segunda-feira, 17 de junho de 2013

...Da biografia\autobiografia. fama, rock n' roll e macacos que riem!



......No renascimento (alemão e italiano) os burgueses pagavam escritores medíocres para escrever a biografia de suas vidas. Que essas biografias não tenham chegado até nós é um acontecimento que poderia ser estudado com profundidade. Mas minha hipótese é que a vida de um burguês é tão entediante que até um escritor medíocre sentia que fora um mau negócio ter aceitado a empreitada! Quer dizer, provavelmente não valeria o esforço e tão pouco à recompensa.
......Schopenhuaer (aquele filósofo alemão que ninguém conhece) disparava na cara de sua mãe que os relatos de viagem que ela fazia e que lhe renderam uma espécie de aceitação enquanto literatura, não passava de uma baboseira. Ora, baboseira essa que enganava, inclusive, caras sérios – tipo Goethe. Basta você saber que Schopenhauer era um filósofo para entender que tomar biografias como literatura só podia ser de péssimo gosto!
......Dia desses eu andava dentro de uma livraria – estava procurando um livro de Russell –  quando parei por um segundo para pensar, me vi trocando olhares com Neil Young. Uma cara de velho, um pouco sombria, com um chapéu puído e o olhar escondido na sombra da aba do chapéu. Li na capa: Autobiografia. Ao lado desta capa, biografia do ACDC, biografia do Metallica, biografia do Aerosmith, biografia do One direction, Justin “baby”, até do Restart! Perguntei para a moça que atendia no balcão:_ Isso tudo vende? E ela, sorrindo gentilmente:_ É o que mais vende na nossa livraria! É claro que pensei: O dia que eu estiver falindo, tratarei de escrever minha autobiografia, vai que consigo um dinheiro para o aluguel?
......Se você pensar a sério sobre um autor de transição do renascimento para a modernidade – na França -, você chegará em Renè Descartes. E seu “Discurso do método” e o seu “Meditações metafísicas”, começam com um caráter autobiográfico. Sabe o que é engraçado? Quando passo pelas bancas de jornais na Av. Paulista, o que mais vejo é esse livro Discurso do método. É claro que fico pensando quem teria saco para ler esse livro – embora saiba de sua importância histórica e filosófica... aliás, nunca vi um autor mais mal compreendido nas universidades do que Descartes. Quando alguém das ciências humanas fala “essa modernidade cartesiana” eu sei que se trata de alguém que não sabe o que é modernidade e não sabe o que é cartesiano! Fora Descartes, você encontra também, nessas banquinhas de jornais, algum diálogo do Platão. Outro bem pouco compreendido. Quando alguém das ciências humanas fala “esse idealismo platônico”, sei que se trata de alguém que não sabe o que é Idealismo e não sabe o que vem a ser Platão.  Sabe, quando alguém fala “mundo das ideias” ao invés de “mundo das formas”, eu já sei que tipo de tradução o infeliz andou lendo. Agora, você acha que eu me incomodo com isso? Claro que não! É bem sabido que o lugar onde mais se falam coisas sem se compreender do que se está falando é nas universidades.
......Ontem, enquanto estava matando tempo e me esquivando de diversos afazeres, folhava uma revista de história. Lá pelas tantas me deparo com um artigo com um tema mais ou menos assim: “o resgate histórico das biografias”. O artigo, “bem mal” escrito, obviamente. Realmente gostaria que o pessoal das ciências humanas fizessem algumas oficinas de escrita para parar de acreditar que basta meia dúzia de citações e alguns comentários para atingir um trabalho “razoável”. Mas enfim, me torturei lendo o bendito artigo. Não havia nenhum resgate da escrita biográfica, havia apenas uma nota do tipo: “então, hoje em dia, se tem retomado o valo histórico da biografia e autobiografia” – só. Tratava-se de um doutorando em história... fiquei mexendo nos meus bigodes e me perguntando:_ quem orienta esses diabos? Espremendo o artigo de dez laudas, não dava para retirar cinco frases razoáveis.  Você não acha isso triste?
......Acredito mesmo que existem autobiografias dignas de passagem, por exemplo “Ecce Homo” de Nietzsche. Esta autobiografia me livra das baboseiras de comentadores que pensam poder chegar ao conceito de um filósofo se fiando na bendita “contextualização”. Uma lógica que desanda em um imenso fiasco: “e fulano pensava assim graças ao seu contexto histórico-social, blábláblá”. Está é a leitura mais idiota que se pode fazer de um filósofo, de um escritor, de um artista, etc. É muito raro você precisar o que foi causado pelo contexto e o que não foi em um autor. Um filósofo, com raras exceções, transvalora seu contexto em texto! Essa passagem, esse tipo de “alquimia”, as palavras não fazem figurar. A palavra é insuficiência no caso da filosofia. Porém, um mal necessário. Coerência é ingenuidade de matemático – até um matemático sério sabe que seu pensamento transmutado em função passa por uma aproximação, uma analogia, nunca uma igualdade! Calcular é “calcular em relação a algo” e isso é mais metafísico do que se quer admitir! A maiêutica socrática, Platão transformou em ironia para dar bordoadas nos sofistas. Os pitagóricos nunca iludiram Platão!
......Não lembro direito onde Cioran (filósofo e antí-filósofo, ao mesmo tempo) disse isso (acho que foi em uma obra chamada Silogismos da amargura), mas disse que achava engraçado que na possibilidade da biografia, alguém ainda não teria renunciado a vida. E está foi minha chave de interpretação para este fenômeno editorial (risos) da biografia – autobiografia. Dado o interesse crescente pelo “indivíduo” (não confundir com o individualismo), a biografia e autobiografia passou a suscitar curiosidade. E no capitalismo todos sabem que gente curiosa pode significar lucro! Os que já foram famosos (até tu Neil Young? – risos) agora tentam o último golpe, revelando como chegaram até lá! E os que nunca tiveram fama, agora, contratando um escritor medíocre, sentem que podem, pelo menos, gerar uma biografia que insista em uma identificação com o público. Veja só, eu falo isso com conhecimento de causa – bem profunda, aliás. Tenho aqui, entre os livros na minha biblioteca particular, biografias de Kurt Cobain, Jim Morrison, Ian Curtis, Sex Pistols, Charles Bukowski, e alguns outros. (Cito biografias de bandas porque nessas biografias se tem uma coleta de dados em conjunto).
......Tenho cá comigo que há duas maneiras de conseguir “fama”. E nenhuma delas são positivas. O(s) sujeito(s) que persegue(m) fama, parece(m) se encaixar muito bem no que Cioran disse: Renunciam a vida pela possibilidade de uma biografia interessante – interessante para as massas, para o coletivo. Se é esse o seu caso, vou lhe dar uma boa dica – de graça, ainda! Faça o diagnóstico do que agrada a maioria das pessoas. Feito esse diagnóstico, fale em público apenas o que agrada – guarde para si o que desagrada! Simples. É assim que hoje se faz política no Brasil. Tanto faz se você é de direita ou de esquerda, isso é um detalhe. Os partidos estão tão desvinculados com suas ideologias, que fazer política está mais para fazer marketing pessoal do que para “lutas ideológicas”. Nesse sentido, só um bobalhão acredita em um partido por pressupostos ideológicos! As reuniões de portas fechadas nos sindicatos não são mais para decidir rumos ideológicos, são para fixar parcerias! A verdadeira decisão é tomada no bar ou no churrasco de domingo! Não sou tão pessimista assim, imagino que existam pessoas que realmente vistam a camisa “política-ideológica”, mas estes estão mais para o sujeito que vai num baile de formatura de chinelo de dedo – E reclama porque as “minas” não querem ficar com ele! (risos).
......Uma segunda possibilidade de adquirir a bendita “fama”, reside em ser “garoto/garota propaganda de alguém/empresa/marca – fantasia/ etc.”. Também é um jeito ótimo de renunciar a vida na possibilidade de uma boa biografia. Se até o Tom Zé conseguiu, por que você não conseguiria? (risos). Dado que Tom Zé deve possuir muito mais pressupostos e conceitos sobre arte do que você – e eu. Agora você gostaria de resmungar algo para mim sobre indústria cultural e capitalismo? Rapazes/ Moças, conheço Adorno melhor do que ele gostaria de ser conhecido, nem vou entrar em méritos filosóficos!
......Só para finalizar esse texto, já que sei que tenho entre meus leitores muitos músicos, vou contar um caso para vocês. Conversando com um roqueiro aqui de São Paulo sobre gravadoras, empresários, rock n’ roll, etc., este sujeito me conta sobre a biografia (risos) musical de sua banda. Contava-me ele, já com cabelos brancos, que estava cansado de tocar nas centenas de bares de rock da grande São Paulo e não passar de “entretenimento noturno para bêbados bem intencionados”. Repliquei que conheço bem essa situação. Inclusive, em São Paulo, na noite, nos bares de rock, você encontra gente de todo tipo e de todos os lugares – do mundo! Estávamos, durante essa conversa, num show de um trio de blues vindo dos EUA. Este sujeito me contava sobre o contato que teve com um estúdio (Bonadio – produziu Mamonas Assassinas, CPM 22, NX Zero, etc.), onde a própria produção de um disco envolvia o lançamento nas melhores rádios de rock de São Paulo e apresentações televisivas nas emissoras SBT e GLOBO. Eu não sei se você entendeu, mas eu vou repetir para você. A produção de um disco já envolvia o lançamento nas mídias de grande circulação nacional – já estava incluso no pacote.
......É claro que pedi para ele prosseguir com o causo! Dizia ele, então, que chegou até a pré-produção e lá já não existia mais a sua amada e com longa carreira na noite paulistana, banda. Eles só mudaram a nome da banda, o “tipo” de som da banda, o release da banda, a maneira de se vestir dos integrantes... só. É claro que tudo isso envolvia também um contrato de 500 mil reais para ser assinado, referente à produção do disco de estreia – os discos independentes da banda não contavam! Pagar esses míseros 500 mil reais não era o problema! Seria descontado da banda – que já tinha a sua “aparição de sucesso” garantida – fazia parte do pacote, obviamente. Como dizíamos antes, nada mais do que renunciar a vida em nome de uma biografia! Vou resumir a história. A banda aproveitou a oportunidade, mas não “vingou” e agora tinha só uma despesa de 500 mil reais a serem pagos. Disse-lhe:_ bem, aproveite o disco e se inscreva nos editais dos sesc’s por aí! Respondeu-me o sujeito:_ Não resolveria nada. Os sesc’s manufaturam as apresentações culturais e pagam uma migalha tão insignificante que o artista termina por pagar para se apresentar. Embora engorde o “currículo” (biografia?) do artista para apresentações futuras! Depois disso, tentamos chegar a uma conclusão. Se valia mais a pena, para um artista, se apresentar no sesc ou tocar viola na “feira da madrugada” – no Brás. (para quem não conhece: feira de produtos que escaparam da fiscalização e por isso são reduzidos à metade do preço).
......O filósofo Safranski escreveu a biografia do filósofo Schopenhauer. O título é muito instrutivo: “Os anos mais selvagens da filosofia”. Conta Safranski que certa feita, Schopenhauer se livrou de uma tentativa de golpe estelionatário de um banco. Disse ele ao gerente:_ Infelizmente você tentou passar a perna num sujeito que leu KANT. Quer dizer, o filósofo sabia dos riscos de um investimento de conhecimentos “à priori” e “à posteriori”. (risos). E tem muito idiota aí que ainda se perguntando para que serve a filosofia. E mais idiotas por aí falando em filosofia enquanto vendem o rabo para jornais... esses são piores!
......Pois bem, é preciso concluir. E lá vamos nós. Pensemos que a moral da história (risos) é que muita gente confunde sua produção no campo artístico com fama. Existe um maremoto de paspalhões que estão mais implicados em se mostrar do que em produzir sua arte. Também há uma outra enxurrada de salões, festivais, concursos, todos loucos para corresponderem ao maremoto de paspalhões. Alguém, provavelmente um idiota – eu tenho facilidade em irritar idiotas... isso ainda vai me arruinar! – deve estar resmungando: “ e você r.A., que não faz nada, fica aí sentado debochando de todo mundo”. Acho que é isso mesmo, eu não faço nada e fico debochando de todo mundo! Para esses eu digo que preciso mesmo de gente para debochar enquanto tomo minha cerveja! E graças aos deuses, material para mim trabalhar não falta! (gargalhada). E para ser bem sincero, estou desapontado com Neil Young... ele não está tão velho assim e falido para precisar publicar sua autobiografia – ou está? Na dúvida, faça como Descartes, tome um porre de vinho e comece a pensar que está sendo enganado pelo diabo! Mas não se engane com essa moda de escrever sobre si mesmo como se fosse grande coisa, ou pedir para que alguém faça isso. Faça como faz o macaco – ria! Pare de acreditar em concursos, recitais, partidos, biografias, boas intenções, gravadoras, revistas de história, seu emprego e sua dignidade moral. Você é um macaco que pensa, então ria! Ria enquanto pode...

r.A.


ps. – Numa dessas noites paulistas um produtor musical disse:_ Que tal mudar o nome do duo de rock que você faz parte? Tipo, de Sodoma H. para “Pop duo rock”? Seria mais comercial! Minha resposta:_ E que tal se eu mudar o seu nome para “Enfia o dedo no cu e rasga”? Seria mais comercial!

Filósofos de todo mundo: apartai-vos!



......A maior armadilha para um jovem filósofo é pensar que depois de ter se revolvido em dois milênios de tradição, levando cruzados de direita, de esquerda, de cima, de baixo, dos velhos mestres, será tranquila sua convivência com um rebanho que tem dificuldades até mesmo para pedir licença para usar o banheiro. Você não acha? Embora seja fácil para eu escrever essa frase de abertura, não podemos perder de vista que a escrita não é sempre a linguagem mais adequada para manifestar o ruído de nossos ossos estalando enquanto apreendemos algumas verdades. Ou você acha que os escritores de todos os gêneros apenas se sentavam e cagavam obras primas? Primeiro eles/elas levaram uma “centena de milhar” de bofetadas na cabeça – e outra centena de bofetadas no espírito! É claro que as coisas ficam mais críticas quando o aluguel vence no dia 5.
...... Eu imagino que se você já ponderou todas essas questões que levantei acima, já deve ter superado uma série de outras questões mais “prosaicas”. Quer dizer, você já se deu conta que bajular as massas não é filosofia, que salvar o mundo também não é filosofia (Ou Batman seria um grande filósofo!), assim como deve ter sentido na pele que fazer críticas a sociedade nunca transformou ninguém em filósofo, e que é mais fácil dizer “Adeus à filosofia” do que dizer “E aí gata, pronta pra outra?” (Viu Cioran? Achou que eu não tinha respostas para você?). Com o pouco de experiência que tenho já deu para entender que escolher se expressar por onde a tradição nos liberta é escolher levar a sério uma fratura exposta! Ora, sugiro para qualquer um que desanima, que examine com mais cuidado sua própria solidão. Foi conquistada? – Já começamos bem! Foi infligida por outros? – Já começamos mal!
......Para mim a Arte – sim, a com “A” maiúsculo – seria a prima da filosofia. Provavelmente a parente mais próxima nesses dias. Talvez a diferença mais óbvia entre ambas no trato – na maneira em que comumente se trata ambas, quero dizer – é que as grandes obras estão disponíveis para se tirar uma bela foto ao lado! (Eu mesmo já escapei de um segurança e tirei uma foto em frente a uma obra do Modigliani!). Já no caso da filosofia não dá para você tirar uma foto ao lado de um conceito! Por isso a maioria das pessoas acreditam saber o que fazer com uma grande obra de arte, mas não sabem muito bem o que fazer com um conceito. Já que não é possível ensiná-lo (um conceito em filosofia só se conquista com um salto, nunca com um mero lance de escadas), não é possível comprá-lo numa galeria, não é possível trocá-lo por uma imensa quantia em dinheiro (é com a escada que a editora fatura, não com o conceito!) e mesmo que você insista em colecioná-los, não vai dar para se gabar quando aqueles seus amigos chiques vierem visitá-lo. No máximo aquela sua amiga ou aquele seu amigo chique cairão na gargalhada se você jogar um conceito filosófico sobre a mesa durante um jantar. Irão dizer:_Uau, não entendi nada do que você disse, você deve estar louco! Obs: Ser chique é quase sinônimo de ser idiota! – Só para constar. Obs 2: Não reduzi a arte a “tal coisa”... apenas disse que “tal coisa” é possível com a arte – e é claro que ela perde sua singularidade no trato, algumas vezes, mas não sempre!
......Por outro lado, temos a poesia. Dizer que a poesia não faz parte da filosofia – depois de Nietzsche – é querer levar umas duras bordoadas na frente de um filósofo (risos). Mas você já foi num recital de filosofia? Não me leve a mal, mas mesmo que houvesse, eu não iria! Para ser sincero, é difícil para mim ir até a um recital de poesia – ao menos que tenha vinho bom no cardápio (e de graça, assim como em exposições de arte! Alguém tem que acalmar meus olhos e ouvidos por aturar tanto...). Nada contra a poesia, mas os recitais são tipo um atentado contra a poesia! Mas dá para fazer! Vê? Já é alguma coisa – ruim, mas é. Os poetas ou seus funcionários terceirizados (risos) conseguem fazer isso. E em geral, tem muita gente que adora! Alguns até pagam. Ei! Me ocorreu uma ideia agora. Provavelmente foi isso que matou Sócrates: Recitar filosofia! Se ele tivesse dito que era um poeta, teria chegado aos 73 anos! Mas voltando ao assunto, se você disser que é um poeta, aqueles que não pensam que você não passa de um vagabundo, pensaram que você é um grande intelectual. Sendo um grande intelectual, você já corre o risco de ter sua foto estampada na capa de alguma revista – e nem precisa ser de poesia -; já vi foto de poeta até em capa de folheto de revendedora de carros, calendários para fixar na geladeira, bandeira de time de futebol, camiseta de roqueiros em decadência, etc.  Mas e quanto aos filósofos? Ops, recordo de uma história! Um cara uma vez me abordou – obviamente em um show de rock – com uma tatuagem do Nietzsche. É claro que mandei ele a merda! A tatuagem estava horrível. Mas vamos continuar...
......É impossível para mim não abordar uma passagem cômica na vida de todos (ou a maioria, pelo menos) que escolheram a filosofia muito cedo. (Consigo até ver algum engraçadinho dizendo “nunca é cedo demais para a filosofia” – então ensine Schopenhauer para uma criança de 2 anos, cowboy!). Aquele domingo, naquele encontro de família, onde algum parente seu pergunta o que você faz da vida e você responde:_ Sou filósofo (A). Ou professor(A) de filosofia – que é uma tautologia.  Diga aí, qual é a próxima pergunta? Ah, não seja tímido! A próxima pergunta é:_ E ganha quanto com isso? Ou “que diabo é isso?”. É nessas horas que toda a galera violenta vem na sua cabeça (Heráclito, Sócrates, Platão, Aristóteles – pulemos os medievos, ok? – Descartes, Hume, Kant, etc.) e você sabe que quanto melhor explicar sua escolha, menos será compreendido. Também há dois riscos em não ser compreendido nessas situações: 1- É louco (A). 2- É vagabundo (A) e essa vagabundagem já o levou a loucura! Era mais fácil ter dito que era poeta – pelo menos se livrava do “louco”.  Sempre gostei de um termo que minha família usava para mim: “Louco de sem vergonha”. Bem, melhor do que ser vereador.
......Depois, chegando na reta final para o término do seu curso de filosofia (eu imagino que você não é bobinho o suficiente para dizer por aí que é filósofo sem nunca ter cursado filosofia em uma universidade – e não estou me referindo à “filosofia da educação” – razoável), se você for um sujeito dedicado irá perceber que seus professores lhe ensinaram apenas o superficial. Pior que isso! O superficial de suas próprias interpretações dos filósofos! Eu me referi aos dedicados porque sei que existe uma porção de ‘sofistas’ no curso de filosofia. Quero dizer, gente que teria sucesso como vendedor de t.v. à cabo tanto quanto filósofo! Gente que quase desmaia quando ouve falar em Marilena Chauí ou Viviane Mosé – nada contra, mas que tal começar a falar de Deleuze, Foucault, Heidegger, até Sartre...? Os professores nem sempre tem culpa da superficialidade, mas acontece que numa universidade – que não dá bola para a filosofia, e é raro uma universidade se preocupar com a filosofia – os professores são obrigados a trabalhar muitos períodos e autores que não dominam. E é pior quando não gostam! Resumindo: Na reta final, se você for alguém que se dedica para além das demonstrações de erudição patética no bar, começará a perceber que terá de reler quase tudo – novamente! Pelo menos isso aconteceu comigo. Passei dois anos com um olho nos “clássicos” – sem perder de vista que o clássico é sempre uma conveniência – e com outro olho nas questões atuais – nos contemporâneos, por assim dizer. E o aluguel ainda vence dia 5.
......Para esse texto não ficar mais longo do que já é, vou resumir mais alguns problemas. O descaso do estado com a educação, a baixa remuneração, a sociedade de cultura banalizada gerando adolescentes lobotomizados – que você raramente consegue reverter suas energias em pensamentos... –, a guerra de cargos nas escolas... Tá bom para você ou quer mais? Seguimos. Se você quiser retornar para a universidade, espero que tenha um bom padrinho! – Só isso. Já vi muito ‘sofista’ desfilando por aí com doutorado. Gente que ainda acha que teoria das ideias não é uma ilustração que Platão ironizou para tirar um sarro da cara de uns sofistas. Gente que pensa que Nietzsche era nazista! (risos). Já vi cada coisa nesse campo meus amigos... Já vi até historiador escrevendo artigo sobre Paulo Freire e relacionando com “Assim falou Zaratustra” – e se dizia filósofo à praga! E já que para ser filósofo hoje em dia basta dizer que é (assim como para ser artista basta expor nos sesc’s por aí...), tenho me espantado quando pergunto para o dono do bar aqui da esquina se ele é filósofo e ele me responde “pela milésima vez, NÃO!”. r.A.:_... mas e sua mulher? Não sei não... vai ver ela é doutora da USP e lê Kant escondida de você! – aí o desgraçado finge que não me ouve e saí.
......Não sei não, hoje em dia a gente tem que desconfiar de todo mundo. Antes de vir morar aqui em São Paulo, uma tarde cheguei em casa e vi a porta aberta. Era minha mãe. Já que ela sabia onde eu escondia a chave, entrou para me esperar. Aproveitou que não tinha nada para fazer e correu os olhos em algumas anotações que deixei sobre a mesa da sala. Quando entrei e perguntei como ela estava, ela respondeu:_... olha filho... não querendo ser chata, mas acho que mesmo que você chame de “torção” a maneira como Deleuze aplica os conceitos de um filósofo de um contexto para outro contexto... quero dizer, ignorando o percurso que o filósofo trilha até compor seus conceitos mais maduros, ele se equivocou com Nietzsche ao interpretar “O nascimento da tragédia” com o conceito de “Força” que Nietzsche só desenvolve depois da Gaia Ciência. Mesmo que você desenvolva a noção de história da filosofia de Deleuze como uma geografia do pensamento e não como uma historiografia, você ainda vai ter que melhorar isso!
-Pronto. Minha mãe. Nem completou o ensino médio. Filósofa e aniquilando meu projeto para o mestrado! Obs: Isso que vocês não viram ela falando de Diderot.
......Outro dia ainda, entrei no bar e o dono do bar, enquanto recolhia os copos resmungava:_ Hegel. Sua fenomenologia do espírito era simples demais. Disputa de duas consciências-de-si! Que disparate! Não estou certo se uma história que se desenvolve em uma dialética rumo ao absoluto possa ser chamada ainda de dialética. Que fiasco! – Ainda prefiro Schopenhauer. Unff.
(rá rá rá).
 É por isso que eu frequento esse bar!
......O truque para fingir que há alguma coerência em todos os meus escritos, é retomar a primeira frase! Digamos então que você esteja se vendo em maus lençóis por ter escolhido a filosofia em algum momento de sua vida. Digamos que você se vê nesse estado porque não vê resultado, não faz fortuna com isso e nem fica famoso. Isso são problemas a longo prazo. Vamos pensar nos mais imediatos. Digamos que você nota que o número de pessoas com quem você frequentemente conversava, agora, o simples timbre de suas vozes lhe causa um mal estar e você pensa que o problema é com você. Te diria que realmente é com você. Para ser franco, não entendo como pessoas que reclamam dessas coisas ainda não mudaram de curso ou profissão. Quero dizer, vá para o direito, para a arquitetura, faça um concurso para um banco, essas coisas – você sabe. Com essas reclamações, não vai dar pra ti! E isso é só o começo. As coisas vão piorar muito daqui para frente. Eu já trabalhei numa mecânica, numa floricultura e cogitei a hipótese de trabalhar numa funerária – buscava tranquilidade, sabe. Se você descobrir que queria reconhecimento e dinheiro, vai descobrir que realmente não queria filosofia! Em algum momento você pensou – por alguma interpretação equivocada, sei lá – que a filosofia era bacana! Ser filósofo, nesses termos, nesses tempos, é pior que... ser lutador de boxe ilegal – também fiz isso por um tempo, mas tinha um problema no nariz (ele doía quando batiam nele). 
......Tem tanto Marx e Freud por aí, não revelados ainda, passando fome, escrevendo boas coisas, parindo bons conceitos, etc.; e esses caras, daqui meio século ou mais - se você for apenas um idiota que pensa ser um gênio porque já leu todos os filósofos e entendeu Kant-, quero dizer, esses caras, vão ajudar outros caras a rirem das besteiras que você pensou durante uma vida toda. Isso se você chegar até lá! Se você for bom o suficiente para ser um mediano! Deixe-me te encorajar ainda mais: Nada disso é a curto prazo. Nada disso é próximo a quando você terminar de pagar a última prestação do seu carro (em 40 x sem juros). Embora os escritores nunca admitirão isso – muito menos os artistas -, ser filósofo é pior que ser escritor! Porque todo escritor de merda, que vomita besteiras bem torneadas, onde a merda e o vazio se oculta por trás de um estilo (geralmente cópia de algum outro escritor), vai rir dos filósofos. Faz parte de ser um escritor: Falar merda, escrever nada e rir da filosofia (eu sei muito bem disso, ataco de escritor às vezes e com outros escritores medíocres como eu, falo merda, escrevo nada e dou risada da filosofia – com conhecimento de causa)! E as ciências humanas então... bebem descaradamente da fonte da filosofia sem nunca admitir! O que é sociologia, psicologia, história, boiologia, se não métodos lapidados, polidos, até reluzir? Eles nunca aprendem um conceito, mas se acham aptos para julgar precisamente as ingenuidades dos filósofos – que enfim, eram apenas humanos, mais humanos do que as ciências humanas! Prefiro Descartes a qualquer psicanálise! – Não porque “funciona”, mas porque estava menos preocupado com o funcionamento do seu bilau.
......Vamos as coisas boas então, finalmente! A coisa boa é que eu entendo e posso responder cada frase desse texto. (Os gregos antigos, quando não tinham nada mais importante para fazer, chamavam isso de “logos”). E cá do meu canto, não tenho padecido de 99% das coisas que vejo as pessoas padecerem todos os dias. Tudo que tenho vivenciado em termos de filosofia se resolve imediatamente. Não vivo corroído por questões (ouviu essa Cioran?). Me sinto bem a vontade com paradoxos, com o caos (Nem acho o Caos grande coisa, me dá até sono!), com a morte de Deus, e para ser franco, é coerente e racional demais para mim o capitalismo. Estou dizendo como a coisa é, não estou reclamando de como as coisas são. Podia ser diferente? Podia. Isso tem a ver comigo e com você? Tem! Dá para manter a morte afastada? Não. O quê mais você quer perguntar? Se sua mulher (homem) vai lhe trair um dia? Depende. Se der na telha dela (e), ela (e) vai! Se vai adiantar matá-la? A longo prazo, não. A curto prazo, também não. Vão rir da sua cara do mesmo jeito. Mas fique tranquilo, algum clube vai te aceitar! – não sei que diabo deu na cabeça das pessoas de pensar que filosofia é formular questões ou responder questões!
......As coisas boas? Ah, já tá longo demais esse texto. Leia aí. Tire algumas coisas boas. Não é possível que eu só tenha escrito coisas ruins – o pior é que é bem possível. Pior é encontrar uma metodologia para interpretar a memória de uma sociedade (risos) e acreditar nisso! Pior é acreditar no jornal! Mas se apesar de tudo você ainda vai querer continuar, conte-me o que foi que encontrou lá. Lá, onde poucos foram. Lá onde não basta dizer que se é. Lá, onde as palavras não bastaram, mas foi o que restou. Apesar de tudo, temos a música.


r.A.

“A vida sem música seria um erro”
_Nietzsche, possivelmente sóbrio.

“A vida sem música ou com música continuaria sendo uma sucessão de erros, mas errar com música é melhor”.
_Rodrigo. Copo de vodca do lado direito.


segunda-feira, 8 de abril de 2013

Para onde vão os poemas que deram errado?




......Há mais ou menos 10 anos atrás, numa noite tola como esta e em um quarto que servia mais como refugio, eu rabisquei as linhas de algo parecido com um poema. Não lembro direito das palavras, mas lembro do sentido que queria dar a elas. Dizia que todos nós estamos capotando em um abismo, rumo ao nada. Perdi uma noite inteira escrevendo e ajeitando isso e agora consigo escrever isso como se fosse um mero aceno de mão para alguém que passa do outro lado da rua.
......Naqueles anos, em que eu não ia dormir antes de observar a lua alta no céu, ocorreu que pensamentos começaram a explodir na minha cabeça e me perturbavam por horas à fio. Não passava de um idiota que achava que ia dar em alguma coisa magnífica! Ainda há gente no mundo que sufoca todos os sonhos com um tipo raro de veneno que dança no interior das veias e cavalga no sangue... Não é que um dia você acorda, é que um dia você não dorme – e tudo muda quando a perspectiva muda!
......O bom é que eu sabia exatamente quem eu era. O ruim é que saber exatamente o que se é não passa de uma ilusão sofisticada e necessária. Quando você vive e respira uma ilusão sofisticada, você pensa que sabe exatamente quais caminhos percorrer. Você tem opinião para tudo, frases bem torneadas para inúmeras situações e um sorriso malvado estampado na cara tosca. É uma tragédia quando você se desilude! Seu espectro é um Édipo cego, guiado pela mão por uma filha amaldiçoada – todo dia seu guia muda e você só percebe quando fareja o perfume no ar.
......Existem aqueles que rastejam para baixo se apoiando nas saliências do abismo. Cada saliência é uma nova manhã. Cada compromisso é defendido como uma luz no fim do túnel. Existem aqueles que quando alguém pergunta quem são respondem com o nome de “batismo” e o código do RG. Rapaz, esses já eram! Mas eu acho que você entende o quanto isso é uma piora... Quase todos querem ser algo, pois não ser algo chega ser engraçado! Existem aqueles que estão presos numa pista de corrida e precisam ganhar tempo para correr mais rápido. A humanidade toda é uma espécie de torcida organizada – os que vieram antes e os que virão depois, até o sol explodir.
......Um dia, talvez se você for bonzinho, ainda te conto como é que se engana essa história toda. A curiosidade te fará olhar por trás do muro torto cujos tijolos são palavras e o cimento neuroses. A indignação profunda que irá sentir revelará, sussurrando no seu ouvido, que as cartas que você combinou para vencer o jogo terão que ser submetidas a novas regras – a regra do “perde sempre”.
......Chega ser bonito quando um ser humano compreende que todas as suas causas eram sombras embaixo de um coqueiro! Não é tristeza você entender que muitas coisas se resumiam em ter um trago para beber e um cigarro para fumar. É alegria.
......Não é curioso que a maioria das pessoas que se acham inteligentes estão mais entretidas com os poemas que deram certo do que com os poemas que deram errado?


r.A.


Dedicado ao maldito E.M. Cioran, esse amigo da infância perdida!

domingo, 7 de abril de 2013

II (dois) - Ensinando a tocar serrote

Nota: Este é o segundo de três curtos ensaios. Este falará Basicamente de Algumas impressões que tenho sobre a Filosofia para os dias atuais e precisamente sobre as condições básicas para seu exercício no ensino médio (no contexto do ensino público no estado de São Paulo – 2012/2013-, precisamente no ensino médio). Espero que o texto sirva para “levantar algumas suspeitas” e não para responder de uma vez as implicações de nosso cotidiano. Se você achar o texto difícil de compreender e interpretar, não se preocupe, ele vai continuar aí para você ler mais de uma vez! Nem tudo nessa vida foi “feito” para ser compreendido sem esforço. Mas se você não quer se esforçar, quem sabe o melhor para você não seria ir comer gelatina ao invés de ler...

......Quando perguntaram (ABCdário) para o filósofo Gilles Deleuze se não “estranhavam” o ensino da filosofia nas escolas quando este começou a lecionar na França, Deleuze respondeu com bom humor mais ou menos o seguinte: Ensinava a tocar serrote. Era tipo o “idiota da aldeia”. O cara que fala coisas malucas! É claro que trata-se de uma resposta um pouco irônica. Um professor de filosofia não ensina tocar serrote, nem é um idiota da aldeia. Em geral, as pessoas em uma sociedade, acostumadas a conversas superficiais e respostas objetivas, tendem a pensar que o filósofo é um “maluco” que fala coisas “com pouco sentido”, até mesmo “inúteis”. É um “problema”, que inclusive, é alimentado pelo simples fato da filosofia, tratando-se do seu ensino, só se torna uma disciplina da matriz curricular já no ensino médio. Quer dizer: muitas vezes, um adolescente só vai se deparar com a filosofia depois de já ter noções básicas de ciências gerais, a própria matemática, os conhecimentos nas áreas da geografia, das línguas (idiomas, português – no caso do Brasil – e alguma outra língua estrangeira), história, enfim, é inegável que estas áreas do pensamento atuam de forma bastante distinta da filosofia – embora complementares.
...... A distância dos procedimentos pedagógicos fica mais complicada quando se descobre – o adolescente no ensino médio – que está diante de uma tradição de pensamento que já constituí uma história de 2.500 anos de tradição! E se isso não bastasse, toda essa tradição de pensamento não chegará a ser apresentada – mesmo que condensada – na totalidade de sua importância- nesses poucos três anos na escola. O professor de filosofia se vê na difícil tarefa de, ao mesmo tempo em que deve introduzir seus alunos minimamente nessa tradição, demonstrar imediatamente a aplicabilidade desse saber no contexto cultural – social , destes alunos. E com toda certeza, isso piora se o adolescente de ensino médio não estiver minimamente interessado (não tiver vontade ou não for motivado) a se exercitar em uma maneira completamente distinta de pensar. De minha parte, particularmente falando, penso que nada pode ser ensinado se aquele que está numa posição de aprender apresentar um comportamento de recusa. Resumindo: nada se ensina a quem não quer aprender! E pior. Se tratando da filosofia muito mais de um exercício intelectual do que um método a ser decorado e aplicado, então a “vontade” torna-se princípio mais do que fundamental. É a porta de entrada (a bendita vontade)!
......No esteio da filosofia, digamos, no seu suporte, está a crítica. A crítica, tenho cá comigo, que não se ensina, se desperta – se provoca. Então o atalho para “vencer” toda a distância pedagógica entre a “forma” que o aluno adolescente está acostumado a percorrer para pensar sobre o mundo e a filosofia é a “provocação”. Quer dizer, antes de propor fórmulas de pensamento, o professor de filosofia tem a dura tarefa de “indignar” o aluno! Se o professor de filosofia não deixar, à princípio, seus alunos em “crise” com seus saberes já adquiridos, provavelmente perderá a proposta inicial da filosofia. Veja que a filosofia começa com “sentimentos” que são tidos como negativos comumente. Provocação, indignação e crise. Se um sujeito não se sente provocado, indignado e em crise com seus saberes, com seus pensamentos que o guiaram até o contato com a filosofia, ele não partirá para a construção crítica de seu próprio saber.
......Quando a filosofia não conduz aqueles que nela se embrenham para uma autonomia mínima (a criação de seus próprios critérios de pensamento), ela se transforma num padrão de conhecimento, num método prévio, em outras palavras, no fim da própria filosofia – enquanto sua criação, enquanto seu próprio sentido de ser.  É pontualmente nesse sentido que, antes de jogar pensamentos filosóficos sobre qualquer aluno, penso que auxiliar qualquer iniciante a um “dar-se conta” de seus próprios conceitos sobre o mundo que o cerca é ainda mais necessário. Nesse sentido, não há problema algum que alguém não entenda de Aristóteles, Marx ou Nietzsche. Deixemos isso aos especialistas! Se o aluno quiser aprofundar seus conhecimentos em algum autor, pois que faça isso depois de adquirir certa autonomia de pensar, certa liberdade de pensamento, certo critério crítico que diz respeito a ele. Quando o critério de conhecimento filosófico for a repetição exegética das palavras de um filósofo, perdemos de vista o propósito inicial da tradição filosófica. Criamos alienação invés de emancipação intelectual. Que isso aconteça muitas vezes, só posso sentir como vergonha quando se profere o termo filosofia (amor ao saber).
......Sinto que algo está errado quando converso com alguém que antes de dizer o que pensa coloca o nome de um filósofo! Sinto isso em relação a todo conhecimento humano. Se o próprio “logos” (discurso filosófico) nasceu enquanto um exercício de fundamentar tanto quanto for possível o que um sujeito pensa tomando a si mesmo enquanto uma autoridade de seu pensamento, só posso achar um retrocesso alguém eleger dogmas (verdades inquestionáveis, culturais, sociais, históricas, políticas, científicas) antes de suas próprias ideias. Traduzir o termo “logos” por “discurso racional” (entendendo razão no sentido que tomamos hoje em dia) é de uma ingenuidade que faria até os pré-socráticos cair na gargalhada! Para “provocar com chamas” eu diria que a maioria dos que se dizem poetas e artistas hoje em dia são bem menos poéticos e artísticos do que os primeiros filósofos!
O critério de “medição”? A própria criatividade, inventividade, dinâmica, sensibilidade, sedução, ideia, contestação, expressão! – Se não foi isso que filósofos como Nietzsche (inclusive) identificaram, podem rasgar meu diploma.
......Agora se ensinar filosofia é análogo a envergar um serrote e arrancar acordes desse objeto, posso afirmar que sou um bom filósofo – filósofo e professor de filosofia para mim precisam ser tautologias! (afirmação da mesma proposição). E se tenho algumas certezas (poucas, aliás), uma delas é que enquanto existir ser humano correndo pela superfície terrestre haverá necessidade de que se filosofe. E se há dúvidas enquanto ao ensino de filosofia na escola pública – apesar das dificuldades todas – penso que sem filosofia se poderia tranquilamente fechar a escola. Pelo simples motivo de que se o conhecimento além de ser uma ferramenta da sobrevivência humana não for um elemento da crítica humana (do que inventamos ser “O humano”), onde razão e sensibilidade andam de mãos dadas -mesmo que constrangidas- , se conhecimento não for isso, então é um gigantesco equívoco.
......E, duvido que um adolescente em São Paulo consiga viver mais de um mês sem esbarrar em um conhecimento filosófico. E isso não é uma justificativa, é uma evidência! Ou você pensa que em algum momento não terá que criticar seus próprios pensamentos sobre o mundo? Você não atravessa nem a rua para comprar um refrigerante se não fizer isso!  



Rodrigo Adriano Machado – Filósofo.

“115. A alma possui um logos que aumenta a si próprio”
Heráclito de Éfeso.

I (um) - Os adolescentes, As desculpas sócio-históricas e A escola pública desmoronando


Nota: Este é o primeiro de três curtos ensaios. Este falará BASICAMENTE de ALGUMAS impressões que tenho em relação à juventude em geral no contexto atual de minhas experiências como Filósofo e a condição da educação que nos é apresentada no estado de São Paulo (2012-2013) – “Ensino médio”. Se você não gostar o problema é seu, não estou aqui para ser agradável.
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......Primeiro é necessário que eu lhe diga os motivos que me levam a escrever. Escrevo porque gosto e porque me entendo melhor texto após texto – isso me basta! Entre ficar babando por aí, defendendo opiniões pouco refletidas e apenas falando que tudo está errado, me parece que escrever é alguma coisa a mais. Isso e o simples fato de que para ser lido é preciso que bote o leitor a pensar já é um bom começo. A filosofia só pode ser feita por pessoas que pensam juntas mesmo com ideias diferentes.  Em pouco mais de três anos de experiências com a educação, alguma graduação acadêmica e intensa reflexão Filosófica chego à conclusão que mudanças imediatas na educação são necessárias e mais. Penso que se essas mudanças não partirem daqueles que frequentam as escolas, mesmo com a falta de atenção social e política, evidente em relação à educação pública, então a escola deverá em pouco tempo que deixar de existir.
......Se você comemora o fim da escola, você não se deu conta ainda do grau avançado de sua idiotice! Pois a escola, mesmo que em condições precárias, ainda é um dos lugares de fator decisivo para mudanças necessárias (boas e más) para a sociedade atual. Tornar um lugar de “boas” mudanças é nossa luta cotidiana – Professores, alunos, funcionários e família, enfim, comunidade.
......O que devemos ter em mende é que se tornou necessário que abandonemos velhas frases de efeito em relação a escola. Não adianta dizer apenas que “a educação é importante”, que os alunos devem ir à escola buscando “garantias melhores para o futuro” – O futuro é incerto, não podemos viver prometendo melhoras! Agora para aqueles que dizem que a única justificativa para ir para a escola é “porque os pais e responsáveis obrigam” não há muito o que dizer. A própria falta de vontade já venceu a luta entre o existir e o se arrastar. Alguns educadores dizem que é preciso “forçar” os adolescentes, pois esses não sabem muito bem o que querem. Quanto a mim, discordo! Penso que os adolescentes sabem muito bem o que querem – na maioria das vezes – mas trabalham com noções confusas que precisam ser provocadas, sacudidas, para se desenvolverem e me recuso a tratar adolescentes como se fossem cachorrinhos a serem adestrados até que se tornem dóceis animaizinhos de estimação da sociedade. Provocar, sacudir e desenvolver noções é a porta de entrada para a Filosofia!
......A escola tem de ser um lugar para a construção do pensamento crítico (até os limites da criticidade) para o agora! Mas gente que há muito já entra na escola sem vontade não há de construir pensamento crítico algum (agora me refiro a professores e alunos). E desse tipo de gente a sociedade está entupida! Há multidões! A velha falácia de que é um sintoma social ou mero resultado de condições históricas, para mim, é só uma desculpa esfarrapada! Essa conversa fiada de tratar as pessoas como vítimas o tempo todo e em todas as ocasiões é conversa para boi dormir. Outro velho papo pedagógico de que estamos em constante “construção do pensamento” precisa ir para além das frases de efeito. Estamos em construção, mas isso não nos priva de maneira alguma da necessidade de tomarmos as rédeas de nossa existência. A Filosofia nunca foi mais necessária do que nos tempos atuais. “Dar um tempo” e se perguntar o que realmente se quer fazer desta vida é uma necessidade bastante imediata, não se pode adiar. Se um adolescente consegue enviar uma mensagem pelo facebook ou fazer uma ligação no celular, então está em condições básicas para avaliar sua própria existência- se quiser! Nem vou entrar nos méritos sociais e políticos de uma reflexão destas, seria falar o óbvio. Não digo que isso é Filosofia, digo que a Filosofia pode proporcionar isso para aqueles que desejam. Para aqueles que tem coragem. É tão fácil hoje em dia se “deixar levar”... Nem uma barata se deixa levar, mas quanto a algumas pessoas já não tenho certeza.
......É comum reclamarmos da indisciplina. E essa conversa é tão antiga quanto à humanidade. Houve uma modinha intelectualóide de péssima interpretação de pensamentos sobre o poder e a disciplina (má interpretação dos escritos de Michel Foucault, para citar um Filósofo nessa conversa) que coloriu os discursos daqueles que gostariam de fazer o que bem desejam quando convivendo em grupo. Hoje é comum rebeldes sem causa acharem bonito não ter “eira nem beira”, propósito ou objetivo. Tem até aqueles que acham graça nisso! Bebezinho que bate o brinquedinho na parede para chamar a atenção da mamãe. Há quase um consenso entre os profissionais da educação de dizer que isso é falta de educação, limites, bons modos, em casa. Dizem “má educação vem de família”. Não acho que seja apenas isso. E como disse acima, essa conversa de sintoma social e efeito de condições históricas não cola comigo. Assim como é tão “velha” quanto à humanidade a queixa em relação à indisciplina, também é velha a “pane mental” dos desejos que se chocam com a moral. Sendo a moral normativa e a própria cultura um tipo de controle, não é raro gente que não consegue atingir um tipo básico de sensibilidade ética para com o “outro” que está na sua frente. Para resumir, se gasta mais tempo tagarelando contra a disciplina do que ponderando que alguma disciplina e “controle” – sim CONTROLE – é necessária para qualquer convívio coletivo. Vou citar um exemplo bem ilustrativo: Um sujeito que chuta uma porta ou derruba uma cadeira está dizendo com esse gesto duas coisas. 1- que não está suportando um tipo de disciplina que lhe é imposta; 2- que é incapaz de um gesto mais emancipador e proveitoso de suas energias. É óbvio que qualquer “tolo” pode chutar uma porta – e chutar uma porta nunca deixou ninguém mais inteligente. Agora se o sujeito não consegue passar do 1 (chutar a porta) para o 2 (aproveitar melhor suas energias, questionando, por exemplo, o que é essa disciplina que não suporta), jogar a “culpa” toda na sociedade é de uma preguiça gigante! De uma falta de caráter vergonhosa!
......Sinto que estamos cercados de teorias/praticas que infantilizam pedagogicamente os jovens (tratam adolescentes como se fossem bebezinhos ) enquanto nossa cultura se encaminha a longos passos para a excitação e desinibição moral. Lidamos todos os dias com uma cultura que banaliza a sexualidade e a violência, que mente que o dinheiro irá resolver todos nossos problemas existenciais. Se não descontruirmos essa cultura “idiotizada”, não haverá amanhã para nós! Diria que é a pior situação da educação esse beco sem saída. E ao menos que chamemos para si a tarefa de contornar as desculpas sócio-históricas (muitas delas difundidas e incentivadas nas universidades por aí afora) a tendência é a “idiotização plena” de toda uma “geração”.  Quanto aos interesses políticos ideológicos em jogo e interessados no avanço dessa decadência, vou deixar para outro momento! – Já estamos “carecas de saber” as consequências disso.
......O resultado é um grande número de professores cansados tentando ensinar algo para adolescentes que não querem saber – e ainda acham que estão no seu direito (risos)! Mas a cobrança é que se ensine “na marra” – a pau, como se diz no sul. E a situação piora uma vez que a cultura continua sendo hierarquizada e excludente, enquanto a escola trabalha numa lógica “contra-cultural” promovendo “inclusão”, mas com uma sociedade “idealizada” enquanto caminho. É mais ou menos querer mover uma parede apenas assoprando! Sinceramente, antes de pensarmos o “ideal” de escola ou até os objetivos da educação atual, eu sugiro que se abandone a ingenuidade em relação ao ser humano. Se você quer ainda “salvar a alma e queimar o corpo”, sugiro que vá para a igreja. A escola não deve nem pode fazer isso!
......Mas se você acha que não pode piorar, deixe-me lhe dizer uma coisa que não se ensina nas universidades. Os alunos numa escola muitas vezes acabam pensando que os professores são seus adversários – e vice versa -, já que esse conflito, por vezes, acaba por colocá-los numa impressão de luta/disputa pelo “poder” e não luta contra a ignorância. Tanto professores quanto alunos que se deixam levar por essa impressão apenas se consomem em uma rivalidade que não existe... Acredite, vivo isso diariamente. Adolescentes, como qualquer ser humano com uma boa dose de maldade não tratada no fundo do coração (afinal, somos humanos, não anjinhos perfumados), querem ver você se perder e cair! Já vi mais professores desistir de dar aulas por causa disso do que por causa do salário! (Uma pessoa não leva a melhor medindo forças com trinta, entenda bem esse princípio concreto). Se você acha que estou exagerando, consulte os dados estatísticos sobre professores agredidos (e assassinados) por alunos em São Paulo. Quanto a mim, quando trinta pessoas me empurram, eu simplesmente dou um passo para o lado deixando essas trinta pessoas fazer força à toa! (se for muita força, elas se esborracham no chão). É importante para um professor lembrar os alunos quantas vezes forem necessárias o real motivo de estarmos ali, juntos. Por exemplo, o meu motivo, é a Filosofia. Qualquer coisa que escape disso não me interessa! E qualquer um que não tiver vontade de aprender algo com a Filosofia, muito pouco me importa -menos ainda me ofende. Se em 2.500 anos de história a Filosofia continua firme e forte em sua tradição deve significar que ela não vive nem se importa com quem dela tira sarro!
......Por fim, ao menos que à princípio, os adolescentes se deem conta de sua atual condição e do quanto tem desperdiçado o espaço que é resultado de muitas lutas sociais – a saber, a escola -, ao menos que por um momento esse exercício de tomada de consciência ocorra, não importará as mudanças políticas que sejam implantadas na educação –investimentos financeiros e tudo mais. Tudo tenderá a piorar até que não nos suportemos mais! Será lamentável que acabemos com o ensino público porque nos tornamos incapazes de uma gota de pensamento ético e sensibilidade. Se a escola pública acabar, não pense que a escola privada/particular (e na esteira dessa, a educação privatizada) fechará suas portas! Provavelmente o “conhecimento científico, tecnológico e crítico” voltará a fazer parte unicamente da camada social das “elites econômicas” e o povo verá afundar o esforço histórico de muitas gerações unicamente por causa de caprichos adolescentes mimados! Provavelmente haverá o dobro de teorias que gostam de transformar preguiçosos em vítimas. E o império da banalidade e futilidade atingirá seu ápice.
......Quem sabe não seja o momento de fazermos uma reflexão negativa. Quem sabe não seja melhor mesmo o povo “entregar os pontos” de todas suas tentativas de deixar de ser “massa de manobra”, “massa ignorante”. Quem sabe, realmente, a sociedade devesse ser regida por uma elite econômica ou “intelectual” e esse povo, esse “rebanho”, não devesse se ocupar dos trabalhos para ganhar o pão de cada dia e assistir um circo de banalidades nos fins de semana. Não duvide, tem muita gente que quer e não passará disso! Mas para esses, infelizmente, a Filosofia não tem muito o que dizer... E é até melhor que uma “massa ignorante” veja a Filosofia como apenas “uma viagem na maionese”!


Rodrigo A. Machado- Filósofo.

P.S.: Não adianta apenas ensinar o “Ivo Viu A Uva” nem dizer que a sociedade capitalista é opressora e desumana. É preciso dizer para o “Ivo” que se ele continuar sendo um “bosta” seu futuro é a privada!

“116. Todos os homens podem conhecer a si mesmos e pensar sensatamente”.
Heráclito de Éfeso.