sábado, 20 de setembro de 2014

Sensíveis, demasiado humano




É tão fácil parecer sensível hoje em dia. Basta escolher as palavras – e não ser escolhido por elas. Falar de lágrimas invés de calar a boca. Lamber as feridas em público. Exagerar gestos de comoção até a cafonice.
Trancado no quarto e sodomizando sua ingênua consciência, depois, se deixar observar com cara de cachorro faminto.
_o mundo é injusto! – como se alguma coisa fosse justa.
_a vida dói! – como se resmungar com ares de inteligência resolvesse muita coisa.
Mesmo que parecer sensível seja uma coisa muito fácil, ser verdadeiramente sensível não é grande coisa. Aliás, muito provavelmente, é um defeito e uma testemunha da tolice. A propósito: Prefiro bater a canela numa tábua a ter de estar na companhia de gente que é ou parece sensível.
Todo sensível é um egoísta sem força que remoí solitário uma incapacidade ficcional de fazer o mundo corresponder a seus desejos. Um profissional da lamentação.
Eu me comovo com o pôr do sol e com a lua cheia – diz o sensível. Bem, para mim isso é coisa de gente comum e não de gente singular. Sinto um êxtase no espírito ouvindo determinadas músicas – diz o sensível. Imagine carpindo um lote o que esses sensíveis sentem! (risos). Mas me parece que gente sensível não fala de puxar terra com um carrinho de mão, não fala em se sentir enganado na fila do banco ou do açougue, nunca menciona ter cortado o dedo com uma lata de sardinha. Gente sensível não fala de acabar o papel higiênico ou de falhar na hora H. Gente sensível fala de ser sensível – e é engraçado como uma aporrinhação dessas ainda impressiona.
Se eu falar que acho Chico Buarque um embusteiro e Caetano Veloso uma dor de barriga violenta, certamente vai aparecer alguém me acusando de insensibilidade. Nunca vi nenhum sensível fazer poemas sobre a louça de três dias fedendo na pia. Mas para falar de amor e de paixão você nem precisa dobrar a esquina. Tem sempre um chato se queixando com poses e estilos.
Tem gente que se acha sensível e acredita que todo mundo vai suspirar por suas ninharias. Daí se reproduzem feito baratas os artistas, escritores e filósofos. E assim se multiplicam as justificativas para todos os ataques de histeria. Linhas tênues separam o gênio do doente; o doente do chorão.
Aprendi muito sobre sensibilidade enquanto remendava cercas de arame farpado no interior de uma cidadezinha decadente. Embaixo de um sol de quase 40 graus. É mais fácil ser sensível enquanto um arame não rasga sua mão e o suor não escorre para dentro das feridas. Certas lições se aprende por acidente.



r.A.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Dos que se expressam para não ficar mais loucos




Entre os artistas, os que mais admiro: são os que espiaram alguma coisa insuportável para suas sensibilidades e retornaram desta expiação um pouco enlouquecidos. Esses desafiam todo público a sentir o impensável. Os que não passaram por isso me parecem que brilham com luzes emprestadadas. Se valem mais do adjetivo do que da qualidade. Distingo uns dos outros pelo nível de satisfação que representam em relação a si mesmos. Os que expiam o insuportável sabem que não há satisfação ou orgulho nisso. E sabem que não há glória que cicatrize feridas na alma. Pagam o preço de sentir o que outros não sentiram numa espécie de exílio.
         Os que admiram esse tipo de artista passam a imitar seus gestos com a intenção de descobrir esse segredo. Como se cheirassem os passos dos loucos. Não é o melhor caminho, mas para os ingênuos, parece o mais rápido. Esses que imitam. quando não são descobertos na fraude, um dia se veem diante de uma plateia que os aplaudem. Se sentem bem com isso e esquecem-se do rastro que estavam seguindo. Quando a intenção se confunde com o orgulho, temos mais merda no mundo. É aí que a maioria constrói sua casa... Preciso dizer que não admiro esse segundo tipo ou ficou óbvio?
         Um tipo se expressa para não ficar mais louco, outro tipo se expressa em nome da multidão. Um, se você perguntar o que está fazendo, provavelmente não vai conseguir responder “definitivamente”. Outro, se você fizer a mesma pergunta, vai estufar o peito e falar por horas. Vai justificar grandiosamente a menor vírgula de seu trabalho. Um, vão chamar de idiotinha, outro, vão chamar de genial.
         Um tipo você encontra entre grupos, outro tipo, você não encontra... ele vai provavelmente correr de você como o diabo foge da cruz.
         A melhor maneira de botar os dois tipos no mesmo saco é juntá-los em nome de uma causa: salvar a arte! Séculos vão se passar e a multidão vai achar que ambos os tipos partem do mesmo princípio e querem ser “reconhecidos” na mesma roupagem. É para isso que existem (na maioria das vezes) as metodologias teóricas, o discurso da história da arte. “Cada um tem seu valor singular” – resmunga o crítico – outro tipo que brilha com luzes emprestadas! E vive – muito bem – fazendo pose de intermediário: Entre o artista e o público. Também há o ventríloquo, você já deve ter visto por aí o tal médico da aesthesis: o curador. Esse sabe do que fala – quando não sabe, inventa, sem sentir remorso algum.
         “Então sabichão, como é que a gente se torna artista?” – Alguém deve estar perguntando (geralmente quem pergunta isso é do segundo tipo do qual falei). E é certo que não tenho essa resposta. Talvez também tenha aquele que só vai dar crédito para esse texto caso eu descreva minuciosamente as diferentes linguagens ou os diversos contextos históricos-sociais, blábláblá. Sugiro que saltemos para o próximo parágrafo.
         Uma coisa que me parece que a existência humana não tem é sentido. E essa existência sem sentido, na minha opinião, só pode ser suportada (às vezes) porque persiste a arte. Saber que há maneiras de se livrar de uma sensibilidade sonolenta – que é, para mim, o comum -, saber que há como superar um condicionamento estético – que é, para mim, a sociedade no geral -, beira o milagre! Não sei se é assim para você, mas na minha compreensão, a arte é a maneira mais séria e mais potente de desestabilizar uma cultura: seus ideais, suas representações, suas utopias, etc. A institucionalização da arte como programa dominical é qualquer coisa como o fim da liberdade de sentir- de incontáveis maneiras.
_Por isso que quando alguém diz “venha prestigiar” eu não sei se tenho ataques de risos ou ataques de ódio. Outra palavra que me provoca náusea é “lúdico”... (só pra constar).
         No meu caso, para que eu não asfixie na própria sensibilidade; ainda restam os artistas do primeiro tipo (que anunciei no início do texto). Que por vezes digam que esses são nada mais do que sintomáticos, pouco importa (gente inteligente sabe pular por cima do próprio sintoma). Desde que não desempenhem esses papéis pré-estabelecidos por uma sociedade que almeja controlar tudo – até nossas angústias mais íntimas. (ainda quero a cabeça do deus do marketing numa bandeja de prata!).
         Para os que vem me falar do tripé “conteúdo-forma-técnica”, ainda guardo um direto de esquerda seguido de um cruzado de direita. Nem sempre nessa ordem. Quem disse que é feio responder processos por agressões físicas em determinados contextos? Experimentem falar em “prestigiar” na minha presença para ver o que que acontece!

r.A.

Dedicado aos que enlouqueceram sozinhos em quartos baratos, mas não entregaram o “bandido” pelo “ouro”.


Foto: Joseph Beuys na performance: Como explicar pintura para uma lebre morta (1965).

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Um duelo triplo



De dez bares em torno da universidade ela resolveu entrar justamente nesse. Foi como se eu tivesse um sensor nas minhas costas largas. Virei meu rosto redondo, negro, e dei com os olhos castanhos. Era como se a garota de cabelos cacheados, magra, egocêntrica, dentro de uma camiseta do Led Zeppelin que apertava os seios, entrara ali para olhar para minha nuca.
         Ela contraiu os lábios grossos e mexeu a cabeça sacudindo os cabelos. Suspirou profundamente, fingindo tédio. Mas seu pé esquerdo batia no chão ao mesmo tempo em que as mãos apertavam a cintura.  
_Você parece que me segue... – resmungou ela, de forma arrastada.
_Como é? – disse contraindo as sobrancelhas.
_Nada.
         Eram três da manhã e a insônia estava enchendo meu saco novamente. Arrestei o enorme corpo até o balcão do bar mais vazio. Sacudia um copo com duas doses de whisky e ouvia a música. Franz Ferdinand - Ulysses. Parecia a melhor coisa para ser feita numa sexta-feira.
_Tá tudo certo? – uma voz grave me despertou dos pensamentos. Era o barman, um negro magro com um bigodinho ordinário. Ricardo era seu nome.
_Sim. – respondi olhando para a parede. Fiz sinal com a cabeça em direção da moça nas minhas costas.
_E você? – falou o barman pra garota.
_Viviani. Uma loira, baixinha, magrinha, minha amiga, não apareceu por aí? – Falou ela e pude acompanhar seu reflexo no espelho do bar. Gesticulava muito enquanto falava.
         Bebi mais um pouco. O gelo do copo havia derretido e deixado um gosto menos ácido no whisky. Ricardo olhou-a por uns trinta segundos, coçou o queixo e sumiu atrás de uma cortina. Baixei o copo e percebi que a garota me olhava pelo espelho que antes eu usava para observá-la.
         O barman voltou a aparecer e contornou o balcão. A garota o acompanhou até uma mesa nos fundos. Cochicharam por uns minutos e riram. Apenas a luz de uma televisão muda iluminava o bar – o canto em que ela sentou era o mais escuro.
         Ricardo passou por mim e sorriu. Correspondi com um aceno de cabeça. Ele pegou uma cerveja e um copo. Voltou até a garota e deixou sob sua mesa. Pegou um jornal e sentou no outro lado do balcão.
         Continuei acompanhando a garota pelo reflexo. Ela olhou para todos os lados, bebeu de uma golada só a cerveja no seu copo e depois puxou alguma coisa do seu colo. Observou essa alguma coisa com gula. Não precisei muito para entender que “Viviani” era uma senha para algumas gramas de cocaína.

***
         Já estava na minha terceira dose dupla quando a garota saiu do seu canto e sentou ao meu lado no balcão.
_Depois vai dizer que estou te seguindo... – falei sorrindo.
_Ah, desculpa, te confundi com outro cara. – devolveu ela. – você vai para algum lugar depois daqui?
_... pergunta difícil.
         Ela riu de forma exagerada. Colocou a mão na minha coxa assim que sossegou a gargalhada. Na situação invertida – se eu tivesse feito isso, quero dizer – eu saberia exatamente o que isso significava. Por isso fiquei um pouco nervoso e saquei um cigarro do bolso. Acendi dois e alcancei outro para ela.
_Não cara! – Disse Ricardo jogando seu jornal sob o balcão.
_Seis horas cara... só estamos nós aqui. – retruquei e lhe alcancei um cigarro.
_Verdade. – resmungou Ricardo e aceitou o cigarro que lhe alcancei. – para onde vocês vão depois?
_Dá pra ir no meu apartamento... – disse ela sacudindo a cabeça. – tem cerveja lá!
_Encontro vocês em quinze minutos do lado de fora? – sussurrou Ricardo, empolgado. – eu levo mais cerveja.
         Agora tocava Led Zeppelin – Black dog.

***
         Estávamos sentados em uma sala escura, parcialmente iluminados pelos postes da rua.  Ricardo, em uma poltrona de frente para mim, sem camisa. E eu, com uma cerveja numa mão, enquanto com a outra mão acariciava os pés de Jeorgia no meu colo.
_a gente vai só beber ou vai transar? – Perguntou Ricardo.
_Eu não curto macho... – respondeu Jeorgia e puxou seus pés do meu colo.
_Adoro macho! – Devolveu Ricardo olhando na minha direção.
_Se tivesse nascido mulher, certamente seria a maior lésbica da face da terra! – falei olhando para minha cerveja.
_Isso parece um duelo de três pistoleiros ao pôr do sol! – riu Jeorgea. – só que nesse caso o sol está nascendo.
_Se você tem um pau de borracha aí- apontei para Jeorgia – você finca no cu desse bigogudo enquanto eu bebo o resto das cervejas! Me comprometo em assistir a coisa toda, só não prometo que não vou gargalhar. Aí os pistoleiros se viram com o que tem... no jazz a gente chama isso de improviso.
         Os dois riram. Levantei do sofá e fui até a geladeira pegar mais duas cervejas. Bebi uma cerveja no caminho, a outra abri quando voltei até o sofá.  
_Ou você deixa a grana que tem nos bolsos aqui – falou Jorgia me mostrando um revólver 32. – e eu compro a cocaína desse cara. – apontou com a arma para Ricardo. – Aí o pistoleiro mais inteligente e melhor preparado para essa situação, vence o duelo.
_Sou pai de família – resmunguei sorrindo – você está comprometendo o futuro de toda uma geração!
_Pai de família não fica no bar até seis da manhã. Jovem demais para ser pai de família. E se fosse um cara bonzinho, não saia atrás do primeiro rabo de saia que lhe deu mole, seu tarado! – devolveu ela.
         Tirei o dinheiro da carteira e joguei na mesa de centro da sala. Não tinha mais de duzentos reais. Já estava com minhas contas pagas. Era o dinheiro para torrar em bagunça mesmo. Estava com raiva – muito raivoso. Pensava em tentar dar uma bofetada na cabeça da mulher, mas ela não deixou nenhuma brecha. Morrer ali, baleado, e talvez ter o cadáver violado por um veadão, não fazia parte dos meus planos finais.
_Mas tenho direito de uma última cerveja, aposto! – Falei cordialmente.
_Pega lá, seu bosta! – Devolveu ela.
         Voltei até a cozinha e me servi de duas garrafinhas. Olhei no congelador e tinha um pote de sorvete. Tirei o pau pra fora e mergulhei no sorvete – vingança, de alguma forma!
         Quando entrei na sala, os dois já estavam esticando linhas de cocaína na mesa. “Você é lésbica mesmo?” – perguntou o tal de Ricardo. “É claro, porra! Sniiiiffff”. Acendi um cigarro e fiquei no meu canto com minhas duas cervejas, o pau mais gelado do que se tivesse trepado com uma psicóloga.
  _Vai uma linha? – Falou Jeorgia, rindo.
         Ameacei dar um chute na mesa e me vi com um revólver apontado para minha cara. No fundo adoro minha vida, pensei. Sai e meu último olhar foi para o meu dinheiro... Fechei a porta e mijei por ali mesmo. A sorte – se é que podemos falar de sorte nesse momento – é que tinha um passe para o metrô.
         De dez bares ela tinha que entrar justamente naquele?
_Tomara que morram de ataque cardíaco! – Gritei no corredor e peguei o elevador.
         Ganhei a rua e pude assistir o sol nascer.




r.A.

sábado, 30 de agosto de 2014

O santo no bosque e a morte de Deus



        De quatro em quatro anos* tenho que passar por isso e me chateia. Explico: tenho que passar por essa erupção da massa na confecção de crenças. Como sou dos poucos – até onde sei – que não se deixa arrastar sem dar umas boas pauladas por cima da manada, cá estou, escrevendo. Não deu para viver isolado no mato e por isso tenho que “aturar” a sociedade – mas faço questão de perturbar o máximo possível para devolver dissabores. Dito isso, posso seguir.
         Já escrevi em outro ensaio por esses lados o que penso sobre a política contemporânea. Sem ter uma maneira mais clara para me expressar, cheguei a me manifestar por meio de metáfora: “O Estado é o trono vago do Deus morto e os partidos são os concorrentes para sentar nesse trono.” Se um dia tentarem investigar meus ensaios para captar o núcleo de meu pensamento político-filosófico, sugiro que partam daí. (risos).
         Quem diria que hodiernamente, nesse país chamado Brasil, se falasse tanto em Deus depois de seu falecimento nas idas e vindas da modernidade. O tripé: Nietzsche-Marx-Freud não falava de outra coisa, ou seja, do cadáver de Deus. (Créditos à Schopenhauer, meus amigos chegados nuns alemães). Esse velório ainda vai longe, pelo visto.
         Eu vejo a ausência de Deus nas nossas instituições – agora que a humanidade já matou o tal “ser”. O melhor modelo para atingir as massas é evocar seu bendito nome e seu bendito significado. Onde eu sinto o cheiro de utopia, sinto o cheiro do cadáver de Deus. Você quer ver o que eu vejo? – é capaz de suportar isso? Basta acompanhar qualquer partido político, qualquer campanha política. Ali está, jogado na sua cara, o discurso fúnebre da famigerada morte. A salvação por meio do coletivo, o otimismo elevado à milésima potência, o gozo e êxtase em nome do ideal. “O mundo que construiremos juntos” – isso te soa familiar?
         Gente que quer te prometer o futuro e você, na sua condição desgraçada, professa fé imediatamente! Você pensa: mas eu preciso acreditar em alguma coisa, preciso me apegar a algo... É que te convenceram disso desde que você aprendeu a domesticar seus resmungos e suas lágrimas – Aprendeu isso mediante ameaças, mediante castigos físicos e psicológicos (os que dizem que “a família é seu chão” me despertam imensas desconfianças). Eu te entendo! Você não suportava o terror de ficar sozinho, jogado num universo de acasos, cercado pela angústia de fracassar ou morrer. Não é para Deus que você reza quando constata seu abandono – reflita sobre isso se puder aguentar -, se você acreditasse em Deus teria vergonha de lhe pedir coisas tão mesquinhas, tão pequenas! – Mandar em um Deus, obrigá-lo a suprir suas necessidades, não é um tipo de demanda absurda? Você reza para a ausência de Deus, você implora por menos sofrimento diante da ausência de Deus – de joelhos diante de um trono vazio, você se comove e chora.
 Isso não é inédito na história da humanidade, aliás, é bem comum. Jesus (enquanto metáfora simbólica), quando pensou um pouco, se sentiu abandonado – em seguida lançou mão de seu último truque: a fé. Pediu perdão para a ausência do Pai. Em seguida foi assassinado enquanto salvava sua megalomania. É assim que você faz; você consola suas dores mais vergonhosas com a fantasia de “destino divino”:_ foi assim que Deus quis – você se baba enquanto fala!. Você se tem em tão alta estima, delira em suas fantasias de importância “cósmica”, que não aceita sua Queda. Esse sentimento é a saudade do útero materno e dos primeiros anos de sua infância, quando uma força superior acudia suas necessidades de atenção. Todo ser humano é a saudade de sua significância – no geral.  Só existe salvação humana na ilusão.
É aí, exatamente aí, nessa condição, que todo discurso político te pega e te faz refém. Todo povo miserável, arrebentado e culpando a si mesmo por estar nessa condição, está suscetível, sensível, de coração aberto, desarmado, para qualquer que seja a promessa de redenção. A faísca mais íntima, seu pacto secreto com o medo que tem da morte, toma a forma de ESPERANÇA. Adoça sua esperança sua fuga do tédio cotidiano. Sua saudade de quando era protegido da vida é projetada no futuro – sua sede por vingança de todas as taras insatisfeitas!  
_O nome da ausência de Deus é História.
         Pouco importa se você acredita em Deus ou não. De forma alguma é essa a questão! – se você é um pouquinho inteligente vai perceber que não estou me apoiando em ateísmo para discorrer sobre esse tema no ensaio. A questão é que na ausência de Deus você e suas lágrimas (sofrimentos pessoais) tendem a ocupar o lugar vago. Os mais idiotas ocupam esse lugar com a ciência ou com a história. Não muda muita coisa trocar os nomes se não se altera as intenções!
         Você é o alvo mais fácil do discurso político, pois, se entusiasma por muito pouco. Basta uma pequena lisonja, um pequeno cargo que te mentiram ser importante, basta tomar para si uma singela importância para acalmar suas angústias existenciais. Que alguém finja notar você – na sua miséria -, você já o chama de amigo: Já o toma por Santo. Esta infantilidade mental que te aflige, essa infantilidade que te leva a abraçar todas as causas “boas” não só te domina como te arrasta – uma vez que te encontra completamente disposto para a sedução mais barata. Você é capaz de aceitar qualquer destruição de suas convicções mais pessoais em nome de compor com um grupo, com um discurso, com um ideal de redenção – melhoramento – da humanidade. Toda vez que você hasteia uma bandeira com orgulho aciona correntes invisíveis em torno do próprio pescoço, em torno da própria língua.
         Quando você abre a boca para falar sobre sua própria decisão, dentro de sua voz falam as vozes de todos os que queriam estar submetidos à imagem de um Deus que já se foi - utopia. “Sua” opinião “pessoal” é a mais óbvia e a mais comum. Já que não pode ocupar (pessoalmente) o trono vago de um Deus morto, você aceita conjecturas que mais ou menos atendem aos seus desejos pessoais mais íntimos. Por isso você identifica seu “representante” como o mais VERDADEIRO. É capaz de matar e morrer em nome de sua fé – sua reza mais íntima que obriga tudo e todos a dobrar os joelhos aos seus caprichos, suas taras não admitidas publicamente, seu nojo pelo que denomina “o resto”. Sintoma de seu caráter perverso é a euforia que sente ao desprezar todos que não compactuam com sua seita, sua mania de grandeza, seu desespero ao ouvir um outro – divergente!
_Você é um fanático que não admite, mas sabe no íntimo de seu ser o que é! Em todos os lugares você não encontra mais do que suas verdades, mais do que sua projeção magnifica do mundo perfeito.
         Alvo das pesquisas políticas e de todo marketing, sente orgulho semelhante uma masturbação quando defende um grupo que acha que faz parte. As decisões mais importantes já foram tomadas com portas fechadas e sua opinião não passa de números, não ultrapassa um gráfico generalizante. Você, chorão, não passa de um idiota a mais para uma máquina governamental cujas parcerias são secretas. Tudo já foi decidido e orquestrado diante do seu nariz egoísta, mas revolvedor de suas taras, você deixou escapar.
         Eis o paradoxo! Você foi desviado sutilmente de seus mais íntimos desejos e defende com unhas e dentes algo que não passa nem perto do seu desejo inicial. Chame isso de ideologia – no sentido pejorativo -, mas você só identifica isso nos outros: os outros é que são alienados, você, jamais!
         Decora fechado no quarto os números de seu “representante” e jamais se pergunta sobre a manipulação dos dados. Aceita os dados – como qualquer religioso aceita a revelação de sua verdade, o núcleo de sua seita! Combate os hereges sem piedade e queima todas as bruxas para salvar suas almas pecaminosas.
_Está vedada para você a possibilidade de se ver como um idiota. Você só se vê no espelho como um gênio! E seu partido só pode ser uma espécie de milagre, já que o gênio que você se tornou está absolutamente livre de equívocos.
         Quando percebe erros, você se consola:_ bem, nem tudo é perfeito, mas o que eu defendo é muito próximo do ideal.


r.A.
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Longa nota de rodapé:

         *De quatro em quatro anos tenho que presenciar essa erupção de crenças. E cá entre nós, minha sensibilidade capturou isso de tal maneira, que recebo tudo isso com um riso irônico. Ao mesmo tempo que manifesto minhas gargalhadas diante disso tudo, não deixo de achar tudo isso demasiadamente perigoso – porque é perigoso!
                Conheço a história política deste país – um pouco. (digo “um pouco” para manifestar modéstia intelectual). Depois de acompanhar tantas promessas e absolutamente nada efetivado, manifesto a descrença geral do cidadão comum – na política. Todo “politizado” me vem com falácias tão rapidamente derrubadas, que só posso concluir que os fiéis dessas seitas políticas sofreram lavagem cerebral profunda.
 Pensava, antes, que essa lavagem era culpa dos partidos aos quais se associam. Mas hoje, percebo nesse quesito tão evidente, que só se deixam alienar os desesperados de todo tipo. É bem mais fácil comprar o pacote ideológico de um partido político do que refletir e pensar – por sua própria conta em risco – os dados que nos saltam aos olhos.
                Os problemas gerais de nosso país são tão rapidamente solucionáveis mediante implicação sincera, que todos os discursos que me prometem algo – e fingem complexidade – não são mais levados a sério (particularmente falando).
                Por algum tempo achei que era o povo, em geral, com sua descrença política, a causa do “problema”. Mas vejo hoje que o povo está “certo” em sua manifestação de descrédito com as instituições políticas atuais. Mas de forma alguma me posiciono ao lado desse niilismo geral.  
                Minha posição política é exatamente esta que manifesto aqui – e espero ser bastante clara. É preciso em primeiro lugar abandonar essa pré-disposição para a representação afim de alcançar alguma autonomia de cidadão. Livrar-se desse caciquismo político atual e dessa ingenuidade em relação a esses grupos que polarizam a política. Só depois que nos livrarmos dessa fé (burra) militante é que poderemos voltar a pensar a política de uma maneira efetiva. Até lá, estaremos reféns de seitas utópicas manipuladoras da esperança coletiva. Confesso minha perspectiva política: Não há militância com autonomia no país! Qualquer sujeito com um pingo de inteligência supera legiões de militantes – é o dado mais evidente da “pós-modernidade” (chamem esse contexto como quiserem). Esses programas coletivistas não manifestam mais do que crenças. E enquanto for assim o resultado é fanatismo na certa.
 A “peneira” das reivindicações, sintetizadas em partidos políticos são uma farsa. Todo integrante de partido político sabe disso! A velha prática de eleger delegados para votar em suas causas é evidente. É uma mentira e está na base de todos os partidos. O coletivismo agindo desta forma é uma maquiagem das reivindicações do povo. As plenárias são uma fraude risível. Não passam de cartas marcadas que se degeneram assim que se afunila a representação – os representantes são escolhidos “a priori”. Seguindo essa hierarquia no íntimo da política das representações apenas proliferamos “máfias”. As campanhas espetaculares não passam de circo.

Esses coletivos agindo dessa forma não representam mais do que conchavamos – no fundo empresariais. Nenhum partido atual escapa desta prática que acabei de denunciar. Fazer resistência a isso e pensar a política de outra forma é a única posição ética possível. Fora disso é resmungo. 

domingo, 24 de agosto de 2014

Como se não bastassem todos meus defeitos

      


      O importante é desistir lentamente porque o problema é que não há problema algum – a gente que é dramático. O tempo não é remédio para nada. Criatividade não é solução.
         De orgasmo em orgasmo se escala o amor. Encapamos esse delírio com as melhores palavras que esses resmungos adestrados foram capazes de produzir – vai ver é porque o tesão não suporta uma tarde de domingo. Observar a bunda de alguém se apagando no horizonte, depois o pôr do sol.
         Um escritor não pode se perguntar sobre o sentido da vida, pois se responde a pergunta primeira, é com palavras que se revolve, nunca com a realidade. Essa coisa é suportável – repito –, a gente que é dramático. Jogamos com as palavras, os termos são palavras cruzadas. De oração em oração (subordinadas ou não) atiçamos nosso próprio demônio.
_Sei lá.
         Toda vez que alguém tentou me ensinar o que é importante tive ataque de risos. Não acredito mais que conseguiremos preencher o silêncio para nos salvar... daí que consigo ser feliz quando calado. Só não quero ser salvo do silêncio. Todo dia é domingo. Entre o velório de um e o nascimento de outro é uma choradeira sem fim: apegue-se aos pequenos e belos detalhes da vida. “É importante”. Essas vitrolas, rapaz, me chutam no saco.
_Só me deixem quieto, por favor.
         Me restou escrever, como se não bastassem todos meus defeitos. Enquanto escrevo, vou enfeitando toda minha desistência, colorindo meu abandono – de si. Ambição – jamais vou confessar! Se a questão fosse ser feliz, poderíamos falar em otimismo e pessimismo. Porém, nem dá para ser triste sempre. E o problema é que não há problema algum – a gente que é dramático. Até Freud já li e não mudei de opinião: Sonho é o cocô da consciência. Mas se a gente não caga, apodrece de dentro pra fora. “O mundo é um sonho” – disse Buda. Tai que a diferença de Buda para Bunda é apenas uma consoante. Nunca vi o Buda desaparecendo no horizonte... acho que não queria ver uma coisa dessas. Sou muito apegado com consoantes.
         Tenho uma lei, que para mim, é mais verdadeira do que as leis de Newton. Segundo essa lei, sujeitos que escondem a sujeira embaixo da gramática, não se sujeitaram a nada. Tudo uns bosta! O tempo não me curou e se tenho sido criativo ao longo dos anos em que imitei o silêncio escrevendo, é porque fui bom numa única coisa: Esconder o jogo. Brincar com as regras.
         E pensar que toda vez que encarei a bunda de alguém, sempre me deparei com o horizonte – e foi lá que Rimbaud disse que encontrou a eternidade. Penso que Rimbaud não assimilou direito à lição. Era jovem demais quando desistiu. Eu não sou Outro – a gente é dramático demais.
         Existe vida antes da morte? Várias – e várias mortes também. Os mestres em suicídio não conseguem dar aula inaugural! Como se não bastasse morrer uma única vez, seguimos resistindo. (É que “resistir não é resistir” – me segredou Mirisola; fudeu com minha ingenuidade). De bunda em bunda mentindo o amor. Depois o pôr do sol.

r.A.

Para Flademir Roberto Williges,
Paulo Cesar Padilha,
Marcelo Mirisola – melhoras pra ti.
Rodrigo Inácio.


Fonte da imagem: Blog Fabíola Cidral.