sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Tutorial para o inferno...



......O dia de pagar o aluguel é um tutorial para o inferno! É ali que você ensaia para o que te espera depois da morte se você foi um sujeito filho-da-puta durante a vida. Se o fracasso nos torna mais humanos, pagar o aluguel te transforma em um verme rastejando no sol do meio dia em um asfalto cheio de sal. Se os terroristas fossem bons no que fazem, obrigariam seus prisioneiros a pagar o aluguel por uma semana... tenha certeza, meu amigo, ninguém volta o mesmo depois de uma fila no banco! Já ouvi boatos de que Jason – aquele dos filmes de sexta-feira 13 – era um bom garoto até que entrou no Itaú e se dirigiu ao caixa. Depois disso, bem, você já sabe. Um dia o mundo será dominado pelas pessoas que aparecem no comercial do Itaú ou do Santander, rapaz..., você vai se arrepender de ter saído de dentro da tua mãe! Quando pensar no paraíso, vai pensar na antiga União Soviética!
......Bem, ali estava eu – do outro lado do viaduto-, Adriano Jr., um cara que adora a humanidade e as organizações sem fins lucrativos, cãezinhos fofuxos e o cantar dos rouxinóis. Se o próprio David Thoreau surgisse dizendo que estaria lutando ao lado das feras na floresta eu teria lhe dado uma bofetada na raiz do ouvido que até seus leitores sentiriam uma leve tontura. Todos diriam olhando no fundo dos meus olhos que é vantagem “lutar ao lado dos ursos”. Se você não tem nada para fazer, imagine minha cara de preocupado! Ali estava eu, chegando no banco para pagar o aluguel. Uma fila muito semelhante à arca de Noé. Tinha tudo que é tipo de bicho, um casal de cada espécie, e por último o bonitão aqui. Com o coração pulsante de tanta alegria por saber que iria ficar três horas na fila. Meus olhos começavam a ficar vermelhos e o suor começava a escorrer do meu rosto escuro. Eu tentava pensar em Dalai lama, sorrindo e com uma áurea de paz em torno de si. Mas na minha mente só vinha Jason com um facão perseguindo atendentes de caixas em uma floresta escura e chuvosa.
......Todos que estavam na minha frente tinham pelo menos umas sete contas para pagar. Enquanto esperavam, olhavam para as contas como se aquele olhar furioso faria a conta se pagar por si mesma ou baixar o preço. Haviam seis caixas, mas apenas duas atendentes. As duas tinham um olhar de peixe morto. A da direita, lá pelos quarenta, com um bigode loiro, cabelos lisos e vermelhos, óculos de vovozinha, umas rugas começando a surgir ao lado dos olhos. Quando não bufava – próximo – gesticulava os lábios como se xingasse. A da esquerda, loira, um pouco mais nova, porém mais acabada, se confundia com os números e sorria nervosamente quando a ruiva movia os lábios em xingamentos – sempre na sua direção. Pude ler nos lábios: “vaca”, “anta”, “mula” e “retardada”. Um guardinha gordinho vinha rebolando de nove em nove minutos para dizer: “pessoal, alinha a fila por gentileza – obrigado”. Alinhar a fila fazia com que todos ficassem uns por cima dos outros, aumentando o calor que já estava bastante insuportável. Meus pés foram se virando em direção da porta e uma voz na minha cabeça dizia “volte amanhã, porra!”. Mas não me obedeci.
......Algumas horas depois, depois que repensei toda minha existência – do útero da mamãe até uma semana no futuro – haviam apenas três pessoas na minha frente na fila. Foi aí que o ditado “tudo pode ficar pior” começou a botar suas asinhas de fora. Primeiro, um senhor de cabelos brancos e com uma bengala, veio se arrastando e passou na frente dos outros na fila. Tudo bem! – pensei – imagine que é uma questão de respeito e depois, você também entrará no banco se arrastando com uma bengalinha - um dia . O senhor de cabelos brancos e uma boininha na cabeça olhou para a longa fila e deu uma risadinha. Fiquei matutando sobre aquilo... ele deve ter pensado: “lembro de minha juventude, quando eu era forte e sadio como aquele cara gordo e de olhos vermelhos ali... perdi metade de minha vida na fila. Pelo menos hoje não preciso mais enfrentar fila” – dai ele deu a risadinha; OU ele pensou: “olha esse bando de idiotas, esses babacas, esses ridículos, todos aí, nessa fila de merda que nem um bando de merda, e eu passando na frente” – daí ele deu a risadinha. O cristianismo disse para mim que se tratava da primeira hipótese, o ódio cego alojado em algum lugar escuro do meu crânio disse que se tratava da segunda. A atendente da esquerda se atrapalhou com as contas do senhorzinho, a atendente da direita fez com os lábios “mú-mi-a”.
......Agora só tinha dois na minha frente na fila. Mas como eu disse antes, poderia piorar. E piorou. Apareceram mais três idosos. Duas senhoras e um senhor. O senhor era o mesmo de antes! “esqueci de pagar uma continha” – disse ele para as outras senhoras (não vou descrever as senhoras, imagine sua vó e tá tudo bem). Depois que o senhorzinho e as suas duas avós pagaram suas contas ou seja lá o que queriam fazer no caixa, foi a vez do outro cara na minha frente e com isso já chegava minha vez. Ocorreu que as duas atendentes começaram a brigar. Quando uma bufou e gesticulou “puta velha” a outra disse:_ isso é demais para mim! E acertou a colega com o teclado do computador na testa. As duas desapareceram atrás do balcão e só se ouvia sons de tapas. Aquilo durou dez minutos – quer dizer que o guardinha gordinho já tinha passado para alinhar a fila outra vez, impedindo que os curiosos espiassem por cima do caixa para ver quem é que estava levando a melhor -, ninguém apartou, as duas surgiram descabeladas e retomaram seus postos. Nesse meio tempo apareceram mais três senhoras e adivinhe quem mais... Exatamente! - o senhorzinho novamente.
_O senhor esqueceu de pagar mais alguma coisa? – perguntou alguém na fila, não consegui ver quem era – o sujeito se escondeu assim que perguntou. O senhorzinho respondeu:_não! Voltei só para ver se vocês estavam se comportando direitinho na fila!
......Quando chegou minha vez, paguei meu maldito aluguel, parabenizei as duas atendentes pelo profissionalismo e recomendei que se escrevessem no UFC – São Paulo. Uma delas me segredou que já estava treinando boxe olímpico.
......Mais tarde, no mesmo dia, eu estava sentado em uma sala de espera. Consultório de um neurologista. Em partes por causa de traumas relacionados a filas de bancos e salas de espera. Mas a verdade era que estava precisando que alguém me receitasse algum remédio para dormir. Eu tinha preguiça, muita aliás. Mas não dormia. Quem sofre de insônia procura evitar o sol de tudo quanto é maneira, mas por mais contraditório que seja, desenvolve uma mania idiota de ficar olhando pela janela. Eu sou um desses. Fico olhando pela janela. Passo horas olhando pela janela – mesmo que não tenha nada do lado de fora. Quando estou olhando pela janela, gosto de observar cachorros, crianças brincando, ruivas magrelas ou loiras gordinhas, vendedores de bíblia torrando no sol e bares abrindo. Na verdade, acho que olho pela janela esperando o bar abrir mesmo. De qualquer forma, já fazia algum tempo que eu estava sentado na sala de espera folhando revistas. Não consigo pensar em outra utilidade para revistas além de contribuir para o seu tédio em salas de espera! Até tinha uma revista de literatura séria com uma entrevista com Marta Medeiros – uma GRANDE literata! Para quem não sabe – inclusive eu, alguns minutos entediantes atrás – a tal da Medeiros escreve sobre... não sei, quase peguei no sono e por isso cogitei a possibilidade de roubar a entrevista com a tal escritora ou passar numa livraria e comprar um livro dela, caso a insônia persistisse. Quando estava sentindo que finalmente minha alma abandonaria meu corpo em uma morte por tédio na sala de espera ao lado de Marta Medeiros, o neurologista sentiu de me atender.
_Adriano Maranello Jr. É isso? – Disse um cara sorridente e bem vestido para mim. Eu acenei com a cabeça positivamente e entrei na salinha do consultório carregando minha alma que quase se desprendera do corpo.
......Na salinha bem decorada com um sofá bem confortável – onde desabei antes que pedissem para mim sentar – havia uma porção de certificados pendurados, uma estátua africana num canto perto da janela, uma estante cheia de livros – que eu sei que o sujeito não leu – e uma réplica de uma pintura do Salvador Dalí na parede de frente para a janela. Depois de me perguntar novamente se eu era Adriano e tudo mais, o cara começou a me perguntar uma série de coisas malucas sem olhar nos meus olhos. Notei que o neurologista estava ficando careca e puxava o cabelo para o lado na esperança de que o couro cabeludo absorvesse alguns fios de cabelo – assim como se faz com a grama – e preenchesse o lugar que não havia cabelo. Ele era pálido, tinha mãos curiosamente peludas e usava uma camiseta branca amarrotada – tão amarrotada quanto a minha, que no caso era cinza. Havia uma mancha de sorvete próxima ao bolso da frente da camisa. Pelo menos parecia sorvete...
_então o senhor é Adriano? – perguntou pela terceira vez.
_sim...- respondi um pouco irritado.
_A-DRI-A-NO, então? Não é?
_é...
_Interessante...- sussurrou o neurologista. Ainda disse pensativo mais uma vez: “Adriano Maranello... Adri-ano. Ma-ra-nello... hum...”.
......É claro que aquilo estava começando a me deixar bastante irritado. Neurologistas, psicólogos, advogados, médicos, dentistas, em algum lugar de suas formações teriam sido espancados na cabeça? Só podia ser isso. Comecei a coçar o queixo e fintar o fundo dos olhos do neurologista. Quase podia dizer que via o cérebro dele dançando no fundo daquele crânio. Talvez tivesse também um arco-íris dentro da cabeça dele, com guinômos saltando alegremente e cantarolando “Adriano- no-no, Maranello-lo, Adriano-no-no, Maranello-lo, iupi, viva!”.
Ele ainda olhava para mim sorrindo. Comecei a pensar que a melhor coisa a ser feita era sair dali. Mas acabei falando.
_Preciso dormir. Faz alguns dias que não durmo, sabe?
......Ele continuou olhando e sorrindo. Pensei que os guinômos deveriam estar chutando as paredes do crânio dele e por isso alguma coisa havia travado naquele cérebro. Mas ele acabou balançando a cabeça e dizendo um “entendo”. E prosseguiu:
_Você notou o cara que saiu do consultório pouco antes do senhor entrar? – me perguntou.
_Não. Não costumo prestar muita atenção nas pessoas quando fico entediado. – Respondi.
_Carinha engraçado... Atendi ele alguns meses atrás por causa de um problema com depressão. Até indiquei que ele se consultasse com um psicólogo, para acompanhar o tratamento, sabe?
......Agora estava me tratando como um colega de profissão. Mas como não havia outro jeito, deixei que ele continuasse falando... Em algum lugar deve estar escrito que é anti-ético falar dos pacientes com outros pacientes, mas até que o papo estava ficando engraçado. Deixei que continuasse.
_Aí perguntei para ele se a depressão havia passado... com o tratamento, sabe? E ele disse que depois que foi no psicólogo descobriu que tinha outro problema. Que não sentia mais tesão pela sua esposa...
_Sei...- Resmunguei. Agora era minha vez de me fazer de profissional. Ele continuou:
_Falei para ele que não tinha remédios para esse tipo de coisa, que comprasse viagara na farmácia, sabe? E ele disse que não era bem isso. Que estava desconfiando que havia virado gay.
_Sério? – falei.- Puxa vida, e que tal eram os sintomas? – perguntei.
_...bem... complicado. Ele disse que primeiro começou a se sentir alegre na companhia de outros homens, colegas do trabalho e essas coisas. Depois começou a sentir vontade de beijar um colega do trabalho... até se abriu para o colega, que confessou que na verdade já estava em um outro relacionamento com um outro colega de trabalho. O colega de trabalho que me refiro é striper de boate gay.
_Isso quer dizer que o seu paciente é striper de boate gay? – Perguntei.
_não... ele é garçom. E sindicalista também.
_Certo...- resmunguei.
_também me falou que estava gostando muito de ouvir Kenny G., Cold Play...
_É. Cold Play deixa o cara viado mesmo... – concordei.
_Mas o meu paciente gosta muito de sua mulher, sabe? Ele a ama, na verdade. Não quer perdê-la. Mas nesse caso tão complicado me parece que não há muito o que fazer...
_Mas o problema dele é o tesão?- Perguntei.
_Sim, o problema dele é só o tesão mesmo. No resto, ele e sua mulher se entendem mais do que nunca! Ele lava a roupa, lava a louça, limpa a casa e tudo mais. Só na hora do sexo mesmo que a coisa desanda...- falou o neurologista um pouco indignado.
_bem... que tal sugerir para ele conversar sobre possibilidade dela se vestir de Fred Mercury? Sei lá... tipo, cortar o cabelo dela bem curto, colar um bigodão postiço nela... – falei.
_É UMA BOA! – Gritou o neurologista e bateu com a mão direita espalmada em cima da mesa. – se o senhor não se incomoda, vou ligar para ele e fazer essa sugestão agora mesmo! Eu poderia anotar aqui para não esquecer, mas receio que meu paciente ficaria mais contente se eu informasse ele dessa possibilidade agora mesmo.
_Tudo bem. Pode ligar para ele... eu espero. – respondi.
......O neurologista catou o celular de dentro de uma gaveta em sua mesa. Sorridente e fazendo sinal de positivo para mim saiu da sala. Antes ainda disse “é só um minutinho”. Quanto a mim, fiquei olhando a cópia da tela do Salvador Dalí. Fiquei meditando por um tempo sobre como as coisas mais estranhas, esquisitas, acontecem comigo... Deve ser por isso que sou escritor, pensei. De outra maneira não conseguiria dar conta da loucura cotidiana. Enquanto pensava com meus botões, ouvi partes da conversa do neurologista – já que as paredes que separavam seu consultório da sala de espera eram de uma madeira muito fina. Ouvi algo do tipo: “não amor, quero que depois que você passar pegar as crianças no colégio, vá até aquela loja de fantasias perto da casa da sua mãe e compre uma fantasia de Fred Mercury... sim, aquele do Queen. É, o cabelo mais curto pode funcionar. Isso, vamos tentar uma coisa diferente essa noite... acho que vai funcionar! Beijo, também te amo. Não esquece que o bigode tem que ser bem convincente... isso, capaz de enganar até a mim. Isso. Tchau”.
......Depois disso houve um longo minuto de silêncio. Eu começava a não me sentir muito bem e estava pensando em levantar e ir embora. Talvez um chá de cidreira me ajudasse... Mas a porta se abriu. O neurologista entrou sorrindo com o celular na orelha. Ele olhava para mim e até piscou um olho. Dizia “valeu Pedrão, aquele abraço na boca!”.
_onde estávamos?- perguntou o neurologista. – a sim, o senhor estava me perguntando onde ficava a tal boate...
_Não. Eu não estava. Eu estava pedindo para o senhor me receitar algum remédio para dormir. – falei rapidamente, ponderando que realmente estava na hora de ir para casa. Estava estranho demais até para mim.
_ok! Farei o seguinte. Vou lhe receitar algo e lhe darei algumas amostras para o senhor ir experimentando caso esse não dê certo. E farei o seguinte... graças a sua cooperação, não vou lhe cobrar essa consulta, certo?
_certo – respondi.- é bem justo!
_justo como cueca de couro! – ele disse.
_não. Justo de justiça! – falei um pouco irritado.
......Ele assinou a receita e tudo mais. Ainda disse “Maranello, não é?”. Não respondi. Saí. Antes passei por um vaso de flores na recepção e derrubei ele e esparramei terra por todo lugar.
......Como havia uma farmácia próxima, parei lá para pegar meu remédio para dormir bem irritado. Um velhinho me atendeu. Usava um daqueles óculos de lentes para perto na parte superior e para longe na parte inferior. Usava um jaleco branco e tinha o cabelo branco parecido com o do Wolverine. Antes de me alcançar o remédio ficou virando a receita para tudo que é lado – invés de ajustar o óculos! Se minha alma não abandonar meu corpo antes que eu consiga chegar em casa, será um milagre! Meu corpo meio que se movia automaticamente. Eu lhe dava as coordenadas, mas não sentia o corpo reagindo. Senti que por um momento estava caindo em uma espécie de vazio. Uma escuridão, um nada. Lá no vazio ouvi uma voz longe que dizia: 56 reais com 50 centavos. Automaticamente removi um cartão de crédito do meu bolso e alcancei para o senhorzinho.
_CPF NA NOTA?
......A palavra nota ficou ecoando eternamente no vazio: nota-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-taaaaaaaaaaa? Fiz sinal que não com a cabeça. Comecei a voltar do vazio e tudo adquiriu cor em torno de mim. Tudo meio branco... uma imagem em esfumato. Digitei 4-0-5-6-
9-3 numa maquininha. O senhorzinho me entregou um papelzinho amarelo que imediatamente amassei e meti no bolso. Estava me dirigindo para uma porta de vidro ao lado de uma balança quando ouvi...
_então você foi ao neurologista aqui da esquina?
_Fui. – resmunguei.
_ele não te falou onde fica a tal da boate? – disse o velhinho com um sorriso safado na face.
_Disse. Fica dentro do banco ali do outro lado do viaduto. Rua A. Machado. Você tem que entrar e procurar um velhinho com uma bengalinha. Você vai se dirigir a ele e perguntar o que ele está fazendo ali. Ele te dirá que está apenas conferindo a fila. Aí você vai ter que usar uma senha. A senha é “Gosto bem justo atrás”. Aí esse velhinho vai te mostrar o caminho.
......Gastei o resto de minhas energias falando isso. De alguma forma cheguei até o prédio que chamo de casa. O elevador estava quebrado- o que me forçaria subir dezesseis lances de escada. Em algum lugar da escada eu coloquei 4 pílulas de uma cartela na boca e engoli com saliva. Acordei com um corte profundo na testa e não havia sangue, provavelmente desmaiei entre o sexto ou sétimo andar.

r.A.

P.s. – para A.M.M.P.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Leonard Cohen saiu para almoçar, para sempre!


......Junte as mãos e deixe que toda a chama fraca da ex-istência brilhe na mesma intensidade de um fósforo. Eu sei que você não sabe mais o que fazer para chamar a atenção de todas as pessoas ao seu redor – fingindo ser um cara limpo, inteligente e legal... mas não é bem assim, meu caro. Todas aquelas palavras desatarraxadas do sentido parecem não penetrar na bolha em que você se fechou – e você ouve um ruído de água escorrendo como se a boia da privada estivesse estragada.
......Conheci um cara que queria voltar para a natureza, mas não queria abandonar seu esconderijo de palavras coerentes – aquilo foi triste! Ficou mais complicado quando sempre aparecia alguém saindo de uma claridade, louco por uma interação imediata, prometendo emoções iguaizinhas da outra vez...Porém a noite sempre terminava da mesma maneira: com alguém jurando ser especial; ignorando que depois que sua noiva retirou o véu no altar e revelou seu bigode de mestre chinês, tudo virou tudo – menos algo especial. Hoje todo mundo quer revolucionar a vida antes do jantar e a natureza é outro esconderijo de palavras coerentes- dizem aqueles que nunca se embrenharam na floresta. E o cara que eu conheci tenta me explicar porque é preciso falar tanto de vagina e útero enquanto eu admito que só estava tentando encontrar uma maneira de levar o lixo para fora – sem me envolver com as pessoas mais populares no colégio. (eu não queria ter casca de feijão nos dentes quando sorrisse, sabe? – pose para a foto... diga X).
......Agora, antes que você saia de casa, sua mãe diz que o importante é você ser feliz – mas você não sabe como isso funciona. A porta se fecha atrás de você. Sua mãe diz que sempre haverá amor e ternura – mas você não sabe diferenciar o gosto do amor do gosto da ternura, por isso vive confuso. A rua está silenciosa e escuro são os becos. Sua mãe diz que seja qual for sua decisão, ela te apoiará – mas você não toma decisões!  Agora, antes que você saia de casa, você volta dizendo que vai apenas pegar um guarda-chuva por precaução e mente que perdeu as chaves e por isso não pode sair. A porta desaparece atrás de você.
......Você tem a cerveja no verão e no inverno o vinho. O dinheiro é suficiente para pagar as contas (e o chegue especial) e o restante do mês é ocupado com o creme protetor solar que você passa pelo corpo todo – inclusive pelo lado de dentro -, pingando como se fosse colírio nos olhos.
......Concerto a boia da privada para você não mais se atormentar com o ruído da água escorrendo. Digo “ok” e você pensa que tudo que eu disse são maneiras de isolar as rachaduras em sua bolha. Você diz para mim e para si que gozar dentro da vagina, afinal, é o motivo de tudo isso – fica mais tranquilo porque invés de discordar eu apenas olho para o outro lado enquanto acendo meu primeiro cigarro do dia. Seus amigos lhe dizem que é impressionante como eu bebo vodka pura no bico da garrafa – e você acha que eu não tenho jeito mesmo. Nas suas orações antes de dormir, Deus te revela que talvez tenha começado a se sentir chateado com a humanidade – não dispense a palavra arrependimento. Leonard Cohen saiu para almoçar, para sempre! No final, todo mundo vai pensar que poesia é só uma maneira de enfeitar palavras, impressionar os outros e continuar vivo e se lamentando. Por isso, role ribanceira abaixo dentro de sua bolha com os índios do Indiana Jones desejando sua carne fofinha entre os dentes!
......Desligo o telefone pelo simples motivo que odeio telefones e gostaria que todos esses aparelhos boiassem no caldeirão do diabo no inferno! Minha editora diz que “o sr. deveria começar a respeitar os prazos e assinar os contratos ao invés de fazer piadinhas irônicas sobre ser analfabeto e ter fobia de gente – já estamos perdendo nossa preciosa paciência com você”. Deus, em cima de sua nuvem dourada e voadora – que roubou do Goku – dá uma rasante sobre a janela do meu quarto, mas não faz contato. Deixei claro que tipos como eu não podem ter sorte na vida e trocaram a fé por queijo e mortadela. Sorte e Fé deixam o cara parecendo um boneco de posto de gasolina – dançando no ar.
......Pouco antes de esquecer tudo isso, penso no quanto você reclama da solidão como se ela fosse uma praga – e não percebe o ouro e diamante que se alojam no fundo de sua caverna/mina. Quando passava pela ilha das sereias que enfeitiçam os marinheiros os arrastando para o fundo do mar, Odisseu não tapou os ouvidos, embora pedisse para seus companheiros que lhe amarrassem no mastro do navio. Ele queria passar por aquela experiência de risco! Você pode pensar que eu sou o Odisseu, mas a verdade é que eu sou o cafetão das sereias – sentado em um canto escuro do bar calculando o lucro com a prostituição. Mas você vai ficar bem, acredite. Se piorar melhora, nesses casos.
_ei, já que não pode ficar, desligue a porta e encoste a luz!

r.A.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Abertura para 2013 da Crimes & Ursinhos Lmtda.




......  É claro que uma porção de pessoas que me conhecem sabem que escrevo aqui muito mais como exercício do que “profissionalmente”. Isso não quer dizer, claro, que não levo isso a sério. Quer dizer que olhar para esse blog é mais ou menos como olhar para um laboratório de um “cientista maluco” que brinca dissecando a linguagem. Inclusive, eu mesmo gosto de tirar um tempo para estranhar algumas coisas que aqui estão registradas. E você iria se surpreender com a quantidade de vezes que pensei em apagar quase tudo que está aqui. Felizmente para nós, algumas pessoas que gostam dessas “peraltices” acabam impedindo que isso ocorra! Minha, digamos, “mente”, funciona mais ou menos assim: uma vez abordado um assunto – quando não é relacionado precisamente com a produção literária -, esse tema surge para mim como algo superado. Não quer dizer, de forma alguma, que esse tema não deva possuir mais inumeráveis abordagens, revisões, críticas e toda a ladainha. Quer dizer que raramente eu retomo uma “questão” até mesmo quando é “necessária”. Aprendi isso com a filosofia! A filosofia me ensinou a não fixar perspectivas, isso quer dizer que é muito raro para mim adotar aquilo que comumente alguns chamam de “posição” ou “coerência” – e cá entre nós, eu acho isso de uma preguiça e fanatismo imenso! Porque algumas pessoas, que me parecem “a maioria”, uma vez selecionando uma posição a adotar sobre determinado tema, passa a defender muito mais esse “esconderijo” que é ver o mundo com essa posição (uma lente viciada a filtrar tudo com a mesma profundidade) do que defender os pensamentos que desenvolve! Ficou complicado? Quer que eu explique? É, mas eu não vou!
......Se alguém me perguntasse agora o motivo de se pensar acompanhado da tradição filosófica, eu diria simplesmente: dissolver posições e perspectivas! O resto pode deitar fora – se tiver aprendido isso, já fez grande coisa. Me espanta tipos de escritores que avaliam sempre o mundo valendo-se de um “fundamento”, uma base, uma “leitura” – como alguns viciados dizem.  Tipo, um cara me diz que é marxista ou da teoria crítica, ou psicanalista lacaniano, eu digo: legal! Siga em frente e boa sorte. Não conseguiria dizer que sou fixado em uma perspectiva – porque seria falta de sinceridade da minha parte, nesse assunto. Pense só o que acho um atraso: alguém dizer “você não pode pensar assim porque Marx disse, porque Jesus disse, porque determinada teoria da psicologia disse”, etc. Ora, como assim VOCÊ NÃO PODE? E o lado irônico disso tudo, é que esbarrei em mais gente assim do que em pastores de igreja! Quer dizer, cruzei mais dogmáticos – justamente com alguns dos textos deste blog – que se valiam da alcunha de “pesquisadores” do que com religiosos. Também houve momentos em que me vi debatendo com bobalhões que me cobravam justamente METODOLOGIA – poxa vida, nada mais anti-filosófico do que uma metodologia forçada!  Particularmente gosto de ver como sociólogos e historiadores metem os pés pelas mãos se valendo disso – não todos, é claro, só os “monges copistas”.  Mas até esses debates, hoje, significam pouco para mim – um psicanalista diria agora “a-rá, se não significa porque falou?” e eu diria:_ será que Freud sabia empinar pipa?- capaz do cara ainda me sair com data, hora e testemunhas de que Freud não sabia! (risos).
......Talvez, você que está lendo essa linha agora, possa estar curioso sobre os motivos que me levaram a falar todas essas coisas e com respeito a você eu diria que acho bastante importante você entender um pouco sobre como pensa este que teceu esses textos. Você, talvez leia coisas nesse blog que não vão nem ao encontro do que acabo de relatar aqui. Mas não poderá dizer que não foi avisado! Talvez ainda, você pense: mas porque uma explicação dessas tão longa só para mim? E se pensar assim, vai descobrir que existem vários “vocês” olhando para a palavra “você” e este blog – já que possuí um rastreador de entradas – apresenta que mensalmente (no mínimo) 300 pessoas passam por ele. Agora deixe-me lhe segredar uma coisinha, também posso rastrear algumas visitas que fizeram login no e-mail. Mas fica aqui, só entre mim e você. Creio que assim você entende um pouco de minha preocupação em esclarecer algumas coisas. Mas veja só.
......Aqui você não vai encontrar uma pessoa que vive a lisonjear a si mesmo ou confeccionar confetes e brilhantinas para jogar sobre a própria cabeça. Também não vai encontrar algo do tipo: como inflo meu ego em 4 partes.  Quem te escreve é um cara bem simples que não almeja nada além de algumas desajeitadas palavras e uns sarros arrogantes – sim, eu sou ao mesmo tempo medíocre e arrogante, por mais incoerente que pareça. Assim, acho que podemos encerrar. Se você gostar e se esforçar um pouco, talvez encontre alguma coisa que possa lhe vir a calhar por aqui, nessas palavrinhas vermelhas nesse fundo escuro. Caso contrário, tá tudo bem também, talvez você seja mais feliz batendo palma para o sol – acredite, tem gente que faz isso e depois o dia se revela muito mais positivo. Mas por fim entenda que eu não gosto de (99,999%) jornalistas – porque eles são uns merdas que parabenizam seus jornais como putas após receber uns trocados ou um pouco de atenção -, não gosto de ninguém que esteja acorrentado a posições, autores, - partidos políticos me dão náusea - , e nem gosto de gente que acha que se envolver em movimentos que juram salvar o mundo lhe garantem uma “lavagem moral”. Eu gosto de meia dúzia – não mais – de filósofos, de Bukowski e acredito no cruzado de direita do Henry Miller enquanto simpatizo com Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos. Me encanta Goya, Van Gogh, Modigliani, Picasso e Joseph Beuys – embora eu pense que todo artista é um merdinha querendo se mostrar!. Sinto necessidade do blues, quatro ou cinco bandas de rock (e se você falar mal de Kurt Cobain ou Jim Morrison vai descobrir que sua presença me irrita), e quase tudo da música clássica. No fundo eu não gosto de música, mas alguns safados me pegaram com vida. E se você fingir que gosta de alguma coisa que eu gosto para me puxar o saco, eu vou pregar uma foto sua no meu mural da vergonha – e eu tenho um, porque sou excêntrico e marginal (e vou perseguir você até que se entregue). No meu mundo cigarro faz bem para a saúde e a ironia acompanhada do gancho de direita (como segunda opção) tornam a vida suportável. Tem gente que pensa que eu deveria aprender a dizer o que todo mundo quer ouvir, dar presentes para os vizinhos, oferecer jantares esporadicamente enquanto desabafamos sobre o trabalho ou contamos piadinhas que todo mundo sabe – e rimos por educação (adestramento )-, e eu até poderia apresentar à você essas pessoas - você poderia vir aqui em casa para visitar seus cadáveres amontoados no meu porão!
......Você pode estar pensando agora que a única diferença entre eu e você é que a mulher não manda em mim. E que se preso numa chave de braço, eu não bato – porque eu sei que o outro idiota solta. Mas é assim mesmo. Seja bem vindo.
  

r.A.                                                                                

P.s.: A primeira regra sobre o blog Crimes e Ursinhos lmtda, é que você não fala com idiotas sobre ele. A segunda regra do blog Crimes e ursinhos lmtda, é que você NÃO FALA COM IDIOTAS sobre ele. Apenas duas pessoas lutando, você e o texto, e as lutas duram o quanto tiverem de durar – Fica tranquilo, isso é uma piada! Não leve isso a sério, seu boboca.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Molière não era um monge?




......Sentado dentro de uma lanchonete tive um insight sobre a condição do mundo: um apocalipse zumbi! Só que a trilha sonora é pagode e ao invés de uma fotografia melancólica, como de costume em filmes góticos, um carnaval de cores. E talvez no lugar de zumbis, se arrastam fantasias da Disneylândia! Mas sem dúvidas, o miolo é de morto-vivo. No lugar de rifles e pistolas, você tem de sacar do coldre olhares de “caí fora!” e frases de ironia debochada. De qualquer forma, a gente sobrevive porque não tem certeza se do outro lado da vida a cerveja é tão gelada!  Eu ouço o mundo e ele me diz “poxa vida, eu estou cansado”- e escora a cabeça com a mão trêmula. Aqui está um homem que entende os lamentos do mundo, que sabe por que de vez em outra ele se sacode feito cachorro para se livrar das sarnas e das pulgas. Ele está com febre enquanto uma grande parte do povo bebe a poção dos ursinhos Gummi e sai saltitando sorridente atrás de algum trio elétrico imaginário. Você não está entendendo do que eu estou falando? Ok. Vou começar outra vez.
......39 graus em São Paulo. Se eu tivesse dormido de verdade, poderíamos dizer que acabei de despertar. Mas na verdade estava  arrastando meu enorme e gordo corpo dentro de casa como se fosse uma lesma preta que alguém atirou sal. Molhava o rosto no banheiro a cada meia hora. Vinha de sete dias de folga, sete dias de festa. Você sabe como é uma ressaca em uma tarde no deserto? Na pia da cozinha, os restos de comida estavam tentando reconstruir a torre de babel. Olhei para as louças e disse:_ vocês ainda estão aí?- Fiz cara de indignado, mas elas não se ofenderam. Parecia que estavam se divertindo da maneira delas. “Se virem que o papai tá doente”. Abri a geladeira para não pegar nada e acabei por sentar no chão e contemplar uma cebola que descansava sob um pires. Alguém empurrou um envelope por baixo da porta do apartamento. Da cozinha consegui me esticar e pegar o envelope no corredor. “Prezado sr. Adriano Maranello Jr. Compareça na faculdade de Belas Artes para  entrevista de emprego na tarde de Quinta-feira (23/11) às 16:30 horas. Trazer documentos”. Achei engraçado... nunca vi “noite” às 16 horas. Tinha uma assinatura que não consegui ler. Deduzi que quem foi assinar a carta deve ter escorregado numa casca de banana e voado por sobre o papel. Era isso ou sofria de convulsões.
......Brandi o punho cheio de ódio para o chuveiro. Posicionava a chave em “desligado”, mas a água estava boa para um cafezinho. Pensei em tachos de ferro fervendo água para pelar suínos recém abatidos. Comparada com a água do chuveiro os suínos estavam bebendo drinks na beira da piscina – na ilha de Caras. Me sequei pensando no inferno com um monte de diabinhas acenando para mim.  
_como faço para chegar em Vila Mariana?- perguntei para o guarda do metrô. Um senhor magricela com uniforme preto e botinas. Disse e sorriu com um bigodinho safado encharcado de suor:_é só pegar o metrô sentido Vila Mariana, he he he!
_...é que marquei com umas garotas para fazer uma festinha numa piscina de sorvete. Vamos rolar no sorvete nesse calor! Vamos nos agarrar de maneira tarada e se esfregar no sorvete! Vai ser uma loucura! Imagine o senhor, garotas jovens e sexys, passando sorvete pelo corpo, todas assanhadas e nenhuma afim de engraçadinhos! Pense o senhor aí, trabalhando nesse calorão até as seis... é uma pena! As horas não passando... o calor distorcendo o olhar... às horas não passando, a botina apertando o pé encima de um velho calo...garotas sexys rolando no sorvete e as horas com minutos eternos... tenha uma boa e looooooonga tarde!
......O metrô que comumente é cheio, estava vazio. Poucos gatos pingados se abanando e correndo como baratas tontas. Todos atormentados pelo calor. O metal dos trilhos rangia como uma multidão de almas clamando desesperadas pelo fim. Tive de consultar o mapa do metrô para saber em que rua sair quando chegasse à estação. Peguei no bolso do calção uma folha de caderno que sempre trago junto para possíveis anotações inúteis. Meu cérebro é velho, ele precisa disso. Às vezes esqueço até do meu nome. Anotei cuidadosamente o mapa das ruas em que teria que descer para chegar até a tal faculdade. Garotas no sorvete, digo, Belas Artes – não deixa de ser. Embaixo da terra é úmido e um vento frio sopra dos túneis. A porta do vagão se abre e eu corro para debaixo do ar condicionado. Minha mente que é doente, sempre imagina como é cair no vão do vagão e ser destripado. O metrô vai rapidamente de uma estação a outra e um senhor de terno e com uma pastinha de couro tem a mesma ideia que eu e corre para esfriar a careca embaixo do ar. Deve estar fritando naquele terno, pensei. Vejo o reflexo do meu rosto no vidro. Escorre suor. Passo a mão no rosto e enxugo no calção. Ficam as marcas dos meus dedos grossos e minha mão pesada no jeans. Uma voz feminina fala dentro de umas caixinhas de som “próxima esta-ção...Vila Tzchzzz...Desem-bar-que-pelo-tczhshshz-do...rem”. Morreu, só pode. Deve ter fritado dentro de alguma salinha. Encontrarão um cadáver de mulher agarrada a um microfone. Perdemos uma camarada!
......Preciso da rua General sei lá do que. Consulto minhas anotações e está uma droga úmida por causa do suor dentro do bolso. Ando de um lado para outro no sol escaldante. O lugar é certamente vila Mariana: Deduzi sozinho pelo simples motivo de cruzar um letreiro gigante escrito “bem vindo a...” – o resto você sabe. Uma longa avenida de quatro pistas. Saio próximo a um terminal de ônibus. O terminal que consigo ver parcialmente -porque a outra parte está oculta atrás de um prédio alto-, está abarrotado de carrinhos de picolé e sorvete. Alguém mais doente do que eu grita “olha o milho verde”. É, um milho verde cai muito bem neste inferno! A calçada cinza, brilha até fazer meus olhos doerem. Do chão brota um mormaço que sinto nas canelas. Paro. Um negro de dois metros de altura, careca e de tênis de jogar basquete esta comendo salgadinho de bacon do meu lado. DE BACON! Estamos esperando o sinal de trânsito abrir para atravessar a enorme avenida. “crec,crec,crec,crec,crec”. Se você jogasse um ovo cru no asfalto ele nem fritaria, possivelmente explodiria! O cara olha para mim com a boca cheia de salgadinho e sorri. Viro minha cabeça em sua direção como se fosse à menina do filme O exorcista.
_isso aí deve estar uma maravilha! – digo. – Ele oferece. Recuso chacoalhando as mãos em sinal de absurdo. Ele continua sorrindo. “crec,crec,crec,crec,crec,crec”. Penso em lhe perguntar se conhece a rua que procuro, mas o sinal abre e ele atravessa correndo na faixa. Feliz. Saltitante. Com a boca cheia de salgadinho de bacon. Esse cara aí se odeia!
......Ganho o outro lado da avenida. Pelo menos os prédios altos fazem sombra na calçada. Aperto os olhos para ver a hora em um relógio fixo no alto de um prédio e percebo que esqueci meus óculos. No meu lado esquerdo, estacionado, um táxi. A) peço informação e se o taxista se recusar b) preciso pagar uma corrida mesmo estando umas cinco quadras da faculdade. Estico meu pescoço grosso pela janela do táxi.
_por gentileza... uma informação. O senhor sabe onde fica a faculdade de Belas Artes?
...... Um japonês com cabelos grisalhos, boca meio murcha e meio sorridente começa a me explicar com uma voz aguda. “sabe essa rua aqui à esquerda?” – Sei – “então garoto pega a esquerda e segue rua reto. Cruza um sinal”. – Sei- “rua maluca, tudo curva. Cheia de entradas e saídas. Seguir reto”. – Sei- “seguir reto até final da rua. Pegar esquerda no alto. Seguir reto esquerda e dobrar direita mais uma vez. Ver faculdade no esquina da direita” – Sei...- Sei bosta nenhuma! Entro a esquerda na rua que atravessa a avenida e apuro o passo. Japonês maluco... agora sei porque vocês espatifavam seus aviões contra os navios na segunda guerra! Provavelmente recrutaram taxistas! “Pega direita e segue ligeiro até ver navio, hay?”.
......Sigo pela rua. Os edifícios altos dão lugar para mansões de luxo. Mansões de luxo com amplo jardim em frente e sempre um cachorrão cagando na calçada interna e mostrando os dentes para você. O calor faz o cheiro do cocô do cachorro se misturar ao mormaço do asfalto. A rua deserta. O sol implacável! Nenhuma sombra. Caminho meio quilómetro entre mansões e ruas vazias e becos vazios. Nada de esquerda no alto. Só ladeiras. Saio em uma rua de esquina e começo a ver um grande aglomerado de pessoas. Parece ser um pub. Um casarão com uma enorme vidraça na frente e dos lados. Muitas mesas de madeira com sombrinhas sobre elas. Todas as mesas estão lotadas de gente rindo e conversando alto. São acadêmicos, certamente! Como sei? Pelas roupas. “Limpos-sujos”. Deixe lhe explicar como isso funciona.
......Limpos-sujos são sujeitos com cabelo desgrenhado, emprastado, maloqueiro, mas cheirando creme – dá para sentir o cheiro de longe! Tênis rasgado ou tingido, meio gasto, mas importado e caro. Não entendo muito de tênis. Apenas tenho uma estranha impressão de que servem para proteger o seu pé. Mas quando as pessoas olham para você e olham para o tênis e voltam a olhar para você novamente com um sorriso idiota no canto da boca mais idiota ainda, você entende que esses sujeitos estão usando tênis caros. Calças com aparência de suja, mas fedendo amaciante! Óculos escuro para escorar o cabelo. Mochilas com aparência de acampamento, mas murcha porque só tem um i-pod e uns chaveiros de pindurico. Livro no sovaco – Caio F., Clarice Lispector ou manifesto do partido comunista, Rimbaud por ele mesmo, biografia do Chê Guevara, e os mais ousados: Nietzsche – qualquer um com a foto bem grande do Nietzsche bigodudo e com cara de enlouquecido. Nos braços, tatuagem, geralmente tribal. Nas orelhas, alargadores da cor dos teletubies. Cara de quem não dormiu, mas a ausência de olheiras não mente! Cigarro na forquilha do dedo, mas não fumam, é só um adorno. Pulseiras – muitas e coloridas, aceitável para menininhas de onze anos. Camiseta de alguma banda de rock com o diabo por símbolo ou flanela (quando não a velha estampa do Chê Guevara, comprada em algum shopping). Óculos da vovó, mas sem lente de grau. E principalmente: rindo em câmera lenta com a boca escancarada e olhando para todos os lados para ver se alguém notou sua felicidade...quando riem, é como se uma torrente escura jorrasse de suas bocas e se lançasse sobre você como uma pestilência... no final do riso um “podes crê”. As “mina” de calção e de botas, ou saia de hippie e brinco de artesanato. E todo mundo caminha como se fosse a Lady Gaga – sem exceções! Ninguém manca, ninguém arrasta os pés, ninguém assoa o nariz ou coça o ouvido. Todos possuem corpos demasiadamente confortáveis! São tipo almofadas embaixo do ventilador! Se eu disser que as mulheres se vestem de putas, mas ficam bravas se te pegam olhando para lugares desnudos, você provavelmente vai dizer: como assim colega? Queria que as mulheres usassem burca? Então faz de conta que eu não disse isso e segue a vida.
...... Tai, achei a faculdade!
......Quanto mais penetrava na rua da faculdade, mais pubs, lanchonetes e bares. Lotados. Mesas na calçada, acadêmicos passando a tarde toda em volta de um litro de coca, feitos moscas no estrume – e os mais ousados, do lado de uma cerveja litrão! – só que o brilho nos olhos deles não me engana, eles queriam estar tomando todinho! Uma cerveja sobre a mesa para dezenove caras sujos-limpos! O importante é a conversa com a galera, só que não. Eles não conversam. Eles relatam seus pequenos dramas de como não conseguiram escrever uma redação ou como seus pais não lhes entendem! 
“Podes crêr?” – Podi creeeeeemalandro! “Um cara maltratou um cachorrinho...mas que covardia! Que barbárie! Podi crê? Podissssssssssscreeeeeeeeeeeeeeemalandro”. Isso tudo e um violão. Sempre o maldito violão! Nada contra violões, adoro violão! Mas assim não.
......Paro embaixo do sombreiro de um restaurante para fumar um cigarro e refletir mais um pouco sobre tudo que vi em menos de três quadras da faculdade. Existe um tratado sociológico sobre esse povo todo das faculdades? – Pior é que não! Reflito entre baforadas do meu cigarro e pingos de suor, sobre alguns detalhes interessantes. Fora os assuntos intelectuais e os jovens jogados no chão – alguém disse para os adolescentes que se atirar ao chão faz bem para o style -, também existe a oposição aos “limpos-sujos” e estes são os “fortinho-voz de mulher- garotão putão” ! Acredite, é uma verdadeira luta de classes! Para eles, aparentemente, os “limpos-sujos” são a classe: Mamãe quero ser mendigo! Os fortinhos, na oposição, tratam de malhar para ficar com braço de Popeye e perna de Olívia Palito – inclusive a voz deles lembra a Olivia Palito. A ideia deles é, como eles dizem: “pegar molieres e comer bocetas” – sim, eles falam desse jeito porque a bomba atrofiou a parte do cérebro responsável pela gramática. Isto os deixa em grau de igualdade mental para com os “limpos-sujos”, já que nestes a maconha destruiu a parte do cérebro responsável pela coerência gramatical – sóóóóóóóóóóóóó! Nos dois casos os alicerces são um outro tipo – praticamente um objetivo: “Mulheres Tatu”. Mulher Tatu, para quem não é iniciado no assunto (Aqui só entra quem souber geometria), nada mais é do que um tipo de mulher que se tiver um homem deitado no chão de bruços, ela cava um buraco para deitar embaixo! Este tipo – não diagnosticado pela sociologia séria- migra dos fortinhos para os limpos-sujos e eles, os limpos-sujos e os fortinhos, pensam que elas fazem isso porque ou são fortinhos ou limpos sujos, mas na verdade tudo que elas querem é cavar! Fim do cigarro.
......Sigo andando. Passo pelo primeiro pub. Contorno umas mesas para não ter que andar pelo asfalto. Todos me olham. Devo estar cagado, é isso! Atravesso a rua e já estou em frente a uma lanchonete. Ali que está o violão! E um litro de coca-cola. “Virando as costas para a américa latina”. Ouço o vigésimo  “Pode crêr?”. Alguma coisa em mim se contorce. Algo em mim se arrepia! Sigo andando. Mais um bar. Todos em silêncio. Uma musiquinha indiana, bem baixinha, no fundo. Deve ser a galera que bate palma para o sol. Escuto meia conversa: “já ouviu aquele disco dos mamutis, tudo foi feito pelo meu pau de óculos? – já sim, podi creeeeeeeeeeemalando”. Oh não, penso. Não mereço isso! Sou um cara legal – pergunte ao finado Kurt se tem dúvidas quanto a isso -, essa gente faz o seus ouvidos sangrarem!
......Na frente da faculdade – Jesus me chicoteie! A coisa estava bem pior do que eu imaginava. Tinha de tudo um pouco e um violão. Duvido que você consiga imaginar alguma coisa que não tinha ali no meio! Tinha de curupira à robocop! Um cara batia num tambor, outro bebia sangue de cabra, outro ainda estava num debate consigo mesmo- e estava perdendo, inclusive. Tinha um que meditava e outros três que mascavam a zorba do cara que meditava. Me chamou a atenção uma garota que conversava com um coelhinho de pelúcia: “meu amor, o Roberval é só um ladrãozinho de chocolate, eu não te traí com um canivete, deus está na sol e no lombo da mula”. Pulemos esse parágrafo, sim?
......Abri caminho entre os acadêmicos. Por incrível que pareça, estava apenas 30 minutos atrasado. Um cara perto da porta da faculdade, sentado sobre um tapete marrom com as siglas “FBA” olha para mim. Com a mão na porta eu paro e o encaro. Sujeito raquítico, cabeludo – mas o cabelinho teve visitinha com hora marcada no cabeleireiro -, camisa preta com estampa de uma aranha branca no centro. Noto que o cara está sentando em cima de um skate – lixando o rabo? Permanecemos ali, nos encarando. Começo a me sentir meio ridículo e forço a porta para entrar.
_você é capitalista brow!- Diz o cara e maneia a cabeça para ajeitar o cabelinho e o cérebro pegar no tranco. Coça o nariz grande. – você é capitalista e contribui todos os dias para engordar o monstro que é o sistema, brow! Você é alienado cara, você precisa abrir a sua mente, brow.
_é.- Respondo. Empurro o skate com o pé e nem me viro para ver o “brow” se arrastando uns metros pelo tapete. Não posso acreditar que esse tipo de coisa me dirige a palavra. São esses caras que deixam o mundo doente, mas juram que vão melhorá-lo. Não consigo imaginar esse tipo de gente pagando as contas numa fila do banco. Não consigo visualizar um cara desses lavando a própria roupa ou cuidando de um filho. É impossível acreditar que essa gente que repete essas palavras consigam limpar a bunda sozinhos depois de cagar – provavelmente cagam e gritam “manhé, vem me limpar porque o sistema é foda!” e aí saem tudo meio cagado para fazer o movimento. Mas eles repetem um mantra como se fossem sapos preguiçosos numa lagoa esperando a comida entrar dentro de suas bocas. Não tem nada a ver com o cabelo, com o skate ou com a camisa. Estou pouco ligando para essas coisas, mas as merdas que essa gente diz... revela o quão oco é o crânio!
......Me dirijo até um balcão de informações. Logo na entrada, do lado esquerdo, funciona dentro da faculdade um café. Olho uma turma bem vestida e presumo serem professores ou algo pior. A faculdade é maior pelo lado de dentro do que aparentava pela fachada. Toda marrom por fora e branco reluzente por dentro. Sim, parecia um kinder-ovo com bosta no lugar da surpresa. Mas até que cheirava bem – a faculdade no caso, não a bosta.
...... Uma garota bem vestida, olhos claros, cabelo vermelho e brincos de pérolas (certamente falsas) me pergunta no que ela pode me ajudar. Penso em várias coisas no que ela poderia me ajudar. Poderia ir no mercado para mim e no açougue. Poderia escrever meus contos enquanto eu dito, poderia rachar o aluguel comigo, talvez. Poderia sussurrar calmamente no meu ouvido, em domingos entediantes, que tudo vai melhorar. Com aquela voz de atendente de telemarketing e aquele perfume de rosas, eu acreditaria por um momento. “Muito bem querida, você está certa, você tem razão em tudo, eu exagero demais. O mundo não é tão ruim e as pessoas não são tão burras quanto presumo. Tudo isso é uma provação divina ou melhor, é uma contribuição para que eu me torne uma pessoa mais dócil e preocupada com o drama existencial alheio” – eu diria. Depois andaríamos de pés descalços sobre uma grama verde ladeada por árvores em um bosque ao pôr do sol. Só faltou um lago e uns patinhos nadando dentro dele para mim imaginar! Mas fui interrompido...
_sr. no que posso lhe ajudar? – Desta vez sua voz perdeu o tom adocicado. Parecia mais uma velha pedagoga!
_Vim para uma entrevista de emprego. Deixaram essa carta embaixo da minha porta – alcancei-lhe a carta.- acho que assinei um formulário para um cargo de professor de literatura e leitura comparada...
_...hum...deixe-me consultar o sistema, por favor, aguarde – respondeu sorrindo e fez um biquinho muito sensual. Provavelmente treinou esse sorriso na frente do espelho (do motel...). Deve ter arrebentado a alma de muitos homens com esse sorriso, algumas mulheres também... hoje em dia, vai saber!
......Fico repassando na minha cabeça uma canção do Stone Temple Pilots. Crackerman, para ser mais preciso. Minha mente foi treinada para “modos de espera”. É como uma espécie de intervalo. Toca uma música e fico repassando alguma coisa que me foi dita. Neste caso, fiquei pensando sobre a palavra “sistema”. Agora que a atendente vai consultar o sistema, será que vai aparecer uma foto minha com uma camiseta do Exploited e os dizeres “fuck the sistem”? Fico pensando o que eu faria no lugar dela. Abriria uma página que estava minimizada no computador. Iria dizer: “aguarde mais um pouquinho” e continuaria jogando super Mário. Já estava no refrão de crackerman quando ela disse:
_não! O senhor foi chamado para uma entrevista para a vaga de segurança do campus.
......Olhei para os lados. Mais a frente havia uma catraca digital que os alunos passavam seus cartões para entrar. Junto desta catraca estavam dois seguranças parados dentro dos seus ternos. Um deles futucava o nariz, outro coçava o saco. Dois gorilões malucos com cara de nada! “O sistema é foda, parceiro”. Pensei neles me chamando de colega. “Novato, você vai passar revista nos gordinhos – ha ha ha!”.
_acho que estamos mergulhando em um equivoco! Eu não posso ser segurança, ainda mais de uma faculdade de playboys que torram o dinheiro dos pais e pensam que o centro do mundo são seus umbigos sujos! – resmunguei baixo por cima do balcão.
_também há a vaga para limpeza do campus.- Devolveu ela, com aquele sorrisinho meigo. “Você já ficou com algum segurança do campus?”. Ela fez sinal que não com a cabeça e sorriu gentilmente.
_acho que está tudo acabado entre nós, querida!- disse com um sorriso amargo e refiz o caminho por onde entrei.
......Empurrei a porta e saí para a frente da faculdade. Como lá dentro o ambiente era climatizado, recebi uma corrente de mormaço que fez meu corpo tremer. O pessoal de antes ainda estava ali na frente fazendo tudo que é tipo de babaquice, mas agora haviam mais pessoas fazendo mais babaquice por ali e um violão. Se destacava, desta vez, uma gordinha com roupa de hippie. Ela atirava uma bolinha branca para um cachorro enorme que saia correndo e babando para tudo que é lado, apanhava a bolinha e devolvia para a sua dona. Uma multidão aplaudia com cara de lobotomizados. O sujeito do skate se aproximou de mim com uma flor e estendeu. “Faça paz, não faça guerra”, disse ele. Peguei a flor e ele sorriu. Enfiei a flor na boca e mastiguei - engoli. O sujeito chorou e um cara veio correndo com uma máquina fotográfica caríssima e registrou o momento. “Vai ficar bom para uma exposição”, disse ele. Ergui o punho e ameacei dar-lhe uma chapuletada na focinheira. Correu gritando “liberdade de imprensa, chega de opressão”. Esse mundo está mais frouxo do que cueca de borracheiro, resmunguei para mim. Não vai dar para salvá-lo... ele vai ter que apodrecer mesmo.
......Acendi um cigarro e fui subindo pela rua. O sol parecia menos nervoso agora, mas o chão e as paredes ardiam em brasa por terem recebido todo aquele calor. Comecei olhar aquelas pessoas todas e fazer uma analogia com a aldeia dos Smurfs. Talvez eu fosse o cara mau que invade a aldeia para capturar os Smurfs, só que nesse caso, eu não queria capturar nenhum deles. Estava interessado na cerveja que eles escondiam no freezer daqueles pubs – e não tomavam. Como deve ser a vida dessa gente que a maior crise existencial é ter de tomar fanta porque a coca-cola perdeu o gás? Discutindo guerras do outro lado do mundo sem se dar conta do que acontece do lado dos seus apartamentos? Não deve ser tão bom assim ter uma vida financiada pelo papai e pela mamãe, discutir as divergências entre o comunismo e o anarquismo com as contas já pagas, falando de sistema capitalista e vendendo o rabo para instituições particulares, frequentando feiras de livro marginal só para fazer pose de porra louca para os coleguinhas de vida ganha, acender um baseado para dizer: olha como eu sou rebeldinho! Viver uma vida elogiando o próprio rabo fedorento é não ter consciência nenhuma sobre o mundo! Amanhã vai ser esse monte de merda aí que vai construir o projeto da minha casa e quando abrir meu jornal, vai ser esse monte de merda aí que fabricará as notícias. Quando artistas de verdade, com sangue nos olhos, quiserem expor, terão que competir com essa fabriqueta de bosta e muitas vezes perderão porque não tem grana para comprar uma exposição – mas não perderão a arte, e isso é o que importa. E ainda tem os que fazem elogio de entrar nesse jogo com “certa malícia”, esses tinham que levar um murro no meio da cara! Eu conheço essa história de entrar no jogo com certa malícia, esses que dizem isso passam as horas vagas coçando o cu num serrote e depois fundam coletivos! Melhor parar de me importar com esses pompomzinhos e sentar para me refrescar um pouco, concluí. Porque no fundo, esse lixo todo só faz sentido para outro monte de lixo! Prestigiar, como dizem, essa corja de frouxos é assoviar o abc pelo rabo e bater palma imitando uma foca, achando ser grande coisa.
......Como não tenho certeza se a cerveja do outro lado da vida é tão gelada quanto deste lado – e o que importa é o lado de cá -, sentei dentro de uma lanchonete e mandei vir uma gelada. Quando entrei, numa mesa no fundo, estava uma multidão que sentava em outras mesas. Encarei-os com um olhar de “quero que caiam fora daqui” – funcionou! Primeiro me senti absurdamente idiota por ter vindo até esse lado da cidade. Depois sorri com a boca cheia de cerveja enquanto pensava em várias piadas que presenciei deste lado. “Cinco mangos por uma long neck? Que hora as putas sobem na mesa para fazer o strip?” – disse para o atendente. Ele riu. Eles sempre riem. Corte os pulsos em um bar ou aponte uma pistola para o atendente, ele ri que se mija!
_cobramos caro porque esses playboys babacas não consomem e o aluguel do ponto é caro! – Respondeu o atendente da lanchonete mal abrindo a boca. Era um velho de boina azul e um bigode branco manchado de amarelo por causa do habito de soltar a fumaça do cigarro pelo nariz.
_A gente bebe para afogar reclamações inúteis, amigo. – respondi arrancando o rótulo da cerveja. “Aí está um dos meus” – disse ele. “Um profissional” – Acrescentou. Os alcoólatras formam uma irmandade como os maçons. A diferença está no toque secreto, que na verdade é um comentário irônico e debochado sobre tudo.
......“Notei que você não é daqui” – disse e prosseguiu: “sua camisa, tem gola e bolso na frente”. Resumindo: camisa de careta! Podi crê!
_esqueci de colocar minha carteira de trabalho e um pente no bolso da frente! – Devolvi. “Você é um cara legal” – Falou quando conseguiu conter o riso. As outras duas cervejas foram por conta da casa.
......Dois caras conversavam do lado de fora. Fortinhos com a voz da Olívia Palito. “Brow, meu negócio não é estudar, meu negócio é molieres e bocetas, podi crê?”. Bati com a garrafa no vidro que nos apartava- bati para chamar-lhes a atenção. “Molière não era um monge?” – Gritei para os caras do lado de fora . Fitaram meus olhos como se eu fosse algum tipo de retardado. Quanto a mim, olhei de volta como se eles é que fossem os maiores retardados que vi na vida. Ficamos quites. Levantaram e saíram. Paguei minhas cervejas e voltei cambaleando para casa. Mas antes, durante meu último gole, tive um insight sobre a condição do mundo. Definitivamente é muito bom saber que nascemos todos apartados... para sempre.
......Agora você entendeu do que eu estou falando? Espero que sim, pois não há mais tempo nem saco para começar outra vez.


r.A.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Da convicção ao fanatísmo...





......Um dia um amigo disse não ter mais fôlego nem para um haikai, achei um exagero, mas me calei pensando sobre isso. Hoje constato que não é um exagero... e que realmente quem leva as palavras a sério tende a passar por isso. Outro dia outro amigo me disse em uma conversa de corredor que perdeu seus motivos para escrever... Tentei persuadi-lo a prosseguir e ao mesmo tempo em que ele me disse “não quero”, percebi que estava persuadindo a mim mesmo – no fundo, nos dois casos persuadira a mim mesmo. Assim compreendo que ser professor é algo que requer uma afiada crítica a si mesmo! – Produzir, definitivamente não é o “canal”. Obrigar os outros a produzir quando não desejam é um imperativo de idiotas!
......Agora, depois de uma senhora golada de conhaque, ouvindo apenas o som da chuva enquanto aceito minha insônia de três dias, penso estar fisiologicamente equipado para escrever algumas linhas a sério sobre o assunto.
......Para mim, o sucesso de um idiota está intimamente vinculado a capacidade de falar com convicção! – esse pensamento também está vinculado a uma discussão com outro amigo, um filósofo. Os fanáticos adoram quem fala com convicção! Elegem como “os seus”. É fácil ilustrar isso com exemplos humanos, basta pensar no nazismo.  A “quase” insuportável experiência de encarar a dúvida, de titubear entre incertezas que partem em mil pedaços o espírito, é a mãe e pai do fanático. O fanático e o convicto partilham do mesmo temor da incerteza... sintoma do percurso pela modernidade – eu diria.
......Me parece que Nietzsche situado na passagem moderno – contemporâneo estava dizendo: olha cambada, vocês perderam a capacidade de crer nas certezas. Depois disso, terão que convir que será necessário alimentar o vigor de pensamento sem se entregar a preguiça! Pois isso será uma luta diária. Mas quem ouviu? Foi preciso 150 anos para aparecer um que outro “gato pingado”. Nietzsche deixou a bola quicando para aparecer outro e chutar para o gol. E apareceu, de maneira quase inacreditável, mas apareceu. Foi preciso outro que levasse as palavras a sério e estivesse fisiologicamente tão fodido quanto Nietzsche – e só encarasse a filosofia como exercício para a vida que algumas vezes deve ser abandonada (a filosofia), pois é apenas “formação”, para tascar esse chute impiedoso...- e falo de Cioran.
......Cioran pegou no ato a idiotice do fanatismo. Essa idiotice, encarnada nas células, diz que no fundo – bem profundamente – o fanático põem em movimento ideias neutras, mas desesperado, as põem em movimento valendo-se da obsessão! “Morrendo convicto de algo, também mata em nome da mesma convicção”. É aí que começam “as farsas sangrentas”.
...... Idiota, por definição, é aquele que não consegue ir para além de si mesmo. Mas! Há um outro tipo de idiotice não diagnosticada. O idiota perigoso, o mais perigoso, eu diria. O idiota que não consegue ir para além da massa. Invés de dizer “eu”, ele diz “nós”. Porém, quando diz “nós”, em momento algum está dizendo grupo, está dizendo “eu” convicto, afirmando minhas convicções a fim de persuadir “vocês”. Não dissociando o “eu” – e minhas taras – do “vocês” – e suas possíveis singularidades. Esse tipo de idiota se apresenta de maneira muito clara quando falsamente compondo um grupo. Ele larga suas convicções – psicologicamente falando, bastante psicopata- sabendo que os ingênuos irão acatar porque imbuídos do “gen” do fanatismo. E justifica essa ação negando a si mesmo e dizendo: não! Veja bem, é uma decisão de um coletivo! Ele ganha esse coletivo com microfísicas estratégias, que vão da lisonja até a justificação pseudo-histórica-social. Um filósofo saca esse tipo na primeira aparição! Mas a massa, não. É seduzida por palavras e gestos que fingem ser coerentes para quem não se atem aos detalhes. É perigoso porque requer uma sensibilidade muito singular de quem o ouve e vê, requer um nível de compreensão da idiotice não diagnosticada. Se você quer um exemplo claro eu lhe proporciono, é o idiota que jura amor eterno pelo social e diz: vão! Vão à luta! – mas você ouve um “vamos”. É que o seu ouvido está entupido, talvez...
......Eu sei disso porque como disse no primeiro parágrafo, fui esse tipo de idiota. Mas a autocrítica de mim mesmo, minha rigorosa razão não me permite passar ileso a “eu” mesmo. Racionalmente, de forma argumentativa, é muito fácil fazer isso. Basta evitar a falta de coerência consigo mesmo. Isso não está no plano lógico geral, está no plano lógico pessoal. No fundo somos muito patéticos quando nos valemos unicamente da gramática! Existe um olhar muito mais profundo quando nos atemos a ser “secretários de nossas próprias angústias”. Um secretário sabe quando o seu chefe está de blefe! Porque ele é parte interessada no ócio – lembrando Cioran, desta vez.
......Mas agora, apresentado os conceitos, é preciso apresentar uma interpretação – no meu caso, nunca uma convicção – já que estamos falando filosoficamente à sério. Se você me perguntasse sobre os limites entre a convicção e o fanatismo, eu responderia da seguinte forma:
...... “Convicto é o bunda mole, tanga frouxa, maricona medrosa, que precisa convencer os outros para alimentar a farsa enquanto ideia daquilo que sempre necessitará dos outros para alimentar enquanto tara degenerada, capricho de quem elogia o coletivo enquanto estratégia: porque sente nojo no fundo. Fanático é o pateta sem rigor para consigo mesmo que incapaz de encarar uma incerteza – como o convicto – abraça um imperativo de massa afim de dar algum sentido para sua vida fisiologicamente hiperativa, porém, carente de sentido - uma vez que a vida é um exercício de mudar constantemente de sentido e isso requer uma maturidade estética – enquanto perspectiva. O limite é a reação de complementariedade que usa como cimento o RECALQUE”.
......Quanto a isso, eu diria até onde meu intelecto alcança, que falta definitivamente uma compreensão sócio-histórica sobre a humanidade, o que quer dizer que não somos plenamente moldados segundo relações sociais e nem segundo princípios individuais (menos ainda por “determinações históricas”). Quem afirma “um” em detrimento de “outro”, só pode ser um ingénuo ou um mal intencionado. Portanto escolha! E se, até os grandes da tradição lógica no quesito linguagem – e cito Wittgenstein entre esses – abandonaram essa “punhetagem” lógica em relação à coerência se deram conta que posicionamento coerente em relação à linguagem “caducou”, já temos conteúdo suficiente para não sermos um tipo ou outro de idiotas. Aqui cabe uma nota: Muita gente acha que Wittgenstein foi um gênio da linguagem (inclusive eu), mas ao chegar a constatar que a linguagem é definida por “jogos de linguagem” – corrigindo sua filosofia anterior que dizia serem “figurações do caso”-, não fez mais do que os sofistas na antiguidade.
......Sinceramente, Cioran e Nietzsche apenas endossaram seus conceitos por interpretações históricas (genealogia da moral, genealogia do fanatismo)! Porque a história enquanto tradição não foi “macho” o suficiente para afirmar. Ficou na posição ridícula de afundar no seu próprio pântano! Se você pensar em Walter Benjamim nesse momento, eu largo mão de você! Seu fresco. Mereceria uma surra nesse momento! Foucault a gente guarda para discutir no bar!- mas não espere gentileza da minha parte.
......Por fim, estou grato a série de pensamentos que chegaram até mim por meio de amigos bem delimitados, bem poucos- eu diria. Foi um prazer filosofar novamente com a mente em brasa. No mais, temos muito o que pensar se quisermos – amigos.

r.A. – Fisólofo.