segunda-feira, 20 de outubro de 2014

As fantásticas aventuras de um cara sem propósito


(Ao som de Men At Work - Down Under. Porque sim)



_Adriano, você é um imbecil!
         Foi assim que nos conhecemos melhor. Se não fosse o nojo recíproco naquele momento, poderia ter sido amor à primeira vista. Era uma tarde horrível como essa e cruzei minha enorme carcaça negra e mal humorada com Janete e seus amigos no estacionamento da universidade. “Maconheiros de merda” – sussurrei para o grupo. Foi aí que Janete me chamou pelo nome. Fiquei tão ofendido que quase escorreu uma lágrima no canto de meu olho esquerdo – vai nessa, ra ra ra!
_Puta cara conservador esse aí, né Janete? – alguém falou nas minhas costas. Alguém com uma barbinha suja.

***
         Queria mesmo conservar alguma coisa além do hábito de beber toda noite. Passava dias sem comer, mas continuava barrigudo e inchado. Qualquer coisa de destino – foi assim que Deus quis!
         Entrei na sala para assistir uma aula de psicologia clínica. Sentei nos fundos para ter uma visão estratégica. Turma cheia. Havia apenas mais dois caras. Todos fazendo pose – e se encarando com o canto do olho. Nada mais óbvio do que nossos motivos.
         No intervalo três garotas se aproximaram. Clarice, Janaina e não entendi o nome da outra. Sorriam.
_Começou hoje? – falou Janaina, mexendo nos cabelos loiros.
_Apenas ouvinte. – resmunguei.
_A gente veio te convidar para uma festa do centro acadêmico... – disse a que eu não lembro o nome. Tinha os cabelos curtos, magra e alta.
_Olha, é possível que eu vá. Mas não prometo.
_Ah, deixa disso. É bom para você conhecer o pessoal. – Janaina novamente, ainda mexendo nos cabelos.
_Não prometo. – devolvi.
         Me passou o endereço. Era na casa de alguém. Entrei na sala, peguei minhas coisas e caí fora. A professora parece que não gostou muito. Particularmente eu gostei de tudo, isso é que importa.

***
         Cheguei na festa. Um enorme casarão de dois andares. No portão de entrada, dois caras meio sofrendo de anemia aguda. Um de óculos, barba suja – as gatas se amarram; dizem por aí. E outro com uma camiseta branca com uma estampa do Bob Marley. “Dei um tiro no xerife”. Achei engraçado.
_E aí, beleza? – o do Bob Marley apertou minha mão. O da barbinha suja virou a cara.
_Tem que pagar?
_Sim cara. Estamos arrecadando fundos para um jornalzinho subversivo que escrevemos.
_Abaixo o capitalismo, menos opressão, essas coisas... – resmunguei.
_É esse o espírito brother!- deu um tapinha no meu ombro.
         Paguei os 20 e entrei no casarão. Quase cinquenta metros do portão até a casa. Uma piscina embaixo de uma sacada. Só faltou um mordomo para me receber na porta. E eu com uma calça jeans rasgada nos joelhos. Olhei para o desfile de moda do pessoal correndo pela casa e me senti um cara que veio dos anos 90. Vai ver eu fiquei velho, pensei.

***
         Encontrei Janaina – dentro de um vestidinho preto e em cima de uns saltos. Não estava mais tão simpática, provavelmente eram minhas calças. Não combinavam com o visual da festa revolucionária. Contei uma piada sem vergonha e ela finalmente riu.
_O que ele está fazendo aqui? – alguém gritou.
_Colaborando com a causa! – respondi antes de me virar.
         Dei de cara com Janete. Também de vestido e de salto. Mudar de roupa fez bem para ela. Até o brinco no nariz ficou mais charmoso (brinco no nariz, para quem veio dos anos 90, se chama piercing). Janaina sorriu e arrumou uma desculpa para se afastar.
_A casa é minha! – falou Janete, raivosa.
_Parabéns, é uma bela casa. – devolvi.
_Fica mais bonita se você estiver do lado de fora! – fechou os punhos para mim.
_É, olhando de fora parece mais bonita. – sorri.
_Eu não gosto de você Adriano! Suas piadinhas me irritam!
_Isso é uma pena. Porque eu estava passando aqui na frente da sua casa e pensei em entrar e pedir sua mão em casamento para seus pais.
Nem ela conseguiu se segurar e riu. E ficou com raiva porque riu.
_Se começar com seu showzinho de debochar das pessoas, vou te arrebentar essa cara de peixe-boi. – ameaçou tentando conter o riso.
_É por isso que você está com trinta anos e solteira! Ameaçar seus pretendentes não apimenta a relação.
_Não tenho trinta anos e não temos nenhum tipo de relação! – apontou o dedo para mim.
_O futuro é imprevisível! – falei perto do seu ouvido.
_Você é muito descarado. – deu ênfase no “muito”.
_É uma questão de saber interpretar. – comentei olhando nos seus olhos.
_Cala a boca! – disse sacudindo a cabeça e me deu as costas. Saiu pisando forte no chão.

***
         Procurei Janaina. Não que tenha procurado muito, mas achei. Outro cara achou primeiro – infelizmente para mim. Estavam se beijando perto da escada que dava para o segundo andar da casa. Reconheci o cara pela camiseta. Esse negócio de andar por aí fazendo apologia a atirar nos xerifes funciona com as mulheres. “Isso aí deve ser muito rebelde” – desconfio que elas comentam umas com as outras. Sei lá.
         É a idade. Mais cinco anos e todo mundo vai me chamar de tio. Por hora olham para mim e pensam: Tá quase um tio, ein? Se sua mãe tem uma irmã – cuidado comigo!
         Tomei mais dez cervejas para garantir a consumação da grana que dei para os “camaradas”. Alguém do bendito jornalzinho me reconheceu e pediu se eu não poderia colaborar com um texto.
_Posso falar mal do Bob Marley?
Uma baixinha, morena, com os seios saltando de um decote sorriu para mim e resmungou.
_É claro que não pode! Manda um daqueles seus contos das fantásticas aventuras de um cara sem propósito. A galera adora ler essas coisas. Todo mundo acha engraçado.
_Então não vou enviar bosta nenhuma! – disse seco. Esse tipo de resposta é possível comigo quando a bebida já começou a agir.
_Tanto faz, você não é um escritor famoso mesmo!- comentou a baixinha. 
_Isso que você disse é coisa de gente ressentida! – acusei.
_Você que é ressentido. – devolveu, bufou e deu no pé.
         Quase escorreu a lágrima novamente. Mas não foi dessa vez. A única reação foi uma coceira na ponta do pé. O pé doidinho para acertar o meio da bunda da baixinha peituda. Se ela estiver lendo isso, espero que saiba que já rezei para que Deus murchasse pelo menos uma de suas tetas. Se a fé move montanhas, não deve ser difícil murchar qualquer coisa. Amém.
        
***
         Acordei com dor de cabeça. Não lembrava como e quando cheguei no meu apartamento. Podia ser pior – porque já foi pior. Mais sozinho que um sapo seco na beira do asfalto. E menos vivo.
         Mais uma coisa. Outro dia encontrei Janete no refeitório da universidade. Deu uma de humana e pediu desculpas pela discussão na sua casa. Para falar a verdade eu nem recordava.
_Nem sei como acabou aquilo tudo. – confessei.
_Tá falando sério? – disse indignada, gesticulando com as mãos.
_Sim.- respondi convicto.- Às vezes eu falo a verdade também.
_Bem, você pegou um cara pelo fundo das calças e atirou ele da sacada dentro da piscina da minha casa e resmungou “ninguém atira no xerife nessa festa”. Eu sabia que você daria um jeito de estragar tudo desde que te vi. – pelo menos ela sorria enquanto falava. – aí eu pedi para você ir embora se não eu iria chamar a polícia.
_Muito justo – murmurei um pouco envergonhado – e depois?
_Você não lembra mesmo? – disse ela, tocando meu braço.
_Não. – respondi olhando nos seus olhos. – Não lembro! – repeti.
_A gente se beijou, seu idiota!
_Isso é impossível. – sorri.
_Também achei. Sorte sua não lembrar. – bufou.
_Outro dia a gente tenta de novo. – falei enquanto ela se afastava.
_JAMAIS! – urrou sem se virar.
Fiquei rindo. Não podia acreditar. E nem vou.




r.A.

ps. Acho que é importante eu avisar que esse conto é uma ficção. Ou quase.

sábado, 4 de outubro de 2014

HOSANA NA SARJETA - Marcelo Mirisola


"Você jamais vai amar alguém na vida!" - M.M.


         Geralmente escrevo sobre escritores mortos. Não sei muito bem o motivo, mas me parece que os mortos decepcionam menos. Portanto em uma madrugada perguntei: E dos vivos? Tem alguém que se salva? – E me veio o nome de Marcelo Mirisola com sua obra: O Azul do Filho Morto (2002). Não que esse cara vá se salvar, mas a obra dele vai!
         Mirisola está lançando Hosana na Sarjeta (2014) pela editora 34. A obra chegou a minhas mãos ontem. Minha impressão: Se Mirisola fosse um boxeador e seus socos tivessem a precisão e peso de sua prosa, Mike Tyson –no seu auge-, (se comparado com Mirisola), poderia lembrar uma boneca Barbie.
         Se você gosta de “frescuras & floreios” quando se trata de literatura, eu não me espantaria nem um pouco de você não conhecer a escrita de Mirisola. Agora se você se diz conhecedor dos “velhos cães que brigavam tão bem” e não conhece esse nome, muito provavelmente na questão literatura brasileira atual, está te faltando Hosana na Sarjeta entre seus livros.
         Marcelo é o tipo de escritor que pisa no próprio pescoço já na saída. Não é dos que ficam rebolando no alto jogando purpurinas pra baixo. E no chão sua escrita fica mais perigosa. Com um pé no próprio pescoço, a outra perna livre lhe aplica rasteiras para que você – leitor – aprecie a existência por outro ângulo. Ele não te convida para novas perspectivas – ele te derruba!
         Em um cenário de literatura nacional onde escritores (as) fazem coraçõezinhos e apodrecem seus dentes com tanto açúcar, a obra Hosana na Sarjeta é como um dos amados touros de Hemingway correndo em direção contrária. Até o espírito da dona Zíbia G. se vê com um chifre atravessado na bunda. Daí que poucos tocam no seu nome – quem quer um touro desmascarando a festinha de gente que só publica, mas não se dá ao luxo de escrever?

***
         Hosana na Sarjeta, como o termo pede, já começa professando uma ‘crença’ no seu prólogo: “Houve uma época, antes da internet, que eu acreditava 50% em encontros e 100% em desencontros. Acreditava, inclusive, que encontros somente teriam possibilidade de acontecer em função de desencontros. A vida era óbvia, o universo não levava porcentagens em consideração e conspirava por qualquer coisa [...]”. É nessa grande decomposição que Mirisola em sua autoficção quebra às vertebras do encontro e espia o desencontro. Se você está acostumado com os cafonas encontros de amor da literatura comum (com-um), já é atirado no chão pela obviedade desiludida do desencontro.
         Invés de ficar adiantando a obra com citações e comentários, deixe-me apresentar mais dois pontos que na minha compreensão superam muito bem a necessidade de um enredo, mas asseguram qualquer coisa de coerência. Mas essa “coerência” logo logo se decompõe na narrativa desse escritor que não tem nada de óbvio.
         Quem seria capaz de olhar para um céu tão feio como o céu de São Paulo? Essa obra, em seus cenários bem pontuados, bloqueia esse dirigir os olhos para o céu com esperança (se ele não aprendeu isso com Cioran, deve ter inventado). Essa feiura faz Hosana despencar do céu para a Sarjeta. E aí tem uma mulher, “sem mulher, não há movimento” – escreve Mirisola. Se o céu de São Paulo é um limite poluído, no chão a gente improvisa beijos: “O beijo nos explicava. O beijo apagava o entorno. Essa era a única certeza que tínhamos, nosso beijo. Depois Ariela subia no táxi e ia embora”. Alguma certeza no desencontro. Mas nas forças que Mirisola desvela, até a menor certeza, se estraga.   
         Um dia, imagino, alguém vai tentar apreender a força transbordante que Mirisola exerce na sua escrita – lembra que eu disse que ele seria bom de boxe? -, e nesse dia acho que entenderão que a questão não é a técnica de não usar um roteiro, mas a técnica do roteiro não suportar suas ininterruptas bofetadas! – o cara bate com as duas mãos enquanto escreve, como se suas mãos fossem patas de cavalo.
          A autoficção de Mirisola é arrastada de um lado para outro por duas mulheres. O pior é que elas não o puxam – cada uma em uma ponta -, é o personagem M.M. que se arrebenta pulando de um lado para outro. (Sobre isso, leia o livro, não cabe a mim explicar esse parágrafo).
         E o terceiro ponto que prometi acima passa perto de um encontro. Tão perto que arranca uma faísca nessa fricção! (Eu chamaria essa obra, Hosana na Sarjeta, de “fricção”, não de ficção!). Uma metáfora num pesque e pague ao som de Chitãozinho & Chororó: “Homens e peixes cumpriam seus destinos & enroscos: mais cedo ou mais tarde seriam engolidos uns pelos outros. A vida fisgada pela morte. Resumidamente, esse é o enredo das histórias de amor”.
Agora eu estou no epílogo desta obra. E ali salta aos olhos um termo que deve ter sido demasiadamente caro ao escritor. “Enrosco”. Se o desencontro, nessas questões de Amor, revela que o universo “conspira qualquer coisa” e a “graça” de Hosana despenca na Sarjeta, nada –na vida e na morte- nos poupa do Enrosco. O Amor é o Enrosco violento e avassalador da nossa vidinha de Desencontros? Eis uma pergunta que você só será capaz de sentir o peso se deixar Marcelo Mirisola te dar uma rasteira diante do seu livro. Confesso que Hosana na Sarjeta me nocauteou com sua história – Desde Bukowski, isso não me ocorria!
_Quem diria! Finalmente encontrei um escritor vivo!

***
         Marcelo Mirisola – eu nunca escrevi tantas vezes o nome de um cara em um único texto – tem 47 anos e é um paulista radicado na ponte-rodoviária Bexiga- Rio de Janeiro há dez anos. Escreve e dá patadas no blog Yahoo! (Se você duvida, vá lá conferir).
Já escreveu mais de uma dúzia de livros e apesar das patadas nunca relinchou para se comunicar com seus semelhantes. Como já disse no início desse texto, não acredito que ele vá se salvar, mas a obra dele vai.
 Aparentemente não gosta de piadas que envolvam Machado de Assis – eu tentei uma e ele quase me chamou para fora de um bar para trocar uns socos!
 Já viveu em Santa Catarina e esse é seu único ponto fraco – o meu também. Não fuma e bebe vinho chileno moderadamente no gargalo.
         Dizem por aí que ele já fez coisas bem piores, mas essa história vai ficar para outro texto.
_Ça suffit!


r.A.
        
Livros já publicados:

1998 – Fátima fez os pés para mostrar na choperia
2000- O herói devolvido
2002 – O azul do filho morto
2003- Bangalô
2003- O banquete
2005- Joana a contragosto
2005 – Notas da arrebentação
2007- O homem da quitinete de marfim
2008 – Proibidão
2008 – Animais em extinção
2009 – Memórias da sauna Finlandesa
2011 – Charque
2012 – O cristo empalado
2014 – Hosana na Sarjeta

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Isso aí não tem futuro ou Rio Grande (a cavalo)



        Não é sempre, mas aquela necessidade me pegou. Se não me expresso tudo fica pior. Tenho que me livrar dos excessos para conseguir funcionar. Meu cérebro enferruja muito rápido. Esse corpo alto, negro e gordo, com um brinco de prata na orelha esquerda e cabelos pretos e curtos, não me dá sossego.

***
Precisava escrever alguma coisa para enviar para algum lugar. Fiz todo o preparo: Cigarros, trago, folhas, caneta. Desliguei o telefone para não ser encontrado e selecionei umas quatro ideias que deveriam bastar para trabalhar na madrugada. O mundo lá fora e eu aqui, riscando do meu jeito. Assim é mil vezes melhor.
Aí a campainha tocou.
         Fiquei em silêncio, mas o desgraçado estava determinado. Xinguei e fui abrir a porta. Ali estava parado Charles. Longos cabelos loiros, quase um albino, olhos azuis, magricelo e com seu sorriso amarelo.
_Entra aí!
         Com sua voz aguda e arrastada me explicou que tentou me ligar o dia todo para informar de sua visita. Fingi que acreditei. Preparei um copo para ele e tirei os livros que estavam sob o sofá para que pudesse sentar. Acomodou-se e suspirou entusiasmado. Quanto a mim, a cadeira de madeira encostada na parede era suficiente.
_Puta merda, você ia escrever! Te atrapalho?
         Dei um sorriso frouxo e resmunguei alguma coisa que não lembro. Acendi meu cigarro.
_Pode escrever cara, eu espero aqui, quietinho.
_Tudo bem. Vou só anotar algumas coisas e aí conversamos.
         Comecei a escrever as ideias gerais do texto. Era para ser uma coisa engraçada, mas meu humor acabou. Mesmo assim, insisti um pouco.
_Sabe Adriano... deve ser estranha essa vida de escritor!
_Não, não é.
         Apaguei um cigarro e já acendi outro. Molhei a garganta e olhei para a parede. Senti que estava sendo observado. Escrevi duas linhas.
_Tipo, você deve viver muita coisa para ter tanto sobre o que escrever.
_É...
_E deve passar por cada situação... né?
         Desisti. Sequei meu copo e pedi para Charles se ele precisava de mais. Secou seu copo e estendeu com seu braço branco e ossudo. Fui até a cozinha e preparei mais duas doses de vodca com alguma coisa. Na minha pus um pouco de leite para rebater a acidez. Eu sei, veadagem.
_Você não estava namorando? – Perguntou enquanto eu lhe alcançava o copo.
_Não que eu saiba...
_Mas não tinha uma mulher morando aqui com você?
_Que isso tem a ver com namorar? – Devolvi.
_Você é safado cara! – Apontou pra mim. – esse negócio de ser escritor deve atrair um monte de mulher!
_Não no século em que vivemos.
_Ah, deixa disso. Os escritores vivem escrevendo sobre casos com mulheres... – disse sorrindo de um jeito abobado.
_Escritores mentem. O tempo todo.
         Me alugou quase uma hora com um papo de que andava fazendo aulas de teatro. Descreveu minuciosamente cada curso que fizera, livros que havia lido (todo mundo lê Antonin Artaud), fofocas e tudo mais. Não lembro onde é que eu estava – minha mente viajou para longe, igual um monge quando medita sobre a vida e a morte. Contemplei o universo, lembrei de um velório, pensei no barulho da chuva e depois voltei. Devo ter voltado em tempo.
_E é isso cara! Qual sua opinião? – perguntou ele batendo com as palmas das mãos nos joelhos.
_Bacana... – resmunguei. – que você acha de sairmos daqui e irmos num bar na esquina?
_Não cara, eu já vou indo. Vou te deixar trabalhar. Só passei para te dar um olá mesmo.
_Então: Olá!
Charles riu. Depois caiu fora. Acho que foi o diabo quem o enviou ou alguma entidade pior.  

***
         De qualquer forma, quando dei por mim, já estava no bar. Parecia que realizava um teste de seleção para histórias absurdas. Meu problema é que sou bom ouvidor. Cada maldito que aparecia saia com uma maluquice.
         Um velho gordinho e de óculos que sentou do meu lado, relatou como se livrou de um assalto.
_Sabe grandão que tem um momento em que os filhos da puta dão bobeira, não sabe? – dizia ele.
_Sei...
_Então, quando o filho da puta deu bobeira eu acertei-lhe um soco na ponta do queixo. Fui boxeador amador quando era mais jovem, sabe grandão?
_sei...
_Como é que tu sabe? – me deu um soco no ombro.
_Eu sei de tudo. Prossiga.
_Ok. Então acertei o filho da puta e ele tonteou, mas não caiu. Aí dei-lhe um pontapé no saco, bem nos bagos!
_Onde foi isso? – perguntei, fingindo interesse.
_NOS BAGOS!
_O lugar, me refiro ao lugar...
_Aqui! Não sabe onde fica os bagos, grandão? – apontou para seu saco murcho.
_Espaço, localidade, bairro, é isso que estou perguntando!
_Ah, foi na Sé, aqui em São Paulo. Na saída do metrô, na frente da delegacia.
_Uhmn...
_E agora estou respondendo um processo! Acredita?
_...Acredito em cada coisa que você nem imagina.
         Depois desse mentiroso, veio uma mulher de uns quarenta anos. Loira, enxuta, num vestido verde, algo de malícia e qualquer coisa de histérica. Os peitos dela ficavam balançando na minha cara quando não batiam no meu braço sob o balcão. Tentei passar a conversa nela, só para fazer alguma coisa e me livrar do tédio.
_E eu transo com vários caras – a voz um pouco rouca e os olhos bem arregalados. – às vezes ao mesmo tempo!
_E hoje?- aquela curiosidade...
_Não, hoje, não! Hoje quero descansar!
_Tudo bem...
_E sabe de uma coisa? Nem um homem tem o pau igual ao outro. É tudo diferente.
_Pois é... não penso nessas coisas...
_E o segredo não tá no pau! O segredo tá na buceta. – fez um triangulo com as mão para mim ver. O garçom esticou o pescoço para ver também. Sua cara magra de onde pendia um narigão me irritou pela curiosidade.
_Pode ser...- fiz sinal para o garçom me dar outra cerveja.
_O homem não come a mulher, entende? É a mulher que come o homem! – deu um tapa na minha coxa, depois riu – A buceta é uma boquinha! E a boquinha mastiga a banana! Você me entende?
_Entendo... – fiz um esforço para não visualizar a metáfora.
_E eu sou uma devoradora! Uma degustadora também. Eu experimento de tudo um pouco.
_Uma boquinha gulosa... – resmunguei.
_Não é assim, é uma boquinha desbravadora dos sabores do mundo!
_E hoje a boquinha tá descansando... – falei maliciosamente.
_Isso aí!
_Quando a boquinha não estiver descansando, aí você me avisa!
_Você não me aguenta cara! Você é muito jovem, tem que aprender muito ainda... Vocês jovens não trepam para aprender, trepam para se exibir!
Gostei da teoria dela. Anotei mentalmente.
_Eu fiz plástica. Tenho 69 anos! – devolvi.
_Número sugestivo – riu ela.
         Defendeu sua tese e depois deu no pé. Deve ter ido colocar a boquinha para dormir, pensei, contando-lhe uma historinha. O problema é se começa a pedir mamadeira – melhor nem imaginar isso. Não pense que eu não fiz o sinal da cruz!
         Lá pelas três minha mão já contava com movimentos condicionados para pegar o copo. Foi depois disso que um travesti enorme puxou a cadeira do meu lado. Tudo de agressivo. Ombros largos e braços musculosos – no direito, bem no muque, tinha tatuado um coração atravessado por uma flecha. Quase meigo. Vestido preto, sem alça. Salto alto e fino. A pele era cor de laranja. Pescoço longo e aquele gogó protuberante. Um pelo grosso na ponta do gogó: a bandeira de alguém que escalou aquela coisa? Era polaco – notei pelo formato do nariz. Parou ali para tomar a saideira – e eu estava no meu quarto pedido de “só mais essa”.
_Trinity! – se apresentou depois de um tempo. – que nem no filme Matrix.
_Filme interessante – resmunguei.
_Não acho! – Sinalizou ele/ela/quem sabe?, com aquela voz de homem tentando afinar.
Tá faltando treino vocal aí, refleti. – mas esse problema não é meu!
_O pessoal me chama de Rio Grande! – Informou com um gesto do braço musculoso. Como se essa informação fosse de suma importância.
_Entendo...
_Dependendo da noite – bebericou seu whisky-, é Rio Grande a Cavalo! – aí a voz ficou (perigosamente) mais grossa – Quer saber por que é Rio Grande a Cavalo?
_Se eu disser que não, você vai falar do mesmo jeito!
_Com certeza! É porque eu sou do Rio Grande e me destaco na galopada!
         Pensei: puta merda, essa porra de balcão tá virando A praça é nossa! E eu devo ter cara de Carlos Alberto, fazendo ponte para os humoristas arrancar risadas ensaiadas de uma plateia de semimortos. É certo que não deveria ter saído de casa. Sempre me arrependo, mas finjo que não. O pior – para mim mesmo!
_Você não quis dizer “cavalgada”? – resmunguei.
_Não. Galopada. É mais fora de ritmo, sabe?
_Não sei não...
_Eu te explico!
_Melhor não. – Disse seco.
_Assim você me magoa!- fez beicinho. E que beicinho, rapaz! Tai a entidade pior que imaginei antes. A propósito: Superou minha imaginação. Não vou conseguir descrever.
_Isso aí. Eu estou sempre magoando as pessoas. – falei.
_Ui que delícia!
_Vá pro diabo!
Ele/Ela/quem sabe?, desatou numa gargalhada.
         Paguei minha conta e saí do bar. O garçom ria que se mijava da minha cara. :_Ria enquanto pode! – Sussurrei para ele, por cima do caixa na porta. “Com certeza! Ra ra ra!”.
-Pau no cu de quem tece meu destino.

***

         Isso aí não tem futuro! – Falei olhando no espelho. Na sequência joguei água no rosto, enxuguei e contei até dez antes de sair do banheiro. Dessa vez estava na casa de Charles. Como ele me pediu: Apenas para trocar uma ideia – com a irmã dele. Ela é bonita demais para ser irmã do tal irmão. Geralmente é assim. Me tomo como exemplo.
         Jucélia era o nome. Junção do nome do pai e da mãe - aquela coisa. Magra, alta, quase albina – também – e já publicou um romance numa editora meia boca. Escreve bem. Mas tem medo de falar em pau, buceta, cu, essas coisas. Escrever “pau no cu” então, nem falar! Provavelmente nem tem cu – ou não descobriu ainda. Vai saber.
_você deve dizer para as mulheres que elas escrevem bem, só pra comê-las! –falou para mim, na sacada, a queima roupa, enquanto acendia um cigarro.
Lembrei da conversa sobre a boquinha e comecei rir.
         Não respondi. Desenvolvi essa mania agora. Quando não gosto do que as pessoas falam, finjo que elas não falaram. Fica melhor para todo mundo.
_Responda alguma coisa! – disse ela, depois de cinco minutos do mais puro silêncio.
_Você escreve igual minha falecida mãe, não posso te criticar. – resmunguei.
_Não sabia que sua mãe escrevia... – ficou constrangida. O rosto corou, tremeu a mão para acender outro cigarro. Começou a ensaiar um gesto de desculpas.
_Minha mãe nunca escreveu e agora acho que ficou mais difícil.
_Cara... você é desprezível mesmo! – rosnou e voltou para dentro de casa.
         Dali mesmo caí fora. Rindo e sacudindo os ombros.

***
         Novamente a mesa, os papéis, cigarros, trago, só faltava à vontade de escrever. Olhei as anotações de três noites atrás. Tudo merda. Amassei sem rancor algum. Fizeram despacho para mim – aposto. Meu nome costurado na boca de um sapo. Não é a primeira vez, reconheço os sintomas.
         Passei a mão na bunda de uma menina na escola. Acho que hoje ela gerencia um puteiro no interior de Santa Catarina. Levava jeito. Quinta série. Tava todo mundo passando, achei que tinha alguma coisa de divertido. Foi meio chato. Sem sentido. Ela contou para o pai dela. O pai dela era pai de outra coisa também: de santo. Só sabia o meu nome, daí que fui o único amaldiçoado.
         Falando de caras fortes, acho que me encaixo nesse caso. Se segui até aqui, com sapo e tudo, vai ver tenho alguma força oculta.
Mas hoje, não vai sair nada. Sinto muito se você leu até aqui.





r.A.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O crepúsculo do pensamento crítico



Não suportamos mais pensar.

         Eis a máxima mais evidente atualmente. Pensar dói e é difícil. Se dói e é difícil, melhor é desviar esse caminho – essa necessidade humana. Pensar cobra seriedade e tempo. Mas seriedade e tempo, hoje, são tidos por adversários. Há quem diga que somos pós-modernos. Quanto a mim, desconfio que somos a sociedade do pós-Nada.
         Uma vez que vivemos a ditadura da felicidade a todo custo, da excitação sem lágrimas, pensar é a coisa mais estranha a se fazer. E o único modelo de felicidade que conhecemos é o do comercial. “Não pense, apenas divirta-se”. Tal é o mandamento. Pedagogos e demagogos tentaram conciliar o Pensar com o Lúdico. Não deu, pelo simples motivo que pensar dói. Não dá para se divertir pensando – na maioria das vezes. O riso após o pensamento é um riso melancólico. Irônico. Não chega a ser uma gargalhada forçada. No pensamento o gozo é outro.
 Lógica das reformas curriculares no Brasil: Se pensar é difícil, então vamos substituir o pensamento por outra coisa! Qualquer coisa lúdica há de nos livrar das crises! A maquiagem é essa: “temos de tornar a reflexão agradável” – Não seria invés de “agradável” um “Degradável”?
         Ludicidade, ocupação e futuro. Queremos o futuro ocupado e sorridente. Pensar, não. No máximo engajamento em ideologias cuja origem não está em nós. Religião, Trabalho e Política. Ocupadíssimos: Da casa para o trabalho, do trabalho para o templo. Sorrir durante o percurso.
         Pensar, no ápice de seu vigor de exercício, é uma ação solitária. É aí que dói mais – se não bastasse à dor de pensar e sua dificuldade, o pensamento cobra uma aprendizagem: Aprender a suportar-se. Mas! Não queremos nos suportar, queremos qualquer coisa que nos livre de nós mesmos. E para os que ainda teimam em querer pensar, temos uma frase pronta:_ Tai o doido, andando sozinho nessas horas!
         Tempo. Mas um tempo que nos prometa algo – A única coisa que o tempo não faz é promessas. Só desejamos um tempo com o qual possamos preencher nosso “pós-nada”, não desejamos um tempo que nos torture com sua passagem que espedaça essa carcaça orgânica que nos habituamos a chamar de corpo.
Não queremos mais pensar: vai que pensando nos daremos conta que nosso pós-nada escorrega em direção ao pó? Aí o futuro fica nu diante de nós. O futuro também é nada.
_Mas não somos seres históricos?
_Somos. E a história é nossa mentira favorita!
         Pensar é mais difícil do que morrer. E pode ou não ocorrer em vida. No andar da carruagem – ou melhor, no despedaçar da carruagem – não queremos mais que esse afeto e essa dor penetrem na vida. (Quem só entende Pensar entrelaçado com Razão, não foi avisado que antes da Lógica vem a Ideia – Platão sabia disso!).
 Pensar é uma expressão de liberdade e nada no mundo nos angustia mais do que a liberdade (diziam os existencialistas). Nós nos tornamos os animais que mais procuram alguma coisa para obedecer – um Deus, um Trabalho, um Partido; em suma, uma Utopia.
E como nos consolamos? Essa é fácil de responder: No auto engano da participação da construção desse dogma. Quanta ingenuidade!
_Pensar é uma ameaça de assassinato ao dogma.
         “A economia está em crise” – eis o axioma. Dele decorrem premissas: Temos de nos unir, sociedade, para estabilizar a economia. E das premissas decorrem conclusões: Trabalharemos juntos para superar a crise. Se alguém tiver a ousadia de dizer: Pensarei sobre isso! A resposta já está pronta para humilhar o engraçadinho: Pensar nada, você vai é para um instituto técnico de período integral para se preparar para o mercado de trabalho e desempenhar sua performance de “cidadãozinho”. Seu destino é: Dar orgulho para o papai, para a mamãe e para o país!
_E pensar? Não rola?
_Pensar não abate as metas! Quer ficar desocupado? Pensar não enche barriga e saco vazio não para em pé.
         Se pensar é mais difícil que morrer, na sociedade pós-nada você estará livre dessa dificuldade. Antes que você acorde já terá um objetivo sacudindo um chicote para suas costas nuas. Quando o chicote estalar próximo ao seu ouvido, você vai chamá-lo de Consciência. E em nome dessa tal “consciência” você perseguirá todos, passando à diante sua condição miserável que também receberá outro nome: Dignidade. Entretanto, veja pelo lado bom, você terá um funeral Digno... Pois é.
_Desse tipo de dignidade eu só quero uma coisa: DISTÂNCIA!
         O que eu não te contei é que se pensar dói, essa dor não significa de forma alguma que pensar é triste. E se fosse triste, eu, particularmente, preferiria essa tristeza com perfume de liberdade, mil vezes, do que essa felicidade comercial que inunda nosso pobre cérebro. Não é para mim essa felicidade de fuga de si mesmo. Pensar me ensinou – mais que qualquer mestre, mais que qualquer sociedade – ao invés de fugir, duelar com forças que me impedem de ser livre. Eu mesmo sou uma força que briga sorrindo. E me divirto ao exibir minha potência. Não é qualquer um que bate como eu bato – daí que reconheço minha singularidade.
         O crepúsculo do pensamento crítico é como chamo nosso contexto. Agora, exatamente nesse momento em que você está lendo esse texto, a preguiça e a covardia de muitos instauram dispositivos de poder para banir de uma vez por todas o pensamento e em seu lugar garantir o segundo passo para uma cultura fraca, a saber, instaurar um direcionamento técnico e objetivo para uma mentalidade que só vê sentido no imperativo econômico – “econômico” segundo o axioma que expus acima.
_Falou em economia então a coisa é séria!
         Pensar não é sério, economia é! (risos).
         Se você não sabe o nome desse dispositivo de poder, vou te ensinar a chamar os problemas pelo devido nome. A tal “Reforma na educação” – que vem sido encarada enquanto “solução”- é nada mais do que uma tentativa de sufocar o tempo de pensar pelo tempo de Ocupar-se: Obviamente na engrenagem de um tipo estratégico de economia – há quem pense que superar crises tem a ver com dar empregos; essa estratégia não me engana! Já que aceitamos que pensar é difícil – e pouco lúdico – agora a sociedade no geral está demonstrando seus sintomas de fracasso.
_Pensar pra que? Temos é que agir!
_Quando essa pergunta é feita, seguida dessa afirmação vazia, em uma sociedade, você já pode se preparar para o pior!
[Os nazistas não sabiam pensar, só sabiam obedecer – e obedecer em nome de redenções econômicas!]
         Não suportamos mais pensar, porque nos tornamos uma sociedade de bundas moles! Um tipo de bunda mole que vive de lamentação e contorna todas as pedras pelo caminho. O tipo de molengas que adoram pegar atalhos em momentos de crise. Confundimos nossa dramalheira com sensibilidade. A prova do quanto nos idiotizamos é que não reconhecemos mais o pensar como uma ação, o pensar como uma atitude mais rápida é devastadora que qualquer prática – o pensar como objetivo imediato.
No fundo o que nossa atual política quer fazer é nos ensinar a “brincar de trabalhar em nome de promessas utópicas de futuro”. Pessoas podem te fazer promessas (ainda mais em época de eleição...), mas o tempo não mente por conveniência, colega –Há um abismo que separa História e Tempo.
É lindo falar em Inclusão – mas, deixe-me te perguntar de maneira ousada: você é amigo ou inimigo de quem quer incluir numa lógica patética dessas? Como? Você também foi enganado com a conversa de “brincar trabalhando”? Não duvido! Nem um pouco.
Viu como eu te conduzi até aqui para te mostrar que sei desmascarar o tal lúdico? Por trás de uma palhaçada sempre tem uma intenção descansando na sombra. É esse tipo de intenção que eu piso no pescoço quando pratico filosofia! E você ia morrer pensando que filosofia é só pensar, né? – filosofia é deitar as ideias na porrada! Se ligue.
Bem, só posso terminar esse texto com uma pergunta que é ao mesmo tempo uma provocação:
_JÁ PENSOU HOJE?



r.A.


“[...]As pessoas já se envergonham do descanso; a reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão, enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa – vivem como alguém que a todo instante poderia perder algo. Melhor fazer qualquer coisa do que nada – este princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior.”


_Nietzsche. A gaia ciência.

sábado, 20 de setembro de 2014

Sensíveis, demasiado humano




É tão fácil parecer sensível hoje em dia. Basta escolher as palavras – e não ser escolhido por elas. Falar de lágrimas invés de calar a boca. Lamber as feridas em público. Exagerar gestos de comoção até a cafonice.
Trancado no quarto e sodomizando sua ingênua consciência, depois, se deixar observar com cara de cachorro faminto.
_o mundo é injusto! – como se alguma coisa fosse justa.
_a vida dói! – como se resmungar com ares de inteligência resolvesse muita coisa.
Mesmo que parecer sensível seja uma coisa muito fácil, ser verdadeiramente sensível não é grande coisa. Aliás, muito provavelmente, é um defeito e uma testemunha da tolice. A propósito: Prefiro bater a canela numa tábua a ter de estar na companhia de gente que é ou parece sensível.
Todo sensível é um egoísta sem força que remoí solitário uma incapacidade ficcional de fazer o mundo corresponder a seus desejos. Um profissional da lamentação.
Eu me comovo com o pôr do sol e com a lua cheia – diz o sensível. Bem, para mim isso é coisa de gente comum e não de gente singular. Sinto um êxtase no espírito ouvindo determinadas músicas – diz o sensível. Imagine carpindo um lote o que esses sensíveis sentem! (risos). Mas me parece que gente sensível não fala de puxar terra com um carrinho de mão, não fala em se sentir enganado na fila do banco ou do açougue, nunca menciona ter cortado o dedo com uma lata de sardinha. Gente sensível não fala de acabar o papel higiênico ou de falhar na hora H. Gente sensível fala de ser sensível – e é engraçado como uma aporrinhação dessas ainda impressiona.
Se eu falar que acho Chico Buarque um embusteiro e Caetano Veloso uma dor de barriga violenta, certamente vai aparecer alguém me acusando de insensibilidade. Nunca vi nenhum sensível fazer poemas sobre a louça de três dias fedendo na pia. Mas para falar de amor e de paixão você nem precisa dobrar a esquina. Tem sempre um chato se queixando com poses e estilos.
Tem gente que se acha sensível e acredita que todo mundo vai suspirar por suas ninharias. Daí se reproduzem feito baratas os artistas, escritores e filósofos. E assim se multiplicam as justificativas para todos os ataques de histeria. Linhas tênues separam o gênio do doente; o doente do chorão.
Aprendi muito sobre sensibilidade enquanto remendava cercas de arame farpado no interior de uma cidadezinha decadente. Embaixo de um sol de quase 40 graus. É mais fácil ser sensível enquanto um arame não rasga sua mão e o suor não escorre para dentro das feridas. Certas lições se aprende por acidente.



r.A.