Você nunca adivinha o que te aguarda embaixo da cama, em uma gaveta que há anos não abria e dentro de um tênis que jogou em um canto e não usou mais. Por mais que você acredite que conhece o mundo sempre tem um mundo que você morre sem conhecer. Você ainda não parou para pensar o que pode te aguardar se virar uma pedra no seu quintal ou se meter o dedo dentro daquele tijolo no gramado da frente da sua casa. Você não sacode a jaqueta antes de vestir e sua cama não é tão segura assim mesmo elevada do chão... eu me sinto em uma constante ameaça e por isso não me descuido nunca! Sou como um soldado bem treinado que nunca abandona seu posto de vigília, não revelo segredos para inimigos e nem me distraio nunca...
_Ô distraído! Para de desenhar no caderno e acompanhe a turma para a palestra!
_que palestra professora?
_ eu estava até agora falando para as paredes é? Não ouviu que eu estava falando que hoje teríamos uma palestra sobre o trânsito depois do intervalo?
_aposto que uma boa parte de mim ouviu!
_então arraste essa boa parte de você para o refeitório que todos já desceram para lá... Deixe essa porcaria desse desenho ai garoto, acorde para a vida!
É na noite fria e escura que esse mundo que você nunca imaginou existir sai para se fartar sobre toda a racionalidade humana mergulhada em torpezas...
_LARGA ESSA CANETA GAROTO!
_ta bom professora! Estou descendo!
_ANDA!
_sim sim, to andando... olha minhas pernas se mexendo, são uma graça né?
_É PARA O OUTRO LADO SEU... MEU DEUS DO CÉU!
_ok ok foi só um descuido, não precisa se desesperar professora!
E acreditamos que estamos no topo da cadeia alimentar. Com nossas máquinas, armas, agilidade mental, religiões, políticas e existe uma população a nos espreitar. Esperam nosso menor deslize, nosso menor descuido para...
_O QUE VOCÊ TEM GAROTO?
A professora da um puxão na alça de minha mochila de modo que entro tropicando no refeitório do colégio. Para o lado direito um policial aparentemente interrompido no auge de seu raciocínio me olhando com os duros e pesados olhos da lei. Aponta para uma cadeira vaga um pouco longe do agrupado de alunos rindo possivelmente de mim. Ajeito a alça da mochila sobre o ombro e vou me sentar em uma cadeira, obviamente como sou teimoso em outra cadeira sem ser a que os olhos da lei me indicaram e as pessoas tornam a apontar para mim e rir. Eu não dou bola, aliás, tento não dar. Tiro da mochila um caderno e uma caneta.
_você não tem jeito mesmo né? Me da aqui essa caneta! A professora sussurra me tirando a caneta das mãos e observando o desenho que eu estava a fim de prosseguir. Os olhos da lei prosseguem a sua fala:
_como eu ia dizendo, temos de tomar muito cuidado com o trânsito.
Olho para uma colega que me devolve o olhar com um sorriso. Ela tem aparelho nos dentes e isso me lembra um pequeno trilho de trem. Seu cabelos escorridos e dourados deixam sua testa um pouco maior. Magra e com seios grandes. Pernas finas e uniforme tosco do colégio. Ela acena para mim e uma pergunta que salvaria minha vida me vem à cabeça naquele momento.
_tem uma caneta para emprestar?
Ela me alcança uma caneta azul.
_não, não pode ser azul! Eu só desenho com caneta preta...
A maldição da professora vem em minha direção com uma cara de quem chupou limão ou nunca foi chupada na vida.
_... eu só desenho com caneta preta quando posso...Digo com uma voz de derrotado.
_me da esse caderno antes que eu tenha que te mandar para a direção!
Os olhos da lei continuam pousados em mim e agora acompanhados por uma cara alemã vermelha como um tomate. Sua mão estala assustadoramente centímetros acima de uma arma oculta por um coldre preto. Os coleguinhas apontam para mim e riem como doidos e eu tento rir junto como se achasse graça disso tudo também.
_se eu puder falar sem ser interrompido... Digo-lhes que assim que saem do colégio tem de atravessar na faixa de pedestres. Os motoristas têm por obrigação de parar o carro se vocês andarem na faixa de pedestres.
Eu olho para a professora que agora senta em uma cadeira atrás da minha de modo que possa me observar. Olho para meu caderno na sua mão... Como queria poder continuar meu desenho... Ok Deus, é o seguinte cara, quero terminar aquele desenho. É possível a gente negociar? Faço o que você quiser se aquela mulher ali de cabelos curtos, seios pequenos que ela tenta disfarçar com enchimentos, pernas finas, parece que todas as mulheres nesse colégio têm pernas finas... magricela, possivelmente usa aquela aliança no dedo como disfarce porque homem nenhum se casaria com uma coisa dessas, vestido marrom, calcinha verde, sim dá para ver a calcinha dela daqui e dentes cavalares, nada contra os cavalos, mãos com tremelico, cara de cavalo, já disse que não tenho nada contra os cavalos mas a cara dela é uma ofensa aos cavalos que não tem culpa de serem cavalos e ela é culpada por ser feia desse jeito e aposto que o senhor já a puniu o suficiente, sandálias verdes que parecem dois bessouros, quem ela pensa que engana com aqueles enchimentos? Me devolva meu desenho e minha caneta. Aproveito para pedir que ela caísse um tombo depois e que não morra, mas sofra bastante. Juro senhor Deus pai todo poderoso e criador de todas as pernas finas e seios pequenos do mundo e cavalos que me parece que gostam de ser cavalos e em hipótese alguma gostariam que eu os comparasse com essa mulher ai e por isso peço perdão a todos os cavalos vivos e mortos do planeta, juro e pode me cobrar mesmo cara que faço qualquer coisa fora parar de desenhar, beber cerveja e refrigerante de uva, nunca me obrigue Deus a casar com um gay chamado Geraldo e deixe os gays no canto deles e eu no meu. Juro que faço fora desistir de querer traçar a irmã do meu melhor amigo e a mãe dele se possível, fumar, tirar sarro das pessoas quando tiver boas piadas, ouvir nirvana, e amém! E se você me mandar para o inferno por isso saiba desde já que você não tem senso de humor.
Olho para o meu caderno e minha caneta e não acontece nada. Ou eu ofendi Deus e não sei da onde ele tiraria uma calúnia para denegrir minha já denegrida imagem ou ele não existe. A professora esta olhando diretamente para o volume no meio das pernas dos olhos da lei e esta se lambendo toda. Pelo visto minha oração tomou tempo demais e a palestra já esta chegando ao fim...
_E como vocês já sabem agora alunos, atravessem sempre na faixa de pedestres porque é o correto a ser feito quando saírem da aula e ninguém aqui quer fazer o que não é correto, caso o contrário estariam fazendo o que é errado e fazer o errado além de não ser o correto não é legal para ninguém. É um erro e um erro que terão de carregar como uma mancha negra em suas vidas para sempre. Muito obrigado pela atenção!
As pessoas aplaudem e quando me dou por conta até eu estou aplaudindo e querendo desenhar ainda. Agora que acabou essa tortura toda ela será obrigada a entregar meu caderno e minha caneta e eu poderei desenhar e ser feliz para sempre a não ser que...
_Alguma pergunta?
_Olá senhor policial, meu nome é Guilherme e eu gostaria de saber se o senhor já usou essa arma ai para atirar no pneu de algum carro que estava avançando a faixa de pedestres?
_oh não Guilherme, nunca precisei usar a minha arma para isso porque os motoristas não param em cima de faixas de pedestres quando estou por perto. Mais alguma pergunta?
_Sim senhor policial, meu nome é Ana Maria e gostaria de saber se o senhor já teve de usar a sua arma para demolir a cabeça de um pedestre que se recusava a andar na faixa?
_Não Ana Maria, nunca precisei usar minha arma para isso. Assim como os motoristas não param em cima da faixa de pedestres quando estou por perto, os pedestres não andam fora da faixa quando estou por perto... Mais alguma pergunta?
_Bom dia senhor policial, meu nome é Junior, mas meus amigos me chamam de Jú. Queria saber se o senhor já utilizou sua arma para atirar em um tênis de amortecedor de um universitário do curso de educação física que saltitava na faixa para exercitar os glúteos?
_Não Jú, nunca precisei utilizar minha arma para atirar nessa coisa ai que você falou.Mas o nome da minha filha é Júlia e a gente também chama ela de Jú. Muito obrigado pela pergunta.
_de nada!
_eu tenho uma pergunta senhor policial!
_Então fale meu jovem.
_O senhor já matou alguém com essa tua arma ai?
_Boa pergunta! Até agora não. Mais alguém?
_Sim, gostaria de perguntar para o senhor se por alguma eventual causa, desavença no trânsito ou talvez um desrespeito a alguma lei, no extremo de sua profissão de risco que é muitas vezes desvalorizada se não esquecida perante esse modelo de uma sociedade completamente regida por valores morais fundamentados em posses e em subsídios monetários se o senhor já teve de fazer uso de sua arma.
_sim, uma vez eu usei ela para coçar as costas. Mais alguma pergunta que não seja referente à minha arma?
_sim senhor policial, meu nome é Luciano...
_Teus amigos te chamam de Lú?
_Não tenho amigos imbecis senhor policial.
_Certo. Diga.
_ É sobre a questão do cinto de segurança nos veículos...
_opa, uma pergunta boa...
_sim, não me interrompa...
_certo, certo, não vou te interromper...
_espero que não...
_não, eu não vou.
_continua interrompendo senhor policial.
_parei.
_espero que sim.
_pode deixar...
(silêncio)
_pois bem senhor policial. Digamos que um motorista com o cinto de segurança esteja dirigindo em uma BR. O carro passe em uma fissura do asfalto e se desgoverne e bata em um poste ou em um barranco e o cinto arrebente e o carro com o impacto volte para o meio da pista e na sua direção esteja vindo uma carreta com um motorista distraído. O que o motorista faz?
_Tenta sair do carro o mais rápido possível ou acionar a buzina de modo que o motorista do caminhão recupere a atenção.
_mas ele desmaiou, a pancada foi muito forte e ele bateu com a cabeça no volante.
_Então será impossível evitar a colisão e o sinto não poderá proteger o motorista do carro...
_sim mas lembra da fissura no asfalto? O caminhão passa por ela e bate no mesmo poste ou barranco...
_mas nessa fissura não cabe o pneu do caminhão...
_mas a fissura aumentou agora!
_CALA A BOCA!
_NÃO CALO!
_por favor se acalmem. Luciano, já para a direção!
_Mas professora foi ele quem começou e nem respondeu minha pergunta!
_já para a direção garoto.
_mais alguma pergunta?
Se ouve lá do fundo um engraçadinho: sem mais perguntas meritíssimo!
_Bom dia para vocês crianças.
Os alunos são dispensados e todos vão para suas respectivas salas. O que nunca passará pela cabeça deles é que a aula uma hora vai acabar. Que eles irão para suas respectivas casas. Que o dia passará e quando a noite chegar a sua espreita lá estarão elas... Sorrateiras e assassinas como sempre. No domínio do mundo.
_pegue esse seu maldito desenho de volta!
_obrigado professora por ter me tirado o desenho. Se não tivesse me tirado o desenho eu teria perdido essa maravilhosa palestra...
_ta, ta, suma da minha frente garoto!
_a senhora gosta de cavalos?
_odeio cavalos garoto!
_que bom!
Uma madrugada dessas essa questão lhe parecerá conveniente e te roubará o sono e se não a vida !Mesmo que você não queira admitir elas existem. Você deve estar se perguntando o porquê delas existirem e hoje eu descobri que no fundo elas servem para...
r.a.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
terça-feira, 10 de março de 2009
Você não é escritor?
Meia noite de um dia difícil. Tem algum conflito interno muito grande acontecendo dentro de mim e por mais que eu diga para mim mesmo ENTÃO ME MOSTRE O QUE HÁ DE ERRADO! Nada. Bate na minha porta um amigo._Cara que tremedeira é essa?_eu não sei!_onde você esteve que não te encontramos mais?_eu não sei!_saia dessa casa cara, vamos dar uma volta!_eu não... Às vezes me acontece dessas coisas. Eu não consigo dar um sorriso e nem fazer as pessoas rirem. Eu não sou um ser sociável e não consigo ser amável. Existem pessoas que agregam coisas boas, família, amigos, boas roupas, nada de vícios, mulheres, dinheiro, e existe eu no outro extremo oposto. Enquanto todos olham para as luzes o que me chama a atenção são as escuridões do mundo. Enquanto as pessoas se divertem contando sobre seus cotidianos eu não tenho interesse de falar de mim. Enquanto as pessoas elegem como objetivo de vida tudo que é possível eu espio tristemente minhas incapacidades. Enquanto as pessoas conseguem falar de si mesmas com força eu coço o queixo e imagino uma forma de manter-me calado até a morte.
Tudo que é doce desiste de mim na primeira esquina. Sofro de uma doença que é rara entre os humanos. Uma doença que a maioria da humanidade imagina que só existe nas lendas. Essa doença é a incapacidade de abandonar a autodestruição. Se você procurar o significado da palavra autodestruição no dicionário, possivelmente se depare com a minha foto como ilustração. Eu já tentei camuflar pedidos de socorro, já tentei pedir para alguém ficar junto de mim, mas hoje compreendo claramente que isso é loucura. Até os melhores no masoquismo não se excitariam com minha companhia. Por isso eu fumo, bebo e falo do que sinto. São três coisas que matam e dão prazer justamente porque é assumida minha incapacidade de viver sem apurar os passos para a morte. Você pode estar pensando que sou uma desgraça e você não errou.
Da minha cama até a porta do meu quarto tem dois passos e meio. Quando toco a porta me pergunto se realmente é necessário sair e poucas vezes saio. Saio quando tenho forças para ignorar a pergunta. As paredes do corredor me lembram um túnel ou um esgoto úmido que esta ficando cada vez menor. Eu tiro minha roupa ensopada de suor no corredor e ando mais seis metros e tomo uma ducha fria. Gosto de olhar para a água no meu corpo, por alguns minutos imagino que limpa alguma coisa por dentro também, que o que desce pelo ralo é uma sombra dos pensamentos que engoli, de sensibilidades mal resolvidas. A imaginação não pode durar para sempre e por isso o alcoolismo tem mais adeptos do que pessoas no mundo. Eu já tive dezoito anos, já tive vinte e cinco, já tive trinta e oito, já tive sessenta anos e me assustei e daí parei de contar. Já fui um jovem ambicioso com algum talento e daí chegou o mau humor e a preguiça e eu os abracei como já abracei minha mulher antes de morrer em meus delírios e nascer em vida para um mundo que não me interessava. Ela pegou a Letícia e o... o... não lembro o nome do garoto, não importa, não puxou ao pai, não será um desgraçado, não vai voltar aqui, não tenho dinheiro nem amor para dar... ela pegou a si mesma e tudo isso e se mandou. Feliz dela.
Resolvo mandar tudo isso para o inferno por algum tempo. Não há cores mais nessa casa, o pó e o lixo taparam tudo. Parece que moro em uma toca de algum animal asqueroso e devo ter essa impressão porque mora nessa casa um animal asqueroso, mas nunca é tarde para recomeçar. Coloco as calças desbotadas e a blusa amarrotada que deixo no chão quando me deito. Coloco uma meia no pé direito. Coloco o sapato direito. Olho para a meia do pé esquerdo e esta toda esburacada e suja. Usei ela para estancar um sangramento da narina esquerda noite passada, ou foi a tarde? Não importa. Pego o sapato esquerdo e o finco no pé.O amigo me bate a porta novamente._saia dessa casa homem!_eu não sei..._então apodreça ai dentro! Ele fecha a porta e a casa desaba sobre minha cabeça vazia e indiferente. Nada se perdeu essa madrugada.
r.a.
Tudo que é doce desiste de mim na primeira esquina. Sofro de uma doença que é rara entre os humanos. Uma doença que a maioria da humanidade imagina que só existe nas lendas. Essa doença é a incapacidade de abandonar a autodestruição. Se você procurar o significado da palavra autodestruição no dicionário, possivelmente se depare com a minha foto como ilustração. Eu já tentei camuflar pedidos de socorro, já tentei pedir para alguém ficar junto de mim, mas hoje compreendo claramente que isso é loucura. Até os melhores no masoquismo não se excitariam com minha companhia. Por isso eu fumo, bebo e falo do que sinto. São três coisas que matam e dão prazer justamente porque é assumida minha incapacidade de viver sem apurar os passos para a morte. Você pode estar pensando que sou uma desgraça e você não errou.
Da minha cama até a porta do meu quarto tem dois passos e meio. Quando toco a porta me pergunto se realmente é necessário sair e poucas vezes saio. Saio quando tenho forças para ignorar a pergunta. As paredes do corredor me lembram um túnel ou um esgoto úmido que esta ficando cada vez menor. Eu tiro minha roupa ensopada de suor no corredor e ando mais seis metros e tomo uma ducha fria. Gosto de olhar para a água no meu corpo, por alguns minutos imagino que limpa alguma coisa por dentro também, que o que desce pelo ralo é uma sombra dos pensamentos que engoli, de sensibilidades mal resolvidas. A imaginação não pode durar para sempre e por isso o alcoolismo tem mais adeptos do que pessoas no mundo. Eu já tive dezoito anos, já tive vinte e cinco, já tive trinta e oito, já tive sessenta anos e me assustei e daí parei de contar. Já fui um jovem ambicioso com algum talento e daí chegou o mau humor e a preguiça e eu os abracei como já abracei minha mulher antes de morrer em meus delírios e nascer em vida para um mundo que não me interessava. Ela pegou a Letícia e o... o... não lembro o nome do garoto, não importa, não puxou ao pai, não será um desgraçado, não vai voltar aqui, não tenho dinheiro nem amor para dar... ela pegou a si mesma e tudo isso e se mandou. Feliz dela.
Resolvo mandar tudo isso para o inferno por algum tempo. Não há cores mais nessa casa, o pó e o lixo taparam tudo. Parece que moro em uma toca de algum animal asqueroso e devo ter essa impressão porque mora nessa casa um animal asqueroso, mas nunca é tarde para recomeçar. Coloco as calças desbotadas e a blusa amarrotada que deixo no chão quando me deito. Coloco uma meia no pé direito. Coloco o sapato direito. Olho para a meia do pé esquerdo e esta toda esburacada e suja. Usei ela para estancar um sangramento da narina esquerda noite passada, ou foi a tarde? Não importa. Pego o sapato esquerdo e o finco no pé.O amigo me bate a porta novamente._saia dessa casa homem!_eu não sei..._então apodreça ai dentro! Ele fecha a porta e a casa desaba sobre minha cabeça vazia e indiferente. Nada se perdeu essa madrugada.
r.a.
quinta-feira, 5 de março de 2009
PERSEU
Um senhor com um chapéu preto e de aba longa, sobretudo velho e marrom, olhos escuros e óculos velhos analisa a possibilidade de atravessar uma deserta rua. Ele olha para um lado e para outro. Coça o queixo. Olha para cima. Resmunga alguma coisa e prepara-se para dar o primeiro passo na rua. Recolhe o pé e olha novamente para os dois lados. Mexe no chapéu. Procura alguma coisa nos bolsos e não encontra nada, fora um cantil cheio de whisky. Bebe até a última gota e chacoalha o cantil por alguns segundos em uma sena cômica e triste, não cai à última gota. Ele olha para um lado e para o outro da rua. Olha para dentro do cantil e mexe um pouco como se esperasse que uma gota dançasse lá dentro e sorrisse para ele. Recoloca a tampa no cantil e olha para cima. Põe o cantil no bolso interno do sobre tudo. Olha para mim por um tempo e depois vai embora.
Estou sentado no chão e escorado na parede de uma loja de tintas. Meu nome é Perseu e isso é importante para mim. Tenho passagens pela polícia por pequenos furtos, sobrevivo extorquindo prostitutas nas ruas e repassando mercadorias roubadas, drogas, cheques, só não lido com assassinatos para acerto de contas, mas se me passar uns trocados te informo quem lida com isso...
Chego em casa logo quando amanhece. Preciso de um gole de gim para acalmar os nervos e fazer as contas de quanto arrecadei essa madrugada. Na rua não há tempo para medo. Você tem de ser duro, não pode perder tempo com sentimentalismo barato, na rua não tem perdão. Tenho uma bala alojada na minha cocha e sou meio surdo de um ouvido por causa de um golpe que levei há tempos atrás. Tenho tantas cicatrizes de facas que me rasparam e quase me mandaram dessa para outra pior que se começar a contar vai faltar dedos. Mas algumas coisas eu sei que a maioria não sabe...
_sabe onde eu escondi aquele dinheiro lá Perseu que era para o aluguel?
_Não sei não Josué.
_se encontrar me devolva Perseu ou a gente vai para rua.
_onde esta indo?
_pegar uns trocados de um pó que vendi...
_mas assim, de boa?
_tem razão Perseu, tem que ser bem vivo.
Josué volta e pega o revolver que estava em cima da mesa. Coloca na parte de trás das calças e aperta a cinta. Josué também tem uma bala alojada no corpo, mas é no coração. Era um garoto sensível que morava com a mãe e o pai. Estudava em uma boa escola. Começou na faculdade. Tinha um bom emprego. Casou com uma garota maravilhosa. Construiu uma casa boa e um dia entraram na casa, estupraram e mataram sua garota grávida e roubaram tudo que ele tinha. Não preciso comentar sobre esses caras não é? Morto não se defende. Fizemos um trabalhinho nesses caras que você nem queira saber...
Tomo um gole de gim e o gole de gim me pede um cigarro. Acendo o cigarro e o cigarro me pede alguma coisa para comer. Preciso contar quanto ganhei nessa madrugada. Depois que tirar para o cigarro e o gim o que restar dá para comprar comida. Aqui a lógica é assim cara! Se você trabalha e come depois fica com fome e são. O negócio é se manter dopado que daí a fome incomoda bem menos e a vida também. A vida é uma coisa engraçada. Penso nos ricaços, eles engordam e andam de carrão por ai e nunca sentem ela. Eu passo fome, estou sempre no risco de levar um tiro e tenho tanto de vida que chega sobrar. Eu não troco essa minha vida por nada. Só espero mesmo é abrir meu próprio negocio e desbancar as bocas de fumo aqui da região. Ai terei um estoque de gim e cigarro e quem sabe posso comer um frango assado com maionese... A porta abre devagar. Um senhor com um chapéu preto e aba longa coloca a mão dentro do sobre tudo marrom. Uma pistola. Eu sabia que ele viria.
Estou sentado no chão e escorado na parede de uma loja de tintas. Meu nome é Perseu e isso é importante para mim. Tenho passagens pela polícia por pequenos furtos, sobrevivo extorquindo prostitutas nas ruas e repassando mercadorias roubadas, drogas, cheques, só não lido com assassinatos para acerto de contas, mas se me passar uns trocados te informo quem lida com isso...
Chego em casa logo quando amanhece. Preciso de um gole de gim para acalmar os nervos e fazer as contas de quanto arrecadei essa madrugada. Na rua não há tempo para medo. Você tem de ser duro, não pode perder tempo com sentimentalismo barato, na rua não tem perdão. Tenho uma bala alojada na minha cocha e sou meio surdo de um ouvido por causa de um golpe que levei há tempos atrás. Tenho tantas cicatrizes de facas que me rasparam e quase me mandaram dessa para outra pior que se começar a contar vai faltar dedos. Mas algumas coisas eu sei que a maioria não sabe...
_sabe onde eu escondi aquele dinheiro lá Perseu que era para o aluguel?
_Não sei não Josué.
_se encontrar me devolva Perseu ou a gente vai para rua.
_onde esta indo?
_pegar uns trocados de um pó que vendi...
_mas assim, de boa?
_tem razão Perseu, tem que ser bem vivo.
Josué volta e pega o revolver que estava em cima da mesa. Coloca na parte de trás das calças e aperta a cinta. Josué também tem uma bala alojada no corpo, mas é no coração. Era um garoto sensível que morava com a mãe e o pai. Estudava em uma boa escola. Começou na faculdade. Tinha um bom emprego. Casou com uma garota maravilhosa. Construiu uma casa boa e um dia entraram na casa, estupraram e mataram sua garota grávida e roubaram tudo que ele tinha. Não preciso comentar sobre esses caras não é? Morto não se defende. Fizemos um trabalhinho nesses caras que você nem queira saber...
Tomo um gole de gim e o gole de gim me pede um cigarro. Acendo o cigarro e o cigarro me pede alguma coisa para comer. Preciso contar quanto ganhei nessa madrugada. Depois que tirar para o cigarro e o gim o que restar dá para comprar comida. Aqui a lógica é assim cara! Se você trabalha e come depois fica com fome e são. O negócio é se manter dopado que daí a fome incomoda bem menos e a vida também. A vida é uma coisa engraçada. Penso nos ricaços, eles engordam e andam de carrão por ai e nunca sentem ela. Eu passo fome, estou sempre no risco de levar um tiro e tenho tanto de vida que chega sobrar. Eu não troco essa minha vida por nada. Só espero mesmo é abrir meu próprio negocio e desbancar as bocas de fumo aqui da região. Ai terei um estoque de gim e cigarro e quem sabe posso comer um frango assado com maionese... A porta abre devagar. Um senhor com um chapéu preto e aba longa coloca a mão dentro do sobre tudo marrom. Uma pistola. Eu sabia que ele viria.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
uma gota mais uma gota...
Olhei nos seus olhos e ela tinha uma carta marcada na mão
Na minha mão costumava ter marcas de facas
Eu tentei resmungar algo
Ela mexeu os lábios
Eu tive medo
Tremia...
Pensei em mim e olhei para os pés
Alguém disse que não daria certo
Eu continuava tentando resmungar
Ela tentou sorrir
Eu não sabia onde por as mãos
Ela escondeu a carta
Um músculo se moveu em algum lugar
Tem uma razão para me emprestar?
Ela tentou sorrir
Eu consegui resmungar
Vi que ambos tínhamos olhos
Eu estou perdido
A noite mentiu para nós dois
Ela deu um passo e sumiu
Tinha um espelho no chão
Não quis olhar
A arma que estava na minha mão
Agora faz parte do meu corpo
E alguém sabe
Que eu
Não tenho arma alguma
E ela mentiu o tempo todo
Alguém não notou
O sangue de meu ferimento não pude conter
E daí eu também sumi
Porque é só isso que alguém sabe fazer e eu também
r.a.
Na minha mão costumava ter marcas de facas
Eu tentei resmungar algo
Ela mexeu os lábios
Eu tive medo
Tremia...
Pensei em mim e olhei para os pés
Alguém disse que não daria certo
Eu continuava tentando resmungar
Ela tentou sorrir
Eu não sabia onde por as mãos
Ela escondeu a carta
Um músculo se moveu em algum lugar
Tem uma razão para me emprestar?
Ela tentou sorrir
Eu consegui resmungar
Vi que ambos tínhamos olhos
Eu estou perdido
A noite mentiu para nós dois
Ela deu um passo e sumiu
Tinha um espelho no chão
Não quis olhar
A arma que estava na minha mão
Agora faz parte do meu corpo
E alguém sabe
Que eu
Não tenho arma alguma
E ela mentiu o tempo todo
Alguém não notou
O sangue de meu ferimento não pude conter
E daí eu também sumi
Porque é só isso que alguém sabe fazer e eu também
r.a.
domingo, 8 de fevereiro de 2009
EMA EM
Eu sou varias coisas,
Mas o que não queria ser é
Um pedaço que você perdeu na estrada
Enquanto tudo se contorcia.
Um pouco eu fui sol
Um pouco eu fui terra
Eu fiquei ai onde você esta agora
Secando no chão quente
E ninguém mexeu comigo
Só um cachorro mijava em mim uma vez que outra
E com o tempo, nem o cachorro mais me visitou.
Se olhassem para mim saberiam que eu era uma parte sua
se olhassem...mas não.
Veio a chuva. Eu na valeta. No fundo do rio.
Ai cansei de tudo isso. Entrei no bar e tomei uma cerveja e disse:_MIMA EMA
E o cachorro voltou e mijou em mim...
r.a. (para M. Cescon)
Mas o que não queria ser é
Um pedaço que você perdeu na estrada
Enquanto tudo se contorcia.
Um pouco eu fui sol
Um pouco eu fui terra
Eu fiquei ai onde você esta agora
Secando no chão quente
E ninguém mexeu comigo
Só um cachorro mijava em mim uma vez que outra
E com o tempo, nem o cachorro mais me visitou.
Se olhassem para mim saberiam que eu era uma parte sua
se olhassem...mas não.
Veio a chuva. Eu na valeta. No fundo do rio.
Ai cansei de tudo isso. Entrei no bar e tomei uma cerveja e disse:_MIMA EMA
E o cachorro voltou e mijou em mim...
r.a. (para M. Cescon)
Assinar:
Postagens (Atom)