terça-feira, 26 de março de 2013

Sem Tirar os Sapatos...




......A encheção de saco vai a mil! E eu estou tão entediado que um caramujo na parede pareceu um avião jato supersônico. Mais uma vez estou no lugar errado e na hora errada. E não tem bebida. Uma vizinha do condomínio onde moro bateu na minha porta. “Vamos lá, você tem que sair desse sepulcro! Se distrair. Tenho aqui uns ingressos para a peça musical Hair”. Olhei para os olhos cansados dela, seus cabelos começando a ficar brancos no topo da cabeça, sua magreza exagerada. Tudo ali, parado, sorrindo para mim na porta.
_Hell? – Perguntei.
_Isso! – Ela falou com bafo de cebola, flutuando em uma voz aguda e esganiçada.
_Ok.
        Vesti uma calça e segui ela. Pagou o táxi. Mara era o seu nome. Sobrenome... sei lá. Morava uns dois andares abaixo do meu. Trabalhava em algum setor de alguma fundação de cultura. Achava que era intelectual. Colecionava coisas que achava que eram coisas que intelectuais colecionam. Discos do Caetano Velozo, pôsteres de filmes franceses. Réplicas de quadros do Picasso. Essas bugigangas aí. “Max, você me deve algumas visitas”- ela dizia. Se ela não tocasse aqueles discos eu até que pensaria em visitá-la. Mas enquanto corria o risco de ouvir Caetano Velozo, nada feito!
        Agora estou aqui. Com minha bunda enorme em uma cadeira estofada. Vendo um monte de gente pelada e cabeluda, fazendo crítica ao sistema. Qual sistema?, me perguntei. O sistema dos shampoos e condicionadores? Ou a constituição que proíbe as pessoas de saírem correndo peladas pelas ruas?  “Essa peça é um clássico” – sussurrou Mara, perto do meu ouvido. Fiz uma anotação mental: _Evite os clássicos Max. Eles consomem uma hora e meia de sua curta vida.
        Terminou. Graças a Deus. Os peladões cumprimentaram o público, agradeceram os aplausos – exceto os meus, porque minhas mãos não aplaudiram – e as pessoas saíram empolgadas. Eu junto com as pessoas, mas sempre apartado. Todo mundo é polo positivo. Comigo é no negativo. Mesmo quando nos aproximamos, ainda fica aquela poderosa força que nos repele. Amo essa força que repele! Rezo para ela todas as noites antes de dormir. Eu recito de cabeça “ainda que eu ande pela vale da sombra da morte, nada temerei, pois tu – força que repele – é minha senhora e esta comigo. Amém”.
_que tal uma cervejinha no bar ali da esquina?- Resmungou Mara.
_não. Preciso acordar cedo pela manhã, tenho uma porção de coisas para fazer... fica para outra hora – Menti.
_ah, deixa disso! Isso não é um encontro! São só dois velhos amigos se conhecendo melhor! – Ela falou.
        Olhei para os olhos dela. As mãos com os dedos magros enroscados uns nos outros. E os olhos com os cílios tremendo. Meu instinto masculino alertou que ela estava querendo “dar’. O mesmo instinto masculino sabia que eu não estava querendo “receber”. Você já ouviu seu instinto masculino? Sei que não.
_Sinto muito Mara, fica para outra vez! Muito obrigado pelo ingresso para a peça... – Disse com um sorriso frouxo.
        Fizemos o percurso de volta sem nos falar. Ela estava visivelmente irritada. Paguei o táxi dessa vez. Andamos juntos até o elevador. Na porta Mara se virou para mim.
_Que tal uma visitinha rápida? Tenho cerveja na minha geladeira...- falou sorrindo.
_pode ser. Mas por favor, sem música! Quero ficar com as melodias do musical na minha cabeça. – repliquei.
Ela acenou positivamente com a cabeça.
        Sentei em uma poltrona na sala. Tinha um tapete felpudo que só de olhar já me dava coceira. Bugigangas pra lá e para cá. Parecia um depósito de centro cultural. A gente faz cada coisa por umas cervejas...
_Que tal a peça musical? – começou ela, atravessando o silêncio.
        Pensei que era Hell o nome. Mas era Hair. Não foi difícil para mim imaginar o inferno. Cheio de gente pelada protestando. Antes disso, minha imagem do inferno era tipo um bar com cerveja barata. Agora eu tinha mais no que pensar...
_bem interessante... – foi a minha resposta. – Essa cerveja aqui já acabou!
        Mara se levantou sorrindo e foi pegar outra na geladeira. Nem tinha aberto a sua ainda.  Tinha calçado chinelos agora. Arrastava os pés pelo piso. Aquele ruído me dava um arrepio no último dente inferior do lado direito. Aquele que é obturado. “Tem vodca ou uísque aí?”- Perguntei. “Tem meia garrafa de vodca!” – Sua voz abafada respondeu. “Quer um copo?”.
_por favor! – Falei mais alto do que o habitual.
        Quando ela voltou com mais uma cerveja e um copo de vodca, sabia que se deixasse ela continuar falando eu iria desmaiar ali mesmo. Derrubar as bebidas seria um desperdício. Enquanto ela arrastava aqueles chinelos pelo piso, eu me visualizava com os olhos fechando. Começando a roncar. A garrafinha de cerveja tombando para o lado e despejando a cerveja toda naquele tapete felpudo. O copo escapando da minha mão esquerda – porque a direita estaria ocupada com o cigarro que acabei de acender – caindo com um baque no chão e talvez se estilhaçando. Seria uma pena!
        Mas assim que cheirei a vodca no copo e tomei um trago, no mesmo momento em que Mara voltou a se sentar diante de mim, minha cabeça começou a funcionar como se fosse um incêndio. Comecei, ali mesmo a compor uma história.
_Nunca contei isso para ninguém Mara... é até um pouco constrangedor porque é uma página muito íntima do diário de minha vida. Mas quando eu era pequeno, lá pelos meus... doze anos... eu tinha um cachorro chamado... como era o nome mesmo... ah sim, Caetano.
_Caetano? – ela perguntou enquanto franziu a testa.
_Isso mesmo, Caetano! – Prossegui.
_Em homenagem ao Caetano Velozo? – Mara perguntou com as mãos entusiasmadas.
_Não. Meu pai já comprou ele com esse nome... quer dizer, talvez... mas acho que não.
“hum...”- ela fez e colocou a mão no queixo.
        Coloquei mais um pouco de vodca na boca. Rolei para o dente obturado – porque sabia que ele gostava disso –, dei uma tragada no cigarro e continuei a história. “Caetano era peladão, sabe? Quero dizer, tinha os pelos bem curtos, rente à pele. E o engraçado é que o pelo do Caetano não crescia! Era peladão e gostava de música. Você colocava uma música e o Caetano começava a rolar pela casa. Parece que vejo o Caetano – apontei para um canto e Mara acompanhou o meu dedo com a cabeça -, ali, num canto. Se retorcendo enquanto ouvia música”. Parei para dar mais uma tragada no cigarro, um gole na cerveja e ter mais alguma ideia.
_Que tipo de música o Caetano ouvia? – perguntou Mara, toda empolgada.
        Terminei de engolir a cerveja. Soltei a fumaça do cigarro e continuei. “Ouvia de tudo, exceto Jimi Hendrix. Hendrix de jeito nenhum! Quando ouvia aquela barulheira de solos ele passava mal. Pobrezinho... dava dó. Ele começava a bater com a cabecinha na parede. Uivava. Às vezes até vomitava. Teve vezes que inclusive defecou. Eu fiz alguns testes, sabe? Meio disco de Hendrix e Caetano, coitadinho, defecava. Defecava e batia com a cabeça no cocô”. Fiz mais uma pausa para beber vodca e acender outro cigarro.
_Minha nossa! Que absurdo! – resmungou Mara enquanto colocava as mãos em torno da cabeça.- havia algum outro som que o irritava?- perguntou.
        Aquela pergunta me pegou de surpresa. Tive que tomar mais um gole de vodca e em seguida de cerveja para ter mais ideias. “Jefferson Airplane” – respondi. “Qualquer coisa psicodélica excetuando Pink Floyd era a morte para Caetano. Nos primeiros acordes Caetano já abria os olhos como se pedisse piedade. Choramingava. E se você não desligasse o som ele já corria em direção à parede e começava a bater com a cabecinha. Era como se ele preferisse morrer a ouvir aquilo. Quando eu digo que ele gostava de música Mara, estou me referindo ao blues. Com o blues ele se acalmava. Pensava sobre a vida de cão, sobre a depressão e a tristeza, sobre a perda da esperança e o amor... Ficava parado, sério, recostado num canto”.
_e MPB? – perguntou Mara, com os olhos curiosos.
_MPB foi o fim de Caetano. Um dia coloquei mpb para ele ouvir e ele simplesmente desatou em uma corrida e saltou da sacada. Foi o fim dele – disse e me agachei para pegar a garrafa de cerveja.
_Mas você não disse que morava em uma casa? – perguntou desconfiada enquanto finalmente abria sua cerveja.
_Depois nos mudamos para um apartamento. Meu pai, minha mãe, minha irmã, Caetano e eu. Para o décimo quinto andar. Foi dessa sacada que Caetano se suicidou. Uma morte trágica, envolvendo música. Até teve uma nota curta no jornal local. “Cachorrinho se suicida após ouvir MPB”.
_que horror! – Sussurrou Mara. Levou a mão até a testa.
        Fiquei observando o olhar triste de Mara. Refletia sobre a morte do pobre Caetano. O cachorrinho que nunca existiu. Parecia que aquilo fizera surgir mais cabelos brancos e mais rugas na sua cabeça. Foi pesado demais para ela... “A minha cerveja acabou” – informei. Mara se levantou apoiando-se no braço do sofá. Ainda estava chocada. Gente intelectual fica chocada com a morte dos cachorros, mas os mendigos que congelam de frio na rua de suas casas não importa. Mara arrastou os chinelos até a cozinha. “se tiver mais vodca, pode trazer” – falei. “Mas eu esqueci de pegar o seu copo, querido” – retrucou. “Trás a garrafa, não tem problema desde que a cerveja esteja gelada”.
        Agora eu estava animado. Mas Mara estava ficando aborrecida. Houve um longo silêncio enquanto eu continuava bebendo e fumando. Mara olhava pela janela da sacada. Com longas goladas consegui beber aquela cerveja. Estava gelada e o dente obturado reclamava. Aí eu molhava ele com vodca. Finalmente sossegava. Estava atento aos gestos de Mara pelo canto do olho. Sabia que logo ela iniciaria uma longa sessão de diálogo. Por isso, já era hora de começar a bolar outra história.
_mas...- ela começou.
_minha cerveja acabou! – falei com um sorriso.
        Lá se foi ela com os chinelos outra vez. “É a última” – resmungou enquanto me alcançava. “Tudo bem, eu já estou indo”.
_e se ouvíssemos uma música do Caetano Velozo em homenagem ao seu cachorrinho? – perguntou ela com uma voz doce.
_Eu choraria! – Respondi.
_Ooouh, desculpa! Não quis...
_Tudo bem. Sem problemas.
        Continuamos em silêncio. Fui racionando a cerveja para que terminasse junto com a vodca. Estava concentrado no trabalho. Não pensava em mais nada. “Você realmente tem que ir?” – Mara perguntou, assim que despertou de uma espécie de transe. Olhei sem que ela percebesse para a garrafa de vodca. Apenas um risco no fundo. “É que lembrei que tenho uma garrafa de uísque na dispensa. Gostaria de beber mais... mas sozinha fico tão aborrecida...”- disse ela.
_Não sou um bêbado Mara! Não estou aqui só por causa da bebida! – resmunguei enrolando a língua nas palavras.
_Não foi isso que eu quis dizer Max... você me entendeu mau... – Começou a justificar.
        Tomei a vodca. Me fiz de irritado por um longo tempo. Mara ficou triste...
_vou ficar. Mas nada de música!
_ok. Nada de música! – disse ela sorrindo e ajeitando os cabelos.
        Suspirei e recostei minha nuca na poltrona. Senti os pés incômodos e percebi que o dia todo não havia tirado os sapatos. Quando os tirasse seria uma carniça infernal! – talvez eu teria que fazer como Caetano, saltar da sacada, pensei. Mara retornou da dispensa com a garrafa de uísque e dois copos. Nos servimos e brindamos. Quando um músculo no seu queixo começou a tremer senti o perigo por vir. “Já lhe falei sobre um gato que eu tinha e que se chamava Gil?” – perguntei.




r.A.

"Pra vender disco de protesto todo mundo tem que reclamar"_ Raul Seixas





......Enquanto estou parado do lado de fora da portaria do condomínio – porque o porteiro não me reconheceu –, fumando um cigarro, sei que há tanta hipocrisia e tolice rolando no mundo que é quase um milagre ainda estarmos aqui. E se estamos, não seja ingênuo rapazinho, não é porque somos bonzinhos, é porque somos fracassados até para fazer maldades! Talvez você pense que eu não passo de um pessimista com azia – por isso o azedume me corroí de dentro para fora -, mas veja, se você pensa isso de mim, será que você não tomou injeção superdosada de fluoxetina na veia? Ou melhor, alguém que sofre de uma “gripe rosa” não espirrou no seu café essa manhã? Gripe rosa: gente fofa que por ter a idade mental de dez anos vê o mundo como um lindo carrossel – e se algo vai mal, é culpa do “outro”, do diabo, do capitalismo que te explora (como se não houvesse exploração do homem pelo homem desde antes do antigo Egito).
......Mas tudo bem, eu aceito sua opinião de que sou azedo, desde que você não assista o programa do Faustão nos domingos com a família reunida. O que? Você assiste? Então, por obséquio, acho melhor você parar de ler esse blog. Não que eu não seja esforçado, sabe, mas eu não conseguiria ser agradável com alguém nem que minha bunda dependesse disso! Sinto uma enorme empatia por Sócrates – pelo menos o platônico -, porque como ele, sempre que aparece a oportunidade de ser “legal”, uma voz na minha cabeça (o Daimon) diz:_mande ele a merda, mande ele a merda! Você já foi atentado pelo Daimon? Não? Poxa vida, que vidinha podre você deve ter! Mas se você não gosta do Sócrates porque algum intelectual de boina te disse que a filosofia antiga é perda de tempo... nossa, você acredita em sujeitos de boina? Eu não!
......Mas não me leve a mal não, eu acredito em uma porção de coisas. “Tipo assim”, eu acredito que nos últimos 2500 anos a humanidade produziu umas 30 pessoas descentes. E acredito que possivelmente a humanidade deve ter arrancado o couro dessas trinta pessoas. Porque é isso que fazemos, nós, a humanidade, arrancamos o couro de gente descente. E não é por causa do “outro”, do diabo ou do capitalismo (como se não arrancássemos a pele de gente descente desde o paleolítico...). É porque somos primatas caducos, ensandecidos, loucos de pedra, chatos até trincar o espírito. Veja bem, não calamos a boca, não pensamos antes de agir, cheiramos o próprio umbigo e mentimos que não fede, - e tão logo formulamos uma frase idiota, chamamos de literatura ou poesia ou filosofia – e raras vezes temos pesadelos com tudo que fizemos de ruim durante o dia. Dormimos tranquilos, babando no travesseiro e sorrindo...
......Mas deixa eu te perguntar uma coisa, já que estamos aqui, cara a cara, olho no olho. Você conhece alguém que pensa que é um grande artista, filósofo, músico, cidadão, político, marido- esposa, namorado- namorada, aluno, professor, padre, etc. Você conhece? E você leva o que essa pessoa diz sobre si mesmo a sério? Como é? Sem falsa modéstia, com toda a sinceridade? Como? Você quer mudar de assunto? Como? Pelo menos você se esforça? Ah, com todo respeito, você me faz rir! Acho melhor você sair e me deixar concluir o último parágrafo aqui, sozinho. Não que eu seja melhor, mas pelo menos não minto que sou melhor do que isso aqui, que você lê.
......Todas as vezes que ouvi alguém dizendo que está lutando por uma boa causa, senti o cheiro do sangue pairando no ar. E em todo grupo de pessoas, sempre tem um merdinha tentando levar vantagem “pelo bem da nação”. Você dirá que faz parte, eu te direi que você justifica rápido demais a barbárie humana disfarçada de Madre Tereza... E vai ficar tudo bem, porque quando piora não é nossa culpa – não é assim?
......Agora, se você me der licença, vou entrar. Provavelmente vou tomar um café e depois um banho. Só não vou reclamar! Vou continuar com meus diagnósticos de homem azedo – pessimista, você dirá para seus amigos ou para si mesmo -, não vou reclamar porque: vai que faz sucesso? É capaz do meu ego inflar e estourar. Você já estourou o seu ego hoje? Ainda há tempo meu amigo... ainda há tempo. Não teremos tanta sorte quanto os dinossauros. A nossa chuva de meteoros serão nossas desculpas! Pelo menos não vai sobrar ninguém para enfeitar nossa imagem nos livros de história.


r.A.- O tarólogo que trocou as cartas por um maço de cigarros.

"...dois problemas se misturam a verdade do universo e a prestação que vai vencer..."

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Distopia para um Aristoi?




...... Utopias enchem o saco! Mas é proibido dizer isso, não pela lei, mas pela moralzinha “Salve o mundo”. É muito interessante esse amor declarado pelo povo, hoje em dia, que obviamente é uma estratégia frouxa para quem acredita que bom mesmo é saber agradar! Bastou umas quatro ou cinco gerações no Brasil, crescendo na frente da t.v. para formar uma cultura de frauda e chupeta.  Não preciso citar nenhum autor da filosofia ou qualquer outro campo do saber para deixar em evidência que o que chamamos de “sinceridade” não passa de uma grosseria legitimada – depois de Cioran, eu não acredito que alguém seja capaz disso de uma maneira que preste. No esteio dessa moralzinha “Salve o mundo” está uma crítica social preguiçosa! – nem deveríamos chamar isso de crítica social, mas deixe estar -, algo do tipo: aí o capitalismo, ui a mídia manipuladora, ai a direita, ui a esquerda, e por aí vai os ai-ai-ai-ai e ui-ui-ui.
...... Estava relendo o livro “Guia politicamente incorreto de filosofia” de Luiz Felipe Pondé. Achei um livro bastante interessante, mas é claro que não concordo “plenamente” com a visão do autor. Assim como acho uma extravagância alguém que acha a humanidade toda fofinha e bonitinha – que merece ser defendida em todas as proposições críticas sociais (preguiçosas) -, também acho uma extravagância considerar a humanidade uma peste, um vírus planetário: a humanidade não é tão potente assim para atingir esses dois extremos! Aliás, os indivíduos – sim, eu considero os indivíduos depois da modernidade com todas suas peculiaridades histórico-sociais – não são tão fortes assim para serem tão maus. Para ser verdadeiramente ruim, um sujeito precisa de um pouco de inteligência – é preciso inteligência para prejudicar e uma banalização do mau, certamente! Ou caímos em um socratismo- platonismo que afirma que o mau caráter é uma ignorância e o bom caráter só poderia ser seu oposto. O que estou dizendo é que não considero a humanidade, enquanto generalidade, inteligente. Também não considero os indivíduos – em sua maioria – inteligentes. Você poderia estar aí se contorcendo na frente do computador enquanto pensa: e você r.A., se acha muito inteligente para fazer esse julgamento! E seria aí que você daria com os burros n´água por pensar assim. Eu não me considero um cara muito inteligente! Um mediano, talvez, um medíocre. Mas, pelo menos, não sou tão tolo e ingênuo ao ponto para defender histericamente ou fanaticamente uma ideia utópica de “Salve o mundo”. Aliás, prefiro uma distopia! Sim, DISTOPIA. Você sabe o que é isso? A-rá, achou que eu ia lhe contar! Pois veja só, não vou. Pesquise se quiser saber.
...... Acho a distopia mais coerente para se pensar hoje do que a utopia. Veja só, a utopia correndo nas veias de uma galera que insiste na tal crítica social preguiçosa ficou evidente quando uma tal blogueira de Havana, Cuba, pisou em solo brasileiro. A utopia fez com que alguns fraldinhas e chupetinhas encabeçassem protestos de uma falta de compreensão que fazia tempo que eu não via no Brasil! Tem gente que realmente não entende o que é criticar um país com histórico de 50 anos de ditadura. E por favor,  não me venha com a crítica social preguiçosa que acredita em dados estatísticos! A repressão não pode ser matematizada em nível algum – assim como inteligência não é unicamente estar alfabetizado. A utopia somada a uma crítica social preguiçosa faz pensar que lá é melhor que cá e, quem critica meus “amigos” é meu inimigo mortal! Mais! Essa analise própria para os fraldinhas e chupetinhas, que se deixam levar por generalizações de livretos de escola a lá ensino médio, dá asas a imaginação pervertida! Alimenta, inclusive, a fé em teorias da conspiração. Minha última palavra sobre isso – última mesmo, prometo – quem acha que paraíso utópico é uma ditadura, está centímetros em acreditar que alienígenas pousam no quintal de casa ou gnomos escondem pequenos objetos dentro de casa. Imagino pessoas assim sentadas, aos prantos, porque papai Noel não compareceu nesse natal.
...... Quem não entendeu ainda as negociatas sujas feitas com politiqueiros dentro de sindicatos, dentro de movimentos sociais, dentro do próprio estado, então deveria passar suas manhãs na creche! E sinceramente, seria melhor assim. Esse tipo de gente sentiria um progresso intelectual pintando uma abelha em uma cartolina ou aprendendo a escrever o nome.  Se achar moralmente superior porque faz parte de um sindicato ou movimento social, para mim, é mais ou menos acreditar na fada do dente! Temo que pessoas assim não consigam chupar um sorvete, metendo o sorvete na orelha pensando que está metendo na boca. Ou trata-se de gente mau caráter mesmo! Nesse caso, aí seria como meu velho pai falava sobre cachorros que comem galinha... quem já morou no interior sabe do que se trata.
......Por um longo tempo em minha vida eu acreditei no Aristocrata desenvolvido por Nietzsche. E não desmerecendo o grande Nietzsche e sua filosofia, acho isso de uma “ingenuidade genial”. Os gênios têm disso!, quando acertam, acertam no meio do alvo, mas quando erram... erram no meio do alvo também! E é nesse sentido que vai minha crítica ao Pondé. Ele poderia ser bem mais trágico do que se pressupõem. Se ele caiu nessa, só penso que o grau de desespero dele permitiu isso. O que, sem dúvidas, é uma melhora para se escrever um livro! Muito mais interessante do que aqueles que acham estar sendo guiados pela luz de um anjo. Muito mais coerente do que falar de caos e escrever sobre pichar muros – né H.Bey.?
......Por fim, essa semana fui abordado após uma aula por uma pessoa que pediu para mim falar sobre anarquismo. Respondi:_ Sabe cara, você acha que chove ou não hoje?


r.A. – Fisólofo.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Tutorial para o inferno...



......O dia de pagar o aluguel é um tutorial para o inferno! É ali que você ensaia para o que te espera depois da morte se você foi um sujeito filho-da-puta durante a vida. Se o fracasso nos torna mais humanos, pagar o aluguel te transforma em um verme rastejando no sol do meio dia em um asfalto cheio de sal. Se os terroristas fossem bons no que fazem, obrigariam seus prisioneiros a pagar o aluguel por uma semana... tenha certeza, meu amigo, ninguém volta o mesmo depois de uma fila no banco! Já ouvi boatos de que Jason – aquele dos filmes de sexta-feira 13 – era um bom garoto até que entrou no Itaú e se dirigiu ao caixa. Depois disso, bem, você já sabe. Um dia o mundo será dominado pelas pessoas que aparecem no comercial do Itaú ou do Santander, rapaz..., você vai se arrepender de ter saído de dentro da tua mãe! Quando pensar no paraíso, vai pensar na antiga União Soviética!
......Bem, ali estava eu – do outro lado do viaduto-, Adriano Jr., um cara que adora a humanidade e as organizações sem fins lucrativos, cãezinhos fofuxos e o cantar dos rouxinóis. Se o próprio David Thoreau surgisse dizendo que estaria lutando ao lado das feras na floresta eu teria lhe dado uma bofetada na raiz do ouvido que até seus leitores sentiriam uma leve tontura. Todos diriam olhando no fundo dos meus olhos que é vantagem “lutar ao lado dos ursos”. Se você não tem nada para fazer, imagine minha cara de preocupado! Ali estava eu, chegando no banco para pagar o aluguel. Uma fila muito semelhante à arca de Noé. Tinha tudo que é tipo de bicho, um casal de cada espécie, e por último o bonitão aqui. Com o coração pulsante de tanta alegria por saber que iria ficar três horas na fila. Meus olhos começavam a ficar vermelhos e o suor começava a escorrer do meu rosto escuro. Eu tentava pensar em Dalai lama, sorrindo e com uma áurea de paz em torno de si. Mas na minha mente só vinha Jason com um facão perseguindo atendentes de caixas em uma floresta escura e chuvosa.
......Todos que estavam na minha frente tinham pelo menos umas sete contas para pagar. Enquanto esperavam, olhavam para as contas como se aquele olhar furioso faria a conta se pagar por si mesma ou baixar o preço. Haviam seis caixas, mas apenas duas atendentes. As duas tinham um olhar de peixe morto. A da direita, lá pelos quarenta, com um bigode loiro, cabelos lisos e vermelhos, óculos de vovozinha, umas rugas começando a surgir ao lado dos olhos. Quando não bufava – próximo – gesticulava os lábios como se xingasse. A da esquerda, loira, um pouco mais nova, porém mais acabada, se confundia com os números e sorria nervosamente quando a ruiva movia os lábios em xingamentos – sempre na sua direção. Pude ler nos lábios: “vaca”, “anta”, “mula” e “retardada”. Um guardinha gordinho vinha rebolando de nove em nove minutos para dizer: “pessoal, alinha a fila por gentileza – obrigado”. Alinhar a fila fazia com que todos ficassem uns por cima dos outros, aumentando o calor que já estava bastante insuportável. Meus pés foram se virando em direção da porta e uma voz na minha cabeça dizia “volte amanhã, porra!”. Mas não me obedeci.
......Algumas horas depois, depois que repensei toda minha existência – do útero da mamãe até uma semana no futuro – haviam apenas três pessoas na minha frente na fila. Foi aí que o ditado “tudo pode ficar pior” começou a botar suas asinhas de fora. Primeiro, um senhor de cabelos brancos e com uma bengala, veio se arrastando e passou na frente dos outros na fila. Tudo bem! – pensei – imagine que é uma questão de respeito e depois, você também entrará no banco se arrastando com uma bengalinha - um dia . O senhor de cabelos brancos e uma boininha na cabeça olhou para a longa fila e deu uma risadinha. Fiquei matutando sobre aquilo... ele deve ter pensado: “lembro de minha juventude, quando eu era forte e sadio como aquele cara gordo e de olhos vermelhos ali... perdi metade de minha vida na fila. Pelo menos hoje não preciso mais enfrentar fila” – dai ele deu a risadinha; OU ele pensou: “olha esse bando de idiotas, esses babacas, esses ridículos, todos aí, nessa fila de merda que nem um bando de merda, e eu passando na frente” – daí ele deu a risadinha. O cristianismo disse para mim que se tratava da primeira hipótese, o ódio cego alojado em algum lugar escuro do meu crânio disse que se tratava da segunda. A atendente da esquerda se atrapalhou com as contas do senhorzinho, a atendente da direita fez com os lábios “mú-mi-a”.
......Agora só tinha dois na minha frente na fila. Mas como eu disse antes, poderia piorar. E piorou. Apareceram mais três idosos. Duas senhoras e um senhor. O senhor era o mesmo de antes! “esqueci de pagar uma continha” – disse ele para as outras senhoras (não vou descrever as senhoras, imagine sua vó e tá tudo bem). Depois que o senhorzinho e as suas duas avós pagaram suas contas ou seja lá o que queriam fazer no caixa, foi a vez do outro cara na minha frente e com isso já chegava minha vez. Ocorreu que as duas atendentes começaram a brigar. Quando uma bufou e gesticulou “puta velha” a outra disse:_ isso é demais para mim! E acertou a colega com o teclado do computador na testa. As duas desapareceram atrás do balcão e só se ouvia sons de tapas. Aquilo durou dez minutos – quer dizer que o guardinha gordinho já tinha passado para alinhar a fila outra vez, impedindo que os curiosos espiassem por cima do caixa para ver quem é que estava levando a melhor -, ninguém apartou, as duas surgiram descabeladas e retomaram seus postos. Nesse meio tempo apareceram mais três senhoras e adivinhe quem mais... Exatamente! - o senhorzinho novamente.
_O senhor esqueceu de pagar mais alguma coisa? – perguntou alguém na fila, não consegui ver quem era – o sujeito se escondeu assim que perguntou. O senhorzinho respondeu:_não! Voltei só para ver se vocês estavam se comportando direitinho na fila!
......Quando chegou minha vez, paguei meu maldito aluguel, parabenizei as duas atendentes pelo profissionalismo e recomendei que se escrevessem no UFC – São Paulo. Uma delas me segredou que já estava treinando boxe olímpico.
......Mais tarde, no mesmo dia, eu estava sentado em uma sala de espera. Consultório de um neurologista. Em partes por causa de traumas relacionados a filas de bancos e salas de espera. Mas a verdade era que estava precisando que alguém me receitasse algum remédio para dormir. Eu tinha preguiça, muita aliás. Mas não dormia. Quem sofre de insônia procura evitar o sol de tudo quanto é maneira, mas por mais contraditório que seja, desenvolve uma mania idiota de ficar olhando pela janela. Eu sou um desses. Fico olhando pela janela. Passo horas olhando pela janela – mesmo que não tenha nada do lado de fora. Quando estou olhando pela janela, gosto de observar cachorros, crianças brincando, ruivas magrelas ou loiras gordinhas, vendedores de bíblia torrando no sol e bares abrindo. Na verdade, acho que olho pela janela esperando o bar abrir mesmo. De qualquer forma, já fazia algum tempo que eu estava sentado na sala de espera folhando revistas. Não consigo pensar em outra utilidade para revistas além de contribuir para o seu tédio em salas de espera! Até tinha uma revista de literatura séria com uma entrevista com Marta Medeiros – uma GRANDE literata! Para quem não sabe – inclusive eu, alguns minutos entediantes atrás – a tal da Medeiros escreve sobre... não sei, quase peguei no sono e por isso cogitei a possibilidade de roubar a entrevista com a tal escritora ou passar numa livraria e comprar um livro dela, caso a insônia persistisse. Quando estava sentindo que finalmente minha alma abandonaria meu corpo em uma morte por tédio na sala de espera ao lado de Marta Medeiros, o neurologista sentiu de me atender.
_Adriano Maranello Jr. É isso? – Disse um cara sorridente e bem vestido para mim. Eu acenei com a cabeça positivamente e entrei na salinha do consultório carregando minha alma que quase se desprendera do corpo.
......Na salinha bem decorada com um sofá bem confortável – onde desabei antes que pedissem para mim sentar – havia uma porção de certificados pendurados, uma estátua africana num canto perto da janela, uma estante cheia de livros – que eu sei que o sujeito não leu – e uma réplica de uma pintura do Salvador Dalí na parede de frente para a janela. Depois de me perguntar novamente se eu era Adriano e tudo mais, o cara começou a me perguntar uma série de coisas malucas sem olhar nos meus olhos. Notei que o neurologista estava ficando careca e puxava o cabelo para o lado na esperança de que o couro cabeludo absorvesse alguns fios de cabelo – assim como se faz com a grama – e preenchesse o lugar que não havia cabelo. Ele era pálido, tinha mãos curiosamente peludas e usava uma camiseta branca amarrotada – tão amarrotada quanto a minha, que no caso era cinza. Havia uma mancha de sorvete próxima ao bolso da frente da camisa. Pelo menos parecia sorvete...
_então o senhor é Adriano? – perguntou pela terceira vez.
_sim...- respondi um pouco irritado.
_A-DRI-A-NO, então? Não é?
_é...
_Interessante...- sussurrou o neurologista. Ainda disse pensativo mais uma vez: “Adriano Maranello... Adri-ano. Ma-ra-nello... hum...”.
......É claro que aquilo estava começando a me deixar bastante irritado. Neurologistas, psicólogos, advogados, médicos, dentistas, em algum lugar de suas formações teriam sido espancados na cabeça? Só podia ser isso. Comecei a coçar o queixo e fintar o fundo dos olhos do neurologista. Quase podia dizer que via o cérebro dele dançando no fundo daquele crânio. Talvez tivesse também um arco-íris dentro da cabeça dele, com guinômos saltando alegremente e cantarolando “Adriano- no-no, Maranello-lo, Adriano-no-no, Maranello-lo, iupi, viva!”.
Ele ainda olhava para mim sorrindo. Comecei a pensar que a melhor coisa a ser feita era sair dali. Mas acabei falando.
_Preciso dormir. Faz alguns dias que não durmo, sabe?
......Ele continuou olhando e sorrindo. Pensei que os guinômos deveriam estar chutando as paredes do crânio dele e por isso alguma coisa havia travado naquele cérebro. Mas ele acabou balançando a cabeça e dizendo um “entendo”. E prosseguiu:
_Você notou o cara que saiu do consultório pouco antes do senhor entrar? – me perguntou.
_Não. Não costumo prestar muita atenção nas pessoas quando fico entediado. – Respondi.
_Carinha engraçado... Atendi ele alguns meses atrás por causa de um problema com depressão. Até indiquei que ele se consultasse com um psicólogo, para acompanhar o tratamento, sabe?
......Agora estava me tratando como um colega de profissão. Mas como não havia outro jeito, deixei que ele continuasse falando... Em algum lugar deve estar escrito que é anti-ético falar dos pacientes com outros pacientes, mas até que o papo estava ficando engraçado. Deixei que continuasse.
_Aí perguntei para ele se a depressão havia passado... com o tratamento, sabe? E ele disse que depois que foi no psicólogo descobriu que tinha outro problema. Que não sentia mais tesão pela sua esposa...
_Sei...- Resmunguei. Agora era minha vez de me fazer de profissional. Ele continuou:
_Falei para ele que não tinha remédios para esse tipo de coisa, que comprasse viagara na farmácia, sabe? E ele disse que não era bem isso. Que estava desconfiando que havia virado gay.
_Sério? – falei.- Puxa vida, e que tal eram os sintomas? – perguntei.
_...bem... complicado. Ele disse que primeiro começou a se sentir alegre na companhia de outros homens, colegas do trabalho e essas coisas. Depois começou a sentir vontade de beijar um colega do trabalho... até se abriu para o colega, que confessou que na verdade já estava em um outro relacionamento com um outro colega de trabalho. O colega de trabalho que me refiro é striper de boate gay.
_Isso quer dizer que o seu paciente é striper de boate gay? – Perguntei.
_não... ele é garçom. E sindicalista também.
_Certo...- resmunguei.
_também me falou que estava gostando muito de ouvir Kenny G., Cold Play...
_É. Cold Play deixa o cara viado mesmo... – concordei.
_Mas o meu paciente gosta muito de sua mulher, sabe? Ele a ama, na verdade. Não quer perdê-la. Mas nesse caso tão complicado me parece que não há muito o que fazer...
_Mas o problema dele é o tesão?- Perguntei.
_Sim, o problema dele é só o tesão mesmo. No resto, ele e sua mulher se entendem mais do que nunca! Ele lava a roupa, lava a louça, limpa a casa e tudo mais. Só na hora do sexo mesmo que a coisa desanda...- falou o neurologista um pouco indignado.
_bem... que tal sugerir para ele conversar sobre possibilidade dela se vestir de Fred Mercury? Sei lá... tipo, cortar o cabelo dela bem curto, colar um bigodão postiço nela... – falei.
_É UMA BOA! – Gritou o neurologista e bateu com a mão direita espalmada em cima da mesa. – se o senhor não se incomoda, vou ligar para ele e fazer essa sugestão agora mesmo! Eu poderia anotar aqui para não esquecer, mas receio que meu paciente ficaria mais contente se eu informasse ele dessa possibilidade agora mesmo.
_Tudo bem. Pode ligar para ele... eu espero. – respondi.
......O neurologista catou o celular de dentro de uma gaveta em sua mesa. Sorridente e fazendo sinal de positivo para mim saiu da sala. Antes ainda disse “é só um minutinho”. Quanto a mim, fiquei olhando a cópia da tela do Salvador Dalí. Fiquei meditando por um tempo sobre como as coisas mais estranhas, esquisitas, acontecem comigo... Deve ser por isso que sou escritor, pensei. De outra maneira não conseguiria dar conta da loucura cotidiana. Enquanto pensava com meus botões, ouvi partes da conversa do neurologista – já que as paredes que separavam seu consultório da sala de espera eram de uma madeira muito fina. Ouvi algo do tipo: “não amor, quero que depois que você passar pegar as crianças no colégio, vá até aquela loja de fantasias perto da casa da sua mãe e compre uma fantasia de Fred Mercury... sim, aquele do Queen. É, o cabelo mais curto pode funcionar. Isso, vamos tentar uma coisa diferente essa noite... acho que vai funcionar! Beijo, também te amo. Não esquece que o bigode tem que ser bem convincente... isso, capaz de enganar até a mim. Isso. Tchau”.
......Depois disso houve um longo minuto de silêncio. Eu começava a não me sentir muito bem e estava pensando em levantar e ir embora. Talvez um chá de cidreira me ajudasse... Mas a porta se abriu. O neurologista entrou sorrindo com o celular na orelha. Ele olhava para mim e até piscou um olho. Dizia “valeu Pedrão, aquele abraço na boca!”.
_onde estávamos?- perguntou o neurologista. – a sim, o senhor estava me perguntando onde ficava a tal boate...
_Não. Eu não estava. Eu estava pedindo para o senhor me receitar algum remédio para dormir. – falei rapidamente, ponderando que realmente estava na hora de ir para casa. Estava estranho demais até para mim.
_ok! Farei o seguinte. Vou lhe receitar algo e lhe darei algumas amostras para o senhor ir experimentando caso esse não dê certo. E farei o seguinte... graças a sua cooperação, não vou lhe cobrar essa consulta, certo?
_certo – respondi.- é bem justo!
_justo como cueca de couro! – ele disse.
_não. Justo de justiça! – falei um pouco irritado.
......Ele assinou a receita e tudo mais. Ainda disse “Maranello, não é?”. Não respondi. Saí. Antes passei por um vaso de flores na recepção e derrubei ele e esparramei terra por todo lugar.
......Como havia uma farmácia próxima, parei lá para pegar meu remédio para dormir bem irritado. Um velhinho me atendeu. Usava um daqueles óculos de lentes para perto na parte superior e para longe na parte inferior. Usava um jaleco branco e tinha o cabelo branco parecido com o do Wolverine. Antes de me alcançar o remédio ficou virando a receita para tudo que é lado – invés de ajustar o óculos! Se minha alma não abandonar meu corpo antes que eu consiga chegar em casa, será um milagre! Meu corpo meio que se movia automaticamente. Eu lhe dava as coordenadas, mas não sentia o corpo reagindo. Senti que por um momento estava caindo em uma espécie de vazio. Uma escuridão, um nada. Lá no vazio ouvi uma voz longe que dizia: 56 reais com 50 centavos. Automaticamente removi um cartão de crédito do meu bolso e alcancei para o senhorzinho.
_CPF NA NOTA?
......A palavra nota ficou ecoando eternamente no vazio: nota-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-taaaaaaaaaaa? Fiz sinal que não com a cabeça. Comecei a voltar do vazio e tudo adquiriu cor em torno de mim. Tudo meio branco... uma imagem em esfumato. Digitei 4-0-5-6-
9-3 numa maquininha. O senhorzinho me entregou um papelzinho amarelo que imediatamente amassei e meti no bolso. Estava me dirigindo para uma porta de vidro ao lado de uma balança quando ouvi...
_então você foi ao neurologista aqui da esquina?
_Fui. – resmunguei.
_ele não te falou onde fica a tal da boate? – disse o velhinho com um sorriso safado na face.
_Disse. Fica dentro do banco ali do outro lado do viaduto. Rua A. Machado. Você tem que entrar e procurar um velhinho com uma bengalinha. Você vai se dirigir a ele e perguntar o que ele está fazendo ali. Ele te dirá que está apenas conferindo a fila. Aí você vai ter que usar uma senha. A senha é “Gosto bem justo atrás”. Aí esse velhinho vai te mostrar o caminho.
......Gastei o resto de minhas energias falando isso. De alguma forma cheguei até o prédio que chamo de casa. O elevador estava quebrado- o que me forçaria subir dezesseis lances de escada. Em algum lugar da escada eu coloquei 4 pílulas de uma cartela na boca e engoli com saliva. Acordei com um corte profundo na testa e não havia sangue, provavelmente desmaiei entre o sexto ou sétimo andar.

r.A.

P.s. – para A.M.M.P.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Leonard Cohen saiu para almoçar, para sempre!


......Junte as mãos e deixe que toda a chama fraca da ex-istência brilhe na mesma intensidade de um fósforo. Eu sei que você não sabe mais o que fazer para chamar a atenção de todas as pessoas ao seu redor – fingindo ser um cara limpo, inteligente e legal... mas não é bem assim, meu caro. Todas aquelas palavras desatarraxadas do sentido parecem não penetrar na bolha em que você se fechou – e você ouve um ruído de água escorrendo como se a boia da privada estivesse estragada.
......Conheci um cara que queria voltar para a natureza, mas não queria abandonar seu esconderijo de palavras coerentes – aquilo foi triste! Ficou mais complicado quando sempre aparecia alguém saindo de uma claridade, louco por uma interação imediata, prometendo emoções iguaizinhas da outra vez...Porém a noite sempre terminava da mesma maneira: com alguém jurando ser especial; ignorando que depois que sua noiva retirou o véu no altar e revelou seu bigode de mestre chinês, tudo virou tudo – menos algo especial. Hoje todo mundo quer revolucionar a vida antes do jantar e a natureza é outro esconderijo de palavras coerentes- dizem aqueles que nunca se embrenharam na floresta. E o cara que eu conheci tenta me explicar porque é preciso falar tanto de vagina e útero enquanto eu admito que só estava tentando encontrar uma maneira de levar o lixo para fora – sem me envolver com as pessoas mais populares no colégio. (eu não queria ter casca de feijão nos dentes quando sorrisse, sabe? – pose para a foto... diga X).
......Agora, antes que você saia de casa, sua mãe diz que o importante é você ser feliz – mas você não sabe como isso funciona. A porta se fecha atrás de você. Sua mãe diz que sempre haverá amor e ternura – mas você não sabe diferenciar o gosto do amor do gosto da ternura, por isso vive confuso. A rua está silenciosa e escuro são os becos. Sua mãe diz que seja qual for sua decisão, ela te apoiará – mas você não toma decisões!  Agora, antes que você saia de casa, você volta dizendo que vai apenas pegar um guarda-chuva por precaução e mente que perdeu as chaves e por isso não pode sair. A porta desaparece atrás de você.
......Você tem a cerveja no verão e no inverno o vinho. O dinheiro é suficiente para pagar as contas (e o chegue especial) e o restante do mês é ocupado com o creme protetor solar que você passa pelo corpo todo – inclusive pelo lado de dentro -, pingando como se fosse colírio nos olhos.
......Concerto a boia da privada para você não mais se atormentar com o ruído da água escorrendo. Digo “ok” e você pensa que tudo que eu disse são maneiras de isolar as rachaduras em sua bolha. Você diz para mim e para si que gozar dentro da vagina, afinal, é o motivo de tudo isso – fica mais tranquilo porque invés de discordar eu apenas olho para o outro lado enquanto acendo meu primeiro cigarro do dia. Seus amigos lhe dizem que é impressionante como eu bebo vodka pura no bico da garrafa – e você acha que eu não tenho jeito mesmo. Nas suas orações antes de dormir, Deus te revela que talvez tenha começado a se sentir chateado com a humanidade – não dispense a palavra arrependimento. Leonard Cohen saiu para almoçar, para sempre! No final, todo mundo vai pensar que poesia é só uma maneira de enfeitar palavras, impressionar os outros e continuar vivo e se lamentando. Por isso, role ribanceira abaixo dentro de sua bolha com os índios do Indiana Jones desejando sua carne fofinha entre os dentes!
......Desligo o telefone pelo simples motivo que odeio telefones e gostaria que todos esses aparelhos boiassem no caldeirão do diabo no inferno! Minha editora diz que “o sr. deveria começar a respeitar os prazos e assinar os contratos ao invés de fazer piadinhas irônicas sobre ser analfabeto e ter fobia de gente – já estamos perdendo nossa preciosa paciência com você”. Deus, em cima de sua nuvem dourada e voadora – que roubou do Goku – dá uma rasante sobre a janela do meu quarto, mas não faz contato. Deixei claro que tipos como eu não podem ter sorte na vida e trocaram a fé por queijo e mortadela. Sorte e Fé deixam o cara parecendo um boneco de posto de gasolina – dançando no ar.
......Pouco antes de esquecer tudo isso, penso no quanto você reclama da solidão como se ela fosse uma praga – e não percebe o ouro e diamante que se alojam no fundo de sua caverna/mina. Quando passava pela ilha das sereias que enfeitiçam os marinheiros os arrastando para o fundo do mar, Odisseu não tapou os ouvidos, embora pedisse para seus companheiros que lhe amarrassem no mastro do navio. Ele queria passar por aquela experiência de risco! Você pode pensar que eu sou o Odisseu, mas a verdade é que eu sou o cafetão das sereias – sentado em um canto escuro do bar calculando o lucro com a prostituição. Mas você vai ficar bem, acredite. Se piorar melhora, nesses casos.
_ei, já que não pode ficar, desligue a porta e encoste a luz!

r.A.