sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Isso aí não tem futuro ou Rio Grande (a cavalo)



        Não é sempre, mas aquela necessidade me pegou. Se não me expresso tudo fica pior. Tenho que me livrar dos excessos para conseguir funcionar. Meu cérebro enferruja muito rápido. Esse corpo alto, negro e gordo, com um brinco de prata na orelha esquerda e cabelos pretos e curtos, não me dá sossego.

***
Precisava escrever alguma coisa para enviar para algum lugar. Fiz todo o preparo: Cigarros, trago, folhas, caneta. Desliguei o telefone para não ser encontrado e selecionei umas quatro ideias que deveriam bastar para trabalhar na madrugada. O mundo lá fora e eu aqui, riscando do meu jeito. Assim é mil vezes melhor.
Aí a campainha tocou.
         Fiquei em silêncio, mas o desgraçado estava determinado. Xinguei e fui abrir a porta. Ali estava parado Charles. Longos cabelos loiros, quase um albino, olhos azuis, magricelo e com seu sorriso amarelo.
_Entra aí!
         Com sua voz aguda e arrastada me explicou que tentou me ligar o dia todo para informar de sua visita. Fingi que acreditei. Preparei um copo para ele e tirei os livros que estavam sob o sofá para que pudesse sentar. Acomodou-se e suspirou entusiasmado. Quanto a mim, a cadeira de madeira encostada na parede era suficiente.
_Puta merda, você ia escrever! Te atrapalho?
         Dei um sorriso frouxo e resmunguei alguma coisa que não lembro. Acendi meu cigarro.
_Pode escrever cara, eu espero aqui, quietinho.
_Tudo bem. Vou só anotar algumas coisas e aí conversamos.
         Comecei a escrever as ideias gerais do texto. Era para ser uma coisa engraçada, mas meu humor acabou. Mesmo assim, insisti um pouco.
_Sabe Adriano... deve ser estranha essa vida de escritor!
_Não, não é.
         Apaguei um cigarro e já acendi outro. Molhei a garganta e olhei para a parede. Senti que estava sendo observado. Escrevi duas linhas.
_Tipo, você deve viver muita coisa para ter tanto sobre o que escrever.
_É...
_E deve passar por cada situação... né?
         Desisti. Sequei meu copo e pedi para Charles se ele precisava de mais. Secou seu copo e estendeu com seu braço branco e ossudo. Fui até a cozinha e preparei mais duas doses de vodca com alguma coisa. Na minha pus um pouco de leite para rebater a acidez. Eu sei, veadagem.
_Você não estava namorando? – Perguntou enquanto eu lhe alcançava o copo.
_Não que eu saiba...
_Mas não tinha uma mulher morando aqui com você?
_Que isso tem a ver com namorar? – Devolvi.
_Você é safado cara! – Apontou pra mim. – esse negócio de ser escritor deve atrair um monte de mulher!
_Não no século em que vivemos.
_Ah, deixa disso. Os escritores vivem escrevendo sobre casos com mulheres... – disse sorrindo de um jeito abobado.
_Escritores mentem. O tempo todo.
         Me alugou quase uma hora com um papo de que andava fazendo aulas de teatro. Descreveu minuciosamente cada curso que fizera, livros que havia lido (todo mundo lê Antonin Artaud), fofocas e tudo mais. Não lembro onde é que eu estava – minha mente viajou para longe, igual um monge quando medita sobre a vida e a morte. Contemplei o universo, lembrei de um velório, pensei no barulho da chuva e depois voltei. Devo ter voltado em tempo.
_E é isso cara! Qual sua opinião? – perguntou ele batendo com as palmas das mãos nos joelhos.
_Bacana... – resmunguei. – que você acha de sairmos daqui e irmos num bar na esquina?
_Não cara, eu já vou indo. Vou te deixar trabalhar. Só passei para te dar um olá mesmo.
_Então: Olá!
Charles riu. Depois caiu fora. Acho que foi o diabo quem o enviou ou alguma entidade pior.  

***
         De qualquer forma, quando dei por mim, já estava no bar. Parecia que realizava um teste de seleção para histórias absurdas. Meu problema é que sou bom ouvidor. Cada maldito que aparecia saia com uma maluquice.
         Um velho gordinho e de óculos que sentou do meu lado, relatou como se livrou de um assalto.
_Sabe grandão que tem um momento em que os filhos da puta dão bobeira, não sabe? – dizia ele.
_Sei...
_Então, quando o filho da puta deu bobeira eu acertei-lhe um soco na ponta do queixo. Fui boxeador amador quando era mais jovem, sabe grandão?
_sei...
_Como é que tu sabe? – me deu um soco no ombro.
_Eu sei de tudo. Prossiga.
_Ok. Então acertei o filho da puta e ele tonteou, mas não caiu. Aí dei-lhe um pontapé no saco, bem nos bagos!
_Onde foi isso? – perguntei, fingindo interesse.
_NOS BAGOS!
_O lugar, me refiro ao lugar...
_Aqui! Não sabe onde fica os bagos, grandão? – apontou para seu saco murcho.
_Espaço, localidade, bairro, é isso que estou perguntando!
_Ah, foi na Sé, aqui em São Paulo. Na saída do metrô, na frente da delegacia.
_Uhmn...
_E agora estou respondendo um processo! Acredita?
_...Acredito em cada coisa que você nem imagina.
         Depois desse mentiroso, veio uma mulher de uns quarenta anos. Loira, enxuta, num vestido verde, algo de malícia e qualquer coisa de histérica. Os peitos dela ficavam balançando na minha cara quando não batiam no meu braço sob o balcão. Tentei passar a conversa nela, só para fazer alguma coisa e me livrar do tédio.
_E eu transo com vários caras – a voz um pouco rouca e os olhos bem arregalados. – às vezes ao mesmo tempo!
_E hoje?- aquela curiosidade...
_Não, hoje, não! Hoje quero descansar!
_Tudo bem...
_E sabe de uma coisa? Nem um homem tem o pau igual ao outro. É tudo diferente.
_Pois é... não penso nessas coisas...
_E o segredo não tá no pau! O segredo tá na buceta. – fez um triangulo com as mão para mim ver. O garçom esticou o pescoço para ver também. Sua cara magra de onde pendia um narigão me irritou pela curiosidade.
_Pode ser...- fiz sinal para o garçom me dar outra cerveja.
_O homem não come a mulher, entende? É a mulher que come o homem! – deu um tapa na minha coxa, depois riu – A buceta é uma boquinha! E a boquinha mastiga a banana! Você me entende?
_Entendo... – fiz um esforço para não visualizar a metáfora.
_E eu sou uma devoradora! Uma degustadora também. Eu experimento de tudo um pouco.
_Uma boquinha gulosa... – resmunguei.
_Não é assim, é uma boquinha desbravadora dos sabores do mundo!
_E hoje a boquinha tá descansando... – falei maliciosamente.
_Isso aí!
_Quando a boquinha não estiver descansando, aí você me avisa!
_Você não me aguenta cara! Você é muito jovem, tem que aprender muito ainda... Vocês jovens não trepam para aprender, trepam para se exibir!
Gostei da teoria dela. Anotei mentalmente.
_Eu fiz plástica. Tenho 69 anos! – devolvi.
_Número sugestivo – riu ela.
         Defendeu sua tese e depois deu no pé. Deve ter ido colocar a boquinha para dormir, pensei, contando-lhe uma historinha. O problema é se começa a pedir mamadeira – melhor nem imaginar isso. Não pense que eu não fiz o sinal da cruz!
         Lá pelas três minha mão já contava com movimentos condicionados para pegar o copo. Foi depois disso que um travesti enorme puxou a cadeira do meu lado. Tudo de agressivo. Ombros largos e braços musculosos – no direito, bem no muque, tinha tatuado um coração atravessado por uma flecha. Quase meigo. Vestido preto, sem alça. Salto alto e fino. A pele era cor de laranja. Pescoço longo e aquele gogó protuberante. Um pelo grosso na ponta do gogó: a bandeira de alguém que escalou aquela coisa? Era polaco – notei pelo formato do nariz. Parou ali para tomar a saideira – e eu estava no meu quarto pedido de “só mais essa”.
_Trinity! – se apresentou depois de um tempo. – que nem no filme Matrix.
_Filme interessante – resmunguei.
_Não acho! – Sinalizou ele/ela/quem sabe?, com aquela voz de homem tentando afinar.
Tá faltando treino vocal aí, refleti. – mas esse problema não é meu!
_O pessoal me chama de Rio Grande! – Informou com um gesto do braço musculoso. Como se essa informação fosse de suma importância.
_Entendo...
_Dependendo da noite – bebericou seu whisky-, é Rio Grande a Cavalo! – aí a voz ficou (perigosamente) mais grossa – Quer saber por que é Rio Grande a Cavalo?
_Se eu disser que não, você vai falar do mesmo jeito!
_Com certeza! É porque eu sou do Rio Grande e me destaco na galopada!
         Pensei: puta merda, essa porra de balcão tá virando A praça é nossa! E eu devo ter cara de Carlos Alberto, fazendo ponte para os humoristas arrancar risadas ensaiadas de uma plateia de semimortos. É certo que não deveria ter saído de casa. Sempre me arrependo, mas finjo que não. O pior – para mim mesmo!
_Você não quis dizer “cavalgada”? – resmunguei.
_Não. Galopada. É mais fora de ritmo, sabe?
_Não sei não...
_Eu te explico!
_Melhor não. – Disse seco.
_Assim você me magoa!- fez beicinho. E que beicinho, rapaz! Tai a entidade pior que imaginei antes. A propósito: Superou minha imaginação. Não vou conseguir descrever.
_Isso aí. Eu estou sempre magoando as pessoas. – falei.
_Ui que delícia!
_Vá pro diabo!
Ele/Ela/quem sabe?, desatou numa gargalhada.
         Paguei minha conta e saí do bar. O garçom ria que se mijava da minha cara. :_Ria enquanto pode! – Sussurrei para ele, por cima do caixa na porta. “Com certeza! Ra ra ra!”.
-Pau no cu de quem tece meu destino.

***

         Isso aí não tem futuro! – Falei olhando no espelho. Na sequência joguei água no rosto, enxuguei e contei até dez antes de sair do banheiro. Dessa vez estava na casa de Charles. Como ele me pediu: Apenas para trocar uma ideia – com a irmã dele. Ela é bonita demais para ser irmã do tal irmão. Geralmente é assim. Me tomo como exemplo.
         Jucélia era o nome. Junção do nome do pai e da mãe - aquela coisa. Magra, alta, quase albina – também – e já publicou um romance numa editora meia boca. Escreve bem. Mas tem medo de falar em pau, buceta, cu, essas coisas. Escrever “pau no cu” então, nem falar! Provavelmente nem tem cu – ou não descobriu ainda. Vai saber.
_você deve dizer para as mulheres que elas escrevem bem, só pra comê-las! –falou para mim, na sacada, a queima roupa, enquanto acendia um cigarro.
Lembrei da conversa sobre a boquinha e comecei rir.
         Não respondi. Desenvolvi essa mania agora. Quando não gosto do que as pessoas falam, finjo que elas não falaram. Fica melhor para todo mundo.
_Responda alguma coisa! – disse ela, depois de cinco minutos do mais puro silêncio.
_Você escreve igual minha falecida mãe, não posso te criticar. – resmunguei.
_Não sabia que sua mãe escrevia... – ficou constrangida. O rosto corou, tremeu a mão para acender outro cigarro. Começou a ensaiar um gesto de desculpas.
_Minha mãe nunca escreveu e agora acho que ficou mais difícil.
_Cara... você é desprezível mesmo! – rosnou e voltou para dentro de casa.
         Dali mesmo caí fora. Rindo e sacudindo os ombros.

***
         Novamente a mesa, os papéis, cigarros, trago, só faltava à vontade de escrever. Olhei as anotações de três noites atrás. Tudo merda. Amassei sem rancor algum. Fizeram despacho para mim – aposto. Meu nome costurado na boca de um sapo. Não é a primeira vez, reconheço os sintomas.
         Passei a mão na bunda de uma menina na escola. Acho que hoje ela gerencia um puteiro no interior de Santa Catarina. Levava jeito. Quinta série. Tava todo mundo passando, achei que tinha alguma coisa de divertido. Foi meio chato. Sem sentido. Ela contou para o pai dela. O pai dela era pai de outra coisa também: de santo. Só sabia o meu nome, daí que fui o único amaldiçoado.
         Falando de caras fortes, acho que me encaixo nesse caso. Se segui até aqui, com sapo e tudo, vai ver tenho alguma força oculta.
Mas hoje, não vai sair nada. Sinto muito se você leu até aqui.





r.A.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

O crepúsculo do pensamento crítico



Não suportamos mais pensar.

         Eis a máxima mais evidente atualmente. Pensar dói e é difícil. Se dói e é difícil, melhor é desviar esse caminho – essa necessidade humana. Pensar cobra seriedade e tempo. Mas seriedade e tempo, hoje, são tidos por adversários. Há quem diga que somos pós-modernos. Quanto a mim, desconfio que somos a sociedade do pós-Nada.
         Uma vez que vivemos a ditadura da felicidade a todo custo, da excitação sem lágrimas, pensar é a coisa mais estranha a se fazer. E o único modelo de felicidade que conhecemos é o do comercial. “Não pense, apenas divirta-se”. Tal é o mandamento. Pedagogos e demagogos tentaram conciliar o Pensar com o Lúdico. Não deu, pelo simples motivo que pensar dói. Não dá para se divertir pensando – na maioria das vezes. O riso após o pensamento é um riso melancólico. Irônico. Não chega a ser uma gargalhada forçada. No pensamento o gozo é outro.
 Lógica das reformas curriculares no Brasil: Se pensar é difícil, então vamos substituir o pensamento por outra coisa! Qualquer coisa lúdica há de nos livrar das crises! A maquiagem é essa: “temos de tornar a reflexão agradável” – Não seria invés de “agradável” um “Degradável”?
         Ludicidade, ocupação e futuro. Queremos o futuro ocupado e sorridente. Pensar, não. No máximo engajamento em ideologias cuja origem não está em nós. Religião, Trabalho e Política. Ocupadíssimos: Da casa para o trabalho, do trabalho para o templo. Sorrir durante o percurso.
         Pensar, no ápice de seu vigor de exercício, é uma ação solitária. É aí que dói mais – se não bastasse à dor de pensar e sua dificuldade, o pensamento cobra uma aprendizagem: Aprender a suportar-se. Mas! Não queremos nos suportar, queremos qualquer coisa que nos livre de nós mesmos. E para os que ainda teimam em querer pensar, temos uma frase pronta:_ Tai o doido, andando sozinho nessas horas!
         Tempo. Mas um tempo que nos prometa algo – A única coisa que o tempo não faz é promessas. Só desejamos um tempo com o qual possamos preencher nosso “pós-nada”, não desejamos um tempo que nos torture com sua passagem que espedaça essa carcaça orgânica que nos habituamos a chamar de corpo.
Não queremos mais pensar: vai que pensando nos daremos conta que nosso pós-nada escorrega em direção ao pó? Aí o futuro fica nu diante de nós. O futuro também é nada.
_Mas não somos seres históricos?
_Somos. E a história é nossa mentira favorita!
         Pensar é mais difícil do que morrer. E pode ou não ocorrer em vida. No andar da carruagem – ou melhor, no despedaçar da carruagem – não queremos mais que esse afeto e essa dor penetrem na vida. (Quem só entende Pensar entrelaçado com Razão, não foi avisado que antes da Lógica vem a Ideia – Platão sabia disso!).
 Pensar é uma expressão de liberdade e nada no mundo nos angustia mais do que a liberdade (diziam os existencialistas). Nós nos tornamos os animais que mais procuram alguma coisa para obedecer – um Deus, um Trabalho, um Partido; em suma, uma Utopia.
E como nos consolamos? Essa é fácil de responder: No auto engano da participação da construção desse dogma. Quanta ingenuidade!
_Pensar é uma ameaça de assassinato ao dogma.
         “A economia está em crise” – eis o axioma. Dele decorrem premissas: Temos de nos unir, sociedade, para estabilizar a economia. E das premissas decorrem conclusões: Trabalharemos juntos para superar a crise. Se alguém tiver a ousadia de dizer: Pensarei sobre isso! A resposta já está pronta para humilhar o engraçadinho: Pensar nada, você vai é para um instituto técnico de período integral para se preparar para o mercado de trabalho e desempenhar sua performance de “cidadãozinho”. Seu destino é: Dar orgulho para o papai, para a mamãe e para o país!
_E pensar? Não rola?
_Pensar não abate as metas! Quer ficar desocupado? Pensar não enche barriga e saco vazio não para em pé.
         Se pensar é mais difícil que morrer, na sociedade pós-nada você estará livre dessa dificuldade. Antes que você acorde já terá um objetivo sacudindo um chicote para suas costas nuas. Quando o chicote estalar próximo ao seu ouvido, você vai chamá-lo de Consciência. E em nome dessa tal “consciência” você perseguirá todos, passando à diante sua condição miserável que também receberá outro nome: Dignidade. Entretanto, veja pelo lado bom, você terá um funeral Digno... Pois é.
_Desse tipo de dignidade eu só quero uma coisa: DISTÂNCIA!
         O que eu não te contei é que se pensar dói, essa dor não significa de forma alguma que pensar é triste. E se fosse triste, eu, particularmente, preferiria essa tristeza com perfume de liberdade, mil vezes, do que essa felicidade comercial que inunda nosso pobre cérebro. Não é para mim essa felicidade de fuga de si mesmo. Pensar me ensinou – mais que qualquer mestre, mais que qualquer sociedade – ao invés de fugir, duelar com forças que me impedem de ser livre. Eu mesmo sou uma força que briga sorrindo. E me divirto ao exibir minha potência. Não é qualquer um que bate como eu bato – daí que reconheço minha singularidade.
         O crepúsculo do pensamento crítico é como chamo nosso contexto. Agora, exatamente nesse momento em que você está lendo esse texto, a preguiça e a covardia de muitos instauram dispositivos de poder para banir de uma vez por todas o pensamento e em seu lugar garantir o segundo passo para uma cultura fraca, a saber, instaurar um direcionamento técnico e objetivo para uma mentalidade que só vê sentido no imperativo econômico – “econômico” segundo o axioma que expus acima.
_Falou em economia então a coisa é séria!
         Pensar não é sério, economia é! (risos).
         Se você não sabe o nome desse dispositivo de poder, vou te ensinar a chamar os problemas pelo devido nome. A tal “Reforma na educação” – que vem sido encarada enquanto “solução”- é nada mais do que uma tentativa de sufocar o tempo de pensar pelo tempo de Ocupar-se: Obviamente na engrenagem de um tipo estratégico de economia – há quem pense que superar crises tem a ver com dar empregos; essa estratégia não me engana! Já que aceitamos que pensar é difícil – e pouco lúdico – agora a sociedade no geral está demonstrando seus sintomas de fracasso.
_Pensar pra que? Temos é que agir!
_Quando essa pergunta é feita, seguida dessa afirmação vazia, em uma sociedade, você já pode se preparar para o pior!
[Os nazistas não sabiam pensar, só sabiam obedecer – e obedecer em nome de redenções econômicas!]
         Não suportamos mais pensar, porque nos tornamos uma sociedade de bundas moles! Um tipo de bunda mole que vive de lamentação e contorna todas as pedras pelo caminho. O tipo de molengas que adoram pegar atalhos em momentos de crise. Confundimos nossa dramalheira com sensibilidade. A prova do quanto nos idiotizamos é que não reconhecemos mais o pensar como uma ação, o pensar como uma atitude mais rápida é devastadora que qualquer prática – o pensar como objetivo imediato.
No fundo o que nossa atual política quer fazer é nos ensinar a “brincar de trabalhar em nome de promessas utópicas de futuro”. Pessoas podem te fazer promessas (ainda mais em época de eleição...), mas o tempo não mente por conveniência, colega –Há um abismo que separa História e Tempo.
É lindo falar em Inclusão – mas, deixe-me te perguntar de maneira ousada: você é amigo ou inimigo de quem quer incluir numa lógica patética dessas? Como? Você também foi enganado com a conversa de “brincar trabalhando”? Não duvido! Nem um pouco.
Viu como eu te conduzi até aqui para te mostrar que sei desmascarar o tal lúdico? Por trás de uma palhaçada sempre tem uma intenção descansando na sombra. É esse tipo de intenção que eu piso no pescoço quando pratico filosofia! E você ia morrer pensando que filosofia é só pensar, né? – filosofia é deitar as ideias na porrada! Se ligue.
Bem, só posso terminar esse texto com uma pergunta que é ao mesmo tempo uma provocação:
_JÁ PENSOU HOJE?



r.A.


“[...]As pessoas já se envergonham do descanso; a reflexão demorada quase produz remorso. Pensam com o relógio na mão, enquanto almoçam, tendo os olhos voltados para os boletins da bolsa – vivem como alguém que a todo instante poderia perder algo. Melhor fazer qualquer coisa do que nada – este princípio é também uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior.”


_Nietzsche. A gaia ciência.

sábado, 20 de setembro de 2014

Sensíveis, demasiado humano




É tão fácil parecer sensível hoje em dia. Basta escolher as palavras – e não ser escolhido por elas. Falar de lágrimas invés de calar a boca. Lamber as feridas em público. Exagerar gestos de comoção até a cafonice.
Trancado no quarto e sodomizando sua ingênua consciência, depois, se deixar observar com cara de cachorro faminto.
_o mundo é injusto! – como se alguma coisa fosse justa.
_a vida dói! – como se resmungar com ares de inteligência resolvesse muita coisa.
Mesmo que parecer sensível seja uma coisa muito fácil, ser verdadeiramente sensível não é grande coisa. Aliás, muito provavelmente, é um defeito e uma testemunha da tolice. A propósito: Prefiro bater a canela numa tábua a ter de estar na companhia de gente que é ou parece sensível.
Todo sensível é um egoísta sem força que remoí solitário uma incapacidade ficcional de fazer o mundo corresponder a seus desejos. Um profissional da lamentação.
Eu me comovo com o pôr do sol e com a lua cheia – diz o sensível. Bem, para mim isso é coisa de gente comum e não de gente singular. Sinto um êxtase no espírito ouvindo determinadas músicas – diz o sensível. Imagine carpindo um lote o que esses sensíveis sentem! (risos). Mas me parece que gente sensível não fala de puxar terra com um carrinho de mão, não fala em se sentir enganado na fila do banco ou do açougue, nunca menciona ter cortado o dedo com uma lata de sardinha. Gente sensível não fala de acabar o papel higiênico ou de falhar na hora H. Gente sensível fala de ser sensível – e é engraçado como uma aporrinhação dessas ainda impressiona.
Se eu falar que acho Chico Buarque um embusteiro e Caetano Veloso uma dor de barriga violenta, certamente vai aparecer alguém me acusando de insensibilidade. Nunca vi nenhum sensível fazer poemas sobre a louça de três dias fedendo na pia. Mas para falar de amor e de paixão você nem precisa dobrar a esquina. Tem sempre um chato se queixando com poses e estilos.
Tem gente que se acha sensível e acredita que todo mundo vai suspirar por suas ninharias. Daí se reproduzem feito baratas os artistas, escritores e filósofos. E assim se multiplicam as justificativas para todos os ataques de histeria. Linhas tênues separam o gênio do doente; o doente do chorão.
Aprendi muito sobre sensibilidade enquanto remendava cercas de arame farpado no interior de uma cidadezinha decadente. Embaixo de um sol de quase 40 graus. É mais fácil ser sensível enquanto um arame não rasga sua mão e o suor não escorre para dentro das feridas. Certas lições se aprende por acidente.



r.A.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Dos que se expressam para não ficar mais loucos




Entre os artistas, os que mais admiro: são os que espiaram alguma coisa insuportável para suas sensibilidades e retornaram desta expiação um pouco enlouquecidos. Esses desafiam todo público a sentir o impensável. Os que não passaram por isso me parecem que brilham com luzes emprestadadas. Se valem mais do adjetivo do que da qualidade. Distingo uns dos outros pelo nível de satisfação que representam em relação a si mesmos. Os que expiam o insuportável sabem que não há satisfação ou orgulho nisso. E sabem que não há glória que cicatrize feridas na alma. Pagam o preço de sentir o que outros não sentiram numa espécie de exílio.
         Os que admiram esse tipo de artista passam a imitar seus gestos com a intenção de descobrir esse segredo. Como se cheirassem os passos dos loucos. Não é o melhor caminho, mas para os ingênuos, parece o mais rápido. Esses que imitam. quando não são descobertos na fraude, um dia se veem diante de uma plateia que os aplaudem. Se sentem bem com isso e esquecem-se do rastro que estavam seguindo. Quando a intenção se confunde com o orgulho, temos mais merda no mundo. É aí que a maioria constrói sua casa... Preciso dizer que não admiro esse segundo tipo ou ficou óbvio?
         Um tipo se expressa para não ficar mais louco, outro tipo se expressa em nome da multidão. Um, se você perguntar o que está fazendo, provavelmente não vai conseguir responder “definitivamente”. Outro, se você fizer a mesma pergunta, vai estufar o peito e falar por horas. Vai justificar grandiosamente a menor vírgula de seu trabalho. Um, vão chamar de idiotinha, outro, vão chamar de genial.
         Um tipo você encontra entre grupos, outro tipo, você não encontra... ele vai provavelmente correr de você como o diabo foge da cruz.
         A melhor maneira de botar os dois tipos no mesmo saco é juntá-los em nome de uma causa: salvar a arte! Séculos vão se passar e a multidão vai achar que ambos os tipos partem do mesmo princípio e querem ser “reconhecidos” na mesma roupagem. É para isso que existem (na maioria das vezes) as metodologias teóricas, o discurso da história da arte. “Cada um tem seu valor singular” – resmunga o crítico – outro tipo que brilha com luzes emprestadas! E vive – muito bem – fazendo pose de intermediário: Entre o artista e o público. Também há o ventríloquo, você já deve ter visto por aí o tal médico da aesthesis: o curador. Esse sabe do que fala – quando não sabe, inventa, sem sentir remorso algum.
         “Então sabichão, como é que a gente se torna artista?” – Alguém deve estar perguntando (geralmente quem pergunta isso é do segundo tipo do qual falei). E é certo que não tenho essa resposta. Talvez também tenha aquele que só vai dar crédito para esse texto caso eu descreva minuciosamente as diferentes linguagens ou os diversos contextos históricos-sociais, blábláblá. Sugiro que saltemos para o próximo parágrafo.
         Uma coisa que me parece que a existência humana não tem é sentido. E essa existência sem sentido, na minha opinião, só pode ser suportada (às vezes) porque persiste a arte. Saber que há maneiras de se livrar de uma sensibilidade sonolenta – que é, para mim, o comum -, saber que há como superar um condicionamento estético – que é, para mim, a sociedade no geral -, beira o milagre! Não sei se é assim para você, mas na minha compreensão, a arte é a maneira mais séria e mais potente de desestabilizar uma cultura: seus ideais, suas representações, suas utopias, etc. A institucionalização da arte como programa dominical é qualquer coisa como o fim da liberdade de sentir- de incontáveis maneiras.
_Por isso que quando alguém diz “venha prestigiar” eu não sei se tenho ataques de risos ou ataques de ódio. Outra palavra que me provoca náusea é “lúdico”... (só pra constar).
         No meu caso, para que eu não asfixie na própria sensibilidade; ainda restam os artistas do primeiro tipo (que anunciei no início do texto). Que por vezes digam que esses são nada mais do que sintomáticos, pouco importa (gente inteligente sabe pular por cima do próprio sintoma). Desde que não desempenhem esses papéis pré-estabelecidos por uma sociedade que almeja controlar tudo – até nossas angústias mais íntimas. (ainda quero a cabeça do deus do marketing numa bandeja de prata!).
         Para os que vem me falar do tripé “conteúdo-forma-técnica”, ainda guardo um direto de esquerda seguido de um cruzado de direita. Nem sempre nessa ordem. Quem disse que é feio responder processos por agressões físicas em determinados contextos? Experimentem falar em “prestigiar” na minha presença para ver o que que acontece!

r.A.

Dedicado aos que enlouqueceram sozinhos em quartos baratos, mas não entregaram o “bandido” pelo “ouro”.


Foto: Joseph Beuys na performance: Como explicar pintura para uma lebre morta (1965).

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Um duelo triplo



De dez bares em torno da universidade ela resolveu entrar justamente nesse. Foi como se eu tivesse um sensor nas minhas costas largas. Virei meu rosto redondo, negro, e dei com os olhos castanhos. Era como se a garota de cabelos cacheados, magra, egocêntrica, dentro de uma camiseta do Led Zeppelin que apertava os seios, entrara ali para olhar para minha nuca.
         Ela contraiu os lábios grossos e mexeu a cabeça sacudindo os cabelos. Suspirou profundamente, fingindo tédio. Mas seu pé esquerdo batia no chão ao mesmo tempo em que as mãos apertavam a cintura.  
_Você parece que me segue... – resmungou ela, de forma arrastada.
_Como é? – disse contraindo as sobrancelhas.
_Nada.
         Eram três da manhã e a insônia estava enchendo meu saco novamente. Arrestei o enorme corpo até o balcão do bar mais vazio. Sacudia um copo com duas doses de whisky e ouvia a música. Franz Ferdinand - Ulysses. Parecia a melhor coisa para ser feita numa sexta-feira.
_Tá tudo certo? – uma voz grave me despertou dos pensamentos. Era o barman, um negro magro com um bigodinho ordinário. Ricardo era seu nome.
_Sim. – respondi olhando para a parede. Fiz sinal com a cabeça em direção da moça nas minhas costas.
_E você? – falou o barman pra garota.
_Viviani. Uma loira, baixinha, magrinha, minha amiga, não apareceu por aí? – Falou ela e pude acompanhar seu reflexo no espelho do bar. Gesticulava muito enquanto falava.
         Bebi mais um pouco. O gelo do copo havia derretido e deixado um gosto menos ácido no whisky. Ricardo olhou-a por uns trinta segundos, coçou o queixo e sumiu atrás de uma cortina. Baixei o copo e percebi que a garota me olhava pelo espelho que antes eu usava para observá-la.
         O barman voltou a aparecer e contornou o balcão. A garota o acompanhou até uma mesa nos fundos. Cochicharam por uns minutos e riram. Apenas a luz de uma televisão muda iluminava o bar – o canto em que ela sentou era o mais escuro.
         Ricardo passou por mim e sorriu. Correspondi com um aceno de cabeça. Ele pegou uma cerveja e um copo. Voltou até a garota e deixou sob sua mesa. Pegou um jornal e sentou no outro lado do balcão.
         Continuei acompanhando a garota pelo reflexo. Ela olhou para todos os lados, bebeu de uma golada só a cerveja no seu copo e depois puxou alguma coisa do seu colo. Observou essa alguma coisa com gula. Não precisei muito para entender que “Viviani” era uma senha para algumas gramas de cocaína.

***
         Já estava na minha terceira dose dupla quando a garota saiu do seu canto e sentou ao meu lado no balcão.
_Depois vai dizer que estou te seguindo... – falei sorrindo.
_Ah, desculpa, te confundi com outro cara. – devolveu ela. – você vai para algum lugar depois daqui?
_... pergunta difícil.
         Ela riu de forma exagerada. Colocou a mão na minha coxa assim que sossegou a gargalhada. Na situação invertida – se eu tivesse feito isso, quero dizer – eu saberia exatamente o que isso significava. Por isso fiquei um pouco nervoso e saquei um cigarro do bolso. Acendi dois e alcancei outro para ela.
_Não cara! – Disse Ricardo jogando seu jornal sob o balcão.
_Seis horas cara... só estamos nós aqui. – retruquei e lhe alcancei um cigarro.
_Verdade. – resmungou Ricardo e aceitou o cigarro que lhe alcancei. – para onde vocês vão depois?
_Dá pra ir no meu apartamento... – disse ela sacudindo a cabeça. – tem cerveja lá!
_Encontro vocês em quinze minutos do lado de fora? – sussurrou Ricardo, empolgado. – eu levo mais cerveja.
         Agora tocava Led Zeppelin – Black dog.

***
         Estávamos sentados em uma sala escura, parcialmente iluminados pelos postes da rua.  Ricardo, em uma poltrona de frente para mim, sem camisa. E eu, com uma cerveja numa mão, enquanto com a outra mão acariciava os pés de Jeorgia no meu colo.
_a gente vai só beber ou vai transar? – Perguntou Ricardo.
_Eu não curto macho... – respondeu Jeorgia e puxou seus pés do meu colo.
_Adoro macho! – Devolveu Ricardo olhando na minha direção.
_Se tivesse nascido mulher, certamente seria a maior lésbica da face da terra! – falei olhando para minha cerveja.
_Isso parece um duelo de três pistoleiros ao pôr do sol! – riu Jeorgea. – só que nesse caso o sol está nascendo.
_Se você tem um pau de borracha aí- apontei para Jeorgia – você finca no cu desse bigogudo enquanto eu bebo o resto das cervejas! Me comprometo em assistir a coisa toda, só não prometo que não vou gargalhar. Aí os pistoleiros se viram com o que tem... no jazz a gente chama isso de improviso.
         Os dois riram. Levantei do sofá e fui até a geladeira pegar mais duas cervejas. Bebi uma cerveja no caminho, a outra abri quando voltei até o sofá.  
_Ou você deixa a grana que tem nos bolsos aqui – falou Jorgia me mostrando um revólver 32. – e eu compro a cocaína desse cara. – apontou com a arma para Ricardo. – Aí o pistoleiro mais inteligente e melhor preparado para essa situação, vence o duelo.
_Sou pai de família – resmunguei sorrindo – você está comprometendo o futuro de toda uma geração!
_Pai de família não fica no bar até seis da manhã. Jovem demais para ser pai de família. E se fosse um cara bonzinho, não saia atrás do primeiro rabo de saia que lhe deu mole, seu tarado! – devolveu ela.
         Tirei o dinheiro da carteira e joguei na mesa de centro da sala. Não tinha mais de duzentos reais. Já estava com minhas contas pagas. Era o dinheiro para torrar em bagunça mesmo. Estava com raiva – muito raivoso. Pensava em tentar dar uma bofetada na cabeça da mulher, mas ela não deixou nenhuma brecha. Morrer ali, baleado, e talvez ter o cadáver violado por um veadão, não fazia parte dos meus planos finais.
_Mas tenho direito de uma última cerveja, aposto! – Falei cordialmente.
_Pega lá, seu bosta! – Devolveu ela.
         Voltei até a cozinha e me servi de duas garrafinhas. Olhei no congelador e tinha um pote de sorvete. Tirei o pau pra fora e mergulhei no sorvete – vingança, de alguma forma!
         Quando entrei na sala, os dois já estavam esticando linhas de cocaína na mesa. “Você é lésbica mesmo?” – perguntou o tal de Ricardo. “É claro, porra! Sniiiiffff”. Acendi um cigarro e fiquei no meu canto com minhas duas cervejas, o pau mais gelado do que se tivesse trepado com uma psicóloga.
  _Vai uma linha? – Falou Jeorgia, rindo.
         Ameacei dar um chute na mesa e me vi com um revólver apontado para minha cara. No fundo adoro minha vida, pensei. Sai e meu último olhar foi para o meu dinheiro... Fechei a porta e mijei por ali mesmo. A sorte – se é que podemos falar de sorte nesse momento – é que tinha um passe para o metrô.
         De dez bares ela tinha que entrar justamente naquele?
_Tomara que morram de ataque cardíaco! – Gritei no corredor e peguei o elevador.
         Ganhei a rua e pude assistir o sol nascer.




r.A.