sexta-feira, 23 de maio de 2014

Algo da modernidade agoniza na pós-modernidade...




.....Meus favoritos na Filosofia, ou seja, àqueles que me privilegiam na interlocução conceitual/teórica, são os "últimos modernos". Os pensadores entre os séculos XVIII e XIX, são mais caros do que os posteriores - para mim. Por que? Porque me parece que Schopenhauer, Nietzsche, Marx e Freud formaram o grande balanço dos dois milênios e meio na história da humanidade. 
......Arthur Schopenhaer foi o primeiro a passar do mero aviso sobre os excessos da razão (Kant) para o pontual: A razão está nos idiotizando! Nortear o ser humano pelas vias da razão - apenas - é ignorar que não passamos de uns animais perdidos na fronteira entre a sociedade e a "vontade cega" da natureza. A bendita "autonomia" do indivíduo, esse que se acha o centro do mundo com sua razão (quase...) esclarecida, não passa de um truque da "vontade" da natureza. Dito de outra forma: Ainda somos demasiadamente e inconscientemente determinados em nossas paixões. No conflito - que já era entrevisto pelos medievais - entre nosso sujeito racional (essa ficção que fez escola na modernidade) e nossas pulsões animalescas, a razão não fez mais do que maquiar o quanto somos escravos das oscilações orgânicas.
......Para mim, este é argumento suficiente para refutar a modinha intelectual do final da modernidade que tentava assegurar para a humanidade que ela poderia determinar os rumos da História. Com isso quero dizer apenas o seguinte: Pensar que o ser humano é determinado pela História e pela sociedade, apenas, e que por sua vez, possuí força suficiente para fazer desdobrar os rumos da História é no mínimo uma lógica de consolação - para não dizer algo pior. Digo isso porque das poucas certezas que tenho como Filósofo, uma delas, a mais evidente, é que nem o intelecto humano - essa invenção que deve tudo à lógica e a linguagem - é capaz de precisar TUDO que o determina; nem o intelecto humano é capaz de dobrar as forças quais o arrastam, para um lugar indeterminado. Leia-se UTOPIA, se você preferir. Para simplificar sem resumir, penso que nem a noção de ACASO - ou seja, as coisas ocorrem por acidentes que não apreendemos em seu sentido - consegue dar conta do CAOS ao qual somos arremessados. Se você gosta de pensar que as ciências respondem alguma coisa no âmbito geral, imagino que você ainda não percebeu a escuridão que é uma generalização. Mas a ciência responde sobre àquilo que desconhecemos? - Já vejo alguém irritadinho resmungando. Sim, mas a ciência só responde sobre àquilo que seu próprio método determina. É claro que isso é bom! Eu nunca descartaria a conquista no campo da humanidade, mas... Nunca conseguiríamos responder algo sobre o sentido do mundo nos fiando apenas na descrição e cálculo sobre a gravidade, sobre o movimento dos átomos, sobre a circulação sanguínea. As ciências ainda são apenas UMA das PERSPECTIVAS que você pode privilegiar em relação à um fenômeno - uma entre infinitas perspectivas! Mas ela acerta! - alguém diria. E eu responderia calmamente: Acerta porque ela inventa para si a noção de "acerto" - depois de mil experiências. Ainda é óbvia a descrição: "Dadas as causas determino os efeitos com uma margem de erro". Ora, cá entre nós, isso responde muito pouco nossas expectativas. 
......Na "cola" de Schopenhauer temos Friederich Nietzsche. E uma vez que ainda nem conseguimos entender suficientemente Schopenhauer, penso que Nietzsche é para nós um mistério. Se muitos ainda se apropriam de frases soltas que Nietzsche nos presenteou, ainda desconheço alguém capaz de aceitar a totalidade de sua obra. Na saída eu apresentaria o desafio. Os que gostam de inflar o peito falando de Nietzsche concebem o caráter determinante de seu pensamento como algo ANTI-DEMOCRÁTICO? Não vejo conciliação do pensamento Nietzscheano com a democracia, muito menos com a religião! Mas os que adoram citá-lo como uma espécie de atestado de "intelectual", parecem-me ignorar seus possíveis e necessários desdobramentos! 
......Os que se dizem marxistas - o que tenho minhas razões para desconfiar se o próprio Marx aceitaria estes no seu grupo! -, geralmente os bem superficiais, tem bastante razão em sentir em Nietzsche uma ameaça. São, os dois Filósofos, incompatíveis. Mas voltemos ao Nietzsche. Este pensador apreendeu o significado da MORTE DE DEUS. Se você nunca soube que Deus já passou dessa para outra (melhor), duvido muito que esteja de acordo com a pós-modernidade. Vai ver boa parte de suas crises e desgostos com o mundo provem desta ignorância em relação a algo dado. Ou quem sabe, você já foi adestrado para rezar no templo vazio. 
......O vazio ao qual me refiro é se ver pertencendo a um mundo sem "administração" alguma. Sem sentido algum. Sim cara, nós somos órfãos no universo! - não vai mudar muita coisa você sacudir negativamente a cabeça e cair de joelhos diante do nada! 
......Se a primeira coisa que disse estar agonizando na pós-modernidade é a constatação que não somos sujeitos plenamente autônomos - embora nossas leis no convívio social tentem nos convencer do contrário -, a segunda coisa que penso estar agonizando é a liberdade frente a um mundo sem sentido último. Você já parou para pensar o quanto você não suporta a ideia de que está sozinho embaixo de um céu vazio? - para usar uma terminologia de Jean-Paul Sartre. Quem sabe, depois da leitura deste texto, essa ficha caía para você: Todos os sentidos aos quais você tanto se apega - família, religião, filiação política, práticas morais, status social, etc. - não são mais do que apoios com os quais você luta desesperadamente para não cair no vazio. Não é a toa que uma das grandes práticas da psicologia (da psicologia ruim, quero dizer! Não estou generalizando, mas a desgraça é, infelizmente, a regra) na nossa configuração social é fazer com que o sujeito volte a se dedicar à algo. Em termos técnicos, "desviar a libido da direção da desolação para uma prática". Ah, sim. "Des-iludir-se" em relação a algo e insistir nessa "des-ilusão" é, no vocabulário médico, uma patologia (doença, se você preferir o jargão).
......Daí mais uma coisa que agoniza na pós-modernidade: O sentido. Somos reféns do "significar", nos privamos do aprendizado doloroso que é contemplar o "sem sentido". O capitalismo avançou a tal ponto que o objeto de consumo mais em alta é o "sentido". Consumimos o próprio "sentido" virtual que nós é apresentado no mercado. Ou você acha que não tem gente lucrando com sua tara por glúteos bem torneados enquanto sentido de sensualidade mascarado de saúde? Não me leve a mal, mas reduzir a sua vida ao polimento da carne é um pouquinho ridículo. (risos).  Veja só, que isso vai me fazer deslizar delicadamente do Nietzsche para o Marx.
......Outro dos grandes que não é possível ignorar a grandeza é o Filósofo Karl Marx. Veja, se Nietzsche considerava que Deus morreu durante as idas e vindas da modernidade, Marx nem considerava Deus uma força. Tratava-se, meramente de um delírio. Muitos gostam de falar que Marx também matou Deus - principalmente os sociólogos -, mas aí eu denuncio uma incompreensão gravíssima, do ponto de vista da obra do dito cujo. Marx não matou Deus. Constatar a morte de Deus requeria uma sensibilidade poética que Nietzsche fora munido, Marx não. O drama da morte de Deus é bem mais grave do que Marx pensou. Por isso não podemos nunca preferir um autor (Marx) à outro autor (Nietzsche). Precisamos adquirir uma certa maturidade de leitura e parar de confundir a idolatria por um teórico à outro. Mas cortemos a papagaiada. Veja só.
......Marx possuí um significado profundo para nós, que teimamos em pensar. Ele desmascara nossa relação coletiva, que se maquiava de convivência pacífica (ou o tal "contrato social"), e, mergulhando mais profundamente apreende algo que só a História, enquanto disciplina, era incapaz de compreender - a história interpretada por Filósofos, não contavam com essa!. Há relações ideológicas e institucionais de poder. Nossa passagem problemática entre a modernidade e a pós-modernidade residia em boa parte nesse problema ainda não trazido à tona. A maioria massiva dos seres humanos são explorados descaradamente por outros seres humanos. Nossa história não deixa de dar testemunho de nossa escravidão.   
......Marx fez uma topologia que os desavisados transformaram em uma verdadeira linha divisória - recheada de rancor tipicamente cristão! Os burgueses - detentores dos meios de produção, necessário para a produção da subsistência humana - e os proletários, sujeitos desprovidos de propriedades e reduzidos então a sua força de trabalho (braçal e intelectual). Se posso dizer mais uma coisa que está agonizando na modernidade e é tipicamente moderno, é a noção de "contrato social". O tal contrato onde uns entram com seus meios de produção e outros (maioria massiva) entra com o corpo e o espírito, não é um contrato, é uma algema! Eu disse que é uma topologia e não uma linha divisória, então vou te esclarecer os meus motivos. Os limites dessas duas noções - a saber, burgueses e proletários - estão borrados! Tanto o proletário respira o ar da ideologia do burguês quanto o burguês, muitas vezes, acha que está respirando a ideologia de um proletário. Como? Um exemplo? Ora, não preciso mais do que o presente contexto político de nosso país. Tem muito cara que se diz em prol do povo - maioria, eu diria - e sua prática segue sendo correspondente a ideologia burguesa. O dito: nosso governo vai gerar empregos, garantir educação básica e saúde... convenhamos, nem toca nas classes! - Muitos reis (governo monárquico) garantiam as mesmas coisas! Não se iluda coleguinha!
......Então aí está, mais uma coisa decididamente moderna agonizando na pós-modernidade! Se você gosta de dizer que a sociedade se divide entre os "ricos" e os "pobres", sinto muito te dar um banho de água fria, mas você está bem longe do marxismo. Por que? Porque para Marx a riqueza é produzida no trabalho de todos. Talvez você quisesse dizer que alguns acumulam capital enquanto outros participam dele apenas com o suor do rosto. Aí, quem sabe eu te diria que você está na pista do que Marx pensava. Aliás, deixe me dizer mais uma coisinha. É justamente uma visão muito superficial do marxismo que tem prestado muito bem ao trabalho de deixar a ideiazinha moderna de lutas de classe agonizando na pós-modernidade. Preste atenção. Quando digo agonizando não digo "morta". Esse conceito Filosófico-Econômico-Sociológico e Histórico, nem está bem vivo, nem está a sete palmos abaixo da terra. Está lá, esperando na fila do pronto-socorro. Mas por hora estamos nos ocupando de eventos esportivos superfaturados, se é que você me entende...
......Depois temos nosso neurologista, inventor da psicanálise, Sigmund Freud. A grande sacada de Freud não foi a descoberta do inconsciente como algo extremamente ativo e inclusive responsável por muito do que gostávamos de pensar ser "a consciência". Digo que a grande sacada de Freud não foi a descoberta do inconsciente porque os Filósofos já estavam carecas de saber da existência do inconsciente. E, que não me perdoem os psicanalistas, mas desde o Sócrates (Platônico) já estávamos sabendo do "superego". [Se você não gostou do que acabei de escrever leia atentamente a obra A apologia de Sócrates - nunca é tarde para uma leitura...]. Mas a grande colaboração do nosso querido Freud foi determinar as linhas gerais de comunicação entre o inconsciente e o consciente [O sonho]. E como Schopenhauer - que evidentemente o influenciou mais do que Dr. Freud quis admitir - Freud nos pintou um retrato bizarro do ser humano, como um animal que na luta por adestrar-se gerou uma imensa "soma" de mal-estar. Nota: jogo aí com o significado duplo do termo "soma". "Soma" também é o corpo. Daí o jargão médico: Doenças psicossomáticas.   
......Mas se por um lado Freud revela para nós a correspondência de algo que pesávamos ser separado - consciente e inconsciente -, por outro lado ele não estava dizendo: libertem-se dos recalques numa orgia maluca - Como os hippies e os estudantes do maio de 68 interpretaram pateticamente. E se eu disse isso, já aproveito para acrescentar: tai outra ideia moderna agonizando na pós-modernidade! Se ainda contamos com péssimos tratamentos dados aos sujeitos diagnosticados como psicóticos - as clínicas psiquiátricas "para loucos" -, as práticas de incitação ao delírio coletivo de algumas religiões; como disse, se ainda contamos com essa incapacidade de lidar com essa questão trazida a tona por Freud, atribuo ao fato o agonizar de uma ideia moderna. 
......Mas agora, talvez, você ainda esteja coçando o topo da cabeça e se perguntando: Mas que distinção você, escritor desse ensaio, faz entre modernidade e pós-modernidade? Te responderia que estamos diante de um problema interessante. Vejamos.
......O que chamo de moderno são as noções de: Progresso científico e tecnológico, Sentido atribuído a História de nossas civilizações (qualquer que seja o sentido), Crença na razão como perspectiva maior para compreensão do acontecimento que é a existência, e no esteio destas noções, principalmente atribuída as noções de progresso e sentido histórico, o delírio da UTOPIA. Utopia no sentido da busca da realização idealizada de uma (polida) noção de SER HUMANO - filha banguela do "humanismo renascentista". 
......E o que seria o pós-moderno? Ora colega, é justamente o fracasso destas noções modernas sendo constatado e no seu lugar sendo desenhado aquele velho jargão de historiador: "mas nem tudo foi ruim; agora vamos fazer o balanço do que é aproveitável e vamos relançar no mercado". (risos). Para mim a pós-modernidade é esse sentimento de fim de relacionamento. O aproveitar a lembrança dos bons momentos. A fé abobada de que "aprendemos com os erros". Acontecimentos históricos podem ser jogados na baila da reflexão: A globalização, O capitalismo atual, O pós-segunda grande guerra mundial. Mas isso para mim é o de menos. Fatos históricos não faltam para conversa de bodega! Se engana quem pensa que contra fatos não há argumentos. É justamente os fatos que pedem cada vez mais uma multiplicidade de perspectivas em relação aos argumentos - se você não aprendeu nada nesse meu ensaio,pelo menos aprenda isso coleguinha!
......É claro que vou terminar falando de Nietzsche! É meu favorito entre os citados! Então lá vai. Se você conseguiu se ver diante deste deserto que é a pós-modernidade (pelo menos era essa minha intenção te conduzindo até aqui) vou deixar uma consideração para assegurar que você tenha o que pensar depois de tudo isso. Nietzsche prescreveu um receituário praticável - a grande custo - quando fosse necessário passarmos por esse atoleiro perigoso. Dizia ele que deveríamos aprender a viver olhando para o abismo. E ao invés de pensarmos que a humanidade deu errado - porque no fundo ela deu errado mesmo enquanto projeto (risos) - ainda somos jovens sobre a Terra. Nossa espécie hominídea é uma das últimas do ponto de vista biológico! E temos a possibilidade ainda de nos criarmos maiores apesar de todas as adversidades. Das ideias que agonizam na pós-modernidade, particularmente me refugio (às vezes) nessa. Antes de dormir se faça a seguinte questão:_ O quê você fez para superar essa humanidade? - não em sentidos fisiológicos, bundudos e bundudas de academia não passam de macacos adestrados, não é disso que estamos falando aqui! O quê ainda podemos fazer para que essa humanidade não seja apenas isso que vemos, mas algo digno de morrer para que uma humanidade por vir se supere? [na outra manga eu escondo Cioran, mas essa é outra história e não é aqui que vou contá-la].

r.A. 

"A última coisa que eu prometeria seria 'melhorar' a humanidade. Eu não construo novos ídolos: os velhos que aprendam o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos (minha palavra para 'ideais') - isto sim é meu ofício".

Friederich Nietzsche: Ecce Homo

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Qualquer coisa que parece sem saída



(Ensaio do Steinhager)

......Ludwig Wittgeinstein (Filósofo) disse que tudo que um homem precisa é de uma mala com algumas roupas. Desconfio que ele esteja certo. Mas sou uma parte interessada nessa questão. Tudo que tenho cabe numa mala. Mesmo quando me mudei – e não gosto de permanecer muito tempo num lugar só – deixei metade da mala para trás. Só não fico enchendo saco com essa história de capitalismo porque sei que um ser humano que acumula propriedades é pelas suas propriedades completamente consumido – aniquilado como “ser”. A imagem que tenho de um desgraçado – no contextua atual, me refiro - é alguém bem sucedido economicamente. Aposto que tem um chato – dos bem chatos!- pensando agora:_ r.A. faz apologia dos mendigos! É óbvio que não é nada disso.
......Frequentei demoradamente a escola dos vagabundos! Charles Bukowski, Henry Miller, Baudelaire, Rimbaud, Nietzsche e Cioran –  só para citar uns nomes. Mas, sobretudo, conheci outros vagabundos inglórios, infames. Prestei atenção neles como se fossem verdadeiros mestres – porque eram!
......Longe de invejar os bem resolvidos, quase sempre tive que me livrar da pena que sentia dos tais. Minha compreensão simples é que alguém com casa, carro, dinheiro no banco, possuí um estresse inútil à mais para se atormentar – ter coisas é conjurar o inferno da manutenção das coisas. Não sei ao certo se foi a Filosofia que me auxiliou nesse exercício de percepção da nulidade das coisas ou se já estava infectado por essa percepção.
Hoje, que vejo os benditos Filósofos bem sucedidos ministrando palestras para empresários, acho no mínimo engraçado os bem sucedidos buscando ajuda na mais atormentada das tradições. – Os Filósofos não oferecem auxílio, eles só ampliam o veneno!
......Mas se por um lado a Filosofia me livrou desses valores ridículos que sempre estiveram presentes em todas as configurações de sociedades nos últimos 2.500 anos – ou você acha que a ideia de acumulo de propriedade só apareceu depois da revolução industrial... bobinho – por outro lado a Filosofia (pelo menos a acadêmica...) quase fez de mim um “religioso”.  Penso ser este o maior mal da Filosofia! Veja só.
......Assisti muitos que conseguiram abdicar dessa ilusão de uma vida bem sucedida, mas se tornaram reféns do “conhecimento”. Deixe-me explicar. Muitos que conheci foram contaminados pelo “gen” da Verdade. Quero dizer, aqueles que se tornam fanáticos do conhecimento, do saber. Paranoicos dos livros e dos autores! Longe de mim me tornar um “sábio”. Nem aspiro a tal coisa! A maior de minhas fidelidades para com o saber é nunca confiar nele. Assim como me livrei da ilusão de acumular propriedades, me livrei rapidinho da ilusão de acumular conhecimento. Aliás, acho os tais “intelectuais” uma espécie genérica de comentador de futebol – nesse caso, eles comentam a cultura-, apenas uns piolhentos que sentem desejo de se coçar em público. A tentação de ser um “formulador de opinião” – como dizem – ou “agitador cultural” – o que abomino -, não fez de mim uma vítima. O máximo de minha participação na sociedade é o deboche e a ironia.
......Sei bem o drama de ser um sujeito e pertencer a um rebanho (massa). Se numa sociedade organizada na configuração de uma democracia o número é mais forte que o saber, o consenso faz a lei. Logo que o consenso não significa o melhor dos caminhos, um sujeito (singularidade entre o rebanho) só pode garantir sua sobrevivência intelectual recolhido na solidão. A sociedade é qualquer coisa que parece sem saída. Para evitar padecer dos nervos, prefiro não participar. Mas não participar disso não significa deixar de pensar e agir. Significa aplicar-se, no cotidiano, como terapia, o riso. Se você quiser me encontrar entre a multidão, é só prestar atenção de onde vem o deboche. Cuide que se você encontrar um palhaço com uma mala na mão – e um trago na outra mão -, se não for Eu, é alguém parecido comigo.



r.A.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Sonhei que você era minhas férias!



......Quem sabe toda expressão seja uma mentira depois que passa pelas regras de comunicação. E acho que a coisa fica pior uma vez que escrevo para mim. Por exemplo, agora: sinto vontade de ir para um lugar que seja como um lar... Mas não tive isso, apenas uma idealização tosca disso. Como posso sentir falta de um lugar que nunca tive e nem quero estar?  Viu? Isso não dá para expressar nem em mil poemas.
......Sonhei que você era minhas férias, mas não foi dormindo... foi na sacada, depois de uma madrugada de insônia.
......Quando o sol nasceu e os sons da rua ficaram insuportáveis, tive que me perguntar se estava mesmo onde queria. “Olha, esse é o melhor lugar para uma pessoa como você” – resmunguei. Tive vontade de me atirar da sacada depois disso, tive que rir.
......A pior parte quando estou assim, de mal com as palavras, é que não expresso o que sinto. E quando não expresso o que sinto, me sinto pior.  Preciso da escrita como uma velha precisa de suas orações pela família. É horrível essa dependência por algo inútil!
......O que acho ridículo em um ser humano é a convicção nas palavras. A confiança nessa espécie de uivo adestrado – me sufoca. Essas alucinações gramaticais são um porre de vodca barata. Vai ver é por isso que não me dou bem com coisas que falam... e se falam muito, e se falam alto... despertam um vulcão de ódio – que com muito custo mantenho inativo.
......Não desejo nada além de férias. E que você seja essas férias. E que possamos passar meses trancando o mundo do lado de fora de um abraço nu. Nenhuma palavra mais!
......Todo escritor que não sente um misto de nojo e prazer com as palavras, para mim é uma piada! Todo escritor que segue um método, que limpa sua escrita, que se preocupa com a técnica, na minha irritada opinião merece 39 chicotadas nas costas – e uma no cu. Enquanto ninguém sofrer para falar, para escrever, tudo será uma bosta. – desejo para todos os escritores medíocres, aulas de escrita criativa!!! Milhões de oficinas para “trocar ideias”. E não é para eles ficarem bons, é para continuarem mantendo a mediocridade do mercado editorial – confio nisso para vencer um dia! (risos). – o aluguel continua enchendo o saco no dia 5 e a cerveja teima em acabar em horas inconvenientes.
......Eu consigo entender e até consigo aceitar o fato de você não ser minhas férias. Eu sou feio, desengonçado e mal humorado. Costumo rir na cara de gente que se acha bacana e todos meus amigos já pensaram em me matar um dia!
......Sonhei que você era minhas férias... isso é insuportável para mim. O último pistoleiro em pé – é o que dizem.
......Você lembra quando disse que sentia falta de um lugar que fosse como um lar? Eu menti para te impressionar ou essa falta já passou.
O que eu sinto falta mesmo é de um cachorro
Adestrado para buscar cigarros na padaria
E
Que invés de latir, grite:_ VÁ SE FODER!
Para São Paulo inteira ouvir.

Pois é.


r.A.

PS. Ao som de Sonic Youth - Sweet Shine.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Coisas que você pode "desaprender" com CIORAN



“A loucura de pregar está tão enraizada em nós que emerge de profundidades desconhecidas ao instinto de conservação. Cada um espera seu momento para propor algo: não importa o quê. Tem uma voz: isto basta. Pagamos caro não ser surdos nem mudos...” (Emil M. Cioran – Breviário de decomposição. Trecho de O antiprofeta).

......Certas coisas que condeno em outros escritores pratico muito bem! (risos). Quero dizer, não suporto o “endeusamento” de um autor – não suporto em mim e nos outros. É esta contradição estranha que me obrigo a explorar neste ensaio. Vou explicar melhor. Exceto por alguns artigos que defendi em algumas universidades, nunca me achei “bom” o suficiente para escrever sobre três filósofos: Schopenhauer, Nietzsche e Cioran. Mas escrevi! (risos). E esta barreira chegou a tal ponto que, imediatamente após ter defendido os citados artigos na academia, me desfiz deles (dos artigos)! Observe o nível da “frescura”. Não consegui suportar uma associação do meu nome com o nome dos tais filósofos. O simples fato de citá-los, já me provoca reprovação. Alguns caras são sérios demais para você tocar nos seus nomes sem sentir o peso da responsabilidade.
......Dia 8 de abril deste ano, comemorou-se o aniversário de nascimento de Emil Michel Cioran (1911-1995). Nascido na Romênia e (er)radicado na França. A primeira vez que tive contato com sua obra deve-se a um feliz acaso. Procurando, na biblioteca da universidade, por um livro de história, me chamou atenção o título de uma obra: História e Utopia. Um livro pequeno, mas poderoso. Uma obra sem rodeios, ia direto ao ponto. O simples fato do autor tratar a história como uma ilusão – o que concordo plenamente! – onde o ser humano deposita sua ficção de megalomania, seu desesperado apego as Utopias, seu exagero na fixação no passado – nostalgia -, fez com que eu suspirasse entusiasmado:_ rapaz! É esse livro que busquei por muito tempo! Vasculhei a biblioteca inteira atrás de outra obra do sujeito... incrível! Numa biblioteca com milhares de livros, só havia disponível este exemplar.
......De cinco livros em romeno e dez em francês, apenas cinco livros haviam sido traduzidos para o português. Todos esgotados há décadas! Diferente de Friederich Nietzsche – que eu pesquisava na época (e continuo pesquisando!). Pesquisei tudo que pude, e Cioran reabasteceu toda minha necessidade por filosofia ácida! ( Embora o próprio autor se denominava Anti-filosófico: isso não me apavorou! Descartes foi anti-filosófico no seu contexto, Schopenhauer, Nietzsche! Basta uma leitura mais crítica da tradição filosófica para você perceber que a filosofia é feita de marginais insólitos!). Nunca fui convencido da justificativa da filosofia como crítica cultural – ideológica, nem a papagaiada marxista que reduzia a filosofia a mera “interpretação do mundo” – banana para Marx! Filosofia sempre me foi uma tradição marginal – na margem do pensamento geral - , não só uma criação de conceitos e interpretações, mas transformadora e inventiva, REVOLUCIONÁRIA E REVOLTADA até o limite de estalar e arrancar faíscas do pensamento, literária e de leitores ativos: nada de respostas fáceis e autoajuda consoladora. Pois bem, Cioran parecia de acordo comigo, e eu, mais ainda de acordo com Cioran. Estava maduro para tal encontro com Cioran! Dois anos antes eu teria recolocado História e Utopia na prateleira! Teria ido para casa com um Hobsbawn ou Le Goff – que vexame!!!
......Cioran cooperou com meu “desaprendizado” em ler a história! Dialética crítica é o caralho! A história é feita de uma projeção utópica (portanto, no futuro) de uma nostalgia passada (portanto, do passado). Nostalgia e Utopia são perspectivas ideológicas que tornam nossa existência factual um verdadeiro tormento! Deste duplo delírio (Nostalgia e Utopia) nascem as “boas novas”, os reformadores de todo sofrimento. As ideologias que movimentam as massas. O blábláblá que se resume na promessa sintetizada em: “um futuro melhor”, caiu aos pedaços diante de mim, assim que travei conhecimento com a citada obra. Depois deste “desaprendizado”, de toda a ladainha que se dizia pós-metafísica e portanto “materialista”, nunca mais fui capaz de suportar qualquer ideólogo! Bastava um cara pegar num microfone/megafone e dizer “NÓS” para mim saber que se tratava de um patife, de um desgraçado que incapaz de duvidar de suas crenças tentava impor sua “verdade”. De “quebra”, o que era desconfiança em relação a todas as manobras democráticas – a propaganda entusiasmada dos partidarismos políticos, sindicatos financiados, manifestos recheados de promessas de um mundo melhor, religiões do pós-vida, movimentos sociais com ampla margem de negociação para com representantes do governo -, o que era desconfiança em mim se tornou ceticismo.  
......Se com Nietzsche, já notava que toda promessa de redenção futura negava a existência presente, com Cioran tive provas de que nenhum “ativismo” era gratuito. Afirmado, o ativismo – a maioria deles -, até as últimas consequências, resultava em poças de sangue – inclusive justificadas por promessas redentoras que desaguavam num futuro utópico.
......Toda utopia humana, que transbordam os bueiros e alagam as ruas, arrastam multidões, passou a ser meu presságio de apocalipse.  Se a sociedade humana incendiar esse planetinha do sistema solar, não tenha dúvidas que será em nome de uma “boa causa”. Difícil de acreditar para quem está crente no progresso e numa dialética recheada de boas intenções, não é mesmo? Os fanáticos injetaram na veia suas convicções. Agora o fanatismo desfila sem medo do ridículo com o peito estufado, diante de nós.
......Veja só, caro leitor, das coisas que pode se desaprender com Cioran, a confiança veio pra ficar. Uma filosofia que coloca em xeque-mate qualquer que seja a verdade, ideologia, perspectiva histórica – social – psicossocial. O ser humano é “idólatra por instinto” – parafraseando Cioran -, isto é, apenas pelo tesão de participar de algo tudo se justifica. A banalidade do mal que a filósofa Hannah Arendt testemunhou no nazismo, já estava presente antes e está presente agora. Basta você “desaprender” um pouco e desconfiar bastante, para perceber isso! Basta uma certeza para auxiliar qualquer ser humano a puxar um gatilho – Inclusive no suicídio.
......Nossa “saudade do paraíso”, nossa tentativa em ato de realizar a utopia na História (esse “desfile de absolutos” – acrescento: ficções abobadas), nossa justificativa racional de nossos delírios e tormentos, nosso engajamento ideológico (defendido como “não-alienação”) manchou essa terra de sangue incontáveis vezes. Meu “desaprendizado” realizado, partindo de Cioran, demonstrou que “quem luta por algo, morre por algo, mata por algo!”.  E este “algo”, sempre foi uma certeza. Qualquer sujeito que se atravesse no caminho daqueles que estão convictos de uma ideologia (nem precisa ser um totalitarismo) é definido como um inimigo. INIMIGO foi o termo sempre usado em guerras para legitimar o massacre! O engraçado é que nações em guerra são conduzidas a guerras por ALGUÉM, alguém com grande poder de convencimento, alguém com RESPOSTAS.  Não te soa familiar?: O INIMIGO da nossa causa, O INIMIGO da nossa sociedade, O INIMIGO da nossa nação, O INIMIGO DA DEMOCRACIA, O INIMIGO do nosso governo, O INIMIGO da nossa religião, O INIMIGO, O INIMIGO, O INIMIGO... todo CONVICTO tem um inimigo! – O inimigo é o bode expiatório de qualquer reforma. O diabo, O forasteiro, O de direita, O de esquerda, O bandido.
......Quando você for formular sua perspectiva de INIMIGO, experimente espiar qual é a TARA que você está justificando por baixo dos panos! Será mesmo que você é tarado apenas pela democracia? (risos)...
,,,,,,Este Cioran, não só foi de uma consciência monstruosa em relação ao que ficcionamos “humanidade”, como foi de um comportamento desconcertante, típico de um filósofo. Renunciando prêmios literários e “mimos” da cultura francesa (e dos defensores da cultura em geral – por Deus... hoje há tantos defensores...) deixou a ferida aberta nessa nossa mania de sucesso! Não cedeu, nem por um milésimo de segundo, a tradição literária de AGRADAR a todo custo. Depois de levar a sério o intento de “caluniar o universo” foi capaz de abandonar a escrita. Devolveu a filosofia a arrogância de não ceder à tentação de “justificar-se”. É por aí que o admiro profundamente – embora saiba que minha admiração e a de toda a humanidade, para ele, fosse indiferente. Se outro de seus “colegas” de contexto – Jean-Paul Sartre – renunciou ao Nobel para salvaguardar o fato de que não estava “acabado”, Cioran rejeitou tudo numa demonstração empírica de que a humanidade não fez dele uma vítima, no final das contas. A cultura – esse engajamento que ninguém, nos nossos dias, ousa declarar escárnio – não passou para Cioran de um mal estar. Uma inconveniência para os filósofos – do seu “tipo”. Ai de um filósofo, hoje, confessar que esse amor declarado pela cultura não passa de um subterfúgio para um “empresário das ideias”! O “povo” condenará no ato tal arrogância! A sociedade não perdoa intentos intelectuais que não visem a cultura do povo. Mas Cioran soube cedo que esta era uma das grandes mentiras da filosofia! Desmascaramento da filosofia: ela não é serviçal da cultura! (Não me desculpem autoproclamados “agitadores culturais”, vocês não são filósofos, sinto muito, contenham as lágrimas!). O filósofo legítimo e o “homem do povo”, nasceram apartados.  Esta foi a última de minhas “desaprendizagens” que tive com Cioran. Deus me livre de Deus e de justificar a filosofia dizendo que tudo é cultural! (risos).

r.A.

“Dom Quixote representa a juventude de uma civilização: ele se inventava acontecimentos; nós não sabemos como escapar aos que nos perseguem” (Emil M. Cioran – Silogismos da amargura).

“Que tristeza ver grandes nações mendigarem um suplemento de futuro!” (Emil M. Cioran – Silogismos da amargura).


domingo, 6 de abril de 2014

A angústia adolescente pagou muito bem, agora estou entendiado e velho (Kurt Cobain- Server the servants)


......Agora que muito se fala dos vinte anos da morte de Kurt Donald Cobain (1967 – 1994), vocalista, letrista e guitarrista do Nirvana, eu não poderia deixa de pensar em como passei a admirá-lo profundamente. A primeira vez que ouvi falar dele foi pouco antes de sua morte. Eu era criança demais para entender o que aconteceu. A única coisa que me lembro é que o disco Nevermind circulava em minha casa graças a minha irmã. E deste disco, mesmo eu não tendo 10 anos de idade completos e mesmo não entendendo direito o que dizia a letra, eu botava para tocar Territorial Pissing repetidas vezes.
......Só fui voltar a pensar nesse sujeito com 13/14 anos. Tinha ido visitar um amigo (Gustavo Fiorentin) e como ele morava longe de minha casa, havia ficado tarde demais para eu retornar. Fiquei hospedado no quarto de um de seus irmãos mais velhos. Sem sono, comecei a folhear algumas revistas de rock e me deparei com uma revista especial sobre Nirvana. Comecei a ler as entrevistas e achei o sujeito complexo e inteligente demais para ser “verdade”. Até ali, rock para mim era um excesso de pose e um barulho mais suportável – do que o que havia para se ouvir. Mas, diferente da maioria dos adolescentes, não tinha se tornado uma febre na minha vida.
......Pela manhã comecei a torrar o saco desse meu amigo para encontrarmos pelo menos uma música da banda daquele sujeito. Vasculhamos vários CD’s, e não encontramos nada. Mas ele sabia do que se tratava, já eu, não consegui associar o disco Nervermind de minha irmã ao nome da banda. Discutimos por um tempo as entrevistas, as críticas que o tal Kurt fazia ao “negócio” que era o rock. Pedi se ele podia me emprestar àquela revista. Receoso com os seus irmãos mais velhos, ele disse que não poderia me emprestar antes de consultá-los. O ‘estranho’é que essa revista estava na minha mochila quando voltei para casa... (risos).
......Foi uma das poucas coisas que me interessaram na época. Não tinha apreço por ler e tão pouco pensar sobre o mundo – quem diria!!!. Consegui reunir mais material sobre a banda e em pouco tempo sabia muitos detalhes sobre Kurt Cobain, lia várias de suas letras como se fossem poemas (aprendizado fundamental quando comecei a compor!), mas não havia ouvido o som. Esse mesmo amigo conseguiu para mim um daqueles discos/seleções de clássicos do rock e foi aí que pude ouvir “Come as you are” e “Smell like a teen spirit”. Como até ali não era um fã de rock, não sabia onde procurar discos de rock. Lesado o suficiente para não entrar numa loja de discos! –DÃh! Um dia, entrando numa lojinha que vendia discos piratas, consegui o Unplugged in New York do Nirvana. Foi o meu disco favorito, mesmo mais tarde, tendo conseguido todos os discos e mais materiais ao vivo.
......Apenas para constar, tive uma iniciação ao Nirvana e ao legado de Kurt Cobain, mais pelas entrevistas, pelas letras e pelas biografias, do que pelos discos. E por isso, fui capaz de pensá-lo, não partindo de uma crítica musical, mas por sua poética caótica, desconsolada e desesperada. Fui levado a um estudo minucioso sobre a tradição musical que foi e é o rock. Graças a esse feliz acaso, sempre tive uma avaliação partindo do conteúdo – de qualquer artista – e não apenas pelo entusiasmo. Coisa semelhante aconteceu comigo com bandas como Joy Division, Sex Pistols e Two Gallants.
......Gastei mais tempo da minha vida discutindo e refletindo sobre isso do que estudando no ensino médio – Gustavo Britto, Ivandro Pagani, e, garrafões e mais garrafões de vinho barato, confusões e mais confusões a níveis inimagináveis para qualquer adolescente! Mal acredito que sobrevivemos (risos).
......Mais tarde, (16/17 anos), quando comecei a estudar música – guitarra, bateria, baixo, vocal, composição, etc. – pude observar que Kurt Cobain era tão competente como poeta quanto como músico. Seu potencial criativo era muito maior do que o que foi capaz de expressar. Vou repetir isso: Seu potencial criativo era muito maior do que foi capaz de expressar. Se tivesse sido um artista plástico – lado que também ‘enveredou’ e cogitou -, um escritor ou um poeta, dificilmente não teria obtido um lugar de destaque. Era impossível – embora o sucesso tenha o ajudado significativamente – seu gênio ter passado despercebido.
......De minha perspectiva, não é, de forma alguma, um exagero colocá-lo, em seu determinado contexto e em sua poética, ao lado de sujeitos (em seus contextos, suas poéticas e suas linguagens de expressão...) como Jim Morrison, Leonard Cohen, Nick Drake, Arthur Rimbaud, Charles Baudelaire, Bukowski ou filósofos do nível de Schopenhauer e Cioran. Apontá-lo meramente como “apenas mais um ícone do rock” é reduzir demais seu significado artístico. Há outros desse ‘feitio’ no rock? – óbvio que há! Mas acredito serem poucos (poucos do ponto de vista da quantidade de ‘ícones do rock’). Não foram poucos que conheci que me disseram:_ Não gosto da música do Nirvana, mas entendo a importância de Kurt Cobain para a música. Gente que está para além do “gosto/ não gosto” é raro hoje em dia!
......Hoje, quando vejo milhares de artigos de revistas e sites referindo-se a Cobain como meramente um cara problemático ou “porta voz da geração 90, ou geração Grunge rock”, não deixo de imaginá-lo resmungando “fuck you” em algum lugar. Provavelmente – como o próprio citou várias vezes -, ele diria que não tem nada a ver com uma porção de milhares de pessoas que andam por aí com sua cara estampada em uma camiseta. Cito-o: “Se você for machista, racista ou homofóbico, pode deixar de comprar nossos discos e vir aos nossos shows!”.
......Deixe-me falar do título que usei para este rápido ensaio. Não muito tempo atrás – coisa de três anos – estava sentado em uma mesa de bar com alguns músicos de bandas de rock, apenas falando sobre a importância social que temos como artistas. O nome de Kurt surgiu na conversa, ao que, alguém resmungou:_ ah, a geração 90 se resume a lamentar que os pais e a sociedade não os compreendiam! Isso foi dito num tom de menosprezo. Com um certo cansaço para debater certos assuntos, com a desculpa de fumar um cigarro, me retirei da mesa. Obviamente não voltei mais – nunca mais! (risos). Primeiro, não suporto roqueiros incapazes de autocrítica, aliás, não suporto nenhum tipo de pretenso artista que não esteja provido de uma autocrítica ácida sobre si mesmo. Kurt – recorde-se do título deste ensaio – era cruel em sua autocrítica como artista e inclusive era capaz de uma leitura poderosa sobre seu próprio contexto. E mais! Foi capaz de entender, sem rodeios, direto ao ponto, o que a massa – induzida pelos (maioria dos) jornalistas- pensava sobre seu “sucesso”. Foi capaz, no seu último disco (In utero), de disparar uma ironia que incluía não apenas a si mesmo, mas todo o contexto-psico-social. Te pergunto: Visionário? Hoje a angústia adolescente não vem pagando muito bem? E depois, cansado, foi capaz de amadurecer e ser sincero falando que isso tudo o entediava. Se os roqueiros tivessem se dado ao trabalho de pensar um pouco ao invés de se masturbar no palco, acho que o rock teria (a maior parte do rock, me refiro) tido um rumo mais interessante além de falar de bebedeira e diversão. (Sem falar na rebeldia de se entocar num sítio fora da cidade para usar drogas e boquejar sobre o capitalismo... mui rebelde! [risos]). E em segundo lugar, vejo que Kurt foi capaz de ‘educar’ boa parte dos roqueiros (inclusive não-roqueiros!) quanto às angústias “subjetivas – singulares” que podem destroçar uma pessoa! Por que toco nesse assunto? Ora, o rock (a maior parte, é sempre a isso que estou me referindo e no contexto atual, esse texto tem uma data, ok?), quando não sofre de um excesso de intelectualismo barato, sofre de uma banalização festiva. Isto é, poucos não caem de um lado ou do outro do cavalo! – aposto na sua inteligência para entender a metáfora!
......Por fim, desejaria profundamente, que esta recordação da morte de Kurt Cobain, embarcasse no seu significado contraditório! Já que o próprio Kurt foi testemunha fiel do drama da contradição ‘pós-moderna’, ou seja, da crise de identidade dramática do nosso contexto. “Roqueiro autodestrutivo depressivo” nunca foi sua sugestão! Foi seu lamento – se pudesse ter escolhido, ele não teria optado por isso. Vítima de uma sociedade ridícula? Também, mas vítima de uma genialidade que estava longe de ser ‘morna’, de uma sensibilidade abissal. Louvá-lo pela morte é no mínimo mórbido e estúpido.  Enquanto os intelectualóides de plantão estão denunciando paradoxos, penso que é justamente o paradoxo que deve ser exposto a sério – e (quase) como conquista sensível! Somos paradoxais! Mas nem por isso devemos sentir “vergonha” de nossa contradição. Nossos problemas não devem ser um obstáculo para nossa pretensa felicidade, mas um constitutivo que nos compõem. Kurt foi um embate MORAL entre o que se tem por “certo” – ser “alguém na vida”, não ter vícios, seguir a moda e a opinião geral vigente! – e o que se tem por “errado” – assumir suas fraquezas, sua ignorância, suas opiniões singulares. Se você acha que já estamos fazendo isso, basta você olhar para a música hoje, que dita a regra da ostentação a todo custo! A ditadura da boa vida e da boa saúde – Isso não é só o capitalismo, poupe-se dessas críticas ingênuas!
......Kurt Cobain foi homem o suficiente para nos expor dramaticamente que a humanidade não é Ordem e Coerência, mas Caos e Paixão! Não é uma questão de fazer a apologia do Caos e da Paixão, como muitos fazem se autoflagelando só para manter o “fashion shits, fashion style”. Antes de morrer ele ainda tinha uma máxima: PAZ (um pressuposto ÉTICO/MORAL), AMOR (Um pressuposto SUBJETIVO) e EMPATIA (Um desafio PSICOSOCIAL, alteridade). Até onde me consta, bastando-me observar nossa realidade social, estamos muito longe disso. Pois então, que o significado contraditório de sua vida se faça valer. Longe de torná-lo um mártir, mas entendê-lo como um gênio provocador.
......Sem Kurt Cobain, com toda certeza, eu não teria desenvolvido gosto pela música, pela arte, pela literatura, por causas políticas e sociais (inclusive anti-políticas e a anti-sociedade!). Não posso imaginar o que teria sido de mim sem conhecer sua profunda e atormentada obra, mas posso entender a influência que esse cara exerceu sobre mim.

r.A.





PS.Este ensaio é dedicado a duas criaturas do absurdo. Tem um cara que é autoridade na vagabundagem e no tiro de pistola– André Romanoski é como foi registrado, numa fria tarde de dezembro – e me ajudou a concretizar o sonho de ter uma banda de rock chamada Sodoma H. E outro cara que é autoridade na cerveja e na guitarra – que atende pelo nome de Antônio Marcos –, que nunca me deixou desistir da música. Essas duas criaturas do pântano, que seduzem mocinhas desavisadas, me mantiveram no mau caminho. Tentei aconselhar os meliantes a ir para a luz, mas eles se corromperam e me levaram junto para as sombras. Não poderia terminar esse ensaio sem citar as criaturas. Se eu fosse um sujeito religioso, rezaria a Kurt para que seus copos nunca secassem. Embora saiba que se rezasse para que seus copos secassem, nem toda fé do mundo seria suficiente. Causas perdidas... Se o rock e a safadeza não existissem, eles teriam inventado.