quinta-feira, 16 de setembro de 2010

As picuinhas musicais dos Jovens/Velhos chapecoenses (Part.I)


.....Na madrugada anterior a esta, fui convidado por outros três amigos músicos de uma banda chamada Elefante Branco, para sair. Eu que há algum tempo tenho me entrincheirado no meu estúdio (que serve tanto para tocar /estudar guitarra, como ler livros, no silêncio das madrugadas) resolvi, sabendo que a cidade estava deserta às 01:00hrs , aceitar o convite. Após passar por um dos bares assiduamente freqüentado pelos jovens roqueiros da cidade e manifestar meu protesto em relação a sentar naquele bar, fomos para outro lugar (Gosto de uma pizzaria na via gastronômica, pois ainda não descobriram ela...)– a fim de preenchê-lo com boa conversa-, para o bem de minha/nossa saúde mental.
.....No outro lugar onde nos alojamos com mais conforto e com a possibilidade de uma conversa (como um grande amigo meu sempre diz: O silêncio também é música – eu interpreto assim, nessa ocasião, “momentos de silêncio em uma conversa são musicais para os meus ouvidos”), um desses meus amigos ficou incomodado pelo fato de estar tocando sertanejo na rádio sintonizada. Disse eu que, naquele momento, isso não me incomodava. Ao que, me retrucou, citando um de meus últimos textos no blog. Foi aí que, pensando sobre isso, senti a necessidade de me fazer entender melhor quando falo de música no blog. Rememorando alguns trechos dessa importante conversa, vou apresentar agora, na seqüência, minha ideia (saibam que opinião é uma coisa que pouco me interessa, ideias são um pouco mais desenvolvidas...) em relação à problemática da música em Chapecó.
.....->deixo claro que este texto não é uma resposta aos referidos amigos que sabem quem são. São apenas ideias que achei interessantes elucidar a fim de que pensemos mais sobre isso... (Também vale dizer que é assim que acredito que se faz filosofia).
.....Em primeiro lugar, para se pensar algo como o fato de alguns milhares de jovens atualmente se deslocarem para clubes em Chapecó para ouvir um gênero chamado sertanejo universitário, é preciso ter um mínimo de senso histórico. Ou seja, dito de um modo mais claro, isso que denominam enquanto música sertaneja é o resultado de uma história da música no Brasil e influenciada pela música no mundo (isso é óbvio, mas o óbvio também precisa ser dito!). A maioria dos historiadores que leio, dizem que há uma crise do senso histórico (uns chamam de senso histórico, outros de constituição histórica crítica do sujeito, enfim, usaremos senso histórico nesse texto). Se essa é a questão sou partidário do “sim”, pois tenho visto pessoas que não conseguem se quer lembrar-se do que aconteceu em maio de 1968 – eu não estava lá, óbvio, mas é engraçado como os livros nos ajudam, parece até bruxaria...- Para refrescar o senso histórico de alguns vou apresentar uma série de fatores que devem ser relevados, ou melhor, há um rastro histórico deste gênero musical no Brasil que deve ser observado com atenção.
.....Anterior a existência de um estilo gravado (registrado em discos, gravado em estúdios) havia por volta de 1920 uma forma de se compor músicas no interior de São Paulo, um sentimento captado que se referia a uma oposição urbano-interior. Eram chamadas, de forma genérica, “modas”. Perdurava enquanto forma, nessas músicas, dueto de um instrumento denominado “viola”, e a concepção “vocal” em duetos. A característica no cantar era uma voz tenor (mais aguda) e uso acentuado de um falsete (grosso modo, forçar a voz em um tom mais agudo – falsete do italiano falsetto: tom falso; remete a um tom falso em relação à voz do cantor – mais grosso modo ainda: canta de forma não natural a sua voz comum – Isso é marca registrada no rock...). A característica dessas composições seria: Música romântica, voz triste com o objetivo de comover, porém, manifestação de dança alegre. No gênero deste mesmo, denominado caipira, poderia se notar uma saudade da terra (saídos do interior rumo à cidade), a oposição que comentei linhas acima que consistia em um engano em relação à crença de que a vida na cidade seria mais confortável. Em 1930 começaram a aparecer às primeiras músicas desse gênero gravadas em disco e difundidas como música caipira/ modas de viola; lembrem-se da famosa “viola caipira”. O salto mais relevante para chegarmos a uma, digamos, base do sertanejo universitário se daria em 1980 com a adição de outros instrumentos musicais e a mudança de uma ótica dita moralista (que eu chamaria de ressentimento do homem do campo vindo para cidade), para uma visão romântica (aqui o romântico é deturpado, romântico não mais relativo ao sentimento angustiante apaixonado, apenas referindo-se a mulher/homem) e este foi o primeiro gênero destinado as massas criado no Brasil. Passando assim, o antecessor sertanejo (sertanejo refere-se a um outro lugar geográfico, o morador do sertão, Norte/ Nordeste) a ser catalogado como “sertanejo de raiz”. Aqui, me parece que esse gênero começou a se dividir em subgêneros, a música sertaneja produzida no pós-segunda guerra. A primeira seria dita a música sertaneja autêntica do homem rural autêntico, a segunda uma forma de música “ligada à indústria cultural” (Não esqueçam esse termo, será fundamental nesse texto posteriormente), destinada por sua vez as massas. Poderíamos chamar também de sertanejo urbano. Este segundo recebe influências de ritmos do Norte e interior do Nordeste como o xaxado e baião. Nota: Sertanejo é referente ao sertão – Norte/Nordeste, Caipira ou “moda (de viola)”, relativo ao interior de São Paulo, Minas Gerais, etc...
.....Aqui faremos uma pausa para um pouco de reflexão. Até agora, o que apresentei foi concepções históricas que dão base para esse gênero denominado sertanejo universitário. Ainda não chegamos ao que realmente consiste esse tal gênero e adianto aqui que chegar a uma concepção do que consiste esse tal gênero, requer de antemão, uma contemplação que ainda não existe... Estou dizendo que precisarei fazer grandes saltos ao analisar esse gênero, no mais, para esse texto não ficar muito chato e aparentemente um mero catalogador de estilos, levantarei algumas questões. A primeira consiste no seguinte: Raul Santos Seixas (que todos que falam em rock no Brasil conhecem por Raul Seixas) tinha enquanto uma de suas propostas (digo uma, pois, para esse músico o que não faltaram foram propostas...) demonstrar o quanto o rock era similar ao baião. Citarei como exemplo o que Raul fez no VII Festival Internacional Da canção (FIC) de 1972, quando se classificou com duas canções, a de meu interesse nesse texto é “Let me sing, let me sing” (A outra canção seria “Eu sou eu e Nicori é o diabo”). Prestem atenção nisso: O rock que (na minha concepção, e acredito ser acompanhado por mais alguns...) origina-se de uma relação entre o “Folk” e o “Blues”, estilos rurais americanos, possuí no seu cerne possíveis analogias com o sertanejo raiz e romântico brasileiro. Mas aí poderiam me dizer: Mas Raul apresentou analogias entre o Baião e o Rock e não entre o sertanejo e o rock. Caso levantem essa hipótese eu lhes direi: BINGO! Falaremos disso à seguir. A primeira questão que lhes coloco é a seguinte: Vejo entre os jovens apreciadores ou músicos de rock uma negação direta ao sertanejo. Para mim não pensar que esses jovens não passam de revoltados ignorantes gostaria que revelassem à que tipo de gênero de sertanejo estão se opondo. Pois vejam bem, se o quesito for habilidade, vejo em alguns tocadores de viola caipira habilidades que superam em técnica alguns virtuosos guitarristas de metal (e todos os seus gêneros – e falo do gênero metal pois são famosos [ obviamente para eles mesmos] por se vangloriarem de técnicas complexas) –certamente não cairei aqui na contradição de opor os instrumentos (guitarra e viola), pois são coisas distintas mesmo que há um princípio similar na execução. Estou me referindo em habilidades de cada músico em seu respectivo instrumento. Se o outro quesito em jogo for erudição teórica musical, devo lembrar-lhes que muitos dos grandes músicos, literatos, filósofos, historiadores, etc, se tornaram grandes ao transgredirem as normas usuais de seus paradigmas (modelos) teóricos (erudição). Mas se por fim, a oposição se basear no quesito proposição (proposta) enquanto letra de música ,pasmem com o que vou escrever-lhes agora, Ozzy Osborne diz no inicio da canção Paranoid (composição: Iommi, Butler, Ward, Ozzy): “Finished with my woman 'cause she couldn't help me with my mind, People think I'm insane because I am frowning all the time”, traduzo de cabeça: “Terminei com minha mulher pois ela não podia me ajudar com minha mente, pessoas pensam que sou insano pois estou olhando com ira o tempo todo”. Ao que Raul, imaginemos hipotéticamente, responde no palco para platéia do FIC: “Não vim aqui tratar dos seus problemas, o seu messias ainda não chegou. Eu vim rever a moça de Ipanema e vim dizer que o sonho, o sonho terminou”. Não sentem uma intíma vontade de rir? Eu sim. Enquanto o monstro consagrado pelos roqueiros de plantão faz um chororô em relação a sua mulher, um outro músico embalado no baião responde “não vim aqui tratar dos seus problemas...”. No entanto, o que me parece mais dingo de risos é quando alguém começa a me dizer o quanto os rocks (os tais rocks) são superiores e se defrontam com uma preposição bem humorada da minha parte, como essa que acabei de apresentar, logo me respondem: Ah, mas cada um “curte o que bem quiser... e se diverte como quiser”. Mas vejam, se cada um curte o que bem quiser, embasados em que os roqueiros discutem tanto com os que gostam de sertanejo – e os menosprezam ou inferiorizam (e vice versa)? Ora, se no fim das contas a preposição é sempre generalizante? Meus amigos, a estes eu digo: Querem realmente desenvolver uma discussão digna nesse campo ou querem só ficar alugando meus ouvidos com lamentações e preconceitos estúpidos? Ainda dando espaço para algumas reflexões nessa pausa na linha de constituição histórica do sertanejo no Brasil (e expecificamente nessa cidade), recordo-me de uma ocasião no movimento /projeto Entrevero de Rock (o qual faço parte, com menor participação direta do que outrora, por motivos intímos de crença no movimento), onde se apresentou uma máxima que se dizia bem humorada, inclusive usada em algumas apresentações de bandas envolvidas, que dizia o seguinte: “Se o sertanejo é universitário o rock é Phd”. Phd, para os que não sabem, é um título de pós-doutorado, que na brincadeira da frase, pressupõe uma hierarquia superior de títulos, ou seja, um Phd possúi qualificações academicas superiores a um universitário comum. Naquele momento, admito, ri dessa piada. Hoje acho que as coisas são mais sérias. Denegrir outros não é a melhor opção de superação (imagino que o que esta em jogo na arte é a superação de si e não dos outros, imagino também que superar os outros é impossível na arte, sendo a arte a manifestação subjetiva do artista). As piadinhas são engraçadas, mas quando você faz um cartaz com uma piada e toca com ele pendurado nas suas costas, imagino que isso é muito mais sério. Se alguém acha que estou exagerando, faz os seguinte, pendura uma suástica nazista no palco e diz: é brincadeirinha! – Se o punk fez isso, como imagino que alguns devem estar pensando agora, fez por dois motivos: Provocar estéticamente nojo e não deixar que as pessoas esquecessem a barbárie que o humano já foi capaz de produzir – Há os que fizeram por ingorância,em relação a esses eu dispenso comentários nesse texto.
.....Agora, notei que o texto se tornou demasiado extenso – mas o tema é delicado, deveras-, então farei o seguinte, dividirei esse texto em duas partes. Logo postarei a segunda. Por hora, ficamos por aqui. No texto seguinte definirei três momentos do que se constitui o gênero sertanejo e por fim minha crítica. Fique bem claro, não gosto deste gênero musical e vou apresentar-lhes meus motivos, mas em suma, demonstro que não faço meras balbucias em relação a esse tema.

Continua...

r.A.

domingo, 12 de setembro de 2010

Eu sou no poema que escapa das algemas em pleno tribunal
Salto pela janela deslizando nos gritos de protesto do juiz
E grudo no céu da boca
E me esparramo na calçada

Me embalo no ronco de fome
Na barriga do mendigo
No penúltimo gole de vinho
Na ponta da chave da porta do motel.

Quando me quiserem será sempre muito tarde
Se for não, eu estreito os olhos
Evito com sucesso todas as mamães
No entanto, mostro os dentes para os cães

Venha me visitar de vez em quanto...
Mas não fique demais
Sou feito de ganchos
E pulo de cabeça no abismo

Eu sou no escape, no sorriso de fingimento sincero.
Canto sem esperanças na fronteira
Uma letra mal impressa na bula do seu remédio
Violento âncoras em madrugadas de domingo, por diversão

r.A.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

"Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo..."


.....Não sinto mais tanta vontade de escrever. O que houve? De alguma forma, sinto em algum lugar fora de mim – aquilo que se perde são palavras - , que perdi as pessoas e versa & vice. Por algumas horas pensei em Fernando Pessoa. Estava frio essa manhã e eu andava com uns poemas de Pessoa no bolso traseiro da calça jeans. As pessoas saiam correndo, perdendo o ônibus, algumas esquecendo alguma coisa, perdendo sempre : Mas que bando de perdedores! Por alguns instantes tive uma frase de efeito incrível, sabem, daquelas que imortalizam um poeta... Era mais ou menos assim (infelizmente eu esqueci a frase inteira – fodido como poeta e jebus riu lá do alto): Hã... eu aceitaria perder a vida, desde que não perdesse as palavras & o contrário sempre será válido! (Aplausos frenéticos da multidão até sangrar a palma das mãos e deslocar os pulsos).
.....Todo dia alguém vem me contar que fez alguma coisa muito boa. Sorte deles! E eu continuo procurando alguém para fazer alguma coisa boa por mim. Eu bem sei que deveria me misturar mais, conversar, olhar as pessoas nos olhos, dizer: Cara, gostei muito de uma coisa lá que você fez ______ <= Espaço para ser preenchido com alguma coisa. Mas eu tenho uma trava para falar essas coisas. Aliás, eu tenho uma trava! Eu me daria bem se eu conseguisse fazer isso. Por uma eterna e apocalíptica meia hora eu pensei sobre isso: r.A. entra em uma padaria. Senhor padeiro, eu devo admitir, gosto muito de como você diz para mim todas as manhãs “bom dia” acompanhado de um “no que posso ser-lhe útil?” Eu conheci algumas mulheres nessa minha curta vida que acordavam comigo na cama e só me pediam a hora ou diziam que precisavam ir embora. O padeiro, lisonjeado me dizia muito obrigado, você é muito gentil. Vou fazer o seguinte... tenho notado que o Sr. tem fumado demais e comprado muita cerveja. Vou lhe dar um saco de pães. Esta olhando aquela cuca ali? Ok, leve-a também. Por conta da casa. Ah, ia me esquecendo. Leve também esse dinheiro, quinhentos reais não me fará falta. Pague a mensalidade na universidade, você tem um glorioso futuro pela frente! E nós apertávamos as mãos com firmeza e empatia. Pensávamos que naquele momento conhecemos pessoas de bem. Quando eu saia, a mulher do padeiro apareceria pela cortina que separa o balcão da cozinha, com um daqueles chapéus, com luvas de plástico nas mãos e questionava ele sobre o cara manco que acabara de sair. O padeiro enxugava as lágrimas na manga da camisa e diria que lá se foi um grande poeta e filósofo.
.....Antes de voltar a pensar na diferença que consiste entre mim e Fernando Pessoa, o segundo certamente escrevia e o primeiro não, senti que o grande segredo da vida era ser gentil. Que pena... Algumas pessoas matam sorrindo, traem cantando, cagam pensando em flores, e acham que Chê Guevara foi um herói.
.....Cansado, sentei no canto de uma lanchonete para ler os poemas que trazia comigo. Pelo menos alguém que tinha vontade de escrever. Li “Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?” Retirei um cigarro do bolso. A garçonete magra, sorrindo, apontou para uma placa de proibido fumar. Cantarolei um blues e tomei meu café. Quando voltei para casa, refletindo sobre minha pouca vontade de escrever, passei pela padaria. Acenei para o padeiro e ele fingiu que não viu. Sujeitinho esperto aquele.

r.A.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

"Não há vida correta na falsa" - Theodor W. Adorno



Alguns dias se passaram até que eu desisti da ideia de escrever alguma coisa sobre arte contemporânea para terminar aquele tal “Utopia de bêbado filósofo”. Passei dias de vazio, sem nenhuma inspiração, sem a mínima vontade de pronunciar palavra alguma. Pensei: Porra será que eu morri? Soube que fraudaram uma exposição em Chapecó, digo, inventaram um curador (que nem tem formação em curadoria) para fazer uma exposição em um desses lugares falidos que se dizem lugares de cultura da já citada cidade. Pensei: Ora, se nem os artistas plásticos dessa cidade se dão ao luxo de lutar por algo descente para eles... Não tenho motivo algum para escrever algo – além do mais, li livros que são obrigatórios para qualquer acadêmico de artes visuais e curador (Archer, Cauquelin), eles leram esses mesmos livros e nada fizeram de grandioso -, os artistas dessa cidade me decepcionam (salvo os que sabem que se salvam dessa crítica)! Então para não perder esse parágrafo vou resumir assim: É óbvio para mim que quem for nessa exposição só vai ver (palavra inapropriada para essa hora...). Não vou citar aqui o lugar, mas se quiserem saber me perguntem pessoalmente (ou por depoimento no Orkut da banda Sodoma H.) que eu respondo. E, por fim, algo ficou esclarecido para mim. Em Chapecó, as pessoas deveriam tomar muitas lições de ética para talvez, um dia, desenvolverem aquilo que a linguagem mais popular denomina: Vergonha na cara.
Depois desse não “disso”, concentrei minhas energias para fazer a melhor apresentação possível para amigos muito caros a mim no café brasiliano. No começo nos enrolamos um pouco (André e eu- Sodoma H.), difícil nos acostumarmos com o ambiente (montamos nossas máquinas de fazer poesia em um lugar que dava eco) e com pessoas sentadas. Mas cada sorriso, cada olhar, cada aplauso, nos deu energia para executarmos nossos novos poemas – E outros antigos-, a propósito, só para constar: NOSSOS! Enquanto isso, em outros pontos da cidade, a velha máfia da “música” estava fincando aquela velha vitrola riscada na mente das pessoas. Há um motivo? Sim: Há quem goste! Eu sinto muito por isso, pois, há um grande número de jovens montando novas bandas para mostrar novas músicas, para renovar essa cultura empoeirada (empoleirada?) , no entanto, os que se dizem músicos e os que se dizem artistas, na sua maioria, se encontra no mata-mata (regrinha básica do capitalismo interiorizado na subjetividade de alguns...)! Como é que isso entrou na cabeça dessas figuras? Quando foi que invés de lutar por espaços começou-se lutar contra os que querem um espaço para propor algo? Esses músicos (cabeça) de cove (r), não escutam nem se quer as músicas que fazem cover? Não me recordo do Led Zeppelin, Black Sabath, Hendrix , The doors terem dito: Fechem as portas! Ganhem dinheiro nos plagiando! Interrompam a história do rock! Vocês acreditariam se eu lhes dissesse que há quem gosta de ser “banana”? Atendi o telefone no sábado de madrugada:
_Alô?
_Oi, você não vai vir aqui no “x” ver o pessoal tocar um rock?
_Sério que estão tocando aí? Que banda é?
_Não sei... Mas estão tocando Hendrix igualzinho!
_É o Jimi Hendrix?
_Claro que não né tchó!
_... Quando o Hendrix aparecer, me chame... Sinto muito, mas estou cansado, sabe, fiz música ontem, toquei minhas próprias músicas, sabe, isso requer um pouco mais do que ficar me exibindo e violando o cadáver do Hendrix...
_...
No domingo abro meus e-mails e me convidam para uma exposição. Porra, mas eu conheço esses trabalhos, são os mesmos de dois, três, quatro anos anteriores... Será que essa gente não tem vergonha de ficar de torrando o saco fazendo sempre a mesma coisa e expondo sempre a mesma coisa e ainda assim carregando crachás de artistas no lombo? Uma amiga, dia desses, disse que eu não sei conviver com a diferença. Como? É justamente a diferença que eu estou reivindicando há algum tempo!
O mesmo refrão idiota um mês, um ano, dois anos, três anos, quatro anos, na rádio mais versátil e descolada da cidade. Pensei: Porra será que eu morri e estou em um poço do inferno, aonde os que chegam, devido ao excesso de contingentes são lançados? Tudo bem, eu posso com minha banda (ou dupla, ou o que quer que seja isso...) fazer a diferença. Mas eu quero ver também outras coisas, quero assistir bandas propondo coisas, não chorando que nem uns bebês no palco ( “ai... ela não me ama... ai... vou trair ela com a nona dela... ai... eu sou um sertanejo/roqueiro/punk/cristão/filho/filha/puta/puto/etc... infeliz...”). Quando alguém me diz que estamos vivendo um caos nessa cidade eu pergunto: Diga-me uma coisa, que exposições estão acontecendo nos centros de arte dessa cidade? O que o povo anda vendo nos jornais? O que esta tocando na rádio? O que aconteceu na Efapi na última quarta-feira? Que canções esse povo anda cantando mentalmente por aí? Depois de me responderem (e se responderem) isso, se tiverem coragem mesmo para dizer que estamos em um caos, que os jovens não têm mais nenhum tipo de limite (ético, não imposto por leis e normas) eu retruco: Vai te mexer cabra! Não fica alugando minhas orelhas dizendo que estamos ferrados! Faça alguma coisa. Deve ser por isso que ninguém mais reclama – ninguém tem coragem de fazer algo. Somos reféns dos bandidos, me disse o cara do jornal às 12:15 hrs. Eu respondi ele, na mesa, para o espanto de mim mesmo: TEU CU! SOMOS REFÉNS E DE NOSSOS TRASEIROS PREGUIÇOSOS E ESTÚPIDOS! A cada dia que ficamos fuçando em sites na internet, aplaudindo toda essa montanha de lixo, toda essa pose de nada (nádegas), estamos tornando essa cidade, esses bairros, essas casas/apartamentos, nosso corpo, nossa mente, nossa alma, uma extensão do aterro sanitário. (Há um diferencial) Pelo menos lá, se enterra a merda, não se expõe para essa multidão aplaudir, para esses jornalistas explorar a ruína.
Portanto hoje, meus amigos (parece discurso político né? E no fundo, é), invés de vocês comentarem: Bom texto, parabéns, é verdade, eu penso o mesmo... Vão fazer algo a respeito disso tudo, e se serve de ponto base, saibam que eu fiz três vezes mais do que podia esse fim de semana.

r.A. – ele tá revoltadinho? Tá sim, e daí?

Nota: Leia esse como o último texto das utopias de bêbado filósofo. De agora em diante, os versos serão mais pesados.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Uma canção vagabunda

Às vezes a gente afunda na merda e vai sair do outro lado: No inferno. Quando estou no inferno é como se eu jogasse na minha mesa de sinuca favorita. Como se eu ligasse o rádio e lá estivesse começando uma de minhas canções. Como se eu estivesse procurando um babaca para xingar e do nada o babaca entra no bar com um sorriso no rosto, um rosto redondo, uma babaquice estampada no fundo dos olhos, com as mãos em posição de reza, implorando uma frase retirada da bota do capeta, daquelas que eu me destaco no momento em que tudo esta alinhado. Mas absolutamente nada disso esta acontecendo. Quem me conhece sabe que não sei jogar sinuca (felizmente para os jogadores de sinuca...) e minhas canções não tocam na rádio (não tenho nenhum talento, que droga, que lástima, que vergonha que tenho na cara). Que prefiro abaixar a cabeça para os babacas. Guardar os murros no bolso e transmutá-los em escrita não é necessariamente desperdiçá-los. Quem me conhece sabe que estas coisas estão acontecendo comigo e isso é quase o céu. Estar no céu para mim é estar cortado ao meio. Falando em escrita, quem me conhece sabe que se eu não escrevesse estaria na penitenciária. Quem certamente conseguiria me conhecer já esta lá. Se não fisicamente, pelo menos, em espírito.
Eu poderia continuar com essa retórica até amanhecer. Fingindo que sou maligno e violento. Enganaria uma boa parte desse mundo. Se não, pelo menos toda essa cidade de Faustões. Mas não me sinto muito integro comigo mesmo fazendo isso. Sei que depois da janela tem uma multidão que não escreve, no entanto, se babam de tanta retórica impregnada nas suas vidas. Como é que sei disso? Leio o jornal de vez em “quase-nunca”. Me sinto mijado nas calças, cagado nas cuecas, quando leio um jornal. Moscas me rodeiam rindo até doer suas barriguinhas verdes de moscas. O engraçado é que fiz isso hoje. Depois tive a decência de tomar quatro banhos. Acho que peguei gripe do jornal. Tossi sangue bem na foto de um colunista. Eu olhei aquelas mentes débil, aquelas frases ensaiadas no espelho do banheiro. Era como uma adolescente que compra uma saia curta para ir a um baile de interior e tragicamente descobre que esta gorda demais, branca demais, chora, a mãe aparece no quarto e diz: Filha deixa de ser criança! Vista esta saia que seus amigos estão te esperando... e ela vai. Agora já estou limpo. Paramos por aqui. Um último lance... Na universidade, no curso de filosofia, um professor me disse: Na escrita filosófica tem de se ter uma preposição, uma proposta para sair da condição que denunciamos. Eu sou um bom aluno. Sério! Então lá vai: Não se matem pessoas dos jornais, apenas queimem a mão na brasa. Aí sim estão aptos para escrever. É claro que não podemos generalizar. Sei que alguns queimaram as mãos na brasa – outros queimaram as mãos dos outros, mas isso é outra história-, mas a desgraça é a regra.
Voltando a falar de inferno e céu, se somos pesados todos os dias para que no fim das contas, no dia do juízo final, Deus nos diga: vai subir...(ou)... vai descer! Se no céu temos de deixar toda nossa maldade para trás – a menor porção que for-, no inferno, pelo menos, podemos levar tudo. Até nossa porção de bondade – por menor porção que for. Ouvi falar, da boca de um espiritista (que já foi prá lá e já voltou e agora pretende ir para lá novamente), que no inferno toca, ininterruptamente, a dança da manivela. Sito: “Tá frio tá quente, tá frio, muito quente”. Que lá rola uma festa. Porém só vai para o inferno veados (e políticos, que é a mesma coisa que veado – só que falam mais e apertam a mão dos outros- de terno), evangélico e pessoas que escrevem de forma análoga a mim. Disse-me o sujeito do predicado, que no céu é parecido. Toca a dança da manivela em versão gospel. Sito: “Tá frio e bom, aleluia, tá frio e tá muito bom”. A diferença gritante é que no céu tem mulheres. Todas velhas, mas tem.
Para concluir – tenho que parar, estou com muita tosse-, antes que alguém se preocupe comigo, furei os tímpanos do meu espírito com um cigarro. E aproveito esse texto para mandar um abraço para o Holing Wolf e o Albert King, no mais, é tudo retórica: “Menos eu, que sou rei e como carne de galinha”.

r.A.- O único culpado do desmatamento na floresta negra.