quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sonhei que você era minhas férias!



......Quem sabe toda expressão seja uma mentira depois que passa pelas regras de comunicação. E acho que a coisa fica pior uma vez que escrevo para mim. Por exemplo, agora: sinto vontade de ir para um lugar que seja como um lar... Mas não tive isso, apenas uma idealização tosca disso. Como posso sentir falta de um lugar que nunca tive e nem quero estar?  Viu? Isso não dá para expressar nem em mil poemas.
......Sonhei que você era minhas férias, mas não foi dormindo... foi na sacada, depois de uma madrugada de insônia.
......Quando o sol nasceu e os sons da rua ficaram insuportáveis, tive que me perguntar se estava mesmo onde queria. “Olha, esse é o melhor lugar para uma pessoa como você” – resmunguei. Tive vontade de me atirar da sacada depois disso, tive que rir.
......A pior parte quando estou assim, de mal com as palavras, é que não expresso o que sinto. E quando não expresso o que sinto, me sinto pior.  Preciso da escrita como uma velha precisa de suas orações pela família. É horrível essa dependência por algo inútil!
......O que acho ridículo em um ser humano é a convicção nas palavras. A confiança nessa espécie de uivo adestrado – me sufoca. Essas alucinações gramaticais são um porre de vodca barata. Vai ver é por isso que não me dou bem com coisas que falam... e se falam muito, e se falam alto... despertam um vulcão de ódio – que com muito custo mantenho inativo.
......Não desejo nada além de férias. E que você seja essas férias. E que possamos passar meses trancando o mundo do lado de fora de um abraço nu. Nenhuma palavra mais!
......Todo escritor que não sente um misto de nojo e prazer com as palavras, para mim é uma piada! Todo escritor que segue um método, que limpa sua escrita, que se preocupa com a técnica, na minha irritada opinião merece 39 chicotadas nas costas – e uma no cu. Enquanto ninguém sofrer para falar, para escrever, tudo será uma bosta. – desejo para todos os escritores medíocres, aulas de escrita criativa!!! Milhões de oficinas para “trocar ideias”. E não é para eles ficarem bons, é para continuarem mantendo a mediocridade do mercado editorial – confio nisso para vencer um dia! (risos). – o aluguel continua enchendo o saco no dia 5 e a cerveja teima em acabar em horas inconvenientes.
......Eu consigo entender e até consigo aceitar o fato de você não ser minhas férias. Eu sou feio, desengonçado e mal humorado. Costumo rir na cara de gente que se acha bacana e todos meus amigos já pensaram em me matar um dia!
......Sonhei que você era minhas férias... isso é insuportável para mim. O último pistoleiro em pé – é o que dizem.
......Você lembra quando disse que sentia falta de um lugar que fosse como um lar? Eu menti para te impressionar ou essa falta já passou.
O que eu sinto falta mesmo é de um cachorro
Adestrado para buscar cigarros na padaria
E
Que invés de latir, grite:_ VÁ SE FODER!
Para São Paulo inteira ouvir.

Pois é.


r.A.

PS. Ao som de Sonic Youth - Sweet Shine.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Coisas que você pode "desaprender" com CIORAN



“A loucura de pregar está tão enraizada em nós que emerge de profundidades desconhecidas ao instinto de conservação. Cada um espera seu momento para propor algo: não importa o quê. Tem uma voz: isto basta. Pagamos caro não ser surdos nem mudos...” (Emil M. Cioran – Breviário de decomposição. Trecho de O antiprofeta).

......Certas coisas que condeno em outros escritores pratico muito bem! (risos). Quero dizer, não suporto o “endeusamento” de um autor – não suporto em mim e nos outros. É esta contradição estranha que me obrigo a explorar neste ensaio. Vou explicar melhor. Exceto por alguns artigos que defendi em algumas universidades, nunca me achei “bom” o suficiente para escrever sobre três filósofos: Schopenhauer, Nietzsche e Cioran. Mas escrevi! (risos). E esta barreira chegou a tal ponto que, imediatamente após ter defendido os citados artigos na academia, me desfiz deles (dos artigos)! Observe o nível da “frescura”. Não consegui suportar uma associação do meu nome com o nome dos tais filósofos. O simples fato de citá-los, já me provoca reprovação. Alguns caras são sérios demais para você tocar nos seus nomes sem sentir o peso da responsabilidade.
......Dia 8 de abril deste ano, comemorou-se o aniversário de nascimento de Emil Michel Cioran (1911-1995). Nascido na Romênia e (er)radicado na França. A primeira vez que tive contato com sua obra deve-se a um feliz acaso. Procurando, na biblioteca da universidade, por um livro de história, me chamou atenção o título de uma obra: História e Utopia. Um livro pequeno, mas poderoso. Uma obra sem rodeios, ia direto ao ponto. O simples fato do autor tratar a história como uma ilusão – o que concordo plenamente! – onde o ser humano deposita sua ficção de megalomania, seu desesperado apego as Utopias, seu exagero na fixação no passado – nostalgia -, fez com que eu suspirasse entusiasmado:_ rapaz! É esse livro que busquei por muito tempo! Vasculhei a biblioteca inteira atrás de outra obra do sujeito... incrível! Numa biblioteca com milhares de livros, só havia disponível este exemplar.
......De cinco livros em romeno e dez em francês, apenas cinco livros haviam sido traduzidos para o português. Todos esgotados há décadas! Diferente de Friederich Nietzsche – que eu pesquisava na época (e continuo pesquisando!). Pesquisei tudo que pude, e Cioran reabasteceu toda minha necessidade por filosofia ácida! ( Embora o próprio autor se denominava Anti-filosófico: isso não me apavorou! Descartes foi anti-filosófico no seu contexto, Schopenhauer, Nietzsche! Basta uma leitura mais crítica da tradição filosófica para você perceber que a filosofia é feita de marginais insólitos!). Nunca fui convencido da justificativa da filosofia como crítica cultural – ideológica, nem a papagaiada marxista que reduzia a filosofia a mera “interpretação do mundo” – banana para Marx! Filosofia sempre me foi uma tradição marginal – na margem do pensamento geral - , não só uma criação de conceitos e interpretações, mas transformadora e inventiva, REVOLUCIONÁRIA E REVOLTADA até o limite de estalar e arrancar faíscas do pensamento, literária e de leitores ativos: nada de respostas fáceis e autoajuda consoladora. Pois bem, Cioran parecia de acordo comigo, e eu, mais ainda de acordo com Cioran. Estava maduro para tal encontro com Cioran! Dois anos antes eu teria recolocado História e Utopia na prateleira! Teria ido para casa com um Hobsbawn ou Le Goff – que vexame!!!
......Cioran cooperou com meu “desaprendizado” em ler a história! Dialética crítica é o caralho! A história é feita de uma projeção utópica (portanto, no futuro) de uma nostalgia passada (portanto, do passado). Nostalgia e Utopia são perspectivas ideológicas que tornam nossa existência factual um verdadeiro tormento! Deste duplo delírio (Nostalgia e Utopia) nascem as “boas novas”, os reformadores de todo sofrimento. As ideologias que movimentam as massas. O blábláblá que se resume na promessa sintetizada em: “um futuro melhor”, caiu aos pedaços diante de mim, assim que travei conhecimento com a citada obra. Depois deste “desaprendizado”, de toda a ladainha que se dizia pós-metafísica e portanto “materialista”, nunca mais fui capaz de suportar qualquer ideólogo! Bastava um cara pegar num microfone/megafone e dizer “NÓS” para mim saber que se tratava de um patife, de um desgraçado que incapaz de duvidar de suas crenças tentava impor sua “verdade”. De “quebra”, o que era desconfiança em relação a todas as manobras democráticas – a propaganda entusiasmada dos partidarismos políticos, sindicatos financiados, manifestos recheados de promessas de um mundo melhor, religiões do pós-vida, movimentos sociais com ampla margem de negociação para com representantes do governo -, o que era desconfiança em mim se tornou ceticismo.  
......Se com Nietzsche, já notava que toda promessa de redenção futura negava a existência presente, com Cioran tive provas de que nenhum “ativismo” era gratuito. Afirmado, o ativismo – a maioria deles -, até as últimas consequências, resultava em poças de sangue – inclusive justificadas por promessas redentoras que desaguavam num futuro utópico.
......Toda utopia humana, que transbordam os bueiros e alagam as ruas, arrastam multidões, passou a ser meu presságio de apocalipse.  Se a sociedade humana incendiar esse planetinha do sistema solar, não tenha dúvidas que será em nome de uma “boa causa”. Difícil de acreditar para quem está crente no progresso e numa dialética recheada de boas intenções, não é mesmo? Os fanáticos injetaram na veia suas convicções. Agora o fanatismo desfila sem medo do ridículo com o peito estufado, diante de nós.
......Veja só, caro leitor, das coisas que pode se desaprender com Cioran, a confiança veio pra ficar. Uma filosofia que coloca em xeque-mate qualquer que seja a verdade, ideologia, perspectiva histórica – social – psicossocial. O ser humano é “idólatra por instinto” – parafraseando Cioran -, isto é, apenas pelo tesão de participar de algo tudo se justifica. A banalidade do mal que a filósofa Hannah Arendt testemunhou no nazismo, já estava presente antes e está presente agora. Basta você “desaprender” um pouco e desconfiar bastante, para perceber isso! Basta uma certeza para auxiliar qualquer ser humano a puxar um gatilho – Inclusive no suicídio.
......Nossa “saudade do paraíso”, nossa tentativa em ato de realizar a utopia na História (esse “desfile de absolutos” – acrescento: ficções abobadas), nossa justificativa racional de nossos delírios e tormentos, nosso engajamento ideológico (defendido como “não-alienação”) manchou essa terra de sangue incontáveis vezes. Meu “desaprendizado” realizado, partindo de Cioran, demonstrou que “quem luta por algo, morre por algo, mata por algo!”.  E este “algo”, sempre foi uma certeza. Qualquer sujeito que se atravesse no caminho daqueles que estão convictos de uma ideologia (nem precisa ser um totalitarismo) é definido como um inimigo. INIMIGO foi o termo sempre usado em guerras para legitimar o massacre! O engraçado é que nações em guerra são conduzidas a guerras por ALGUÉM, alguém com grande poder de convencimento, alguém com RESPOSTAS.  Não te soa familiar?: O INIMIGO da nossa causa, O INIMIGO da nossa sociedade, O INIMIGO da nossa nação, O INIMIGO DA DEMOCRACIA, O INIMIGO do nosso governo, O INIMIGO da nossa religião, O INIMIGO, O INIMIGO, O INIMIGO... todo CONVICTO tem um inimigo! – O inimigo é o bode expiatório de qualquer reforma. O diabo, O forasteiro, O de direita, O de esquerda, O bandido.
......Quando você for formular sua perspectiva de INIMIGO, experimente espiar qual é a TARA que você está justificando por baixo dos panos! Será mesmo que você é tarado apenas pela democracia? (risos)...
,,,,,,Este Cioran, não só foi de uma consciência monstruosa em relação ao que ficcionamos “humanidade”, como foi de um comportamento desconcertante, típico de um filósofo. Renunciando prêmios literários e “mimos” da cultura francesa (e dos defensores da cultura em geral – por Deus... hoje há tantos defensores...) deixou a ferida aberta nessa nossa mania de sucesso! Não cedeu, nem por um milésimo de segundo, a tradição literária de AGRADAR a todo custo. Depois de levar a sério o intento de “caluniar o universo” foi capaz de abandonar a escrita. Devolveu a filosofia a arrogância de não ceder à tentação de “justificar-se”. É por aí que o admiro profundamente – embora saiba que minha admiração e a de toda a humanidade, para ele, fosse indiferente. Se outro de seus “colegas” de contexto – Jean-Paul Sartre – renunciou ao Nobel para salvaguardar o fato de que não estava “acabado”, Cioran rejeitou tudo numa demonstração empírica de que a humanidade não fez dele uma vítima, no final das contas. A cultura – esse engajamento que ninguém, nos nossos dias, ousa declarar escárnio – não passou para Cioran de um mal estar. Uma inconveniência para os filósofos – do seu “tipo”. Ai de um filósofo, hoje, confessar que esse amor declarado pela cultura não passa de um subterfúgio para um “empresário das ideias”! O “povo” condenará no ato tal arrogância! A sociedade não perdoa intentos intelectuais que não visem a cultura do povo. Mas Cioran soube cedo que esta era uma das grandes mentiras da filosofia! Desmascaramento da filosofia: ela não é serviçal da cultura! (Não me desculpem autoproclamados “agitadores culturais”, vocês não são filósofos, sinto muito, contenham as lágrimas!). O filósofo legítimo e o “homem do povo”, nasceram apartados.  Esta foi a última de minhas “desaprendizagens” que tive com Cioran. Deus me livre de Deus e de justificar a filosofia dizendo que tudo é cultural! (risos).

r.A.

“Dom Quixote representa a juventude de uma civilização: ele se inventava acontecimentos; nós não sabemos como escapar aos que nos perseguem” (Emil M. Cioran – Silogismos da amargura).

“Que tristeza ver grandes nações mendigarem um suplemento de futuro!” (Emil M. Cioran – Silogismos da amargura).


domingo, 6 de abril de 2014

A angústia adolescente pagou muito bem, agora estou entendiado e velho (Kurt Cobain- Server the servants)


......Agora que muito se fala dos vinte anos da morte de Kurt Donald Cobain (1967 – 1994), vocalista, letrista e guitarrista do Nirvana, eu não poderia deixa de pensar em como passei a admirá-lo profundamente. A primeira vez que ouvi falar dele foi pouco antes de sua morte. Eu era criança demais para entender o que aconteceu. A única coisa que me lembro é que o disco Nevermind circulava em minha casa graças a minha irmã. E deste disco, mesmo eu não tendo 10 anos de idade completos e mesmo não entendendo direito o que dizia a letra, eu botava para tocar Territorial Pissing repetidas vezes.
......Só fui voltar a pensar nesse sujeito com 13/14 anos. Tinha ido visitar um amigo (Gustavo Fiorentin) e como ele morava longe de minha casa, havia ficado tarde demais para eu retornar. Fiquei hospedado no quarto de um de seus irmãos mais velhos. Sem sono, comecei a folhear algumas revistas de rock e me deparei com uma revista especial sobre Nirvana. Comecei a ler as entrevistas e achei o sujeito complexo e inteligente demais para ser “verdade”. Até ali, rock para mim era um excesso de pose e um barulho mais suportável – do que o que havia para se ouvir. Mas, diferente da maioria dos adolescentes, não tinha se tornado uma febre na minha vida.
......Pela manhã comecei a torrar o saco desse meu amigo para encontrarmos pelo menos uma música da banda daquele sujeito. Vasculhamos vários CD’s, e não encontramos nada. Mas ele sabia do que se tratava, já eu, não consegui associar o disco Nervermind de minha irmã ao nome da banda. Discutimos por um tempo as entrevistas, as críticas que o tal Kurt fazia ao “negócio” que era o rock. Pedi se ele podia me emprestar àquela revista. Receoso com os seus irmãos mais velhos, ele disse que não poderia me emprestar antes de consultá-los. O ‘estranho’é que essa revista estava na minha mochila quando voltei para casa... (risos).
......Foi uma das poucas coisas que me interessaram na época. Não tinha apreço por ler e tão pouco pensar sobre o mundo – quem diria!!!. Consegui reunir mais material sobre a banda e em pouco tempo sabia muitos detalhes sobre Kurt Cobain, lia várias de suas letras como se fossem poemas (aprendizado fundamental quando comecei a compor!), mas não havia ouvido o som. Esse mesmo amigo conseguiu para mim um daqueles discos/seleções de clássicos do rock e foi aí que pude ouvir “Come as you are” e “Smell like a teen spirit”. Como até ali não era um fã de rock, não sabia onde procurar discos de rock. Lesado o suficiente para não entrar numa loja de discos! –DÃh! Um dia, entrando numa lojinha que vendia discos piratas, consegui o Unplugged in New York do Nirvana. Foi o meu disco favorito, mesmo mais tarde, tendo conseguido todos os discos e mais materiais ao vivo.
......Apenas para constar, tive uma iniciação ao Nirvana e ao legado de Kurt Cobain, mais pelas entrevistas, pelas letras e pelas biografias, do que pelos discos. E por isso, fui capaz de pensá-lo, não partindo de uma crítica musical, mas por sua poética caótica, desconsolada e desesperada. Fui levado a um estudo minucioso sobre a tradição musical que foi e é o rock. Graças a esse feliz acaso, sempre tive uma avaliação partindo do conteúdo – de qualquer artista – e não apenas pelo entusiasmo. Coisa semelhante aconteceu comigo com bandas como Joy Division, Sex Pistols e Two Gallants.
......Gastei mais tempo da minha vida discutindo e refletindo sobre isso do que estudando no ensino médio – Gustavo Britto, Ivandro Pagani, e, garrafões e mais garrafões de vinho barato, confusões e mais confusões a níveis inimagináveis para qualquer adolescente! Mal acredito que sobrevivemos (risos).
......Mais tarde, (16/17 anos), quando comecei a estudar música – guitarra, bateria, baixo, vocal, composição, etc. – pude observar que Kurt Cobain era tão competente como poeta quanto como músico. Seu potencial criativo era muito maior do que o que foi capaz de expressar. Vou repetir isso: Seu potencial criativo era muito maior do que foi capaz de expressar. Se tivesse sido um artista plástico – lado que também ‘enveredou’ e cogitou -, um escritor ou um poeta, dificilmente não teria obtido um lugar de destaque. Era impossível – embora o sucesso tenha o ajudado significativamente – seu gênio ter passado despercebido.
......De minha perspectiva, não é, de forma alguma, um exagero colocá-lo, em seu determinado contexto e em sua poética, ao lado de sujeitos (em seus contextos, suas poéticas e suas linguagens de expressão...) como Jim Morrison, Leonard Cohen, Nick Drake, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Bukowski ou filósofos do nível de Schopenhauer e Cioran. Apontá-lo meramente como “apenas mais um ícone do rock” é reduzir demais seu significado artístico. Há outros desse ‘feitio’ no rock? – óbvio que há! Mas acredito serem poucos (poucos do ponto de vista da quantidade de ‘ícones do rock’). Não foram poucos que conheci que me disseram:_ Não gosto da música do Nirvana, mas entendo a importância de Kurt Cobain para a música. Gente que está para além do “gosto/ não gosto” é raro hoje em dia!
......Hoje, quando vejo milhares de artigos de revistas e sites referindo-se a Cobain como meramente um cara problemático ou “porta voz da geração 90, ou geração Grunge rock”, não deixo de imaginá-lo resmungando “fuck you” em algum lugar. Provavelmente – como o próprio citou várias vezes -, ele diria que não tem nada a ver com uma porção de milhares de pessoas que andam por aí com sua cara estampada em uma camiseta. Cito-o: “Se você for machista, racista ou homofóbico, pode deixar de comprar nossos discos e vir aos nossos shows!”.
......Deixe-me falar do título que usei para este rápido ensaio. Não muito tempo atrás – coisa de três anos – estava sentado em uma mesa de bar com alguns músicos de bandas de rock, apenas falando sobre a importância social que temos como artistas. O nome de Kurt surgiu na conversa, ao que, alguém resmungou:_ ah, a geração 90 se resume a lamentar que os pais e a sociedade não os compreendiam! Isso foi dito num tom de menosprezo. Com um certo cansaço para debater certos assuntos, com a desculpa de fumar um cigarro, me retirei da mesa. Obviamente não voltei mais – nunca mais! (risos). Primeiro, não suporto roqueiros incapazes de autocrítica, aliás, não suporto nenhum tipo de pretenso artista que não esteja provido de uma autocrítica ácida sobre si mesmo. Kurt – recorde-se do título deste ensaio – era cruel em sua autocrítica como artista e inclusive era capaz de uma leitura poderosa sobre seu próprio contexto. E mais! Foi capaz de entender, sem rodeios, direto ao ponto, o que a massa – induzida pelos (maioria dos) jornalistas- pensava sobre seu “sucesso”. Foi capaz, no seu último disco (In utero), de disparar uma ironia que incluía não apenas a si mesmo, mas todo o contexto-psico-social. Te pergunto: Visionário? Hoje a angústia adolescente não vem pagando muito bem? E depois, cansado, foi capaz de amadurecer e ser sincero falando que isso tudo o entediava. Se os roqueiros tivessem se dado ao trabalho de pensar um pouco ao invés de se masturbar no palco, acho que o rock teria (a maior parte do rock, me refiro) tido um rumo mais interessante além de falar de bebedeira e diversão. (Sem falar na rebeldia de se entocar num sítio fora da cidade para usar drogas e boquejar sobre o capitalismo... mui rebelde! [risos]). E em segundo lugar, vejo que Kurt foi capaz de ‘educar’ boa parte dos roqueiros (inclusive não-roqueiros!) quanto às angústias “subjetivas – singulares” que podem destroçar uma pessoa! Por que toco nesse assunto? Ora, o rock (a maior parte, é sempre a isso que estou me referindo e no contexto atual, esse texto tem uma data, ok?), quando não sofre de um excesso de intelectualismo barato, sofre de uma banalização festiva. Isto é, poucos não caem de um lado ou do outro do cavalo! – aposto na sua inteligência para entender a metáfora!
......Por fim, desejaria profundamente, que esta recordação da morte de Kurt Cobain, embarcasse no seu significado contraditório! Já que o próprio Kurt foi testemunha fiel do drama da contradição ‘pós-moderna’, ou seja, da crise de identidade dramática do nosso contexto. “Roqueiro autodestrutivo depressivo” nunca foi sua sugestão! Foi seu lamento – se pudesse ter escolhido, ele não teria optado por isso. Vítima de uma sociedade ridícula? Também, mas vítima de uma genialidade que estava longe de ser ‘morna’, de uma sensibilidade abissal. Louvá-lo pela morte é no mínimo mórbido e estúpido.  Enquanto os intelectualóides de plantão estão denunciando paradoxos, penso que é justamente o paradoxo que deve ser exposto a sério – e (quase) como conquista sensível! Somos paradoxais! Mas nem por isso devemos sentir “vergonha” de nossa contradição. Nossos problemas não devem ser um obstáculo para nossa pretensa felicidade, mas um constitutivo que nos compõem. Kurt foi um embate MORAL entre o que se tem por “certo” – ser “alguém na vida”, não ter vícios, seguir a moda e a opinião geral vigente! – e o que se tem por “errado” – assumir suas fraquezas, sua ignorância, suas opiniões singulares. Se você acha que já estamos fazendo isso, basta você olhar para a música hoje, que dita a regra da ostentação a todo custo! A ditadura da boa vida e da boa saúde – Isso não é só o capitalismo, poupe-se dessas críticas ingênuas!
......Kurt Cobain foi homem o suficiente para nos expor dramaticamente que a humanidade não é Ordem e Coerência, mas Caos e Paixão! Não é uma questão de fazer a apologia do Caos e da Paixão, como muitos fazem se autoflagelando só para manter o “fashion shits, fashion style”. Antes de morrer ele ainda tinha uma máxima: PAZ (um pressuposto ÉTICO/MORAL), AMOR (Um pressuposto SUBJETIVO) e EMPATIA (Um desafio PSICOSOCIAL, alteridade). Até onde me consta, bastando-me observar nossa realidade social, estamos muito longe disso. Pois então, que o significado contraditório de sua vida se faça valer. Longe de torná-lo um mártir, mas entendê-lo como um gênio provocador.
......Sem Kurt Cobain, com toda certeza, eu não teria desenvolvido gosto pela música, pela arte, pela literatura, por causas políticas e sociais (inclusive anti-políticas e a anti-sociedade!). Não posso imaginar o que teria sido de mim sem conhecer sua profunda e atormentada obra, mas posso entender a influência que esse cara exerceu sobre mim.

r.A.





PS.Este ensaio é dedicado a duas criaturas do absurdo. Tem um cara que é autoridade na vagabundagem e no tiro de pistola– André Romanoski é como foi registrado, numa fria tarde de dezembro – e me ajudou a concretizar o sonho de ter uma banda de rock chamada Sodoma H. E outro cara que é autoridade na cerveja e na guitarra – que atende pelo nome de Antônio Marcos –, que nunca me deixou desistir da música. Essas duas criaturas do pântano, que seduzem mocinhas desavisadas, me mantiveram no mau caminho. Tentei aconselhar os meliantes a ir para a luz, mas eles se corromperam e me levaram junto para as sombras. Não poderia terminar esse ensaio sem citar as criaturas. Se eu fosse um sujeito religioso, rezaria a Kurt para que seus copos nunca secassem. Embora saiba que se rezasse para que seus copos secassem, nem toda fé do mundo seria suficiente. Causas perdidas... Se o rock e a safadeza não existissem, eles teriam inventado.

sexta-feira, 21 de março de 2014

A catequese dos que se dizem politizados e outras febres atuais



(ensaio proibidão para comedores de hóstia)


......Sapere Aude! – Ouse saber! – era o lema que para Kant sintetizava as pretensões do Aufklarung (Resposta a pergunta: O que é o ‘Esclarecimento’?). Muitos Filósofos, Historiadores, Sociólogos e Psicólogos, gostam de fazer certo mistério e ladainha em torno deste termo. Tem gente que é capaz de falar dez anos sobre esse tema e não concluir nada. Tudo bem, não é o meu caso. Kant escreve: “A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado desta menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem”. O tal Kant, relacionava essa “menoridade” – que do alemão pode ser traduzida como “incapacidade de usar da própria voz” – com a Preguiça e Covardia. Ou seja, é mais fácil você deixar que outros pensem por você (quando você é um preguiçoso) e menos responsável fazer uso do saber de outros (quando você é covarde demais para assumir as responsabilidades por seus próprios conhecimentos). Kant esta contextualizado no pré-revolução francesa. Não vou me estender aqui em contextualizações porque sou da perspectiva de que se você foi capaz de ler até aqui, pode muito bem fazer uma pequena pesquisa sobre o autor por conta própria, ok? – Quem sou eu para lhe tirar o prazer de pesquisar por conta própria?
......Kant, com certeza, não é meu autor favorito – na Filosofia -, mas para o que pretendo apontar aqui, esse pensamento sobre a ousadia de saber, me serve. Até aqui, o que me parece, é que embora muitos gostem de gritar quando alguém pisa-lhes os calos do que denominam “opinião própria”, no que tange a “ideia própria”, ninguém considera ‘pecado’ agregar-se ao “consenso dos sábios” (partidos, religiões, sindicatos, ideologias de revistas e jornais, etc.). Como dizem por aí: tudo bem cantar em uníssono a IDEIA de um GRUPO, só não GENERALIZE minha OPINIÃO. É incrível que alguém que ‘pense’ não consiga identificar quando suas opiniões estão sujeitadas a uma ideia de outrem!
......É óbvio que para mim, Consenso e Sábios, é uma contradição. Tenho cá comigo que o Pensamento, longe de ser uma “abstração flutuante” – como muitos tentaram nos fazer imaginar – é a expressão máxima da singularidade de um sujeito. [Você percebeu que escrevi SUJEITO e não INDIVÍDUO? – É que as duas palavras não possuem o mesmo sentido!]. Resumindo: se um sábio expressa singularmente seu pensamento, não ocorrerá de expressar o mesmo pensamento de outro sábio! A singularidade – quando é singularidade – não cria consenso. Quanto mais profundo é um pensamento, maiores são as divergências em relação a outro pensamento. Este, para mim, é o desafio de uma sociedade organizada em uma democracia política: fazer valer a diferença! Respeitar a diferença na expressão dos pensamentos! RESPEITAR não é CONCORDAR. Respeitar tem a ver com fazer um esforço subjetivo e intelectual de ENTENDER. – Tudo que acabo de escrever é uma banalidade, mas as coisas não vão bem quando você precisa escrever um imenso parágrafo sobre o “banal” antes de expressar uma ideia mais profunda.
......Se escrevi que IDEIA e OPINIÃO não são as mesmas coisas, é evidente que tenho, para evitar uma confusão maior, que delimitar o que entendo por essas duas palavras. Veja que a IDEIA de algo, seja de uma compreensão científica, seja de uma questão política, seja de uma reflexão moral e cultural, pretende uma elaboração mais complexa e profunda, inclusive mais GERAL. Já a OPINIÃO, coisa bem mais fácil de expressar – nem por isso menos séria-, é de uma perspectiva mais PARTICULAR e centrada no “recorte subjetivo” da vivência de um sujeito em uma determinada configuração social e pertencente a um determinado contexto histórico. Hoje, basta você ligar a t.v., ler um blog – como este -, ler um jornal, para perceber que raramente se manifesta uma IDEIA, mas é recorrente que se manifestem OPINIÕES. Pense em você, agora. Você deve ter OPINIÕES sobre muitas coisas, mas IDEIAS sobre poucas coisas. Talvez você resmungue aí, agora:_ ah! Então a Ideia é mais “certa” que a Opinião? Se essa for sua compreensão, “se ligue”, não estou em nenhum momento hierarquizando o grau de importância de ambas! Precisamos de ambas e por isso o grau de importância é de mesmo nível. E sobre o mais “certo”, evite o indevido uso deste senso de valor! As maiores barbaridades da história humana tentam ser legitimadas pelo “mais certo”. Pensar assim é pequeno.
......Como penso que Filosofia se faz com IDEIAS e não apenas com OPINIÕES, com DIVERGÊNCIAS e não com CONSENSOS, deixe-me contar a ideia que tenho de nosso atual contexto político brasileiro. Asseguro-te que essa ideia não está nem próxima do que tenho visto por aí publicado! É uma ideia que me assusta – e por isso tomei todo esse cuidado antes de expressá-la. Veja só.
......Nem ousamos pensar nossos próprios pensamentos, nem somos mais capazes de arriscar errar. A moda da vez é seguir o rebanho que nos parece mais interessante e se houver equívocos, a culpa é do “pastor” do rebanho. A melhor desculpa é que “não concordamos com isso plenamente, mas, na falta do que fazer, seguimos o bando”. Isso eu entendo por Preguiça e Covardia!
......Um velho empreendimento tem soado como novo: As agências que financiam UTOPIAS CONSOLADORAS. O principal no projeto é não questionar! Hoje não se duvida de nada. Se compra a “verdade” e se consome ali mesmo – com embalagem e tudo. É que o truque consiste em te fazer professar FÉ que a embalagem foi feita especialmente para você!
......Depois de tentar acompanhar nos jornais e blogs por aí as posições políticas que vem sendo propagadas – não encontrando nenhuma fonte que não fosse financiada por um partido político -, comecei a acompanhar os Manifestos dos próprios partidos (evitando a péssima escrita dos jornalistas) em suas fontes. Foi aí que comecei a entender tanto os militantes quanto os representantes. E achei a coisa toda muito parecida com o que se faz em muitas das seitas religiosas.
......Aos iniciados é ensinada uma “cosmovisão” e uma “dicotomia”, ou seja, uma visão de mundo e uma divisão entre o Bem e o Mal. As opiniões até divergem, mas estão limitadas (militadas?) Moralmente . E os iniciados, depois de algum tempo, passam a defender fervorosamente a religião, uma vez que o que lhes é oferecido em troca da “fidelidade para com o ritual” é uma utopia consoladora (o tal “final feliz” o “felizes para sempre”). Se na religião cristã falam em Luta contra o Mal, a conversa é a mesma entre os iniciados. A base do “joguete” todo vem com o consolo de pertencer a algo – a um grupo. Essa coisa toda dá SENTIDO EXISTENCIAL para aqueles que são incapazes de desenvolver um sentido existencial “sozinhos”. [coloquei “sozinhos” entre aspas porque bem sabemos que desenvolvemos nossa ‘consciência de si’ em comunidade...]. O bônus é óbvio!: afasta a solidão. E você, que está lendo isso, sabe o preço da solidão? Como é, “Ideias Solitárias” não tem a força das “Opiniões do Coletivo”? Então experimente anular a Ideia de Força Gravitacional em Grupo e ver se você e seu grupo sairão Flutuando por aí (risos).
......Para os praticantes da cosmovisão A, a cosmovisão B é o Mal. Para os praticantes da cosmovisão B, é a cosmovisão A que é o Mal. Como trata-se de uma cosmovisão e como o que está em jogo é o sentido existencial no seio de um coletivo, quem não é A só pode ser B. Quem não é B, só pode ser A. Quem tá indeciso só pode ser “alienado”. O termo alienado é engraçado, porque quem acusa o outro se sente na posição de juiz e executor.
......Agora eu aposto com você que alguém está cuspindo na tela do computador e dizendo:_ r.A. é um completo imbecil que está generalizando tudo! E confesso, estou generalizando mesmo (e eu ser um imbecil está no olho de quem vê)! Mas preste atenção nisso – chega mais perto que vou sussurrar agora – é justamente para pertencer a uma generalização que os fulanos e as beltranas entram na seita A ou B. Isso quer dizer que a indignação dessa gente me faz rir. Não é um riso de deboche, entenda, é um riso “piedoso” – eu sou sensível à burrice alheia. No fundo eu quase acredito que todo mundo é a favor de melhores qualidades de vida – principalmente para si mesmo -, mais educação – para os amigos e chegados – e saúde com qualidade – é aí que entra a salvação; ninguém quer morrer hoje em dia (risos). Todo mundo! (tá vendo eu generalizar novamente?). Cá entre nós, só aqui entre eu e você, você conhece algum partido que não prometa Saúde, Educação, etc.? – Se prometem é porque não tem investido o suficiente e se não tem investido o suficiente é porque no passado não investiram, mas no futuro todos vão cumprir suas promessas – tenha fé (risos).
......Se você tá pensando em ingressar na carreira política ou religiosa siga esse meu conselho: Sempre prometa o melhor! Não seja modesto. Não prometa que as coisas vão ficar “mais ou menos”, prometa O MELHOR! Grite:_ PROMETO O MELHOR PARA TODO MUNDO! Isso escorre feito mel no ouvido de quem ouve. Aqueles que defenderem a sua candidatura dirão:_ Defendo o “Ciclano” do partido A. Porque ele nos conduzirá ao MELHOR! – e vai bater no peito com um sorriso de satisfação e convicção. Assim como, na bíblia cristã, Moisés bateu com o cajado na rocha e fez verter água, você baterá nos iniciados e verá jorrar a grana e o delírio! – sempre por uma causa ética, evidentemente. Se você seguir esse conselho obterá SUCESSO, mas vai ser o mais patético entre os patetas!
......Talvez você ou um amigo seu devem estar pensando que trato a política – assunto seríssimo – sem contextualização histórica e social. Se o caso for esse, tenho que te confidenciar que os historiadores e sociólogos também produziram o que produziram “sobre nós” engajados em perspectivas ideológicas. E você acha que eu acredito em gente engajada? Penso, logo desconfio!
......O Estado é o trono vago após a morte de Deus. E para merecê-lo os partidinhos (governos?) encarnaram o estereótipo de seita. Como toda seita, precisam de um espetáculo e seus milagres!
......Kant achava que nós, seres humanos, começaríamos a pensar até atingir a “maioridade” – esse termo, em alemão, tem a conotação de “falar com a própria boca”, sabe? Eu DUVIDO que gente que pede permissão dos partidos políticos para falar seja capaz de falar com a própria boca! Duvido mesmo! Suas vozes não chegam nem a “maioria de UM”. DUVIDO que gente financiada por partido político consiga escrever alguma coisa que não seja CONFETE na cabeça do partido. Esse carnaval de seitas! E por isso escrevo no lugar dos “mudos”. Escrevo esse ensaio para que os poucos que pensam percebam que não é todo mundo que perdeu os ‘colhões’. Não é todo mundo que tá recebendo a hóstia das mãos dos dirigentes de partidinhos e dizendo amém. O simples fato de poucos estarem se expressando sobre o que vem acontecendo me faz temer pelo pior. Sigmund Freud postulou que se entre duas pessoas a ideia expressa é a mesma, só podemos concluir que Um pensou pelos Dois. E quando eu percebo um país inteiro falando em termos de A e B, só posso pensar que o SABER está sendo sufocado por um tipo tosco de CONSENSO. Tai a contradição: se é consenso, não é saber! É seita!

r.A.
“Sapere Aude”.

P.S.:
Observe a maneira como os representantes e militantes de A e B tratam os ‘adversários’, os termos pejorativos que usam, e note o nível de fanatismo, rancor e ódio que proliferam. Arrastam suas palavras na merda achando que isso lhes agrega ‘valor’ de argumento.
Quando “A” fala de “B” eu aprendo mais sobre a personalidade de “A” do que de “B”. É um sábio ditado popular. Use-o (é minha sugestão) para perceber o fanatismo que tomou conta dos partidos.


Sobre a imagem do Texto/Ensaio:


Então Santo Antonio, em voz alta, ordenou à mula: “Em nome do Criador, que trago vivo, verdadeiro, real e substancial nas minhas mãos, embora indignamente, ordeno-te, ó mula, que venhas já ajoelhar-te d’Ele, a fim de que estes hereges reconheçam que toda a criação é submissa e obediente ao Cordeiro que Se imola sobre os nossos altares”.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O pessoal vai dar uma festa aqui em casa, mas eu não posso comparecer!

Nota: Este texto não tem nada a ver com a COPA, tá?


......Tenho uma casa. Trabalho duro para mantê-la em pé. O pessoal vai dar uma festa aqui em casa, mas eu não posso comparecer! Quer dizer, eu até poderia, se pagasse para entrar na minha casa. Como assim? Vou explicar.
......Essa festa que o pessoal vai dar aqui em casa, 50% dos gastos eu estou pagando! Ocorre que o pessoal que vai dar esta festança aqui, vai construir uma mesa de sinuca na minha sala. Dizem por aí que fiz um bom negócio, já que quando a festa terminar, o pessoal vai levar as bolas e os tacos, mas vai deixar a mesa. A mesa que vai ficar, graças ao meu grande empreendimento, poderei usar para jogar sinuca – basta comprar as bolas e os tacos depois, e fazer os reparos necessários na bendita mesa. O detalhe é que eu não jogo sinuca! Mas tudo bem.
......Nesta festa que vão dar aqui em casa e que eu estou bancando metade da festa e que se eu quiser entrar tenho que pagar, dizem que vai rolar uma grana preta. E que essa grana preta que vai rolar, TALVEZ, será investida no que eu quiser – mas primeiro terá que passar por toda uma burocracia e tudo mais: pois eu não sou muito bom em administrar minhas coisas; preciso de gente de bom coração para mexer com o meu dinheiro e decifrar os meus desejos... ou seria cifrar os meus desejos?
......Agora a diária para mim conseguir frequentar a festa que vai ser na minha casa é de 300 mangos! E meu salário (que sempre sofre reajuste) não dará para pagar por todos os dias de festa! Se eu quiser frequentar a festa na minha própria casa – que já estou pagando 50% para que as pessoas que ‘vem de fora’ se divirtam a vontade – terei que fazer um empréstimo e parcelar o pagamento ao longo do ano. Como pagarei o empréstimo? Trabalhando para o pessoal que vai dar a festa na minha casa, ora! Não é demais? O engraçado é que eu não queria a tal festa e não conheço essas pessoas todas – E todas elas juram que estão fazendo isso para o meu bem!
......Como tudo tem seu lado bom, veja só que bacana, se eu reclamar da festa... se a festa passar dos limites, quero dizer, prometeram que vão me dar uma surra! Quem sabe não me matem? Vai saber... E quem vai me surrar são os seguranças que eu contratei para garantir que a festa transcorra tranquilamente.
......Eu já fiz bons negócios – como por exemplo pagar para trabalhar, pagar para estudar, pagar para que tratem a água que não pedi que sujassem e definitivamente não sujei, etc. Mas negócio bom como esse, uma festança dessas, eu nunca tinha feito!
ME SINTO MUITO ORGULHOSO  DE BATER NO PEITO E DIZER PARA TODO MUNDO QUE A FESTA VAI SER AQUI EM CASA – mesmo que eu não participe e mesmo que eu pague metade da festa! Todas as pessoas que eu conheço, ou seja, todos os meus amigos (alguns deles de infância), minha família, todos estes, não vão ir à festa. Mas alguém me prometeu que vão transmitir a festa ao vivo – pela televisão. Só que eu não assisto televisão...
......Eu sou muito inteligente, você não acha? Você não se sentiria INTELIGENTE no meu lugar? Sei que sim.



r.A.