segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Apercepção Noturna - Parte I




......A aranha da escuridão teceu no canto do meu quarto a teia do silêncio. E eu, cá entre nós, desenhei meu sorriso perfeito na parede. Um dia aprendi a entregar o queijo e a faca para os imbecis, dar as costas e voar para longe... Volta e meia retorno para entender que tomei a decisão certa! A sensibilidade faz vítimas, mas eu não fui vítima de minha sensibilidade. Olhei fundo no olho do buraco negro e soube que minha simples existência salva minha singularidade!
......Ontem, na madrugada, meu cigarro queimou meus papéis de anotação. E a reflexão posterior – durante o longo trago de wiski -, vinda de um canto remoto do inferno ou da fome insaciável dos mendigos sorridentes, revelou-me que nunca mais estarei em sincronia com este mundo (consecutivamente com esta gente toda). O que nos une é a tristeza, mas o que nos separa é a alegria e nos próximos dias -assim como nos dias anteriores-, estarei feliz.

r.A.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Da imprudência em cidades pequenas...


.....Você pode não acreditar, mas as vezes retirar-se é optar por um caminho entre a vitória e o fracasso. Nunca foi preciso ou necessário fazer parte deste jogo. Tomar partido, muitas vezes, é para aqueles cuja graça da certeza foi alcançada. Todavia já nem me pergunto mais o que farão com suas verdades... Passeio vagarosamente por bosques indiferentes e finalmente um sorriso me encontra.
.....Há tanta gente querendo ser tanta coisa que se esquece da dedicação necessária para ser uma coisa só... que seja... de uma vez por todas... definitivamente não me importo mais! Provável que alguém encontre Deus, cabisbaixo por uma ruazinha de nada, e ele decidirá qualquer coisa por esse alguém. Quanto a mim, tenho em estoque caixas de liberdade. Melhor assim – prefiro acreditar... mas não tenho instrução em crenças.
.....Quando o silêncio absoluto se revelou inalcançável, foi com pesar que a humanidade lamentou a notícia. Preparou-se cânticos de nada e harmonias do vazio para velar o fim da ideia redentora. Veja que só damos significado às saídas quando sofremos na entrada; é que respiramos esperança e utopia - da realidade nascemos apartados e atravessamos no último suspiro a linha divisória. A consciência resiste porque possuí a estranha habilidade de submergir e mesclar-se no coletivo. Feito isso, retorna para respirar aliviada – nosso alimento é a anedota cotidiana, a ficção nunca encarada no fundo dos olhos brilhantes!
.....Você pode não acreditar – assim como eu não acredito -, mas com frenquente exercício e constante repetição passará a aceitar sem refletir que é preciso a todo momento decidir sobre tudo... sobre você e sobre mim. Mesmo assim, quanto a isso, me retiro. Pois quando uma sociedade inteira entra em consenso – e o modismo da crítica pela crítica (vazia) é requinte de intelectuais -, descubro que despertar inimizade de idiotas é imprudência.

r.A.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sobrevivendo entre os homosapiens


..... Pensar que os anos passam e que este ano acabou, que este dia acabou, que novas chances estão por vir... Desejar melhoras, fazer votos, fazer promessas, lançar-se em simpatias, aquela coisa toda, o ritual todo, é tão engraçado. Uma espécie de comédia da esperança por pequenas causas perdidas. É o velho consolo no tempo... Mas não é no tempo, é em uma alegoria do tempo. Só repete o mantra da positividade aquele que oculta no seu sorriso um bom bocado de desespero. Erguer a taça no fim do dia é brindar a utopia insuportável da história. O peso morto das feridas que jurávamos estarem secas... mas a memória é implacável! “Feliz no amor, Adão teria nos poupado da história” – diz Cioran. Note que alguém pedirá para ser mais feliz no ano vindouro... Não foi feliz no ano que julgou passar? Não calejou a garganta ainda de tanto pedir graças e receber tédio?

.....Mas o mundo gira e nos arrasta, com razão ou sem razão. Mas se me fosse permitido fazer uma aposta, diria que na proporção de uma gota para com o oceano, a humanidade aprenderá a lição. Alguém, talvez, se dará conta que não é desse jeito que se encara as coisas. Que olhar para o braço bom não faz deixar de existir uma chaga no pé. Que a melhor maneira de celebrar um ano de assassinatos e injustiças seria no estado de luto. Mas se me fosse permitido fazer outra aposta, diria que a grande maioria celebrará – como se a si mesmo tivesse convertido em deus – o milagre da vida, ou melhor, o milagre de ainda estar vivo. E obviamente não é pouca razão para se festejar...

.....Quanto a mim, não suporto os últimos dias do ano. Parece que a hipocrisia vence no final. Não consigo me acostumar com isso... Porém, se eu erguer a taça, sei que minha felicidade será bem outra e que essa mania moderna de esperança não fez de mim uma vítima.

r.A.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Infeliz-Felizmente


..... Com o tempo, muito em nós é sepultado. Somos um poema que termina em reticências, ou uma escultura que precisa ser lapidada – e que não tem mais o direito ou possibilidade de chorar as lascadas lançadas fora. No final, o necessário (?) ou recordações. Minto, recordações não quero! Tudo é como se fosse um preparo para o velório.

..... Logo, sepultarei outro ano, mas diferente de Nietzsche, não estou preparado e não me foi permitido sepultá-lo. Cresci como árvore que enterrou raízes grossas em terra impossível. Parece-me que violei o meu tempo. Que já deveria ter ido, ademais, nem existido. Porém aqui estou, ilógico, absurdo, vazio e sem muitos propósitos além de dizer “sim” ou “não” ou talvez um “talvez”. Nunca para minha vida – certamente! Mas para o que me cerca. Falando sobre o que me cerca...

..... Tive demais! E cada insatisfação foi presenteada por uma inspiração. E hoje, a inspiração se foi. Junto com parte da emoção. Lapidei-me tanto que pouco sobrou... Falo em direções. Poucas direções e quase nada de caminhos. Todos meus – certamente! O que sei é que me tornei dono de meu caminho. Engraçado é que antes pensava que este é o sentido. Mais engraçado é que depois, continuo pensando que este é o sentido. Sepultar-se, ano pós ano, sonho pós sonho, momento pós momento. Escorrer... Falando sobre escorrer...

..... Bukowski acertou. O tempo é a cruz de todos! O que me cobra força é não me movimentar sem propósito. Todo este resto de caminho somado a todo este resto de propósito. Engraçado é não me importar, ultimamente, com a perda de sentidos... Enquanto por aí, todos que me dizem “oi, como vai indo a vida?” encontram sentido em tudo. Até para visitar um amigo ou manter uma relação me sinto cansado. E se alguém me pergunta “ah!”, faço um rodeio. Se já não suportava trinta minutos de conversa humana, hoje não suporto segundos... Deve haver uma grandeza nisso! Falando em grandeza...

..... Grandeza é uma ilusão que masturba o ego. Não há grandeza! Eu aprendi isso do pior modo. Sendo socado dia pós dia, madrugada pós madrugada por minha inteligência afiadíssima. Se eu indico essa inteligência para alguém? Nunca! É um inferno na terra. O gênisis da bíblia acertou. Deixar-se envolver é um erro! As pessoas, geralmente, roubam sua verdade – Cioran também acertou. Nem sexo, nem música, nem arte, hoje me arrepia os pelos! Agora eu sei que falar em amor é muito mais prazeroso do que praticá-lo! Por isso as putas também sabem da verdade. Falando em putas...

..... Bukowski acertou novamente! Quanto acerto que não resulta em nada! As putas banalizam as promessas de amor e o sexo. Que lhes resta? Pintar as unhas! Porém minhas unhas são horríveis. Melhor é mantê-las dentro do sapato! Eu sabia, na teoria, que esvaziar “tudo” cobraria seu preço e que com o tempo, o tempo mesmo se revelaria um suporte – e odeio suportes! Feliz dos artistas... Eles gozam com qualquer suporte, qualquer objeto, qualquer conceito, qualquer trapo – é que eles não veem suporte, objeto, conceito e trapo... Banana para os artistas! Que fiquem, eles, em seus cantos, com seus sorrisos frouxos e suas infantilidades suportáveis. Por hora é isso que sinto e isso que posso dizer. Não muito mais, além de um fingido e patético: BOA NOITE! Falando em boa noite...

.....Você já conseguiu se livrar do sentimento de estar constantemente enganando a si mesmo? Não? Não sente uma vontade estranha de ir tomar banho depois de ter gozado após uma boa noitada de sexo – e enquanto toma banho não lembra de nenhum momento de ter feito sexo, e aliás, pensa em uma outra coisa e em um outro lugar? Não pensa no fato de que se revelar isso ao seu parceiro, ele, possivelmente, não irá entender como você se sente –, livre de toda aquela magia da Disney? Não? Pois é, nisso tudo me sinto único no universo. Não sobre o sexo, mas sobre não ser compreendido. Tudo é como um preparo para o velório e a gente finge demais – espécie hipócrita essa do homosapiens -, vive inventando coisas para acreditar. Ficam as lembranças. Minto, não ficam lembranças em mim. Infeliz-felizmente!

..... E no fim desse ano em que sinto que sepulto minha adolescência, quero que a cidade de Chapecó, com todos os seus “grandes alguma coisa” tomem bem no meio do cu e me esqueçam. Diferente de 100% das pessoas que conheço, creio que ainda serei bem sucedido quando desejar sumir no silêncio. A novidade é que desejo!

r.A.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

" P ^ ~ P"


..... O libertário fanático, que quando menos esperamos acampa no bosque de nosso ser, por vezes encontra o medíocre sem espelho que procura uma bengala para apoiar sua fraqueza. Assim se encontram dois carrapatos – o segundo suga o sangue do primeiro, o primeiro suga o sangue de seu fanatismo. O libertário, não suportando mais a postura de desconfiança, constrói uma escada e a batiza: “saída”. O medíocre sem espelho é seduzido pela palavra e a fuga que ela indica. O libertário fanático necessita que o medíocre sem espelho adorne e elogie a escada, caso contrário sua fé corre risco. O cansaço começa a reluzir como ouro, atraindo outros cansados.

..... Cada ano que passa o grupo ganha novos adeptos que convertem a escada no símbolo maior de uma doutrina. Cada ano que passa é registrado como um ano de autoridade. É um marco de tempo com o tempo dissimulado em um novo significado. Se ignora as experiências de vida, a intensidade das experiências, se louva os anos dedicados... nada relativo, tudo cronometrado! Elege-se um templo sem paredes, uma moral e uma história. No ar flutua uma máxima – se ignora que está escrita em uma lápide – onde se lê: “Afinal, todos precisam ter algo em que acreditar”.

..... Adota-se uma máscara de plástico que sorri – sempre. Por trás da máscara, uma face que apodrece. Elogio é a moeda de comércio. Inicia-se o pacto das promessas, a exibição das aparências polidas e o carrossel dos perseguidos (vamos perseguir os perseguidores... “todo mundo faz de conta que a terra é quase o céu”). “Como somos bons” – dizem uns aos outros. “Quem nos denuncia é porque tem inveja”- dizem outros aos uns. E tudo é mais ou menos bobo, quase nunca sério.

..... De vez em quando aparece um e diz (com um tom de voz choroso): _” Ah, se junte a nós!... Deixa disso... Unidos seremos mais fortes”... Mas não perguntam sobre os seus princípios – é que não sabem o que é ter princípios. E você sorri e diz (como Bartleby): _Prefiro não fazer! E eles saem sapateando e te maldizendo pelas costas – sempre pelas costas! Pequena ilusão de pequenos difamadores... Mas não se enganem, não há grandeza em dizer não para algo que você reconhece de onde veio e para que veio. O fato de eles não saberem do que se trata (e por isso criarem os motivos para você, que no fundo não passa dos motivos que eles gostariam que fossem) é o seu diferencial.

.....O libertário fanático encosta a sua prisão na prisão do medíocre sem espelho. Forja uma apresentação notável! Com um gesto – de estalar a língua na boca- derruba o muro que separava o medíocre do libertário. O medíocre sem espelho, impressionado pelo feito, acredita que agora está livre, porém, tudo que aconteceu não passou do fato de que a prisão agora se tornou maior.

.....Desconfiarão que mesmo tendo mais espaço para se espreguiçar ainda estão dentro de uma prisão? Haverá um pensamento que lhes rachando os dogmas lhes despertarão para o trabalho ainda por fazer? Continuará o medíocre desviando o olhar do espelho? Compreenderá o libertário fanático que estagnou no meio do caminho?

.....Uma afirmação de uma negação: “só sei que nada sei”.


r.A.- Jovem... alguma coisa!

“Seja homem, siga a si mesmo!”- Goethe