Acordado olhando pela janela do meu quarto
Com a insatisfação de uma vida que nem sei o quanto durará
Até o portão talvez...
Até o sol dar a sua volta.
Sons na minha cabeça
Como as lágrimas de uma mãe em um noticiário
Com seu filho ensangüentado no colo
O último na madrugada?
Sem sinal da cruz, sem sinal algum...
O cantar fraco de um galo fraco
Passos rápidos nas pedras da rua escura
Luz do poste
Olhando para as mãos...
Seria eu responsável por esse sangue?
Peso
Dor
Hospital para mim e para nós...
Mais um novo noticiário matinal
Marginal
eu
responsável
dor
dor
dor
Uma linha de tripa que nos liga como telefone sem fio
r.a.
domingo, 28 de junho de 2009
:]
Um ser que esta sorrindo
Olhando para todo o horror que fizeram desse mundo
Só pode ter um desses dois problemas:
Ou esta sobre o efeito de um grande anestésico
Ou
É seu namorado.
Dos dois eu prefiro o segundo problema
mas você esta longe... ai eu persigo o primeiro
Ambos me levariam ao túmulo
Porque tudo leva ao túmulo...
Eu sou tão teimoso que certamente me recusarei a morrer quando for minha hora!
Crie raízes e fique grudado no chão
Firme e imóvel
Como as letras do seu nome.
r.a.
Olhando para todo o horror que fizeram desse mundo
Só pode ter um desses dois problemas:
Ou esta sobre o efeito de um grande anestésico
Ou
É seu namorado.
Dos dois eu prefiro o segundo problema
mas você esta longe... ai eu persigo o primeiro
Ambos me levariam ao túmulo
Porque tudo leva ao túmulo...
Eu sou tão teimoso que certamente me recusarei a morrer quando for minha hora!
Crie raízes e fique grudado no chão
Firme e imóvel
Como as letras do seu nome.
r.a.
domingo, 12 de abril de 2009
FILOSOFIA E COTIDIANO
Que relação pode ser estabelecida entre a filosofia e o cotidiano? O filósofo esloveno Slavoj Zizek responde. E, surpreende. Num livro publicado pela Martins Fontes, Arriscar o impossível, que pode ser encontrado na biblioteca da Unochapecó, ele afirma que a era da biogenética e do ciberespaço é a era da filosofia. Estamos no coração do coração da nossa época. No entanto, por que continuamos nos referindo aos estudos filosóficos como contemplativos? A resposta de Zizek vai na direção oposta a esse entendimento. Ele afirma que não há como achar o próprio caminho, na própria vida cotidiana, sem responder a certas perguntas filosóficas. “Acho que a filosofia não pode mais desempenhar nenhum de seus papéis tradicionais, como estabelecer as bases da ciência (...) e assim por diante”. No lugar disso, ela deve cumprir sua tarefa de questionamento transcendental. Um questionamento transcendental, em primeiro lugar, pode ser definido como um tipo de questão que diz respeito a todos e, ao mesmo tempo, um tipo de questão que está presente o tempo todo. Por quê? Com os avanços tecnológicos, na biogenética, por exemplo, nos confrontamos com perguntas que dizem respeito ao livre-arbítrio, à idéia de natureza e do ser natural, à identidade pessoal, só para citar algumas das questões suscitadas nos atuais debates sobre uso de células-tronco de embriões humanos. Em nossa época, nos deparamos cada vez mais com problemas que são de natureza filosófica.
Por outro lado, se quiséssemos determinar quando começou a vida humana, também nos emaranharíamos em um questionamento transcendental, agora num sentido diferente. Teríamos, frente a esta questão que até hoje não recebeu resposta unívoca, que nos perguntar o que entendemos por “vida”, e arriscar uma definição. Então, perceberíamos que uma das condições de possibilidade para responder à pergunta sobre a origem da vida é a própria compreensão que temos do que seja “vida”. Logo, já não estamos mais determinando biogeneticamente um momento “X” que seria a gênese. Estamos abordando significações, tais como o que é a dignidade humana, responsabilidade moral. Ora, estas eram perguntas filosóficas. Hoje são perguntas cotidianas.
Assim, uma coisa é dizer que o tempo da filosofia especulativa passou; outra, bem diferente, é dizer que o tempo da filosofia tenha passado. Mas do que nunca, afirma Zizek, a filosofia tem um papel a exercer.
Vamos tomar outro exemplo, neste caso das pesquisas em ciências cognitivas. Como surgiu a consciência? Em termos evolutivos, será que a consciência emergiu para se explicar a si mesma? Zizek explora a visão de Stephen Pinker em Como a mente funciona, que defende a teoria de que não há nada de misterioso no fato de não podermos explicar a consciência, porque ela surgiu para lidar com problemas instrumentais práticos de sobrevivência, como se relacionar com outras pessoas, com a natureza, etc. Uma visão semelhante pode ser encontrada em Friedrich Nietzsche, em Verdade e mentira no sentido extramoral, que afirma que seres delicados como nós desenvolveram a consciência como forma de sobrevivência, assim como outros animais desenvolveram garras e chifres.
Contudo, ainda não respondemos a questão. Zizek chama outro filósofo em seu auxílio: Heidegger. Este afirma que o que caracteriza o ser humano, no sentido de ser um ser-aí e um ser-no-mundo, é que ele é um ser que faz perguntas sobre o seu próprio ser, que se autoquestiona. Em outras palavras, o horizonte de compreensão próprio do mundo humano é ativado através do autoquestionamento de seu próprio ser. Parece um círculo vicioso, mas não é. O homem é o único ser para quem seu próprio ser não é dado, mas precisa ser compreendido.
Assim, a relação entre filosofia e cotidiano pode ser compreendida facilmente enquanto um espaço de construção do conhecimento que não conhece fronteiras fixas. A arena dos debates filosóficos de ontem, onde se ouvia o rumor das armas argumentativas confinadas aos muros das escolas, transformou-se hoje, no laboratório-mundo, num debate de interesse global, pois neste grande experimento social que é o mundo ou entramos como agentes compreendentes e propositivos, ou nos recusamos a isso. Mas isso também é uma compreensão. E uma atitude.
Autor: Flademir Roberto Williges
Por outro lado, se quiséssemos determinar quando começou a vida humana, também nos emaranharíamos em um questionamento transcendental, agora num sentido diferente. Teríamos, frente a esta questão que até hoje não recebeu resposta unívoca, que nos perguntar o que entendemos por “vida”, e arriscar uma definição. Então, perceberíamos que uma das condições de possibilidade para responder à pergunta sobre a origem da vida é a própria compreensão que temos do que seja “vida”. Logo, já não estamos mais determinando biogeneticamente um momento “X” que seria a gênese. Estamos abordando significações, tais como o que é a dignidade humana, responsabilidade moral. Ora, estas eram perguntas filosóficas. Hoje são perguntas cotidianas.
Assim, uma coisa é dizer que o tempo da filosofia especulativa passou; outra, bem diferente, é dizer que o tempo da filosofia tenha passado. Mas do que nunca, afirma Zizek, a filosofia tem um papel a exercer.
Vamos tomar outro exemplo, neste caso das pesquisas em ciências cognitivas. Como surgiu a consciência? Em termos evolutivos, será que a consciência emergiu para se explicar a si mesma? Zizek explora a visão de Stephen Pinker em Como a mente funciona, que defende a teoria de que não há nada de misterioso no fato de não podermos explicar a consciência, porque ela surgiu para lidar com problemas instrumentais práticos de sobrevivência, como se relacionar com outras pessoas, com a natureza, etc. Uma visão semelhante pode ser encontrada em Friedrich Nietzsche, em Verdade e mentira no sentido extramoral, que afirma que seres delicados como nós desenvolveram a consciência como forma de sobrevivência, assim como outros animais desenvolveram garras e chifres.
Contudo, ainda não respondemos a questão. Zizek chama outro filósofo em seu auxílio: Heidegger. Este afirma que o que caracteriza o ser humano, no sentido de ser um ser-aí e um ser-no-mundo, é que ele é um ser que faz perguntas sobre o seu próprio ser, que se autoquestiona. Em outras palavras, o horizonte de compreensão próprio do mundo humano é ativado através do autoquestionamento de seu próprio ser. Parece um círculo vicioso, mas não é. O homem é o único ser para quem seu próprio ser não é dado, mas precisa ser compreendido.
Assim, a relação entre filosofia e cotidiano pode ser compreendida facilmente enquanto um espaço de construção do conhecimento que não conhece fronteiras fixas. A arena dos debates filosóficos de ontem, onde se ouvia o rumor das armas argumentativas confinadas aos muros das escolas, transformou-se hoje, no laboratório-mundo, num debate de interesse global, pois neste grande experimento social que é o mundo ou entramos como agentes compreendentes e propositivos, ou nos recusamos a isso. Mas isso também é uma compreensão. E uma atitude.
Autor: Flademir Roberto Williges
segunda-feira, 6 de abril de 2009
25 centavos...
Nada mais típico para um homem apaixonado do que ser desmascarado frente a sua insignificância para quem ama. Coisas que as pessoas fazem o tempo todo com um cara assim doem vinte cinco vezes mais quando é uma pessoa amada quem faz. Um dia, depois de tanto você espernear e chorar tua mãe te pega pela mão e te leva ao cinema para você assistir um filme de faroeste. A imagem daqueles caras grotescos, com cigarro no canto da boca, chapéu, olhos semi abertos, uma arma oculta em baixo de um casaco, rápidos e precisos, sem amor e nem família não lhe sai da cabeça nunca mais. Para 97,8% dos homens essas imagens não fazem sentido de imediato, mas você não é nem semelhante a 97,8% desses homens fracotes. Você anda pela rua, estica o dedo indicador e comprime os demais e mata metade da cidade na sua cabeça até chegar em casa e quando sonha mata a outra metade. Acorda com os olhos semi abertos e cobertos de remelas e tem de ir para a escola e quando olha para a professorinha sabe que ela não pode amá-lo justamente porque você veio de uma cidade do deserto, é um pistoleiro frio e bebe leite envenenado no recreio. Seus colegas riem de você, mas você não tem tempo para se importar com isso. Sobe no seu cavalo chamado “cabo de vassoura” e volta saboreando uma marcha até em casa. Sua mãe te serve o almoço porque no fundo está morrendo de medo de você. Você almoça encarando um sujeito criminoso que senta ao lado dela e decide poupar a vida dele. Fuma um pedaço da prova de matemática apagada, sua mãe lhe dá um beijo no rosto e você senta na frente da t.v. para assistir desenhos de macho.
Você chega na adolescência e troca o leite gelado por um beijo de uma garota. Ela comenta com as outras garotas e você se sente o cara ao mesmo tempo que aposenta o seu cavalo chamado “cabo de vassoura” porque é inadequado e nada mais. Chega atrasado para o almoço e sua mãe lhe chama de mal educado e pergunta para um crucifixo:_ele esta se tornando um rebelde. Onde foi que eu errei? Você diz:_menos mãe! E vai para o quarto e lê um gibi de cowboy para manter a pose que até agora esta funcionando. Você suporta esses anos todos treinando duro para continuar assim. Sem amor nem piedade.
Depois você já esta adulto. Trabalha como um imbecil por alguns trocados e beijar mulheres fica um pouco mais perigoso. Nas férias você conhece uma garota bonita e se apaixona por ela e toda essa bobagem de faroeste é coisa de criança e no fundo você já sabia disso. Era tudo um faz de conta! Marca um encontro com essa garota que jura que te ama. Ela não aparece e você se sente muito mal. Olha para os lados e parece que todo mundo percebeu que você é um idiota. Você espera mais um pouco e lembra dos caras grotescos com cigarro no canto da boca, chapéu, olhos semi abertos, uma arma oculta em baixo de um casaco, rápidos e precisos, sem amor e nem família e descobre que em algum lugar da vida esqueceu que era assim que deveria de ser. Você finge que espirra para enxugar uma lágrima que escapou do canto do olho. Olha em volta e imagina que todos agora tem certeza que você é um idiota.
Ai você coloca a mão no bolso. Tem 25 centavos ali. Você imagina que isso deve ter acontecido com outros como você. Coloca a moedinha no chão e pensa: se isso acontecer com mais alguém que vier até aqui, vai achar essa moedinha pelo menos. É isso que vale esquecer os filmes que esperneou e chorou para ver.
Nada mais típico para um homem apaixonado do que ser desmascarado frente a sua insignificância para quem ama.
r.a.
Você chega na adolescência e troca o leite gelado por um beijo de uma garota. Ela comenta com as outras garotas e você se sente o cara ao mesmo tempo que aposenta o seu cavalo chamado “cabo de vassoura” porque é inadequado e nada mais. Chega atrasado para o almoço e sua mãe lhe chama de mal educado e pergunta para um crucifixo:_ele esta se tornando um rebelde. Onde foi que eu errei? Você diz:_menos mãe! E vai para o quarto e lê um gibi de cowboy para manter a pose que até agora esta funcionando. Você suporta esses anos todos treinando duro para continuar assim. Sem amor nem piedade.
Depois você já esta adulto. Trabalha como um imbecil por alguns trocados e beijar mulheres fica um pouco mais perigoso. Nas férias você conhece uma garota bonita e se apaixona por ela e toda essa bobagem de faroeste é coisa de criança e no fundo você já sabia disso. Era tudo um faz de conta! Marca um encontro com essa garota que jura que te ama. Ela não aparece e você se sente muito mal. Olha para os lados e parece que todo mundo percebeu que você é um idiota. Você espera mais um pouco e lembra dos caras grotescos com cigarro no canto da boca, chapéu, olhos semi abertos, uma arma oculta em baixo de um casaco, rápidos e precisos, sem amor e nem família e descobre que em algum lugar da vida esqueceu que era assim que deveria de ser. Você finge que espirra para enxugar uma lágrima que escapou do canto do olho. Olha em volta e imagina que todos agora tem certeza que você é um idiota.
Ai você coloca a mão no bolso. Tem 25 centavos ali. Você imagina que isso deve ter acontecido com outros como você. Coloca a moedinha no chão e pensa: se isso acontecer com mais alguém que vier até aqui, vai achar essa moedinha pelo menos. É isso que vale esquecer os filmes que esperneou e chorou para ver.
Nada mais típico para um homem apaixonado do que ser desmascarado frente a sua insignificância para quem ama.
r.a.
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