segunda-feira, 30 de março de 2015

Coisas que eu penso às 05:50 da manhã





“Quem acredita na verdade é um ingênuo; quem não acredita, um estúpido. A única linha reta passa pelo fio da navalha”.
E.M.Cioran – Le livre des leurres.


         Pouquíssimas pessoas sabem o que é batalhar por uma linha escrita de maneira razoável. Comecei a escrever aos vinte anos e já estou chegando aos trinta: nenhuma maldita linha razoável. É claro que podemos concluir que não sou o cara mais indicado (nem minha mãe me indicaria para qualquer coisa!) para falar sobre literatura. Eu me perdoei por isso, amém.
         De lá para cá, andando sempre pela sombra e acordando sozinho no meio da noite, cheguei a algumas conclusões sobre escrever. 1- É coisa de gente rabugenta. 2- É coisa de gente que possuí uma turbulência interior e parece um idiota no exterior. 3- as garotas dizem que gostam disso (porque assistiram filmes demais sobre escritores, mal sabem elas que isso tudo é uma armadilha). 4- Bebem demais. 5- Roubam as namoradas dos outros caras. 6 – O número 5 é mentira, ou quase. 7- Somente os mais putos e sem talento de nós serão reconhecidos em vida. 8- Se está difícil para mim, imagina para quem tem mais de 13 anos e curte Banda do Mar...
         Tentei ser uma pessoa séria – quase casei, tive um quase emprego, um cachorro quase e dois filhos, menino e menina; tudo por muito pouco. Acredite. Te contaria sobre isso no domingo na igreja, se eu conseguisse acordar antes do meio dia – aquela ereção pós ressaca, sabe? Mas acho que não tentei o suficiente. Será que eu não quis ou fiquei com preguiça? Pode ser medo. Apatia.
_Isso tudo me lembra as artistas contemporâneas: Melissa Lauren, Valentina Nappi e Remy Lacroix. Que me fazem seguir em frente no meu sonho de infância.
(Brincadeira).
         Tenho mantido com sucesso a casa livre de bebidas e navalhas. Também quis ser um cara rico e bonito – é mais fácil ficar rico, um dia, vai saber. E só não ouço mais Pink Floyd porque a queda da sacada provavelmente não me mataria. Fora isso, se não tiver mais no que pensar, pense que estou bem.
         Não é fácil querer uma sombra para descansar quando se está no meio do deserto. Mas meu coração está completamente preenchido, finalmente. Agora ele só pode ser destruído de dentro para fora.
          Rainer Maria Rilke disse que se você puder viver sem escrever, as coisas vão melhorar – não foi bem isso que ele disse, mas vou esperar sentado, aqui, alguém vir me corrigir (risos).
         A verdade é que se você souber esperar aparecerão linhas escritas de maneira razoável. Mas isso não significa que serão suas. E muito menos, significa que você tenha que acreditar nisso. Se estiver em dúvida, siga o conselho de Beckett: fracasse melhor!
Ainda dá tempo.




r.A.   

quarta-feira, 25 de março de 2015

Talvez o nojo aguente, colega...



(-Segundo Niti [primo distante do filósofo Nietzsche]: O que caracteriza um tipo reativo, ou ressentido, é ser escravo da negação do nobre).
        ...
        
         Sim, lá no Zaratustra. O nojo como uma negra e pesada serpente entalada na boca. Um dos símbolos do niilismo: infelizmente a humanidade não deu certo e não há nada que possamos fazer - é isso que simboliza esse nojo.
         Eu acredito profundamente na galera foda das artes & afins. Como pode ver, não sou um descrente. Abraçado com minha fé atravesso o salão ao som de um tango. Às vezes eu passo a mão na bunda da minha fé e ela me soca na cara. Rimos.
         Excetuando isso, também acredito no que leva certas pessoas fodas a não conseguirem produzir algo de um “sorriso sério” e apenas multiplicar manifestos. Ocorre que sorrisos sérios não impressionam ninguém. Os “manos e as minas” não entendem muito de metodologia. Disso decorre uma dificuldade em molhar as calcinhas e endurecer os pirulitos. Sei desse jogo. O negócio é o prestigio, mas tem que ser feito como se você não quisesse tê-lo. Qualquer coisa que lembre Kurt Cobain. No palco, mas de pijama.
         Num belo dia Deuses e Divas pedem esmolas. Eu sempre ajudo, porque acredito na causa nobre. 24 horas depois, atiram sobre mim suas luzes e fogos: anúncio de grandeza! Acendo meu cigarro e bebo meu café pensando: Só eu que fracasso na vida ou é reles impressão?
_Glamour do underground!!! – você pode não acreditar, mas dá para se lambuzar disso.
         “Quem é você para vir aqui dar lição de moral?” – sabe àquelas horas em que você entende que não é uma questão de lição e muito menos de moral?
_Eu me engano, só comigo mesmo.
         Ele tem inveja! Ele gostaria de estar no seu lugar! Ele gostaria de ser você ou parecido! É um resignado! Enquanto ele reclama abraçado na sua fé-de-mais, a gente faz acontecer! A gente pinta e borda! É “a vida como ela yeah!”
         Não é fácil se arrastar para fora da adolescência. Quase esqueci de te contar isso. O nojo também pode ser legítima defesa. Quem sabe uma resistência. Daí que todo adolescente, para salvar um pedaço de seu ego, faz cara de nojo. Mas quem poderá nos salvar quando já abrimos mão do ego e ainda sentimos nojo? “Pai Nietzsche que estás no céu, santificado seja vosso nome...”.
         Quem disse que também não levei umas facadas? Umas dez ao todo. Nem deu para me gabar das cicatrizes. [sempre que quis mostrar minhas cicatrizes para as gatas, elas vomitaram no meu colo]. Na ponta das facas, estocada pós estocada, puro nojo. Ficou alojado em mim. E como dizia o poeta, eu continuo “Farto de semideuses”.
         Não é difícil entender porque em Nietzsche toda a admiração por Richard Wagner se tornou repulsa. O glamour de Bayreuth:_ Perverteu a Arte, seu canalha! – soprou por baixo daquele bigode – se apegou ao glamour! Em outro contexto Wagner teria se dado bem com Malcolm Mclaren (empresário dos The Sex Pistols). Você já imaginou Wagner com um copinho de whisky e uma jaqueta de couro, pavoneando por aí? Eu também, não.
         No fundo só estou brincado. E só brinco com coisa séria. É evidente que não tenho fama e nem motivos para ser admirado. Me faltou o “dom” – rá rá rá rá, ai ai... essa foi boa. Em algum lugar de “Para além de bem e mal” está escrito que todo glamoroso é escravo de sua fama. É assim que me consolo. Nada de escravidão para mim. E se não tivesse lido lá, teria que inventar uma frase parecida. Cá entre nós, para sujeitos sem muita criatividade – meu caso – é muito bom que exista Filosofia.
         Para terminar essa confissão aberta do meu paradoxo: Li e reli e não aprendi (me refiro a ser “reativo”, às vezes). É por isso que sei ensinar. Tai o texto para comprovar. Por outro lado meu nojo me salvou tantas vezes de fazer parte de cada grupo... não é fácil me emocionar com migalhas.

r.A.


ps. Esse eu escrevi rindo mesmo.  

segunda-feira, 9 de março de 2015

O preço do sorriso



         “Velhos amores só nos servem para lembrar que novos amores sempre serão possíveis”. Essa frase, ou mais ou menos isso, é do escritor colombiano Efraim Medina Reyes. Eu queria ser como ele quando entrei nessa, mas depois descobri que ele estava mais perdido que filho da puta no dia dos pais. Não que eu esteja em situação melhor. Mas!
         Uma das coisas que se não fosse aqui – digo, escrevendo – não admitiria nem morto, é que fazer as coisas por amor vale a pena: Exceto se você for militante de partido político com carguinho comissionado – aí considere o suicídio, porque já está tarde.
         Mas o amor, para quem tem mais de 16 anos (pelo menos mentalmente), nunca será tudo. E não sendo tudo, não deixa de ser uma experiência apenas mais que necessária. Veja bem, eu não amo essa porcaria de blog e nem amo você, mas amo essa porcaria de escrita. Se não fosse isso teria investido na minha promissora carreira de ator pornô – é que tenho incríveis habilidades sexuais, rá rá rá.
         Se me perguntarem se escrevo por amor, eu vou mentir que não. Vou tentar formular alguma coisa mais “inteligente”. Vou dizer que faço isso para salvar as criancinhas, os cãezinhos, a natureza, vou dizer que estou exercendo o dom que Deus me deu (o Diabo; foi o Diabo quem me tirou), que estou resistindo aos programas dominicais de auditório, resistindo às loiras que viram a cara quando eu passo por elas nas ruas, e expandindo minha alma em evolução. Eu bato palmas para o sol no alto daquela colina ao som de Los Hermanos. –Brincadeira, nem desejo ser estúpido, nada.
         O amor não paga as contas: se você duvida, pergunte para sua mãe. O sertanojo universitário paga as contas, falando de amor. Mas você e eu sabemos que na moda humana, o que está em tendência nas quatro estações, é a decadência. Entendeu que meu aluguel atrasou esse mês ou prefere que eu desenhe?
         Poderia dizer que a escrita é a reza daqueles que perderam Deus no banheiro junto com a ingenuidade ou que escrever algo e mostrar para alguém é o melhor remédio para compensar uma solidão enlouquecida. Aposto uma vodca que isso funcionaria bem no programa do Jô. O que me conforta é que nunca vou ganhar nada com isso – Porque não tenho o sorriso da Sasha Grey e nem vendi meu rabo quando o desespero me apertou no saco (na verdade eu doei...).
         Tentei salvar alguma coisa que chamo de Arte – dependendo de quantas doses de whisky tenha tomado, chamo de qualquer merda – por cinco anos. E agora estou velho demais para fazer a apologia do gênio não reconhecido: minha arrogância é um pistoleiro no asilo assoviando Muddy Waters. Definitivamente e em quase tudo na vida, velhos amores só nos servem para lembrar que novos amores sempre serão possíveis. Mais do que isso é nostalgia. Porém, amei sempre o que me surpreende e nunca o que me trás qualquer segurança – nessa coisa de ser escritor.
         Já chegou a ouvir sobre caras que perdem tudo (embora não tenham muito nessa vida) antes de encontrar seu caminho?
_Muito prazer!


r.A.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Rir de tudo é desespero ou a "comédia" dos medíocres


Aviso: Se você é fã de stand up comedy e acha isso maaaaaravilhoso, te dou duas opções antes de ler esse texto. 1- não leia, você não vai entender. 2- considere mais uma vez a primeira opção.

         Aquela música chamada “Amor pra recomeçar” do Frejat – muito bonita, por sinal. De saída, ela. “Que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero”. Sim, só essa frase é suficiente, mesmo que eu descontextualize a composição.
 Tai algo que só pode ser uma espécie de paroxismo da sociedade: respiração profunda de um coletivo agonizante! No auge da hiper-industrialização [como denominou o filósofo Stiegler], onde a metralhadora de estímulos não dá trégua para os sujeitos “sincronizados”, onde a exploração se dá justamente na libido dos seres humanos, o sucesso daqueles empresários do riso de desespero é certo.
Não tenho termo mais adequado em mãos: empresários do riso de desespero. Leu muito mal aquele que repetiu a citação: o riso é libertador (libertar-se para que e de quê?). Entendeu pior aquele que ouviu: o humor não tem limites. Nem vale a pena comentar o anônimo que gritou na multidão, entusiasmado por alguns segundos de atenção, que a gente só quer se divertir.
Em uma sociedade onde a ditadura da felicidade superficial é a onda de todos os momentos, provocar o riso a qualquer custo se tornou um negócio rentável. Por que não? Cá entre nós, não é de hoje que o lazer também já é mercadoria que corresponde às disciplinas do entretenimento. Lá vem o empresário que também leciona no seu descompromissado negócio:_ Eu vou te ensinar a rir de tudo, até onde você puder pagar.
O verdadeiro custo desta embriaguez travestida de sucesso (obviamente econômico) é a ilusão de que rindo qualquer coisa se resolve, ou melhor, se paga. A última válvula de escape aos medíocres de todo tamanho. Um manual de comédia ruim aberto até a página 2 – é que na página três havia a palavra “paroxismo”, e usar o dicionário dá trabalho! Um cinismo (no pejorativo) sem conteúdo de uma geração que perdeu todos os critérios de “gosto”. Um deboche gratuito que não é direcionado a nada, exceto a afirmação de ser ridículo – paradoxalmente como fuga de se sentir ridículo e vazio.
Feliz foi Platão que tinha Aristófanes para lhe torrar o saco. O nível intelectual dos empresários do riso de desespero é tão baixo que o máximo de uma resposta que podem formular a uma crítica não passa de:_ Você está com inveja da minha carreira bem sucedida! (Também é o mais próximo de uma frase com algum motivo para se rir com gosto).
Que seus principais nomes sejam imbecis declaradamente, só vem a somar ao reconhecimento de seu “tipo” de público. A admiração pela idiotice aguda e atenuada é o registro evidente da ausência de uma gota de consciência crítica. A incapacidade de ser algo próximo ao que se entende por comediante só é compatível ao asco que provocam em qualquer um que conseguiu desligar a t.v. no inicio de um programa de auditório. O desempenho nítido de um contrato constrangedor: Vou rir porque paguei, vou fazer rir porque recebi. (Pelo menos nos programas de auditório o público ri por piedade, porque recebeu lanche e condução).
Não há quem não tenha ouvido falar de atores miseráveis que se entusiasmaram com o “poder” do negócio todo. É quase uma equação matemática: Fracassa no teatro, cresce o olho nos empresários do riso de desespero. Agências de todas as cores – e com todas as promessas – pagam suas contas com o dinheiro dos que suspiravam mais sonhos de aplausos do que qualquer outra coisa na vida. Na miséria – principalmente intelectual – o anúncio de um atalho escorre feito mel no ouvido.
Lá vem o empresário com a boa nova: Humor politicamente incorreto. O termo diz tudo embora pouco se tenha prestado atenção – faltou aula de interpretação, quem sabe. É incorreto porque nem chega perto de ser humor e nem tem qualquer coisa de político. A terceirização dos roteiros nem chegam a garantir uma qualidade literária mínima. Ali se opera o bem conhecido gozo infantilizado de “falar mal” de uma “autoridade política” que no fundo agradece pela militância dedicada e indireta. Marketing negativo em favor da própria banalização da política – já banalizada por conta própria. Desserviço ético-social em nome de um riso desesperado e amargo. Masoquismo disseminado e bem encapado. Mas há quem encha a boca e estufe o peito para dizer:_ Tai um sujeito muuuuuuuuuito inteligente. Você acredita nisso? Esse latido de cachorro morto vende bem!
Contexto social hiper-industrializado que consome o próprio desejo de consumir até o esgotamento. Hiper-indústria que injeta o riso imediato com a premissa de que Todo mundo é banal, todo mundo é risível, todo mundo é patético, todo mundo é lamentável. Pague e ria na coleira. No esteio deste riso uma inexpressável vontade de chorar.
Agora você quer me perguntar, finalmente, o que isso tem de arte, o que isso tem de teatro? – ou apropriação de elementos teatrais?


r.A.

“Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno”.
_Antonin Artaud.

“...Acho que não!”

_eu.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Um dia eles vão te reconhecer (e você vai se arrepender!)

[ao som de Seven Shades – Babyshambles]


“Era uma vez...”
Na frente da universidade.
_Porra cara, você está com uma aparência horrível! Tá acabado ein?
_Não tão acabado quanto estarei em breve... – sorri.
         Quem falou comigo foi Renato. Um sujeito alto, barbudo, com cabelos encaracolados e longos braços finos contrastando com uma barrigona de cerveja.
         Na feiura estávamos num páreo difícil. Preferia pensar que não estava ganhando. Mas a verdade é que realmente estava acabado. Olheiras, a barba por fazer, havia perdido bastante peso – só músculos, nada de gordura – e meu tênis acabara de descolar perto do dedão. Quem me via de longe já pensava: tai um cara esperando a morte.
_Parou de escrever, não é? Nunca mais tive notícias de seus textos circulando por aí. – disse batendo com o punho no meu braço.
_Pois é, eu tô acabado! – resmunguei.
_Tá fudido mesmo. – devolveu ele.
_Fudido não, cara. Só acabado. – acendi um cigarro.
_É a mesma coisa! – ele riu.
_Não é não. Estou acabado demais para estar fudido...- fiz questão de soltar a fumaça na direção dele, mas o vento desviou.
_Estou indo para o bar aqui do outro lado da rua. Não tá afim? – disse coçando o saco.
_Não, vou deixar passar essa. Beba umas por mim. – resmunguei me afastando.
_Cê tá acabado Adriano! – atravessou a rua rindo.
         Desci a rua da universidade evitando olhar para meu reflexo nas vitrines das lojas. Para um cara como aquele dizer que eu estou acabado, minha situação não deve ser das melhores.

***
No mercadinho da esquina de casa.
A mesma atendente de sempre. Sua voz infantilizada, seu sorriso fingido, seu olhar vazio, o buço por fazer – ninguém gentil o suficiente para lhe avisar.
_Uma vodca, um energético e um saquinho de amendoim. Vai escrever então?
         Demorei um pouco para reagir à pergunta. Estava olhando uma tatuagem no ombro de uma moça. Desconfiei que o objetivo era simbolizar uma borboleta, mas estava parecendo mais é um chiclete pisoteado na calçada. Nunca vou entender porque as pessoas fazem certas coisas consigo mesmas.
_Como é? – disse depois de um minuto.
_Você. Pelo visto vai escrever. O pessoal daqui comenta que você é escritor. Acho que eu vi um texto seu uma vez, no jornal... – sorria, como ela sorria!
_Nunca. Eu não sou tão miserável assim para escrever em jornal. – devolvi, tentando não ofender.
_Ele é escritor? – resmungou uma loira atrás de mim na fila. – ah! Que livro você publicou? Eu adoro escritores!
_Já ouviu falar de um livro sobre um garotinho que descobriu que era bruxo e ajudou todo mundo a vencer um cara malvado... – falei.
_Claro que sim! Minha filha adora esse livro. Meu deus, você escreveu aquilo? Nossa! Você é famoso mesmo ein. Quem diria...
         Paguei minhas coisas e caí fora. Eu devo estar acabado mesmo, pensei. Até minhas piadas estão ficando patéticas.

***
Na sala, olhando para a parede.
Quando eu tinha 17, sem saber como resolver uma briga com uma namoradinha, propus-lhe casamento. Ela encheu os olhos de lágrimas. “Você não devia brincar com os sentimentos das pessoas dessa forma”. Fiquei me segurando para não cair na gargalhada. Pelo menos a raiva dela passou. Foi em Schopenhauer que li sobre o mundo ser dividido entre diabos atormentadores e demônios atormentados. Alguma coisa assim. Parece que não há muito mais para fazer a não ser atormentar ou ser atormentado por alguém. Quanto a mim, parece que enquanto as pessoas estavam aprendendo coisas úteis para a vida, estava sempre decorando alguns truques sujos.
_Ainda bem...
***
Grazzi, no facebook.
_Foi você que saiu deliberadamente da minha vida!
_ “Deliberadamente”? Tai uma coisa interessante. Não sabia que você usava palavras deste tipo.
_Esse é seu problema. Você se acha inteligentíssimo demais, vive debochando das pessoas. Você é um escritorzinho metido que vive para o próprio ego.
_E bom de cama.
_Nem tanto assim. Conheci caras melhores!
_Não disse que sou o melhor, apenas que sou bom. (risos).
_Tá vendo? Não consegue falar sério com ninguém. Sempre aparecem esses deboches desgastantes.
_Acontece que sou um cara sensível que disfarça sua sensibilidade com ironias. E faço isso porque toda vez que me aproximo das pessoas, elas são insensíveis demais para notar meus detalhes...
_... poxa vida, você esta falando sério mesmo? Desculpa...
_Não. Na verdade essa é mais uma daquelas piadinhas.
_Filho da puta. Vou te bloquear! Até nunca mais.
_Até lá!

***
Depois do bloqueio.
Conselhos de superação. Animaizinhos engraçadinhos. Briga política. Matéria jornalística sensacionalista. Detalhes da vida pessoal de alguém que dá sono só de pensar sobre. Frases de autoajuda.  Correntes de fé. Indiretas. Convite para jogo online. Trechos de músicas cafonas. Citações de poetas mimimi. Fotos de animais de estimação. Convite para participar de grupos. Gente que tira foto do que está comendo. Gente que confirma presença em alguma coisa pensando que todo mundo vai resmungar: óóóóh! Como ele é cult! “Quem acredita em Deus compartilha, quem está nas garras do capeta só olha” – eu só olho, claro! Foto no espelho da academia para mostrar o rabo torneado. Mais um conselho de superação. Meu organismo se manifesta em sinal de protesto: diarreia seguida de vômito. Ou fui eu que bebi demais?

***
Bar perto da universidade.
Eu sou brigão pra caralho. Me aproveito dos esquentadinhos para aliviar a sede de porrada que minhas mãos manifestam o tempo inteiro. “Se você estivesse escrevendo, essa raiva toda teria sido direcionada para alguma coisa útil” – reflito enquanto cruzo a porta do bar, cambaleando e com ar de indiferença.
_Não há mais o que discutir com você! Vamos lá para fora! – Gritou para mim um cara.
         Loiro, alto, devia gastar o tempo vago dele puxando ferro na academia para depois compartilhar as fotos. Pobre homem... não sabe do que um vagabundo, como eu, é capaz.
_Vamos lá grandalhão, levanta essa guarda! – resmunga. Anda em círculos em torno de mim.
_ALGUÉM CHAMA A POLÍCIA! – a namoradinha do cara. Bonita, mas meio idiota.
         Ele me acerta primeiro. Muito amador, tem medo de acertar o rosto, bate no peito. Começo a rir. Lá vem outro murro. Deixo que me acerte na barriga. Me curvo, que nem nos filmes do Van Damme. É uma comédia, não consigo parar de rir.
_Renato, aposta aí cara! Joga cem em mim, rápido.
_Para com isso aí cara. Você tá acabado! Eu não tenho esse dinheiro para apostar, porra! – Devolve ele. Está com medo.
_Aposta mesmo assim, seu imbecil!
         Encaro Renato. Estou prestes a abandonar a briga com o loirão da academia e descer o braço no Renato. Ambos percebem. Renato finalmente aposta.
          Acendo um cigarro. O povo em volta começa a rir. “Olha só esse cara, não tem noção do perigo. Tá achando que tá num filme”. Do sorriso passo para a gargalhada. O loirão vem pra cima com vontade. A namoradinha dele grita novamente. Os garçons curtem, o dono do bar urra: Parem com isso seus merdas!
         O loirão erra por um centímetro. É forte, mas não sabe onde bater. É na orelha que tira o equilíbrio, no nariz que deixa cego e no queixo que derruba. Ele passa do meu lado em câmera lenta. Acerto em cima da orelha com a esquerda e na nuca com a direita. Começo a ficar preocupado porque ele não cai e eu estou bêbado.
_Você se acha Adriano! – diz ele, se recuperando. – você é um lixo! (o povo aplaude).
_Pare de falar. – respondo. – se eu quisesse conversar ia no programa da Fátima Bernardes.
         A piada foi boa. Ganhei o público.
         Dessa vez ele avançou no rosto. Me acertou na bochecha. Ouvi o som do meu maxilar estralando. O cigarro caiu da boca. Não gostei nem um pouco do gosto de sangue.
         Ameacei na orelha de novo e ele fechou a guarda. Mas não fechou muito bem. Mirei no meio do nariz, mas ele recuou e por isso acertei na boca. Calculei mal à distância. Não era para acabar ali, minha intensão era divertir o povo mais um pouco. O loirão caiu e saiu rolando.
         Algum amigo dele tentou interferir. Errou o soco também e levou uma bofetada em cima do olho esquerdo. Se encolheu no chão e me deu pena. Juntei meu cigarro do chão e fiquei olhando para o pessoal. Era como se eu fosse um mágico numa festa de crianças. Estavam esperando eu arrancar um coelho da cartola.
         Renato me puxou pela camisa e saiu me arrastando. “Pega a grana Renato” – gritei. “Que grana seu filho da puta, você vai ser preso!” – Devolveu ele.
         Não consegui chegar na esquina e a polícia me pegou.
_Você se acha durão? – Perguntou o policial.
_São seus olhos, bo-ne-ca! – Retruquei.
POW. Meu ouvido zunindo uma melodia do Bach. Quando me acertou o outro ouvido eu pensei estar ouvindo Richard Wagner ou Nirvana.
...E eu que era um cara tão legal. (essa frase aí eu roubei)

***
         Réu primário. Não que eu não tivesse aprontado antes. Mas nunca tinha sido pego, pelo menos. O pai do Renato é advogado e ele também – apesar da maconha e da cocaína que vive carregando nos bolsos.
         Quando eu acertei aquele soco nas fuças daquele cara, não foi ele quem eu acertei. Acertei a minha vida, no meio da cara. É isso que acontece com sujeitos que enlouquecem por um momento. Nunca são os outros, é o diabo atormentador que resolveu pegar para cristo o demônio atormentado. Sem vítimas, pegou a si mesmo. É assim que você progride de um degrau ao outro. De acabado para fudido.
         Para uma pessoa comum – e comum quer dizer domesticada-, isso é incompreensível.
_Ainda bem...

***
Na estação esperando o metrô.
A multidão que olha para você e da perspectiva de cada um, você é que é a multidão. Suas dores e suas alegrias não significam nada além de um ponto falho perdido no meio de uma malha agitada. Seus sonhos e suas metas, apenas uma pequena fagulha em um fogaréu. Uma mistura de suportável com insuportável, uma compreensão íntima da gratuidade de sua existência. Não ser apenas “mais um” é a denúncia da importância a qual você se apega desesperadamente, a importância que agrega a si mesmo. Que no fundo poderia ser “qualquer um”.
         O metrô aciona seus freios e o som do metal chorando salta para dentro de sua consciência. É a melodia incrível de sua condição de célula em um organismo que despreza seu desejo de individualidade.
         No íntimo, todos nós estamos “acabados”. Não há mais o que nos salve na estação esperando o metrô. No íntimo, todos nós, sabemos disso. Mas nossa vida segue fingindo que não. Fingir é a nossa condição.
         Você pode aprender essas coisas lendo Cioran ou refletindo sobre a obra Guernica de Pablo Picasso. Ou no metrô.

***
         Um dia eles vão te reconhecer (e você vai se arrepender!). E essa manhã eu acordei me sentindo muito melhor. Sabe quando o sol joga seu calor pela porta da sacada do apartamento e ao mesmo tempo uma brisa fresca transpassa seu corpo? Isso eu odeio também, mas ainda vai escurecer. Se não me engano ainda tem um resto de vodca na geladeira.
 “Viveram felizes para sempre”.


r.A.


p.s. Caso você seja alguém que já viveu uma relação intensa comigo, não me bloqueie no facebook só porque eu estraguei tudo. Isso me faz perder a fé no amor e prejudica minha escrita. Obrigado.