sábado, 21 de fevereiro de 2015

Rir de tudo é desespero ou a "comédia" dos medíocres


Aviso: Se você é fã de stand up comedy e acha isso maaaaaravilhoso, te dou duas opções antes de ler esse texto. 1- não leia, você não vai entender. 2- considere mais uma vez a primeira opção.

         Aquela música chamada “Amor pra recomeçar” do Frejat – muito bonita, por sinal. De saída, ela. “Que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero”. Sim, só essa frase é suficiente, mesmo que eu descontextualize a composição.
 Tai algo que só pode ser uma espécie de paroxismo da sociedade: respiração profunda de um coletivo agonizante! No auge da hiper-industrialização [como denominou o filósofo Stiegler], onde a metralhadora de estímulos não dá trégua para os sujeitos “sincronizados”, onde a exploração se dá justamente na libido dos seres humanos, o sucesso daqueles empresários do riso de desespero é certo.
Não tenho termo mais adequado em mãos: empresários do riso de desespero. Leu muito mal aquele que repetiu a citação: o riso é libertador (libertar-se para que e de quê?). Entendeu pior aquele que ouviu: o humor não tem limites. Nem vale a pena comentar o anônimo que gritou na multidão, entusiasmado por alguns segundos de atenção, que a gente só quer se divertir.
Em uma sociedade onde a ditadura da felicidade superficial é a onda de todos os momentos, provocar o riso a qualquer custo se tornou um negócio rentável. Por que não? Cá entre nós, não é de hoje que o lazer também já é mercadoria que corresponde às disciplinas do entretenimento. Lá vem o empresário que também leciona no seu descompromissado negócio:_ Eu vou te ensinar a rir de tudo, até onde você puder pagar.
O verdadeiro custo desta embriaguez travestida de sucesso (obviamente econômico) é a ilusão de que rindo qualquer coisa se resolve, ou melhor, se paga. A última válvula de escape aos medíocres de todo tamanho. Um manual de comédia ruim aberto até a página 2 – é que na página três havia a palavra “paroxismo”, e usar o dicionário dá trabalho! Um cinismo (no pejorativo) sem conteúdo de uma geração que perdeu todos os critérios de “gosto”. Um deboche gratuito que não é direcionado a nada, exceto a afirmação de ser ridículo – paradoxalmente como fuga de se sentir ridículo e vazio.
Feliz foi Platão que tinha Aristófanes para lhe torrar o saco. O nível intelectual dos empresários do riso de desespero é tão baixo que o máximo de uma resposta que podem formular a uma crítica não passa de:_ Você está com inveja da minha carreira bem sucedida! (Também é o mais próximo de uma frase com algum motivo para se rir com gosto).
Que seus principais nomes sejam imbecis declaradamente, só vem a somar ao reconhecimento de seu “tipo” de público. A admiração pela idiotice aguda e atenuada é o registro evidente da ausência de uma gota de consciência crítica. A incapacidade de ser algo próximo ao que se entende por comediante só é compatível ao asco que provocam em qualquer um que conseguiu desligar a t.v. no inicio de um programa de auditório. O desempenho nítido de um contrato constrangedor: Vou rir porque paguei, vou fazer rir porque recebi. (Pelo menos nos programas de auditório o público ri por piedade, porque recebeu lanche e condução).
Não há quem não tenha ouvido falar de atores miseráveis que se entusiasmaram com o “poder” do negócio todo. É quase uma equação matemática: Fracassa no teatro, cresce o olho nos empresários do riso de desespero. Agências de todas as cores – e com todas as promessas – pagam suas contas com o dinheiro dos que suspiravam mais sonhos de aplausos do que qualquer outra coisa na vida. Na miséria – principalmente intelectual – o anúncio de um atalho escorre feito mel no ouvido.
Lá vem o empresário com a boa nova: Humor politicamente incorreto. O termo diz tudo embora pouco se tenha prestado atenção – faltou aula de interpretação, quem sabe. É incorreto porque nem chega perto de ser humor e nem tem qualquer coisa de político. A terceirização dos roteiros nem chegam a garantir uma qualidade literária mínima. Ali se opera o bem conhecido gozo infantilizado de “falar mal” de uma “autoridade política” que no fundo agradece pela militância dedicada e indireta. Marketing negativo em favor da própria banalização da política – já banalizada por conta própria. Desserviço ético-social em nome de um riso desesperado e amargo. Masoquismo disseminado e bem encapado. Mas há quem encha a boca e estufe o peito para dizer:_ Tai um sujeito muuuuuuuuuito inteligente. Você acredita nisso? Esse latido de cachorro morto vende bem!
Contexto social hiper-industrializado que consome o próprio desejo de consumir até o esgotamento. Hiper-indústria que injeta o riso imediato com a premissa de que Todo mundo é banal, todo mundo é risível, todo mundo é patético, todo mundo é lamentável. Pague e ria na coleira. No esteio deste riso uma inexpressável vontade de chorar.
Agora você quer me perguntar, finalmente, o que isso tem de arte, o que isso tem de teatro? – ou apropriação de elementos teatrais?


r.A.

“Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno”.
_Antonin Artaud.

“...Acho que não!”

_eu.