domingo, 20 de junho de 2010

Utopia de Bêbado Filósofo Part.2

.......Disse-lhes que começaria uma seqüência de textos... Como diz o subtítulo do livro The Hobbit :“Lá e de volta novamente”. Se me permitem uma última ladainha antes de ir ao miolo de nossa saborosa fruta, digo que escrever não é uma tarefa muito fácil. Não é fácil escrever quando você não esta motivado por nada além da falta de sono &“sons da rua”. Bons cronistas escrevem por um maço de dinheiro. Certamente eu tenho tudo que um bom cronista tem, menos um maço de dinheiro como inspiração. Ainda ontem uma pessoa me disse a queima roupa: Se eu fosse você escreveria esses seus textos em um jornal! Sorri e dei as costas, afinal eu não poderia mentir. Não aqui. Não agora. Mentir requer bastante criatividade e minha criatividade esta de mal comigo. Certamente eu tenho todas as qualidades que um bom mentiroso precisa. Por que não mentir então? Ora, porque tanto faz mentir como falar a verdade (mas mentir requer aquela criatividade...). No fim das contas são só palavras!- e palavras é a linha tênue que separa um louco de um não-louco- entendam como quiserem...
....... Falei que daria algumas dicas para ser bem recebido no campo intelectual da cidade de Chapecó. Poderia dar dicas para ser bem sucedido financeiramente, mas isso sub-entendo que vocês todos já sabem, mas faremos uma nota só para retomar a matéria: Encontre um grupo de pessoas. Explore esse grupo de pessoas. CHAZAM! Como se fosse um milagre você estará bem sucedido financeiramente! Há algumas formas ditas “justas”, mas sabemos que a média de durabilidade do ser humano -funcional- é de aproximadamente 30 a 40 anos e a cerveja, os livros, o aluguel, e os discos continuam caros, aí fica difícil economizar. Continuando com as dicas para entrar no campo intelectual em Chapecó, disse-lhes para ir praticando o espanhol, lembram? Entonces, um dos primeiros passos é você ter um sotaque carregado. O espanhol é uma boa dica justamente porque você quer ser compreendido - e o espanhol, embora exija um pouco de habilidade para ser falado, não exige muita habilidade para ser compreendido para aqueles que falam português - e falando espanhol (mesmo que você more em Chapecó a dez, vinte anos...) ainda remete a um status de importância (obs: mesmo que seja só na sua cabeça). É claro que com vinte anos morando no Brasil, falando e ouvindo as pessoas falar português, alguém perderia uma boa parte do sotaque, mas aí fica de tema de casa você praticar no banheiro - de frente para o espelho. Afinal, você não quer perder esse status não é mesmo? Nesta mesma linha, caso você de vez em quando esqueça de se policiar a falar espanhol, você pode encarnar um sotaque carioca. Sim, se o carioca parecer difícil (tem gente que encontra grandes dificuldades em chiar o tempo todo), você pode “sotacar” de forma paulista ou gaúcha. Esse último é o mais simples. Quando estiver no meio de um grupo de intelectuais - ou que você julga serem intelectuais... e eles também se julgam assim- você diz: VaMoS tOmARRR uMa CeRvEjAA GuRrIsADa? (Nota: As letras maiúsculas sugerem que você fale como se tivesse engolindo uma bola de sinuca. Caso você não consiga fazer isso, experimente falar pulando no começo). Se alguém estranhar e lhe perguntar: Que modo de falar é esse? Aí você diz: É qUe Eu sOu dE PO “U” A. O importante é que você nunca fale Porto Alegre, e não esquecer da ênfase no U- Ele não esta ali, mas a frescura é uma exceção da regra. Tem que ser Poa! Vocês sabem que fora Porto Alegre o resto do Rio Grande é o resto do Rio Grande - Assim como fora Florianópolis o resto é o resto de Santa Catarina. Vocês podem achar que estou delirando agora, mas observem atentamente alguns dos intelectuais de nossa cidade. Eles, obviamente se esforçam para dar todas as dicas que não são daqui. A maneira como pronunciam suas instruídas palavras é um grande ponto a favor. Uma forma de fortalecer suas palavras é ouvir bastante Engenheiros do Havaí - Embora o novo projeto do Humberto com aquele cara do Cidadão Quem também é fantástico nesse ponto- já que esse sotaque ganhou o estado. Além de você poder praticar o sotaque reproduzindo minuciosamente as canções, você também pode aprender alguma frase de efeito sem sentido. Tenha certeza que algumas pessoas vão parar para ouvi-lo! Você pode falar, por exemplo, no meio de um assunto em qualquer lugar: “O supra-sumo da contradição é o paradoxo de estarmos vestidos com os vestígios de um radar mercadológico ao mesmo tempo ideológico...” e o resto você inventa. Mas tome cuidado para não mesclar todas as técnicas aqui apresentadas. Você pode acabar proferindo uma frase extravagante demais. Do tipo: eL sUPrA tICos dE lA PO “U” A mIeRcaDolOJiCo RRRRRRRRRR... VaMoS tOmAr un PoQuITo De iDeOlÓgIA... Portanto estejam atentos, pois até os melhores nisso acabam cometendo esse deslize. Se bem que, como esses são profissionais nisso, essas “panes” passam batidas. Intercalar algumas máximas em italiano ou alemão também é uma dica. Francês só se você estiver cantando alguém no grupo. Só não sugiro que use o sotaque italiano ou alemão, porque os italianos gritam demais e os alemães babam muito quando falam.
.......Para concluir essa parte dos sotaques meus queridos amigos, preciso fazer uma apologia de mim mesmo. Não tenho nada (ou quase nada) contra línguas estrangeiras. Tenham em mente que estou apenas lhes apresentando algumas dicas baseado em observações dos grupos intelectuais da cidade. Em geral, os grupos têm uma dessas figuras no seu meio, ou seja, um cara que: Ou mora aqui há dez anos e ainda fala espanhol, ou alguém que tem um sotaque de fora que depois de dez anos ainda não o perdeu. Portanto o sotaque é mais que um charme, é um critério. Geralmente esses sotaques se encontram em grupos teatrais - os mais sórdidos da cidade- e por aí vai. Lembrem-se que o famoso “ti” das “patricinhas” não faz parte dos sotaques, já que o “ti” (gentI... vocês não acreditam que hojI eu quasI perdi a hora...etc...) esta incorporado nesses circuitos por frescura mesmo e sem grandes esforços. Então vamos lá, cada um no seu barco para o seu rumo e no próximo texto da Utopia de Bêbado Filósofo iremos analisar como podemos depois de um fracasso acadêmico nos grudar em uma madame rica e fazer de conta que uns trapos é arte contemporânea! Adianto que não será fácil, mas para estarmos por dentro da lição sugiro a leitura de Anne Cauquelin (qualquer artigo referente à arte contemporânea) só para as coisas ficarem mais interessantes.
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“A prática constante nos conduz a perfeição”- Bushidô (Caminho do guerreiro).
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r.A.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Folsom Prision Blues

Eu ouço o trem chegando
Está passando pela curva
E eu não tenho visto o sol desde eu nem me lembro
Quando
Eu estou preso na prisão de folsom, e o tempo
Continua se arrastando
Mas aquele trem continua passando, indo até San Anton...

Quando eu era só um bebê, minha mãe me disse:
"filho,Sempre seja um bom menino, nunca brinque comArmas."
Mas eu atirei num homem em Reno só para vê-lo Morrer
Agora toda vez que escuto aquele apito, eu seguro
Minha cabeça e choro...

Eu aposto como existem ricaços jantando num
Restaurante da moda
Eles provavelmente estão bebendo café e fumando
Grandes charutos.Bem, eu sabia que isto aconteceria, eu sei que não
Posso ser livre
Mas essas pessoas continuam vivendo/ se movendo
E é isso o que me tortura...

Bem, se ele me libertassem desta prisão,
Se aquele trem fosse meu,
Eu aposto como eu iria só mais um pouco
longe
Longe da prisão de folsom é onde quero ficar
E deixaria aquele apito levar minhas tristezas...

(JOHNNY CASH)
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a Baco

a noITe insISte em SeR nOiTE
O FrIO qUeiMA
nA escURIdãO tATeIo
A lUZ cEGa
gOTEjaM gOTaS
NA tAÇa uM pOUCo dE vinHO faZ gRAça
neSTE pOUco mE SintO
A LuZ cESSa
a AlmA aqUIEta
O cORPo caNSA
vIvER iNSIstE
O desEJO desEJA
o AmaNHÃ inSISte eM sEr OntEM
NA pONTa dO láPIS EnlaÇO uM tRAÇo dE vIDa
nA caRÊncIA dE PalavRAS E fALTa de vinHO
SeRIA Eu diVINo?

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PCê- Filósofo e Poeta.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Utopia de Bêbado Filósofo Part.1


===>(Ganhei de presente esse título de um leitor do blog e resolvi não desperdiçar... Até porque, é sempre um prazer saudar nobres ideias e fantásticas observações!)

.......Percebi que o escrito “Dias de Fausto em Chapecó” algum movimento causou, onde, é claro, alguns depoimentos me senti na obrigação de apagar dado que este é um blog sério - HAHAHAHA-, um lugar de proposições que levem a “quase nada”, algo que se não fosse o “quase” nos conduziria a um passo análogo aos grandiosos projetos dos “quase” intelectuais que teimam em mascarar uma necessidade de fazer algo pela cultura em Chapecó com a auto-promoção de si mesmos.
.......Ora, e por que não nos auto-promover se essa é a regra do mercado na contemporaneidade (se pensarmos bem, sempre foi na auto-promoção de si mesmos que alguns nobres humanos contribuíram para essa nossa linda história de guerras e paradoxos! Abominável “Clio” já dizia um tradutor de E.M.Cioran!)? Mas vejam bem meus queridos leitores, este blog - e não nego isso- é baseado na auto-promoção, no entanto, esta auto-promoção é, sem dúvidas- a auto-promoção da “utopia de um bêbado filósofo” (embora eu não escreva embriagado pelo álcool, mas sim por pensamentos- Até por que, quando estou embriagado, prefiro dar tiros de revolver de espoleta nos vizinhos do que escrever - e escrevo nesses intervalos). Mas fica a dica para melhor compreender as proposições: Diferenciar ironia de palavras de um bêbado é mais uma questão de faro do que de instrução! Ex: Se eu digo - bebam com moderação no bar!- Imagino que alguém terá a capacidade hermenêutica para compreender que é o mesmo que dizer- façam o sinal da cruz invertido, na missa, quando o padre estiver olhando! Ex2: Se eu disser - não percam a oportunidade de beliscar a bunda do prefeito, pois, talvez não surja essa oportunidade novamente (salvo o caso de um de vocês trabalhem de secretária-loira-peituda na prefeitura)- não é a mesma coisa que eu dizer- joguem sal em uma lesma e chamem isso de “big-arte-conemporânea-com-elementos-do-dinheiro-sujo-de-um-bosta-metido-a-ricaço-marido-de-uma-madame-retardada”. Agora que já estamos todos previamente iniciados na “utopia de bêbado filósofo”, como dizem as pedagogas (só as boas, ok?):_já temos toda uma bagagem de paradigmas para prosseguirmos! (HÔHÔHÔHÔHÔ- risada do Karl Marx empanturrado de batatas).
.......Último esclarecimento: Porquê utopia? A palavra utopia tem muitas compreensões, cabe a nós definir alguma. Eu vou nessa aqui, meus amigos: “A utopia (de ou-topia, lugar inexistente ou, sengundo outra leitura, eu-topia, lugar feliz), criar um espaço para o possível; contra qualquer aquiescência passiva ao estado presente”. Na “verdade”, estou me acostumando com isso. A princípio desconfio da utopia e é justamente por desconfiar dela que a estou usando ultimamente - não me daria ao luxo de usar algo que não desconfiasse. E é claro, enquanto direção dissertativa, a utopia é ótima para tirar sarro justamente por ser ambígua e por vezes, contraditória. Porquê filósofo? AH, ME POUPEM!
.......Sabemos que há um abismo sem fim que separa cada palavra, cada signo agrupado, cada vírgula de um texto de nossa obsessiva busca por algo perdido. Imagino que um pouco de humor ácido se retorcendo em deboche (sim, podemos nos permitir ser debochados em alguns casos) alivia um pouco as dores de estômago e as náuseas da contemplação desse abismo. É certo que há alguns receosos que preferem esconder-se atrás de sombras “das sobras” enquanto ameaçam com um graveto acabar com nossa festinha dionisíaca. Não propõem nada e enchem a boca para falar em Caos, Delírio, Poesia, Selvageria, Intensidade, Obscuridade, enfim, é motivado pelas dores de estômago e náuseas que me pus há escrever um pouco. O “problema” (que é coisa de matemático para quem tem olhos apenas para a lógica) é quando uma cidade inteira acredita em uma palhaçada amadora. Bobagem pouca é besteira! “Não tem ninguém que não é bobo”. Passou da hora do faz de conta, do engolir lixo, do se vender por trocados. E o que vamos fazer agora? Vocês, bem, eu não sei, mas eu vou escrever escrever escrever escrever escrever escrever escrever escrever escrever escrever escrever Escrever Escrever ESCrever ESCRever ESCREver ESCREVEr ESCREVER Até que o diabo saiba que estou descontente! Até o céu lembrar que faço buracos nele! E se vocês tiverem coragem para espiar junto comigo o limite - vamos lá! Do contrário, vendo lancheira da turma da Mônica! - Pois conforme orientação do SESC Chapecó - você tem que entrar em um grupo MEOW! O que não muda muita coisa, já que os grupos se repetem e a besteira segue. E então, vamos brincar de ser xarope?
.......Em suma, passei alguns anos sem ligar a t.v. e muito menos ler os jornais escritos de forma péssima nessa cidade, tal como, freqüentar raramente algum espetáculo daquilo que descrevem como sendo “rock” - o que poderíamos chamar também de velório do rock, pois os repertórios são guiados por uma coletânea de postulados (isso e somente isso)- e outra coisa é certa, posso garantir para vocês sem erro quem serão os próximos artistas a expor nas galerias (três?) dessa cidade (as mesmas quinquilharias de outrora). Nem vou estragar esse texto falando das duas famosas casas de (lix)show que trazem o melhor do fedor decadente vindo direto do RS falido- Justamente aquilo que faliu na cidade vizinha é cultuado por choradeiras da cidade seguinte. Agora que sai de meu covil, quase não consigo acreditar na porcaria de dimensões gigantescas que isso tudo tomou! E vamos fazer o que em relação a isso? Fazer de conta que mais importante que isso é minha relação mal resolvida com uma puta, lançar um disco chorando, pintar um quadro com uma santa nua - para chocar né? A play boy não choca mais os inseguros sexualmente - tirar fotos balançando a câmera e escrever: isso não é coisa de gente tonta, se internar na universidade, ir para igreja pagar o dízimo, velar Jesus e o Ozzy na mesma camiseta, ir numa palestra de um ridículo comentador de jornal medíocre, rir dos índios, “Ver Menos”, sim, rir dos índios parece ser bastante razoável - não se incomodem, não, não, não é por aí meu coração, nós temos que ser unidos... TOUCH ME, IM SICK!
.......A auto-promoção da utopia de bêbado filósofo já me parece uma boa causa. Tomo agora o rumo de meu barco para que vocês tomem o rumo dos seus... Prometo-lhes que logo estará disponível a “Utopia de filósofo bêbado Part. 2” onde analisaremos as formas de “se dar bem” em Chapecó, isso, é claro, no circuito intelectual. Já lhes aviso, vão praticando o espanhol para adiantarmos a lição!
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r.A.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Quem Disse que Resisti 30 Anos?



Um dia depois do outro é mais do que uma indecência. É
um Monte Fuji (pela neve e claridade também indecentes). Dois
galões antes do salto: e, na interposição entre um dia e outro, mais
ou menos dez anos sobre mim. Um dia depois do outro é uma
tripudiação. Quem disse que amanhã vai ser diferente?
Amanhã, por exemplo. Amanhã vou dar um fim nos pés de
mamona. Amanhã mesmo vou comprar uma televisão e um forno
de microondas (a minha ambição são as pipocas amanteigadas).
Vou contratar uma empregadinha. Amanhã mesmo vou atear fogo
nesta minha bela casa de praia com vista para o mar. Amanhã é o
meu dia de ser feliz. Amanhã não vai ser diferente.
Resistir não é Resistir.
É sobretudo não ter ninguém. Mijar na pia. Dormir sobressaltado
e ter pesadelos mesquinhos. Resistir é um dia inteiro de
esquecimento. Um cachorro. Um cachorro, não. Resistir não é ser
impetuoso e não é ser covarde. Resistir não é resistir. É saber que
de noite alguma coisa vai se perder. Os cogumelos crescem nestas
noites em que as coisas se perdem (esta noite um cogumelo brotou
dos meus tímpanos). Assim é resistir onde tem poeira. Às quartas-
feiras costumo ligar para os meus orientadores. E eles querem
saber do movimento das marés – o que também faz parte da resistência.

Mas quem são eles?
Em contrapartida meu vizinho paralítico dá piruetas em sua
cadeira de rodas. Tive trinta anos para fazer amizade com ele. Eu
lamento, ao longo destes trinta anos, não ter conseguido. Com a
surfistada nem pensar, eu considero uma aproximação irrealizável.
Eu gosto de imaginá-lo girando sobre os eixos (imaginários, todavia),
ele na cadeira de rodas e eu na mesma cena, apoiado meio
que distraído no parapeito – do ponto de vista de quem olha do
meu terraço uso uma camisa salmão de mangas compridas – dando
as costas para o mar e facilitando as coisas para ele, evidentemente.
Pôr-do-Sol / Eu jogo com as pretas.
Agora é a vez dele. Admito ter sacrificado uma torre em vão
(depois de trinta anos).
De modo que resisto.
Não se trata especialmente do meu interesse por aleijados.
Talvez alguma afinidade em papel celofane com o dia seguinte, eu
não falo exatamente (do meu Fellini em “sonho de valsa”...), tratase
menos de uma cena estilizada e mais do aleijado estilizado que
afinal ele é – daí que num arroubo canalha e sobre-humano ele
movimenta o bispo (como se ele pudesse levantar daquela maldita
cadeira de rodas) para ameaçar meu Rei!
Não é um jogo de sombras. Não é pôr-do-sol.
Deixa pra lá. Ou resistir não é resistir.
Os mortos mexem as unhas (é por isso que elas crescem),
elas, as unhas, crescem de felicidade. Quem está vivo não sabe o
que é a felicidade das unhas. Eu não sei do próximo instante. Mas
sei da minha retórica.
Ou estarei chafurdando no inconsciente? Outra vez?
Pois acabo de me transformar num tubarão adolescente e,
dentro de poucos anos, minhas barbatanas estarão valendo um
bom dinheiro no mercado negro. Chang, o chinês da auto-elétrica,
disse que sim. Creio que daqui pra frente vou ficar mais carní
voro. Uma prova: eu havia prometido para mim mesmo, à moda
dos índios charruas, que jamais escreveria a palavra “fluidez”. Aí
está: fluidez, cooptação, fluidez e cooptação. É porque eu sou um
tubarão. Eu acho que sim. Chang me garantiu.
Em se resistindo...
Aqui vão algumas anotações: ter band-aid em casa é importante
por motivos sentimentais. Sabonete eu gasto um por semana.
Desodorante sem álcool. Óleo para lubrificar minhas barbatanas.
Uma lista de livros não lidos. Nabokov também cansa. Mil
vezes os autores americanos aos brasileiros (com as exceções de
Márcia Denser e Raduan Nassar, é claro). Um cachorro. Um cachorro,
não.
O que mais? Vejamos.
Um plano de fuga. De sumir daqui. Amanhã mesmo, antes
de completar trinta e um anos, antes de o fogo consumir esta minha
bela casa de praia com vista para o mar.
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Marcelo Mirizola
(Trexo do livro: Fátima Fez os Pés Para Mostrar na Choperia)