tempo. Desconfio que nasci doente pra caralho. Doente de gente, de compromissos, do mundo. Não aguento mais nem meio segundo. Tudo me vence por W.O. Comigo é ausência confirmada. Nem me retiro já que nem vou.
         Peguei minha grana, paguei minhas contas e comprei o suficiente para comer por quinze dias. O resto é futuro. Dos dinossauros eu sou dos que jogam o rabo para frente para melhor se equilibrar.

***
         E daí que me fodi de novo. Acostumei com a coisa. Não é que goste é que sei do que é necessário – no meu caso específico. Trabalhei de garçom quando a água bateu na bunda. “Você com dois diplomas e tudo mais?” – perguntou um colega. Pois é.
         Mudei para um apartamento menor e numa região mais proletária. E apareceu um cara com uma camiseta do Chê Guevara. Sempre tem desses, você sabe.
_Camarada, você tem que lutar por seus direitos! – Resmungava ele, coçando a barbicha suja.
_Sim, sim. Agora vá para lá. – acenei com a mão para o outro lado da lanchonete.
_Você tem que fazer parte do sindicado! – disse ele e me cutucou no peito.
_ é , né? Eu tenho...  – resmunguei.
_Claro que sim, camarada! Nós lutaremos juntos! – relinchou ele.
_Sim, sim, lutaremos sempre juntos. Os fodidos de todos os tamanhos e espécies. – Devolvi.
_É esse o espírito, camarada – disse ele.
_E não seremos manobrados por ideologia política alguma, e nos engajaremos pela última vez. Porque daqui para frente tudo irá mudar. – sorri.
_Exatamente. Tudo é resultado de uma luta. E tudo foi conquistado por luta pós luta. E se você está na situação que está hoje é porque lutaram por você e você dará sequência nessa luta.
_E eu sou o que sou hoje por causa da luta e etc., isso? – perguntei.
_Exatamente! Se não fosse isso a coisa estaria bem pior para você, meu camarada amado! – bateu no peito, bem no nariz da sua estampa.
_É a mesma coisa que a igreja diz... – sussurrei.
_Mas não é a mesma coisa. A gente é confirmado, camarada! – devolveu coçando a barba suja.
_Cara, vai cagar e me deixa em paz! – falei.
_Então você é de direita! Eu sabia. Você é de direita. Você é de direita. De direita, meu Deus do céu, você é de direita! – relinchou feito um burro raivoso.
_Se faz bem para seu ego, eu devo ser... – resmunguei – mas saí daqui que você me enche o saco, muito. – disse.
_VOCÊ É DE DIREITA – gritou.
_É cara, deve ser. Não enche o saco, porra. – Devolvi. Só queria que ele parasse de cuspir em mim e bater no peito feito um gorila.
         Juro que ele ajoelhou e rezou uma prece para seu sindicato. Talvez outra prece para o partido. Fez um sinal da cruz e chorou com os dedos da mão entrelaçados. Enquanto isso eu servi uma porção de batatas e uma pizza bem ruim. Deve significar muita coisa para sua existência, pensei. Todo mundo tem que professar sua fé em alguma coisa, concluí. Improvável que se obtenha o que se pensa que mereça, mas vai saber. Não me dirigiu a palavra pelo restante do mês em que trabalhamos juntos.
Melhor, né?

***
         Encontro Juarez novamente, desta vez na igreja. Brincadeira - foi no bar mesmo. E ele me diz que viu Alana na semana passada. Fico em silêncio. “Não precisa me avaliar, Adriano “ – ele ri – “desta vez eu estou chapado”.
_Não é isso cara. É que nem lembrava dessa desgraça.
_Acho que é ela que não se lembra de você. Estava feliz da vida de mãos dadas com outro cara. Não colocando em risco nossa amizade, mas o cara parecia bem melhor do que você. – sorriu.
_Sem ressentimentos. – falei.  
_Mentiroso. Tá todo magoado aí que dá gosto de ver. Bem feito. – pegou um cigarro do meu maço que estava sob a mesa.
_Você nem está chapado, nada. – falei.
_Tô sim. – devolveu soltando uma baforada de nicotina na minha cara.
_Nem tá.
_Não mude de assunto! Não vou deixar você escapar dessa. Guardei essa informação uma semana inteirinha para ter o prazer de lhe contar. Agora o cabelo dela está azul, ficou bem melhor do que o verde. Ela também não escreve mais, viu que é coisa de miserável. Está tocando baixo em uma banda de rock. Tá mandando bem.
_Bem, mas pelo menos a fila andou para mim também... – peguei um cigarro também.
_Andou porra nenhuma! – gargalhou – além de ter levado para casa a mina mais feia do bar ela espalhou para todo mundo que você é um brocha! E é tão brocha que fugiu antes de amanhecer.
_Me arrependo todos os dias por ser seu amigo. – resmunguei.
_Pega a senha! – gargalhou.

***
         Dei por falta do Chê Guevara no bar, pois estava movimentada a noite. Perguntei para uma cozinheira se o revolucionário tinha dado no pé. Ela enxugou o suor no avental e riu. Fez uma cara de velha safada que estava louca para uma fofoca. “Nada disso. Você não soube? O vereador que seu amigo estava apoiando se elegeu e arrumou um empreguinho para ele num sindicato. Agora ele não faz mais parte da classe dos fodidos, como nós”.
_Que bom que o mundo tem dessas coisas. – falei.
_O mundo tem de tudo, garoto. – devolveu ela, filosoficamente.
_Vamos fumar um cigarro nos fundos? – fiz o convite.
_Não deveríamos, mas vamos lá. – sorriu ela.
         Jogou o avental numa cadeira e saímos pela porta da cozinha. Alguém gritou meu nome e eu fiz que não ouvi.

***
         A morte tocava sua música na sala do meu apartamento. Mas isso não significa que chegou minha hora. Fiz umas apostas erradas, porém foram apenas falta de talento para decifrar tais melodias. O jogo é saber dançar apesar de tudo. Quanto a mim, dancei mais um pouco, riscando até doer – linha após linha. E as noites me ajudaram suportar os dias até que consegui um resultado satisfatório.  E chegou pelo correio aquela carta que esperava: É com imensa satisfação, Adriano Maranello Jr., que lhe comunicamos que seu conto recebeu o primeiro lugar no nosso concurso.
         Meti Alana naquela história desesperada. Daquela vez que lambi o chão cinzento do inferno. E Maristela não era uma loira feia que dizia por aí que eu era brocha. Aliás; era uma princesa polaca que arrancava com as unhas o seu coração do peito e lançava na minha cara – com sangue e tudo. Menti tanto e de maneira tão graciosa, que de fato, merecia os vinte mil. Me senti plenamente vingado com minhas mentiras. Mas eram mentiras e eu sabia que eram. E, imagine só, teve vinho importado e publicação de luxo. Entrevistas em revistas literárias (que engolem qualquer lorota):_ Produziu uma verdadeira obra de arte, Adriano. “Sim, tenho consciência disso. Produzi. Em nome de todos aqueles que não se entregaram para todas mazelas políticas do nosso tempo”. Mostrei os dentes para o mundo feito um tigre e um lobo. Só que me senti um mico. Um pouco menos do que os cagados que vejo por aí copiando outros escritores – e há tantos!
Pelo menos no inferno tem vinho bom também.

***
         Em trinta anos, no fundo, fui apenas eu que me abandonei para morrer. Correndo a favor do tempo – não contra. Novamente dando curso de literatura e remando na maré das contas. Cheguei atrasado e entre tantos lá estava Alana, anotando o que dizia, no seu caderninho.
         Falei qualquer bosta e levaram a sério. Escrever tem a ver com o que se sente, com o que se vive, com o que lhe mata – principalmente com o que lhe mata, pode anotar!. O resto é não literatura. O que não é perigoso não vale a pena ser escrito. Você acha que eu conto isso por aí? Acertou, não conto.
         Daí que dei a aula por encerrada depois de horas de embromação. E Alana veio com seus peitões – dessa vez tímidos – perguntar qualquer coisa.
         “Você me deu o inferno para calcular lajota por lajota e eu fiz isso porque merecia conhecer cada detalhe de minha danação; fiz isso e mudei, meu amor, mudei, até meu sangue mudou de cor e espessura. Nunca mais serei o mesmo por ter sido deixado para morrer pela terceira vez! Tudo aqui é ressentimento e beber o sangue que escorreu da língua, gargarejar e fazer bochecho com o próprio veneno” – Foi o que não disse. O que disse? Você quer saber?
_Vamos lá para casa, hoje? – perguntei.
_Sim, vamos. Mas não posso ficar até tarde! – sorriu.
É sempre tarde.
É sempre tarde.




r.A. 


*Outros trabalhos do Artista Emerson Ferreira da Silva, que ilustra este conto, podem sem encontrados em :

http://billyilustrar.blogspot.com.br/

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Péssimas influências e chega de Dostoi-Yeah!-vski



         Estava no táxi. Pensando na minha vida e fazendo “aham” para as observações de Zé não-sei-o-que. Exceto pela possibilidade de alguma mulher ter feito bruxaria para mim, não sei como justificar que cheguei ao fundo do poço – e continuo afundando. “Eu sou ateu, essas coisas só pegam em quem acredita”, justifico para meu pensamento. Não se fazem mais espíritos do mal como antigamente. Cadê a honestidade de seguir as regras? Cadê a beleza dos duelos ao pôr do sol?
         Sofri péssimas influências minha vida toda. Todos – sem exceção – me obrigaram a suportar. Suportei todo tipo de merda e todo tipo de filho da puta, esses anos todos. Não dei nem um pio. Sinto inveja do meu pai, que nunca precisou de razão para mandar alguém tomar no cu. Mas ele também foi uma péssima influência para mim: faça o que digo, mas não faça o que eu faço.
_E tome no cu, também.
O inconveniente de ser obediente.
         Quero reclamar do seguinte. Eu sei – infelizmente – que não vou mudar. Vou continuar fiel para com todas as péssimas influências que sofri. Já não posso mais ler Memórias do subsolo (Dostoi –Yeah! -vski) sem sentir profunda empatia pelo narrador idiota. E meu destino, imagino, será o mesmo de Gregor Samsa (A metamorfose – Kafka). Vou acabar na janela. Será assim. As ciganas acenam positivamente.
         Achava que iria produzir literatura. Juro. Me preparava para escrever com uma enorme qualidade. Sabe o que aconteceu? Me encolhi. Tipo uma cadelona que caiu do caminhão de mudança e agora só sabe rosnar. Nomeei minhas pulgas e meus bernes. É meu principal passatempo nessas noites solitárias e insones.  
         Além de me sentir ridículo, hoje, quero pedir licença para fazer uma Apologia (que eu acho que será breve).
         Enquanto me acabo na janela e as maldições me balançam de um lado para outro (como um João Bobo), tenho comigo que nunca fui vítima. Mas também não fui cúmplice. Tive a decência cavalheiresca de não participar da piora de tudo que me cerca – mas ninguém notou. Ganhei só uns poucos prêmios literários mesmo sem ter publicado nem a orelha de um livro – tem uns por aí que já são renomados e atingiram a imortalidade em vida, sem ter ganhado um concurso de redação na escola: me mijo todo de inveja! Tipo cadelona quando vê o dono.  
         Fui beliscado por dez ciganas radioativas – em pontos estratégicos - e os poderes delas saltaram todos no meu coração peludo. Daí meus dotes proféticos, sacou?
         Veja. Enquanto penso na minha vida e assovio das profundezas de meu poço, suportando, não tenho vergonha. Eu poderia ser pior, e, serei. Deu para suicidar, depois de muitos exercícios, essa procura infindável por tapinhas nas costas. Enquanto uns e outros estão gozando no glamour – vou encerrar a apologia com essa frase -, eu ainda estou aprendendo. Me basta.
_Concorda comigo, Zé não-sei-o-que ?
_O Sr. Vai dar gorjeta pela corrida?
_Talvez...
_Então, talvez eu concorde!
         Sabe quando você percebe que chegou na maturidade e se responsabiliza pelo que faz em arte? Eu também não, mas adivinho.


r.A.


ps. Chega de Dostoi-Yeah!-viski. Mas de Dostoiévski, não. 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A musa poética de nossas ficções



Tudo bem, já sabemos que o “eu” quando não é uma ficção é uma reação (quase alérgica) ao coletivo. Entre essa máscara trincada que usamos cotidianamente para lidar com as pessoas e nossos pensamentos mais obscuros e incertos, esse murinho facilmente transposto.
_É mais complicado do que isso, mas essa analogia, por hora, me serve.
         O que quero dizer é que o ditado popular “a gente se vira como pode” é mais um: A gente se vira na medida em que consegue. E no fundo a gente não consegue muita coisa.
         Dependendo do tipo e grau de sensibilidade de cada “persona dramática” (também vale falar máscara), há o sentimento de que vamos sendo empurrados com chutes no rabo até qualquer lugar. E não vá pensar que você não é o chute na canela de alguém. Também é o caso de que quando chove e estamos no meio da rua, não avaliamos muito bem a beleza do lugar para onde corremos buscando escapar. Não conheço quem não tenha dito pelo menos seis vezes “era o que tinha para me consolar”.
         Você pode estar pensando aí: Puxa r.A., que pessimismo! Bem, talvez. Cada ponto de vista é a vista de um ponto – reza toda generalização. De minha parte, sou mais simpático aos que revelam em algum momento que não aguentam mais do que os que pregam um sorriso frouxo na boca enquanto murmuram “é a vida e está tudo bem”.
         Não me parece meramente um pessimismo – embora pense que o pessimismo deixa as pessoas menos ingênuas – o fato que constato dia a dia: luta constante para polir esse Eu (seja como reação seja como construção de uma ficção mais suportável) e salvá-lo da “exuberância corruptora da vida”.
         A necessidade constante da reação e da ficção, nesse momento, compreendo apenas como condição humana. É tão óbvio que chega nem valer a pena apontar num texto. Quero dizer, o óbvio é nossa fragilidade e as desculpas que vem na sequência. Culpar qualquer coisa pelo gosto amargo na nossa boca.
_E tem outro jeito?
_Acho que não!
         Mas! Dado o óbvio, dado que reagimos e polimos nossas ficções, por que não admitimos? Por que essa birra infantil quando alguém nos toca a máscara? Não seria mais honesto batermos com a máscara na cara de alguém do que nos encolhermos xingando a ousadia de outrem?
         Gostaria que as pessoas fossem mais razoáveis nessa questão. E quem disse que as pessoas podem corresponder ao que me agrada? (risos). De qualquer forma fica essa provocação do texto. Assim como ninguém está no mundo para agradar todos, não dá para transformar em regra que todos estão no mundo para construir escudos na frente das máscaras. No fundo é só entulho.
         Não acreditava que fossemos todos tão óbvios, mas começo a acreditar nisso. A burocracia impessoal – a grande ilusão de marketing pessoal do nosso contexto psicossocial – se tornou um castelo no fundo de nosso espírito? Aposto vinte (qualquer coisa) que vai aparecer um grande intelectual para soprar do fundo dos pulmões: É cultural. – como se dizer “é cultural” explicasse algo...
         Nesse circuito de pura defesa e choradeira quando alguém nos toca a máscara, a musa poética de nossas ficções está nos virando às costas e preferindo observar o vasto horizonte. Daí que nossas máscaras nunca são o que pensamos e queremos. – penso que vale mais admitir isso do que recorrer aos best sellers de autoajuda.  
         Se tivéssemos aprendido a perder a máscara antes de reconstruí-la compulsivamente nos queixaríamos menos da falta de sinceridade das pessoas. (aprendi isso recentemente). E mais uma obviedade: ser sincero não significa ser verdadeiro... mas essa é outra história.




r.A.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Abujamra, exaustões e outra coisa que esqueci de dizer

        


"Tudo está em mim, a carne, o espírito e o alento..."
_Louis-Ferdinand Céline.

          Todo segundo é momento bom para dizer adeus. Hoje morreu um cara que eu gostava um bocado. 82 anos deve ser dureza, e como ele dizia:_ Nada é importante. Pode ser que estou exagerando nesse parágrafo, mas se não é verdade pelo menos é legal de dizer isso. Repito: Todo segundo é momento bom para dizer adeus.
         De minha parte confesso – meio relutante, claro – que até onde me lembro da minha existência sempre fui bom em viver momentos de adeus. Embora não seja bom em verbalizar qualquer frase que expresse bem o que sinto quando o momento chega. É por isso que eu escrevo (...inclusive). Quero dizer que meu tipo de ser, profundamente introspectivo, precisa pensar antes de falar. E definitivamente quem me conhece sabe que não sou prático. Acontece que quando penso para falar me deparo com esse sentimento: “Nada é importante”.
         Sobre os momentos de adeus: Eu olho nos olhos das pessoas e deixo os olhos lacrimejarem, mas não choro. Faço isso depois ou antes – minha trapaça particular. Para não piorar tudo, sabe? É que não gosto de mimetizar a dramalheira teatral/cinematográfica. Sim; é mania.
         Também olho para o chão. Nunca para o céu. Com “nunca” me refiro desde os 16 anos.  O chão, como se fosse reflexo de minha exaustão. De fato saí do armário quanto a minha opção de gênero: Logrado. É importante saber disso. De longe pareço um derrotado e de perto, todos meus gestos lembram o que se vê de longe.
         Só que engano bem nas duas primeiras temporadas. Apenas me faço de derrotado para desarmar qualquer possibilidade de jogo pelo reconhecimento de duas “consciências-de-si”. Dito isso podemos concluir que não é nem um pouco trabalhoso respirar a sensação de que alguém me derrotou em qualquer coisa. Hegel, cara! Acredite se quiser, eu também falo de Hegel. De saída me desinteresso por qualquer dialética. Dá para acreditar?
_Logrei muita gente nessa vida. É que em se tratando de ser logrado eu sou PhD. Também “honoris causa”. Sacou?
         O bigode de Nietzsche, as unhas de Deleuze, o vacilo na voz de Céline, a falta de banho de Joseph Beuys, a orelha decepada de Van Gogh e o pinto de fora de Jim Morrison. Maneiras de atrair o olhar para a excentricidade!(?). Vamos lá, não duvide que tenho meu jeito: A covardia. Nos termos do meu jogo literário: “acadelamento”*. Sinto que fiz meu dever de casa – alguma coisa que pode-se adjetivar de “mistério”- quando qualquer um está decidido sobre a interpretação de que sou um covarde.
         A questão é que Covarde é um sentimento que nunca pude me dar ao luxo. A desgraça de minha inteligência é que, onde quer que eu me misture com pessoas, tenho que gastá-la por dois ou mais. E sempre que não digo adeus para alguém – devidamente, como reza a cartilha das boas maneiras – enchem a boca e estufam o peito para me chamar de Covarde sem nenhum constrangimento.
_Você é um SACANA!
         Dizem isso para não me chamar de “pau no cu”. Trabalho dobrado também. Sou escritor - e pau no cu nas horas vagas. É um dom, entende? Não é por acidente (se você já leu Aristóteles).
 Eu tinha um cachorro lá pelas idas de 1996. Ele abria sozinho a torneira na garagem para tomar água. Tinha que vigiá-lo para não levar bronca dos meus pais. Aprendi muito cedo que certos comportamentos são condicionados pelas paixões... outra coisa que esqueci de dizer é que você pode conviver mais de cinco anos comigo e não entender bulhufas de minhas intenções. Tem a ver com minhas sutilezas. Cá entre nós eu já acreditei na sensibilidade de toda essa gente. Foi foda.
         Como todos eram especialistas e sobrou pouco para minha singularidade, me especializei em Adeus. Nada me constrange (profundamente) na hora de dizer adeus. O segredo – que sou confidente – é que dá para se reinventar mesmo com muita dor. Em dor também sou honoris causa. Não é do dia para noite, claro, mas sei ser sutil por anos. Mais uma coisa que trago de berço. “Jura que não vai mais fazer isso?” – Papai, mamãe e irmã. “Juro!” – Respondia. Só que não fazer mais “isso”, na minha cabeça, nunca significou que não faria outras coisas bem parecidas, mas nunca iguais.
Aquela coisa de Criatividade.
         Nem morto desejo viver até os 82. Primeiro porque não suportei até os 28. Tive que morrer muitas vezes até aqui. Recentemente morri na passagem de 2014 e renasci em 2015. Ninguém deu à mínima (amigos e família, quem diria...) e isso leva para o segundo ponto. Segundo, porque não tenho contribuições – nem vontade de contribuir – para quem quer que seja, para chegar até os 50, quem dirá até os 80. Teve quem me viu realizar proezas improváveis e ainda assim me adjetivou de covarde. Nunca tirei a razão do que projetaram em mim – mas não duvido que tenha sido espelho e, por que não?, Verdade.
         Hoje. Agora pouco, para ser mais preciso; estava parado no metrô. Apenas pensando sobre uma estrutura harmônica de uma canção do Radiohead (Karma Police) e acompanhando a desgraça de se espremer entre cem pessoas. Você já reparou que a gente só perde? Se “sim”, então perceba como é interessante saber dizer Adeus! “La vie c’est tout avec rien”. Nunca imaginei que quando disse adeus à casa de meus pais estava dizendo adeus mesmo. Depois disse adeus para pessoas que amava e foi bem mais fácil dizer adeus para quem não significava mais nada na minha vida. Disse adeus para cidades inteiras! Ultimamente tenho dito adeus para amigos. Também disse adeus para certas necessidades de reconhecimento – artístico e intelectual – o que me lembrou algo no mesmo feitio de dizer adeus para mim mesmo e determinados sonhos.
         Também é importante – embora isso importa para poucos de meus leitores – que a penúltima vez que tentei dizer adeus, minha irmã, me pegou pelo braço e disse:_ Adeus é o caralho! Você não vai sair dessa família só porque leu uma biblioteca inteira e agora se acha muito inteligente! Você é ainda o mesmo bosta de sempre!
Mais uma confissão: Nada como o sangue do seu sangue para te revelar que você nunca será o herói que viu nos livros. Mas é bom constar que atualmente já cheguei ao status de ter lido duas bibliotecas inteiras e mais alguma coisa. Só aprendi o que está nesse texto, sinceramente.
         Veja só isso. Uma questão bem filosófica. Platão perguntou o seguinte (O banquete):_ O que nos tornamos ao obtermos o que é objeto de nosso amor? Nos tornamos o que amamos? – eu pergunto. E o que nos tornamos ao dizer adeus para determinados amores? – eu continuo perguntando. O que me torno agora, nesse exato momento em que escrevo essa linha? Dizendo adeus para alguém que admirei um bocado...! Estou ainda tentando me resolver nessa capacidade de dizer adeus. A diferença desse texto para qualquer outro que você tenha conseguido chegar até o fim é que nesse texto o autor está relatando sutilmente a necessidade de saber dizer adeus... a maioria está dramatizando e lamentando enquanto dramatiza. Eu tenho que confessar outra coisa: me sinto velho e inteligente demais para dramatizar certas questões óbvias. Se você quiser pensar que sou insensível, fique tranquilo – nada disso me impede de acrescentar um ponto final nesse texto. Pra você ver que “tipinho” de gente eu sou – ou estou sendo.
         Existe em nós um desejo, pouco admitido – é claro que é por medo -, de deixar de existir. De morrer, se você quiser interpretar assim. E não é nem um pouco fácil não dar ouvidos aos sussurros do suicídio que vem com o vento e deita nas cartilagens de nosso ouvido.
Você pode morrer quando seu desejo ultrapassar as forças do seu organismo (que tem o desejo paradoxal de aniquilar-se e de preservar-se) ou quando (como se diz) chegar a hora. A tranquilidade de minha filosofia é dizer que o quando “quiser” e o quando o corpo quiser é quase a mesma coisa. Filosofia alguma – até onde aprendi nas minhas bibliotecas lidas – pode te convencer de acabar ou não com sua vida. Não pasme se eu te disser que é mais fácil se matar do que abrir um frasco de pepino em conserva!
Volto para a questão de Abujamra. “Nada é importante”. Tenho que voltar, porque me debruçar sob sua máxima é respeitar sua memória.  Reformulo, por capricho: O nada é importante! Ter o olho pousando sob o “Nada” é de sentido “último” pra nossa vida; é importante. Entre o nada e aquilo que pensamos ser importante, há alguma coisa, que raramente se sustenta. Me parece que viver é mais do que estamos “programados” fisiologicamente para existir. É salvar alguma coisa da morte, do “never more” – de Alan Poe. Mas também não é ser um megalomaníaco da História. Mais sutileza e graça – é o que vou reivindicar. Ninguém é covarde nessa vida! Existir é dançar lambada com um pau no cu! Te pergunto: Quantas lambadas com assaduras anais você foi capaz de dançar? É importante? – Pra mim não, para multidão também não, e pra você?
Abujamra botou pra quebrar e agora é hora de dizer-lhe adeus. Como ele disse, “fracassou mais de cem vezes”, e ainda, como ator e como diretor, botou pra quebrar. Merece, da minha perspectiva, um adeus sem drama. Se eu chorar vai ser antes ou depois disso aqui.  De minha parte sou tão covarde quanto ele. O fato de ter vivido até os 82 é absurdo para mim. Mas pode enterrar, finalmente, seus 82, “na frialdade inorgânica da terra” com muita honra, para qualquer um que tenha entendido o significado do termo “teatro” ou, se quiser, Arte. Esta salva sua persistência, embora sua existência, já era! “Nada é importante” exceto o que fez pela arte. De fato, nada é importante. Porque o que importa na arte não é o comum de se decompor, muito menos o blábláblá do aspira a artista que se acha “sofredor”, no fundo o que importa é a Arte. Só! Qualquer bunda mole morre, mas não é nenhum bunda mole que pode morrer Artista! Vale muito a pena repetir isso:
_Não é qualquer bunda mole – cheio de frescuras e desejos de ser reconhecido a qualquer preço – que pode morrer Artista!




r.A.


*Acadelamento: Se eu puder acrescentar essa palavra no dicionário terei realizado minhas intenções literárias.

Ps. Dedicado, de todo coração, para Antônio Abujamra.


segunda-feira, 30 de março de 2015

Coisas que eu penso às 05:50 da manhã





“Quem acredita na verdade é um ingênuo; quem não acredita, um estúpido. A única linha reta passa pelo fio da navalha”.
E.M.Cioran – Le livre des leurres.


         Pouquíssimas pessoas sabem o que é batalhar por uma linha escrita de maneira razoável. Comecei a escrever aos vinte anos e já estou chegando aos trinta: nenhuma maldita linha razoável. É claro que podemos concluir que não sou o cara mais indicado (nem minha mãe me indicaria para qualquer coisa!) para falar sobre literatura. Eu me perdoei por isso, amém.
         De lá para cá, andando sempre pela sombra e acordando sozinho no meio da noite, cheguei a algumas conclusões sobre escrever. 1- É coisa de gente rabugenta. 2- É coisa de gente que possuí uma turbulência interior e parece um idiota no exterior. 3- as garotas dizem que gostam disso (porque assistiram filmes demais sobre escritores, mal sabem elas que isso tudo é uma armadilha). 4- Bebem demais. 5- Roubam as namoradas dos outros caras. 6 – O número 5 é mentira, ou quase. 7- Somente os mais putos e sem talento de nós serão reconhecidos em vida. 8- Se está difícil para mim, imagina para quem tem mais de 13 anos e curte Banda do Mar...
         Tentei ser uma pessoa séria – quase casei, tive um quase emprego, um cachorro quase e dois filhos, menino e menina; tudo por muito pouco. Acredite. Te contaria sobre isso no domingo na igreja, se eu conseguisse acordar antes do meio dia – aquela ereção pós ressaca, sabe? Mas acho que não tentei o suficiente. Será que eu não quis ou fiquei com preguiça? Pode ser medo. Apatia.
_Isso tudo me lembra as artistas contemporâneas: Melissa Lauren, Valentina Nappi e Remy Lacroix. Que me fazem seguir em frente no meu sonho de infância.
(Brincadeira).
         Tenho mantido com sucesso a casa livre de bebidas e navalhas. Também quis ser um cara rico e bonito – é mais fácil ficar rico, um dia, vai saber. E só não ouço mais Pink Floyd porque a queda da sacada provavelmente não me mataria. Fora isso, se não tiver mais no que pensar, pense que estou bem.
         Não é fácil querer uma sombra para descansar quando se está no meio do deserto. Mas meu coração está completamente preenchido, finalmente. Agora ele só pode ser destruído de dentro para fora.
          Rainer Maria Rilke disse que se você puder viver sem escrever, as coisas vão melhorar – não foi bem isso que ele disse, mas vou esperar sentado, aqui, alguém vir me corrigir (risos).
         A verdade é que se você souber esperar aparecerão linhas escritas de maneira razoável. Mas isso não significa que serão suas. E muito menos, significa que você tenha que acreditar nisso. Se estiver em dúvida, siga o conselho de Beckett: fracasse melhor!
Ainda dá tempo.




r.A.